16 novembro 2007

a batalha do Ipea

tradicional colunista social do mercado execra o que denomina de “expurgos” no Ipea, segundo ele, um ataque a pluralidade do órgão. [1]

como se sabe, o famoso "pluralismo" do pensamento único do mercado foi inaugurado de forma categórica por Madame Thachter, na década de 80, ao decretar: “there is no alternative”.

sintomaticamente um dos "expurgados", dedicado em tempo integral a destruir o que restou da previdência pública brasileira, é também co-autor de um projeto de reforma previdenciária elaborado por encomenda de um conjunto de entidades do setor financeiro – aglutinadas na Ação Para o Desenvolvimento do Mercado de Capitais. [2]

trata-se de uma versão muito peculiar do pluralismo, desde que todos compartilhem das mesmas idéias e concepção do mundo e estejam a serviço, muito bem remunerado, dos mesmos senhores.

Pochmann e Sicsú implementam no Ipea o que Lula deveria fazer no BC: uma troca de guarda para reconduzir o Brasil ao rumo do desenvolvimento.

enquanto os fiéis defensores da democracia do pensamento único alugam os cadernos de economia da grande mídia para histericamente espernearem contra as mudanças no Ipea, uma pergunta não pode se calar:

por que o Ipea, um órgão público, deveria acobertar um emérito lobista da previdência privada, travestido de pesquisador, que nem funcionário é do Ipea, e sim do Bndes?

muito embora Pochmann já tenha trocado 5 dos 6 diretores do Ipea, não houve esta gritaria de agora. foi considerado normal. ninguém saiu se fazendo de "expurgado".

muito bem, por que?

é que agora mexeram com o lobista. e o lobby saiu em socorro dele.

agora mexeram com um dos inventores do déficit da previdência - aquele que nunca existiu, não existe e nem pode existir nos termos da Constituição de 88.

nenhum dos argumentos do lobista a favor de uma nova reforma da previdência tem sustentação técnica.

são apenas negócios. a cada vez que o governo apenas cogita uma nova reforma - e o lobby faz ecoar através da grande mídia – dispara a captação dos fundos privados de previdência.

por que o lobista não faz suas pesquisas contratado diretamente pela Febraban? porque então seria tudo muito descarado, revelando tratar-se apenas de negócios e não de produção de conhecimento.


o lobby funciona bem melhor disfarçado através da bandeira do Ipea.




[1] Guilherme de Barros, Folha de São Paulo, 15/11/2007
[2] Henrique Júdice Magalhães , “A quem serve Giambiagi?”

24 outubro 2007

concessões

enquanto a grande mídia classifica o leilão de concessão das principais rodovias do país como uma vitória pessoal da ministra-chefe da Casa Civil da Presidência, é a própria Dilma Rousseff quem revela a razão do "sucesso": "aplicar regras capitalistas no capitalismo". [1]

de fato, as empresas vencedoras apresentaram preços bem abaixo do máximo estipulado pelo governo, com a proposta da espanhola OHL, que arrematou 4 dos 5 trechos leiloados, chegando a um deságio de 65% para a BR-381 (Fernão Dias).

segundo a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência, "o governo aplicou regras de competição", e mesmo ao reduzir a taxa interna de retorno do projeto para 8,95%, ainda assim as tarifas vencedoras foram mais baixas.

Lula não pode conter seu júbilo e festejou: "pela primeira vez os pedágios ficaram mais baratos".

a questão das privatizações foi tema central no segundo turno das eleições presidenciais de 2006. encurralado pela campanha petista, Alckmin vestiu jaqueta e usou boné cobertos de logotipos das estatais ao assinar uma carta antiprivatização.

agora, segundo Lula, não se trata de privatização, e sim "concessão". por 25 anos. e sem que por ela o Estado nada receba. uma graciosa doação "não onerosa" de infraestrutura pública para ser explorada pelo capital privado internacional.

e como ironia maior, a bandeira da gestão não-ideológica, desfraldada sem sucesso pelo candidato tucano nas eleições passadas, é assumida por Dilma Roussef, já em pleno rumo da sucessão de 2010.

apesar de todos os aplausos e comemorações, ninguém no governo, ou mesmo fora dele, teve capacidade de explicar quais as justificativas técnicas e políticas para se privatizar, enquanto se prossegue transferindo cerca de 7% do PIB como juros da dívida pública interna aos setores rentistas.

logo nos primeiros dias subseqüentes ao leilão, as verdadeiras razões do "sucesso" das privatizações vieram a público:

- o BNDES financiará 70% do valor a ser investido nas rodovias;

- para estimular a internacionalização das empresas, o governo da Espanha concede incentivos e benefícios que podem alcançar 25% do total do investimento.

com tamanha felicidade em seus negócios com o governo brasileiro, os empresários espanhóis não podem deixar de se conceder um esfuziante entusiasmo:


"O Brasil é um país fantástico, com bancos fantásticos, empresários fantásticos. E teve o privilégio de contar com dois presidentes fantásticos: Fernando Henrique Cardoso e Lula, que é uma figura sensacional." [2]



[1] Dilma Roussef, entrevista à revista "Época", 10/2007
[2] Emilio Botín, presidente mundial do banco Santander, 23/10/2007

07 outubro 2007

tropa de elite

“na cara não... na cara não... prá não estragar o velório.”

caído no chão, já desarmado e ferido, o traficante suplica. mas não implora pela vida. só pede para não tomar um tiro no rosto, que não lhe prejudiquem o velório...

o sucessor do Capitão Nascimento aponta a arma. no contra-plano, encara a platéia, que passa a ocupar o lugar de quem vai ser executado. com o dedo no gatilho, parece titubear por um momento. por detrás dele, a luz do sol invade a cena e explode a imagem no instante do disparo.

numa época de total crise de valores de uma sociedade dominada pela hipocrisia e o cinismo, o filme “Tropa de Elite” cria um herói.

onde tudo tem um preço e todos se vendem, o personagem do capitão do BOPE não compactua com o tráfico e muito menos com a corrupção da própria polícia.

pesquisa do Datafolha indica que 19% dos paulistanos já viram o filme antes da estréia, sendo que 80% destes classificam “Tropa de Elite” como ótimo ou bom. estimativa do diretor calcula que mais de 5 milhões de pessoas, em São Paulo e no Rio, já assistiram ao filme em cópias piratas, sem nenhum investimento de marketing, numa fenomenal demanda espontânea.

por quê as camadas populares estão aplaudindo o filme?

por quê o Capitão Nascimento é um justiceiro? o Salvador, acima de tudo e de todos, que encarna em si a Lei.

ou apenas alguém que, finalmente, assume valores que pareciam perdidos para sempre? um homem comum, com toda a fraqueza de suas certezas, perdido no meio de uma guerra suja, instado a tomar decisões e agir, sem nunca desobedecer sua própria consciência.

num tempo de líderes traidores e de tantos anti-heróis, o Capitão Nascimento jamais abre mão de seus princípios: jurou fazer o bem, nem que seja à força. é tão forte seu compromisso com o bem, que ele não pode deixar de fazê-lo, nem que seja pelo mal...

missão dada é missão cumprida.

como fenômeno de massas, o surgimento de um personagem como o Capitão Nascimento é um sintoma importante. uma reação extremada a uma época em que a perda de referências chegou ao extremo.

