07 agosto 2006




anti-corvos

numa lúgubre noite de tempestade, quando em seu palácio se desfazia de antigas laudas de uma doutrina abandonada, um homem escuta uma suave batida à sua janela.

ao atender ao chamado do que havia de ser apenas uma visita tardia e nada mais, entram em vôo lento e solene vários corvos, tão feios e escuros como emigrados das trevas infernais.

atônito fica o homem, estremecendo a cada uma das inesperadas palavras, tão exatas e cabidas, proferidas em tom ousado pelas aves agourentas:

“não é este quem confessou fazer na oposição apenas bravatas porque nada mesmo podia então executar ?”

e diz o homem: “nunca mais”.

na alma do homem cravando um olhar implacável, sem pausa nem fadiga, como profetas e demônios exclamam os corvos com horror profundo:

“não é este quem rogou a Deus que, se fosse para repetir seu antecessor, antes lhe fosse tirada a própria vida ?”

e diz o homem: “nunca mais”.

cheio de ânsia e de medo, sente o homem abrindo seu peito as garras tenazes dos corvos a libertarem a mentira e o segredo:

“não é este quem converteu toda a luminosa esperança de uma inteira nação num repugnante acordo entre financistas e famintos, entre os bancos e os grotões ?”

e diz o homem: “nunca mais”.

com medonha frieza de um demônio a sonhar, o bando de corvos se reúne como um vulto em torno do homem, até dele não restar no chão nem mesmo uma sombra, e no regresso à tormenta, onde lá estão ainda à procura de se há bálsamo no mundo, vão repetindo os corvos seus gritos fatais:

“nunca, nunca mais".

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