é possível se fazer o bem à força? certamente que não!

o Capitão Nascimento sente remorso. tem consciência que está errado. dispensa os que não concordam em prosseguir na caçada de vingança ao traficante.

mas, por outro lado, é possível se fazer o bem quando se é fraco?

assim como todos são contra a criminalidade e pela paz, se mantém incessante o movimento nas bocas-de-fumo. as mesmas ONGs que trabalham pela consciência social nas favelas, também selam acordos de coexistência “mais do que pacífica” com os traficantes. políticas de redução de danos se recusam a combater as causas do vício e perenizam a dependência dos viciados. chefes do tráfico são tratados como magnânimos patronos beneméritos pelos moradores das “comunidades’.

como se tornar forte? quem está disposto a ir até o fim com os seus princípios? qual é esta força que nos torna invencíveis para jamais trairmos nossos valores?

a ascensão irresistível de um símbolo é sempre claro indicativo de mudanças sociais. a espontânea adoção do Capitão Nascimento como herói popular é indício que a sociedade brasileira começou a subida do fundo do poço.

revela movimento e saída da estagnação. busca de valores pelos quais há um alto preço a se pagar, às vezes com a própria vida, e não mais a conveniente malandragem de se “levar vantagem em tudo”. busca de soluções, mesmo a qualquer preço, ao invés do plácido conformismo do “não tem mais jeito”.

o Capitão Nascimento é um líder autêntico. sabe que não pode se perpetuar na liderança. sabe que ninguém fica incólume muito tempo na linha de frente. prepara seu substituto. alguém digno para sucedê-lo e liderar a equipe. seu sucessor é também o passo a frente no processo. caberá a ele questionar os métodos de Nascimento.

terá a força necessária para fazê-lo? como se tornar forte?

na cena final do filme, um rito de passagem, o substituto do Capitão Nascimento atira contra a platéia. a luz do sol invade a cena, explodindo a imagem no instante do disparo. a tela fica branca. plena de luz.

embora a narrativa nos induza a crer que o traficante acaba executado, a rigor não se pode ter certeza disto. não se vê esta imagem. não se sabe ao certo o que acontece. apenas se imagina.

só há uma única certeza: quem leva o tiro na cara é a platéia.

25 setembro 2007

o pátio dos milagres

enfim reconciliados, o governo Lula e a grande mídia celebram as últimas façanhas da política econômica: crescimento de 5,4% no PIB, com cerca de seis milhões de pessoas saindo da faixa da miséria.

consuma-se o milagre longamente anunciado.

do pacto perverso entre o Bolsa Família e a Selic Banqueiro é gerada a redenção dos miseráveis.

através dos juros do endividamento consignado em folha, com risco zero para os credores, as camadas populares são conduzidas, em longas prestações, ao paraíso do consumo.

pela obra e graça do aumento do salário mínimo se faz a multiplicação da renda a remissão da desigualdade.

parece se confirmar a santidade de uma política econômica capaz de fazer nascer, da estéril combinação de alta taxa de juros e câmbio apreciado, a milagrosa luz do desenvolvimento.

entretanto, de uma análise com mais profundidade dos números das pesquisas recentes sobre o desempenho da economia
[1] a única luz que emerge é a luz do abismo.

o crescimento do PIB está se desacelerando: de 2,8% de expansão no terceiro trimestre do ano passado em relação ao trimestre anterior, caiu para 1% no trimestre seguinte, para 0,9% no primeiro trimestre deste ano e para apenas 0,8 % agora. [2]

e continua bem menor do que os índices da China (11,9%), Índia (9,3%), Rússia (7,8%), Venezuela (8,9%) ou Coréia do Sul (6,7%).
[3]

no cálculo de redução das desigualdades não entram os ganhos de juros. os salários tiveram uma redução relevante na participação no PIB. dentro dessa redução, houve redução nas desigualdades. os juros tiraram cada vez mais recursos da economia. quem arcou com a conta foram os que pagam impostos, basicamente classe média assalariada (através do Imposto de Renda) e consumidores em geral (através dos impostos indiretos). a classe média perdeu renda; as classes D e E ganharam. houve redução na desigualdade apenas nesse universo que perdeu espaço na economia.
[4]

a renda domiciliar per capita para definir um pobre na metrópole paulista seria aquela inferior a R$ 250 por mês (a renda total de um domicílio dividida pelo número de moradores). a do miserável seria inferior a R$ 125 mensais. ao se considerar a pobreza absoluta, os que estão abaixo da média nacional, no Brasil de 2006, a renda de 70% a 80% das pessoas não passava dessa média.
[5]

a distribuição de renda que está em curso é intrasalarial. a riqueza está se concentrando, ou seja, os ricos estão mais ricos. a melhora na distribuição pessoal da renda (que exclui juros e lucros) vem acompanhada da piora da distribuição funcional, que coloca de um lado os salários e, de outro, juros e lucros. uma coisa é a distribuição de renda entre trabalhadores, outra entre eles e os capitalistas. se o Brasil estivesse melhorando, o Bolsa Família estaria diminuindo, porque as pessoas sairiam à medida em que tivessem trabalho e renda própria.
[6]

o extrato mais pobre da sociedade está todo pendurado em políticas de exceção, e a tarefa do Estado consiste nisso. não se pretende diminuir a desigualdade, eliminar a pobreza. quem é beneficiado pelo Bolsa Família não muda de classe social. programas como esse apenas contemplam os gastos mínimos de sobrevivência.
[7]

no pátio dos milagres do governo Lula cada dádiva é sempre um embuste.




[1] IBGE e FGV
[2] Bernardo Kucinski,, “O crescimento do PIB: A conspiração triunfalista”
[3] Paulo Passarinho, “A economia brasileira se recupera?”
[4] Márcio Pochman, citado por Luis Nassif em “O PNAD e os juros”
[5] Vinicius Torres Freire, “O que é um miserável?”
[6] Reinaldo Gonçalves, entrevista ao Jornal do Commercio
[7] Francisco de Oliveira, entrevista ao Brasil de Fato

20 setembro 2007

os miseráveis

no pátio dos milagres do governo Lula, milagres que não se realizam, a panacéia com maior louvação tem sido o Bolsa Família.

para seus devotos, o Bolsa Família possuiria o milagroso poder de promover inclusão social.

como programa compensatório, nos moldes recomendados pelo FMI e o Banco Mundial, o Bolsa Família é o atestado de falência de uma política econômica que produz desigualdade em abundância e faz prosperar a miséria avassaladora.

na imundície do pátio dá prá ver muitos bichos. catam comida entre os detritos. não examinam nem cheiram, apenas engolem com voracidade. não são cães. não são gatos. não são ratos. os bichos, meu deus, são homens... [1]

apesar de sua guerra sem tréguas contra Lula, a grande mídia deu tratamento bastante favorável à divulgação de pesquisas recentes sobre o desempenho da economia. [2] crescimento do PIB (5,4%) puxado pela indústria (6,8%), expansão de 5,7% no consumo das famílias e "6 milhões saíram da faixa da miséria".

foi como se no pátio dos milagres todos os sinos repicassem. desvalidos, mutilados, estropiados enfim ungidos com a graça.

qual este improvável mistério glorioso de uma elite fanatizada numa cruzada para lançar Lula na fogueira dos hereges, enquanto entoa cânticos à política econômica do governo?

as pesquisas apontam que o crescimento do consumo das famílias se deu em ritmo superior ao crescimento da massa salarial, indicando como são mecanismos de crédito que sustentam esse incremento. numa clara demonstração de como tem funcionado a expansão daquilo que alguns já denominam de economia do endividamento. o aumento em 26,5% do saldo das operações de empréstimos a pessoas físicas se reflete nos extraordinários resultados dos balanços dos bancos, com as receitas de crédito embaladas pela consignação em folha. [3]

quando o paralítico atira para longe as muletas, o coxo se endireita sobre os pés e o cego encara com olhos que resplandecem, não há dúvidas de se estar no Pátio dos Milagres [4], onde cada dádiva é sempre um embuste.




[1] Manuel Bandeira, “O Bicho”
[2] IBGE e FGV
[3] Paulo Passarinho, “A economia brasileira se recupera?”

[4] Victor Hugo, “Notre Dame de Paris"

11 setembro 2007

paulicéia ltda.

tão bem organizados vivem e prosperam os Paulistas na mais perfeita ordem e progresso.

esses heróicos sucessores da raça dos bandeirantes são a única gente útil do país, e por isso chamados de Locomotivas.

a cidade é belíssima, e grato o seu convívio. oh! este orgulho máximo de ser paulistanamente!!! [1]

para celebrar seu esplendor hipócrita, São Paulo cunhou uma sucessão viciosa de lendas e de mitos, como um cortejo triunfante de vencedores que se recusa a pagar qualquer tributo à virtude dos fatos históricos.

ah! tudo começa com o largo coro de ouro das sacas de café... [2]

mas por acaso o café floresceu de si próprio?

como capital faz capital antes de ser capital? pela acumulação primitiva: de um lado o Rio, com o comércio de escravos, de outro as fontes fiscais, drenando recursos das províncias superavitárias - Bahia, Pernambuco e Minas - para a deficitária - São Paulo. [3]

os Barões do Café jamais se metamorfosearam em Capitães de Indústria. o capital industrial brasileiro não surge num momento de crise do complexo cafeeiro exportador. ao contrário, desponta num instante de auge, em que a taxa de rentabilidade ainda alcançava níveis elevadíssimos. [4]

os vultosos excedentes líquidos foram desviados para o financiamento da indústria por meio dos bancos, que cumpriram o papel de transmissão entre a acumulação originária de capital na cafeicultura e a acumulação propriamente capitalista na indústria. [5]

o núcleo inicial da burguesia industrial brasileira encontra suas origens na emigração européia. [6] entretanto, ao contrário do mito do self-made man, de origem modesta e que constitui fortuna graças ao trabalho árduo e persistente, o imigrante que vem a se tornar proprietário de empresas no Brasil aqui já chega com alguma forma de capital. [7]

para a burguesia industrial nascente, a base de apoio para o início da acumulação não é a pequena empresa industrial, mas o grande comércio ligado às atividades de importação e exportação. do mesmo modo que a exportação, a importação é dominada em grande parte por empresas estrangeiras. por sua vez, o comércio interno é controlado pelos importadores. graças a sua origem social, o burguês imigrante encontra facilmente um lugar no grande comércio. [8]

desse modo, o latifúndio exportador, a importação, o grande comércio e a burguesia imigrante, que vem a ser o núcleo da burguesia industrial nascente, estão todos intimamente conectados – fazendo com que, desde os primórdios, a burguesia brasileira nunca tenha se distinguido pelo caráter “nacional”.

ainda na República Velha, as divisas empregadas na sustentação do preço do café no mercado internacional já superavam as receitas com as exportações. [9] o subsídio estatal ao café não apenas dificultou a acumulação de capital em outros setores como circunscreveu a concorrência, impedindo a expansão de outros segmentos.

muito embora o grande salto na industrialização brasileira tenha se dado com Getúlio, a partir de 1930, não há em São Paulo uma rua sequer, uma estrada, um monumento, uma praça de periferia que preste homenagem a Vargas. [10]

já para os Bandeirantes, aqueles bravos empreendedores privados tão eficientes em sua caça às esmeraldas para exterminar índios e escravos foragidos, São Paulo ergueu não só um monumento como em denominação deles reservou o próprio palácio do governo estadual. Borba Gato ganhou uma enorme estátua. e Raposo Tavares – que de suas marchas pelo sertão retornava com caixotes repletos com milhares de orelhas salgadas das vítimas de suas matanças - tem uma rodovia inteira.

São Paulo tem sido fiel guardião da supremacia natural do liberalismo, sem que admita sequer compensações sociais bancadas pelo Estado (ou seja, pelo contribuinte) [11] - como se o mercado fosse bom também para produzir valores, e não apenas lucros. [12]

enquanto execra o Bolsa Família, que corresponde a uma ínfima fração (0,4% do PIB) da despesa com os juros com a dívida interna (cerca de 7% do PIB), São Paulo abriga a sede de 12 dos 15 maiores bancos brasileiros. [13]

a capital brasileira do capital, em seus delírios de grandeza, nunca deixou de sonhar com a secessão, pois ao se ver como dínamo econômico que não pode parar e funciona por si próprio, São Paulo julga prescindir do Estado, entendendo-se na condição de locomotiva arrastando uma composição de vagões vazios.

sob a sombra da bandeira desfraldada do estado mínimo, São Paulo discretamente se apraz com as desonerações tributárias, os créditos oficiais subsidiados e as renúncias fiscais.

e sua auto-imagem de próspera ilha de capitalismo num país fadado ao atraso, por absoluta falta de vocação para o trabalho e sem nenhuma propensão a poupar, nada mais é que o reflexo da face nua do isolamento de São Paulo, sua incapacidade em compreender a diversidade regional brasileira e um dos motivos da impossibilidade de produção cultural paulista com âmbito nacional.


Paulicéia Ltda. nada tem contra o apoio recebido por Lula nos Estados nordestinos, já que neles se encontra a maioria dos eleitores devidamente subornados pelo Bolsa Família, mas, a bem da Nação, propõe que o presidente faça para o Nordeste uma longa viagem, com passagem só de ida. [14]

sem jamais lograr um consenso sobre juros e câmbio, São Paulo firmou consigo mesma um pacto tácito contra a carga tributária. [15] contudo, da arrecadação com impostos, apenas 33% são oriundos de receitas, enquanto 67% provêm das contribuições, caracterizando um sistema fiscal socialmente injusto e altamente concentrador de renda.

matriz do cansaço de uma burguesia sem ousadia, para a qual a miséria sempre foi pesadelo e nunca desafio, São Paulo é um palco de bailados, onde sapateiam as apoteoses da ilusão... [16]




[1] Mário de Andrade, "Macunaíma" e "Paulicéia desvairada"
[2] Mário de Andrade, "Paisagem nO 2"
[3] Francisco de Oliveira, "A hegemonia inacabada"
[4] João Manuel Cardoso de Mello, "O capitalismo tardio"
[5] Jacob Gorender, "A burguesia brasileira"
[6] Luiz Carlos Bresser-Pereira, "Origens étnicas e sociais do empresário paulista"
[7] Warren Dean, "A industrialização de São Paulo"
[8] Sérgio Silva, "Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil"
[9] Wilson Suzigan e Annibal Villanova Villela, "Política de governo e crescimento da
economia brasileira (1889-1945)"
[10] Cristóvão Feil, no blog “Diário Gauche”, www.diariogauche.blogspot.com
[11] Otavio Frias Filho, “Suspense”
[12] FHC, em matéria de João Moreira Salles, revista Piauí, 08/2007
[13] Jorge Alano, “Economia e política no processo de financeirização do Brasil”
[14] João Mellão Neto, “Os perigos da incomPeTência”, 03/08/2007
[15] vide Luis Nassif, “Dos consensos limitados”, 10/09/2007
[16] Mário de Andrade, "Paisagem nO 2"

25 agosto 2007

ficções do futuro

antecipar o futuro com o olhar do presente provoca distorções de perspectiva.

lançado em 1968, o clássico de ficção-científica "2001: Uma odisséia no espaço" descrevia um futuro de viagens espaciais.

a previsão não se cumpriu. no presente, muito além de 2001, mal se mantém uma estação orbital e naves interplanetárias tripuladas estão fora da agenda.

muito embora tenha sido uma decisiva batalha da Guerra Fria, a corrida espacial também esteve envolta num fantástico glamour. o fascínio da última fronteira, o caminho das estrelas, onde nenhum homem jamais pisou. [1]

tanto charme e sedução mascaram que a conquista do espaço nunca deixou de ser também um projeto expansionista. lançar-se por mares nunca antes navegados, nas grandes navegações pelo cosmos, em busca de novos mundos, para colonizar as terras desbravadas e explorar-lhes os recursos.

em 1968, no auge do programa espacial dos EUA, no limiar de num pequeno passo se dar um grande salto para a humanidade [2] - ao menos conforme a propaganda da época - era então previsível que o futuro de "2001" se apresentasse como o desenvolvimento das viagens espaciais.

nada há no filme, entretanto, que evoque o uso pessoal de computadores em miniatura e sua interligação numa rede planetária, a Internet.

na época da cibernética, em que existiam apenas os pesados e gigantescos mainframes, HAL, o computador a bordo de sua própria odisséia no espaço, era anunciado como o futuro da informática. sendo assim sintomático, como a IBM resistiu o quanto pode na preservação de seus domínios contra a invasão alienígena dos microcomputadores domésticos.

o futuro elaborado pelo presente releva muito mais acerca do presente, ele mesmo, que de um futuro supostamente provável.

qual então a trama futura tecida pela web, em sua teia de interconexões globais e instantâneas? qual futuro será a imagem e semelhança de nosso presente?

o drama de consciência do cérebro-eletrônico de "2001" já preconizava o advento da era das máquinas espirituais. o trans-humano cyborg gerado pelo salto quântico tecno-científico, produzindo de si a singularidade tecnológica. [3]

no justo agora, o delírio em rede de um amanhã não biológico, povoado por entidades imortais navegando sem limites na realidade virtual. um bravo novo mundo em que habitam seres intangíveis, codificados binariamente, sem mais qualquer resíduo físico. um neo-humano software concebido pela inteligência artificial.

a pós-sociedade em que todas as necessidades básicas da existência foram equalizadas, a partir de uma contínua expansão econômica baseada no avanço da computação, a qual, com sua progressiva queda de custos, gerou um ciclo virtuoso propagado para todos os setores da economia, incrementando mais e mais a produtividade, até liberar totalmente a humanidade de seus laços com a produção. [4]

o passado da corrida espacial de 1968, projetado na odisséia de "2001", não chegou a se confirmar ao alcançar o cotidiano presente do ano de 2001, posto que nada mais era que uma ficção de futuro, criada por aspirações e interesses do passado.

do mesmo modo, é bem possível jamais se concretizar o idílico upload da mente pós-humana numa paradisíaca realidade virtual concebida pela tecno-ciência.

o futuro nunca se dá com a simplicidade de um puro continuar do presente. pois o tempo da história não se realiza linearmente. sempre há desvios inesperados. surpreendentes saltos e rupturas. marcha e contra-marcha exasperantes.

o futuro não é o desdobramento do que já existe. o futuro é o que nunca houve.

apesar de situar a narrativa de seu filme no espaço, Kubrick teve como objetivo abordar a evolução do homem, o futuro da espécie, sugerindo o nascimento do neo-humano.

frente à evidência que a civilização criada pela Revolução Industrial aponta de forma inexorável para catástrofes, por concentrar riqueza em beneficio de uma minoria, cujo estilo de vida implica no esgotamento de recursos não-renováveis, enquanto a grande maioria é submetida à exclusão, o desafio que se coloca no umbral do século XXI é nada menos que mudar o curso desta civilização, deslocar seu eixo dos meios a serviço da acumulação, num curto horizonte de tempo, para uma lógica dos fins em função do bem-estar social, do exercício da liberdade e da cooperação entre os povos. [5]

mergulhados no fundo deste impasse, em busca da luz do abismo, ainda há motivos para se ter esperanças no futuro da humanidade?

talvez sim. porque o futuro é o que nunca houve. e nunca houve, nunca houve a humanidade. só agora ela está surgindo. o que estamos fazendo, no presente, são os ensaios desta futura humanidade. [6]




[1] Star Trek
[2] Neil Armstrong, ao pisar em solo lunar em 20/07/1969, 23:56 h
[3] surgimento de seres mais inteligentes que o homem capazes de acelerar o progresso tecnológico além da capacidade humana
[4] Raymond Kurzweil, "The Age of Spiritual Machines: Timeline"
[5] Celso Furtado, "Nova concepção de desenvolvimento"
[6] Mílton Santos, "Encontro com Milton Santos", filme de Silvio Tendler

21 agosto 2007

mutação

em 1336, Francesco Petrarca subiu o monte Ventoux. sua intenção era apenas admirar a vista. depois escreveu uma carta relatando a experiência. ali começava o Renascimento.

um homem sobe uma montanha e muda o mundo?

o que viu Petrarca do alto da montanha? os mares, os rios, o percurso dos astros? homens que contemplam a natureza, mas não se preocupam com eles mesmos? [1]

ao subir a montanha, envolto numa época de transição, Petrarca mergulha dentro de si. ao redor dele, a idade das trevas se dissipava. e, no horizonte, a ascensão das luzes parecia vir para iluminar o renascimento dos tempos.

Deus começava a morrer. o homem se colocaria no centro do universo. clero e nobreza sucumbiriam ao charme discreto da burguesia.

como captar a silenciosa movimentação social que marca a chegada do novo? qual o exato início da mudança?

o que hoje se detecta de alto a baixo, e por toda parte? a promessa iluminista não se cumpriu. redundou em desigualdade abundante, na qual prospera a miséria avassaladora. o critério da máxima racionalidade reduziu o homem ao seu valor de matéria-prima [2], cada vez mais e mais supérflua.

no circuito integrado e volátil das operações instantâneas em mercados apátridas, nação, trabalho e trabalhador estão obsoletos. o lucro prescinde da produção e do consumo. a sociedade inteira foi aprisionada num processo autofágico, uma espécie de buraco negro, em que tudo e todos estão submetidos à voracidade ilimitada do capital pós-financeiro.

robótica, nanotecnologia e engenharia genética engendram um futuro que já não precisa de nós, humanos. [3] confinados nos guetos, refugiados em nossa própria terra, sem nacionalidade, renegados, parias, filhos bastardos do apartheid, fornecedores de órgãos, fonte descartável de energia, cobaias, clones...

eis o homem. eis a obra capital do seu trabalho.

quando os coveiros enterraram Deus, eles mesmos já exalavam cheiro de putrefação. Deus continua morto, e aqueles que o mataram, assassinos entre assassinos, sem que ninguém os venha consolar, também eles estão agora à beira de sua própria cova... [4]

no intenso fulgor do meio dia se distingue também o suave traço de luz que prenuncia o crepúsculo. o inexorável desaparecer, como, na orla do mar, o desvanescer de um rosto de areia. [5]

eis o homem. que obra-prima é o homem! entretanto, o homem não passa da quintessência do pó. [6] a grandeza do homem é ser ele uma ponte, e não uma meta; o que se pode amar no homem é ser ele uma transição e um ocaso. [7]

estamos num ponto excepcional da história. há no mundo um número de pessoas vivas superior ao número de todas quantas viveram e morreram em todas as épocas precedentes. agora os mortos são minoria. [8] os vivos já não mais serão governados pelos mortos... [9] quando a experiência corrente excede a passada, a situação se reverte: a novidade e a mudança reinam supremas.

ao se examinar as fases principais do desenvolvimento humano, verifica-se uma brutal aceleração do tempo evolucionário. dois bilhões de anos para a vida, seis milhões de anos para o hominídeo, uns cem mil anos para a espécie humana, como a conhecemos. quando chegamos à agricultura, revolução científica e revolução industrial, estamos falando de dez mil anos, quatrocentos anos e uns cento e cinqüenta anos, respectivamente. identificamos períodos cada vez mais rápidos e curtos. isto significa que ao passarmos por uma nova evolução, ela estará tão acelerada a ponto que a veremos se manifestar dentro de nosso tempo de vida, dentro de uma mesma geração. [10]

eis o homem. eis a obra capital do seu trabalho.

com a ciência e a tecnologia convertidas em força produtiva, a produção de mercadorias é feita por meio de mercadorias. o circuito mercantil reorganiza a sua imagem e semelhança, pela primeira vez na história humana, toda a vida social. tudo o que é sólido se desmancha no ar. o capital ampliou suas possibilidades de acumulação numa forma na qual ele nunca deixa de existir como riqueza abstrata.

o capitalismo venceu. talvez, agora, possa perder. é preciso que o antigo atinja a sua forma mais plena, que é também a mais simples e mais essencial, abandonando as mediações de que necessitou para desenvolver-se. o momento do auge de um sistema, quando suas potencialidades desabrocham plenamente, é o momento que antecede seu esgotamento e sua superação. [11]

ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, a acumulação de capital não mais poderá ser o eixo em torno do qual a vida social se organiza. a humanidade, para sobreviver, precisa finalmente assumir o comando de sua própria história. esse passo pressupõe que o princípio organizador da vida social deixe de ser a acumulação de capital e a forma-mercadoria. é este o desafio que está posto para nós neste século. ainda não sabemos como resolvê-lo. [12]




[1] Petrarca citando Santo Agostinho, “Confissões”
[2] Heiner Müller
[3] Bill Joy, “Why the future doesn’t need us”

[4] Nietzsche, “A Gaia Ciência”
[5] Michel Foucault, “As palavras e as coisas”
[6] Shakespeare , “Hamlet”
[7] Nietzsche, “Assim falou Zaratustra”
[8] Robin Robertson, "Uma interpretação junguiana do apocalipse”
[9] Augusto Comte
[10] Eamonn Healy, no filme “Waking life”, de Richard Linklater
[11] César Benjamin , “Caminhos da transformação (uma abordagem teórica)”
[12] César Benjamin , “Caminhos da transformação (uma abordagem teórica)”

18 agosto 2007

pacto diabólico

o príncipe está nu.

como já fizera com o sapo operário, pego no contrapé de um entreato, João Moreira Salles agora desnuda FHC, expondo que também o príncipe não consegue se livrar do ranço batráquio. [1]

na constatação de sua própria neta, são barbaridades o que gorgeia o andarilho sabiá. [2]

talvez os ventos primaveris de Brasília tenham lhe virado ao contrário não somente os cabelos, como também todas as idéias...


confortavelmente entregue a uma lassidão evocada por um voluntário e bem remunerado exílio mental, não só das palmeiras de sua terra, como de si mesmo e de seu passado, a FHC já não mais se lhe importam as glórias, tão somente o dinheiro.

se para FHC o Brasil não tem nada e ser brasileiro é assim quase uma obrigação, então é como o sabiá perversamente invertendo o sentido dos versos de Gonçalves Dias, apenas a cantar o desânimo e a mediocridade de várzeas sem flores, bosques sem vida, vidas sem amores... a Deus pedindo não permitir que vivo volte para cá.

com nosso céu sem mais estrelas, mas com seu book full of stars, no Google, FHC recebe um dinheirão para fazer algo fácil e de seu inteiro gosto: falar de si mesmo. não é sem razão que a lucidez se tornou um estorvo. cavaleiro da ordem de Bath, tampouco lhe agrada ficar sofrendo no meio do povo, à toa...

embora estude a questão do desenvolvimento há cinqüenta anos, FHC não se pautou em seu governo pelo que agora, em sua risonha decadência, não se esquiva em admitir: mercado é bom para produzir lucros, não valores.

curiosamente foi de FHC a análise afirmando que o empresariado brasileiro sempre preferiu se acomodar na condição de sócio-menor do capitalismo internacional, voltando às costas à aliança com as classes populares e ao compromisso com o desenvolvimento nacional. [3]

mais tarde, FHC formulou uma teoria que postulava o desenvolvimento através de recursos externos. [4] como seria confirmado em seus dois mandatos de presidente, por tal teoria a dependência se torna eterna, sujeitando o país a manter-se para sempre ajoelhado frente ao capital financeiro internacionalizado.

enquanto vê em Lula um Macunaíma, FHC confessa se identificar muito com Picasso.

Lula e FHC sofrem do mesmo mal: paixão incontida por si próprio. não toleram concorrência no que tange a hipertrofia do ego.

FHC sente saudade dos tempos em que era Presidente da República, porque andava de helicóptero. Lula mandou comprar um avião novinho só prá ele. FHC não resiste a uma “buchada de bode”, desde que servida num restaurante em Paris. Lula, que já confessou sentir verdadeiro horror ao macacão de operário, é alérgico ao suor de seu rosto, quanto mais a ganhar o pão com dito cujo. ao chegar a Presidência FHC declarou que esquecessem o que escrevera. Lula se orgulha de que, para ser Presidente, não foi preciso ler até o final um único livro.

FHC já admitiu publicamente que queria ser igual ao Lula da época em que este era líder das greves contra a ditadura. o desejo inconfessável de Lula é um dia receber da elite o mesmo tratamento conferido a FHC: um igual entre iguais. [5]

a combinação das virtudes de FHC e Lula formaria o estadista capaz de colocar o país nos rumos do desenvolvimento. como em sua relação atormentada preferem privilegiar os defeitos, se tornaram cúmplices em um do mais bem sucedidos fracassos de nossa História: nunca foi tão grande a distância entre o que somos e o que poderíamos ser. [6]

tanto FHC quanto Lula pertencem a uma geração que teve a ambição de mudar a história. ao chegarem ao poder, constataram que as possibilidades de transformação eram limitadas. não foram capazes de propor alternativa. ou não quiseram fazê-lo...

não pelos anos que se já passaram, mas pela astúcia que tem certas coisas passadas, [7] é como se, em algum momento, tivessem os dois, FHC e Lula, vendido a alma ao diabo, sem que, mesmo respeitando o negócio firmado, possam eles, porém, jamais vir a saber, com certeza, se o diabo lhes aceitou ou não a compra... [8]



[1] João Moreira Salles, “Entreatos”, documentário de 2003 sobre Lula, e “O andarilho”, matéria sobre FHC, revista Piauí, 08/2007
[2] FHC, "Vou fazer uma proposta um pouco estranha: vamos mudar o bico do tucano e botar um bico de sabiá, porque o que nós precisamos é cantar nossos feitos", 14/08/2007
[3] FHC, "Empresariado industrial e desenvolvimento econômico"
[4] FHC e Enzo Faletto, "Dependência e subdesenvolvimento na América Latina"
[5] arkx, “desconstruindo Lula (2)”
[6] Celso Furtado, “A busca de novo horizonte utópico”
[7] Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”
[8] ver César Benjamin, “O enigma Lula: Fausto, Maquiavel ou Riobaldo”

07 agosto 2007

finge que funciona

em janeiro de 2005, o então prefeito de SP, José Serra, passou por uma situação constrangedora na inauguração de um posto de saúde.

na frente dos repórteres, após duas enfermeiras e a própria secretária municipal da Saúde não conseguirem - em sete minutos de tentativa - medir sua pressão arterial, devido a defeito no equipamento, Serra discretamente sussurrou:

"Finge que funciona..."

muitas vezes, não é necessário mais que breve murmúrio para a alma de um homem lhe escapar pelos lábios...

apenas três dias após o fim da greve do Metrô de São Paulo, o atual governador do Estado, José Serra, demite 61 funcionários da companhia.

em relação às empreiteiras da tragédia da cratera do Metrô de São Paulo, acidente ocorrido em 12/01/2007, Serra ainda não foi capaz de emitir um pio sequer...

tido por muitos como o político mais preparado do país para assumir a Presidência da República, Serra se limita a reproduzir a tradicional postura do homem público brasileiro: forte com os de baixo. enquanto mansamente rasteja solícito e submisso aos poderosos.

nada como um cargo executivo para que as máscaras caiam por terra.

Serra jamais escondeu que seu grande sonho na política é se tornar presidente do Brasil.

quem ainda precisará de Serra quando ele estiver com 68 anos? terá ele ainda alguma importância em 2010? talvez possa trocar uma lâmpada. ou cuidar do jardim. quem sabe levar os bisnetos prá passear... [1]

os industriais paulistas sempre se opuseram encarniçadamente aos direitos dos trabalhadores. repudiaram as primeiras leis promulgadas classificando-as como um "ensaio de socialismo de estado" no Brasil. entretanto, quando Getúlio consolidou a legislação trabalhista o que se deu, como resultado, foi um tremendo impulso ao crescimento da economia brasileira.

em 1927, publicação do Centro dos Industriais de Fiação e Tecelagem de São Paulo contestava a Lei de Férias, então de apenas 15 dias e promulgada em 24/12/1925, nos seguintes termos:

"o operário é um trabalhador braçal, cujo cérebro não despende energias. assim, é ilógico que o trabalhador braçal necessite de um período de descanso, pois nada, ou quase nada, pede ao cérebro – a não ser os atos habituais e puramente animais da vida vegetativa."

"o período de férias representa um perigo eminente para o homem afeito ao trabalho. nos lazeres e no ócio o trabalhador encontra seduções extremamente perigosas, se não tiver suficiente elevação moral para dominar os instintos subalternos que dormem em todo ser humano."

"o homem do povo não teve suas faculdades morais e intelectuais afinadas pela educação e pelo meio. sua vida física, puramente animal, supera em muito a vida psíquica. o que fará um trabalhador braçal durante o período de férias, se for compelido por uma lei? como não tem o culto do lar, procurará matar suas longas horas de inação nas ruas."

"o trabalhador é, pois, um elemento da coletividade que as férias estragarão." [2]

é muito bonito se falar na necessidade de um projeto para o país, mas a coisa começa a pegar quando se deve definir qual o papel dos trabalhadores neste projeto.

é muito cômodo propor um mercado regulado, e não aceitar que a única força capaz de regular o mercado são os trabalhadores, o trabalho.

sem direito de greve não há democracia.

o direito de greve no Brasil é um tabu porque nunca se criou aqui um mercado de massas. para se ter um mercado de massas é necessário uma população com poder aquisitivo. aqui se produz, aqui se vende, também. quem irá comprar com salários aviltados?

ocorre que todo o nosso modelo econômico, desde os tempos da colonização, sempre foi voltado para fora, dirigido de fora, para atender interesses de fora.

nunca houve qualquer motivo para se criar um mercado de massas. portanto, quanto menor o salário melhor. quanto menor os custos do trabalho, melhor!

não há democracia sem mercado de massas. não há mercado de massas com desemprego e salários rebaixados.

querem construir um país? defendam o direito de greve.

ou façam como José Serra, finjam que funciona...


[1] Beatles, “When I'm Sixty-Four”, música citada pelo então prefeito da cidade de SP, José Serra, em seu aniversário de 64 anos, referindo-se a sua provável candidatura ao governo do Estado.
[2] “Um ensaio de socialismo de estado no Brasil e as indústrias nacionais”, citado por Marisa Saenz Leme em “A ideologia dos industriais brasileiros”

03 agosto 2007

o sonho de uma geração

ao ser indicado como futuro Ministro da Casa Civil, no primeiro mandato de Lula, Zé Dirceu afirmou que realizava “o sonho de sua geração”. em se tratando de uma geração cujos mais preciosos sonhos viraram pesadelos crônicos, a declaração soava como um péssimo augúrio.

como hoje todos sabemos, o mau presságio acabou se confirmando...

mudou-se a nossa estrela, as glórias vieram tardes e frias. Dirceu amarga um novo exílio, sem que possa sequer se queixar de alguma Marília ter-lhe roubado o sincero coração. [1]

havia uma certa ingenuidade otimista no Brasil. 1969. vivíamos em perigo. primeiro ano de vigência do AI-5. o demônio da descrença é melhor? a pergunta pode ser respondida por quem morre? [2]

daquele passado romântico ainda ecoam versos de uma canção de sucesso:

eu prefiro as curvas
da Estrada de Santos
onde eu posso esquecer
um amor que eu tive
e vi pelo espelho
na distância se perder
[3]

reflexos de uma época. tempos em que jovens idealistas tinham um sonho otimista de um futuro socialista. muitos morreram por seus sonhos, mas outros sobreviveram, e ainda estão por aí... [4]

perseguir os sonhos é mesmo um ato de coragem. arriscado. eles podem não dar certo. geralmente não dão.

mas viver... viver já é em si muito, muito perigoso. por um só dia que seja... [5]

aliás... escrever também é perigoso. quem tentou, sabe. há o perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas. há ciladas nas palavras. as palavras que dizemos escondem outras – quais? escrever é uma pedra lançada neste abismo sem fundo. [6] e um abismo sempre chama outros abismos. [7]

o que se escreve nunca é o que se escreve e sim outra coisa. é preciso que alguém leia. para que se possa ouvir o silêncio de quem escreve. para captar essa outra coisa que na verdade foi escrita, porque quem mesmo escreve não pode fazê-lo. [8]

houve certa vez, num passado nem tão distante, embora mais e mais remoto, uma geração capaz de ousar tomar os céus de assalto. talvez tenham se equivocado quanto ao assalto e quanto aos céus. porém, nunca em relação ao ímpeto que os motivava.

o mundo mudou? ou mudaram de idéia? e daí... [9] ninguém mudou? é a vida que muda... [10]

pode ser também que o mundo não tenha de fato mudado. e o que se apresenta como mudança não passe de um rearranjo para tudo alterar de modo que, fundamentalmente, nada fique diferente.

atualmente, a desolação do cenário político brasileiro provoca indignação e desalento. o governo não governa e a oposição não se opõe.

o demônio da descrença é melhor? a pergunta pode ser respondida por quem morreu? a morte não é a perda maior, e sim o que morre dentro de nós enquanto vivemos. [11]

devemos nos conformar que nossos sonhos, um por um, todos se transformem em sombras? é melhor precipitar-se na morte no apogeu de uma paixão? ou se extinguir e murchar-se aos poucos com a velhice, deixando a alma se esvair lentamente, enquanto a noite cai com suavidade sobre todos os vivos e todos os mortos? [12]

por quê é mesmo que se morre? talvez por não se sonhar o bastante... [13]

para trazer o morto de volta à vida não é preciso uma grande mágica. poucos estão inteiramente mortos. sopre sobre as cinzas de um homem morto, e uma chama viva surgirá. [14]




[1] Tomás Antônio Gonzaga
[2] Reinaldo Azevedo, “Atos gratuitos”, 27/12/2006
[3] Roberto Carlos e Erasmo Carlos, “As Curvas da Estrada de Santos”
[4] Virgínia, comentário no blog do Reinaldo Azevedo
[5] Virginia Woolf, “Mrs. Dalloway”
[6] Clarice Lispector
[7] Salmos 42:7
[8] Clarice Lispector
[9] Zé Dirceu, 05/2003
[10] Lula, 05/2003
[11] Norman Cousins
[12] James Joyce, “Os Mortos”
[13] Fernando Pessoa, “O Marinheiro”
[14] Robert Graves, “To bring the dead to live”

31 julho 2007

ai! que cansaço...

tudo vai num descalabro sem comedimento, estamos corroídos pelo morbo e pelos miriápodes!

por isso e para eterna lembrança destes paulistas, que são a única gente útil do país, e por isso chamados de Locomotivas, nos demos ao trabalho de metrificarmos um dístico, em que se encerram os segredos de tanta desgraça: [1]

“cansei...”

com as forças exauridas, por insistir em negar uma conjuntura política que lhes assombra como o seu pior pesadelo, as oposições conservadoras convulsionam-se em seus derradeiros suspiros.

OAB-SP, FEBRABAN , FIESP, Associação Comercial de São Paulo...
João Dória Jr., Luiz D'Urso, Paulo Zottolo...
milagres do Brasil são.
mas que importa o branco cueiro, se o cu é tão denegrido! [2]

São Paulo, São Paulo, por que tanto tropeças na pedra de tropeço? [3]

os que tão cansados estão, são também os que mais deveriam estar aplaudindo. foram os que mais ganharam dinheiro neste governo. basta ver quanto ganharam os banqueiros, empresários. [4] foram R$ 43,7 bilhões de superávit, um crescimento de 13,5% no primeiro semestre de 2007. no outro lado, o dos investimentos, só 10% do programado foi realizado. [5]

para o desespero das oposições conservadoras, a força de Lula advém de que não há mais retrocesso para o Brasil. as massas populares serão o protagonista de qualquer novo projeto nacional que se pretenda legítimo.

Lula, por sua vez, em sua ânsia de ser aceito pelas elites, recusa-se a aceitar a mais básica das lições, que a cada crise de seu governo lhe é cuspida na face.

pouco importa seus ternos exclusivos, sua renovada arcada dental, seus charutos e seus vinhos, seu botox e seu aero-Lula, seus 53 milhões de votos e sua reeleição consagradora.

para as elites, pouca importa Lula ser o Presidente da República, porque sempre será aquilo que nunca deixou de ser: um "baiano", um "paraíba". apedeuta. incompetente. analfabeto. leniente. inapetente. ignorante. vagabundo. um trabalhador brasileiro. [6]

Lula, um trabalhador brasileiro. um representante das massas populares que serão o protagonista de qualquer novo projeto nacional que se pretenda legítimo.

ainda mais uma vez é o anti-lulismo que reabilita e fortalece o lulismo. um paradoxo paralisando o país. um impasse que mantém o Brasil imobilizado no meio de uma travessia, sem que possa retornar e interditado seu avanço.

é possível se captar a silenciosa movimentação social que marca o inicio de novos tempos? qual o exato início da mudança? quando não há mais caminho de volta ao passado? e também não há como voltar-se para o futuro?



[1] Mário de Andrade. “Macunaíma”
[2] Gregório de Matos
[3] Romanos 9:32
[4] Lula, 31/07/2007
[5] blog do Zé Dirceu

[6] arkx, “a lição da chibata”

18 julho 2007

a origem da tragédia

  • "A informação que temos é que o avião pousou, e não caiu".
  • Vice-presidente de planejamento da TAM,
    declaração às 19:30h.
    O
    acidente ocorreu às 18:50h.


    a maior tragédia ainda não aconteceu.

    temos sido um país de tragédias discretas e desgraças silenciosas.

    aceitamos como inevitável a crônica tragédia dos juros e do câmbio, responsável por uma transferência de riqueza ainda mais brutal que a tragédia da inflação.

    tornou-se natural a tragédia continuada da concentração de renda, fazendo com que 0,7% da população possua fortuna estimada em cerca de metade do PIB, numa trágica herança dos tempos da escravidão.

    acompanhamos com enfado e deboche a tragédia da representação política, como se fosse cômico...

    uma das tragédias mais recentes é a obstinação na defesa irracional do governo Lula, que além de ter arrastado a esquerda brasileira para a pior crise de sua história, mergulha o país inteiro num buraco negro de cinismo, hipocrisia e total falta de perspectivas.

    são nossas tragédias do dia a dia. por maior que sejam suas dimensões, são ainda pequenas tragédias.

    se algumas utopias são verdades prematuras, até mesmo a mais óbvia e ululante verdade parece inexplicável para quem insiste em enxergar a realidade unicamente a partir de suas próprias premissas.

    a maior tragédia é a de se negar a grande tragédia que se anuncia. uma tragédia que se antevê a partir do desdobramento lógico dos fatos em curso.

    as portas para o futuro estão se fechando. estamos nos colocando, nós brasileiros, num rumo de muitas tragédias, de muito sofrimento. individual e, principalmente, coletivo.

    estamos assistindo ao desmoronamento de um modelo. como toda queda, será explosiva. haverá chamas. não serão poucos os mortos e feridos.

    não vai acontecer de uma vez, se arrastará ao longo da agonizante travessia do segundo mandato de Lula.

    o Brasil está condenado à civilização. ou progredimos, ou desapareceremos.

    13 julho 2007

    as multidões dos estádios

    cidades sem povo são cidades sem alma. em Brasília a política se faz através das intrigas palacianas, dos conchavos de corredor e dos discursos inflamados para um plenário vazio.

    as vaias a Lula num Maracanã lotado têm significado político claro e implacável: não se faz política sem povo.

    nas ruas e no encontro com as multidões, a popularidade das pesquisas de opinião pública se desmancha no ar.

    como decifrar o enigma de um presidente com mais de 60% de popularidade ser olimpicamente vaiado onde obteve 70% dos votos nas últimas eleições?

    Lula é um interregno. um entreato.

    para o desespero das oposições conservadoras, a força de Lula advém de que não há mais retrocesso para o Brasil. as massas populares serão o protagonista de qualquer novo projeto nacional que se pretenda legítimo.[1]

    eleito por duas vezes em nome da mudança, Lula se tornou o último bastião do continuísmo. como uma metáfora encarnada do processo histórico brasileiro, no qual, muito embora imposta como necessária pelo próprio desenvolvimento da sociedade, a mudança é sempre adiada ao máximo, e, ao se tornar inevitável, é antecipada, para que, no transigir, se possa limitá-la.

    com o Brasil imobilizado no meio de uma travessia, sem que possa retornar e interditado seu avanço, a desolação do cenário político provoca indignação e desalento. mesmo que nada se ouça, além do silêncio, ainda assim é possível sentir um grito infinito atravessando a paisagem.

    um grito silencioso parado no ar, que, por vezes, explode numa vaia vinda do fundo da alma.


    [1] Luis Nassif, “Os cabeças de planilhas”

    10 julho 2007

    à bala

    guerra e política se entrelaçam, sendo uma a continuação da outra, ainda que sob formas distintas e através de outros meios.


    como conduzir o combate político?

    o direito à liberdade de expressão é o direito daqueles com os quais não concordamos? como lidar com o contraditório e qual o limite da tolerância? até que ponto a opção pela não-agressão apenas dissimula covardia e redunda em omissão e conivência?

    teríamos de eliminar a balas um infinito de seres medíocres? [1] essas amebas, seres rastejantes, totalmente descerebrados, que melhor seriam se tivessem nascidos ratos, pelo menos teríamos o direito de exterminá-los, sem dó nem piedade, pois é o que merecem, já que para nada servem... [2]

    fazer-se invencível significa conhecer-se a si mesmo; descobrir a vulnerabilidade do adversário significa conhecer os demais. a invencibilidade está em si mesmo, a vulnerabilidade no adversário. [3]

    onde está o inimigo? quem é o outro? quais são suas idéias?

    é no exame de cada um de nós, nos mais recônditos segredos dissimulados em cada um de nossos próprios pensamentos, que podemos encontrar o outro. somos o nosso próprio inferno.

    as idéias que dominam em nossa mente são aquelas mesmas idéias que dominam em cada época: as idéias da classe dominante daquela época.

    “nós” e “eles”, “direita” e “esquerda”, “progressistas” e “reacionários” não diferem tanto no que tange aos mecanismos de poder, à busca por supremacia, a obsessão pelo controle, à imposição de liderança, ao centralismo “democrático”, à vontade soberana da maioria, a repulsa pela autonomia e ao culto à hierarquia. toda uma série de perversões destinadas a submeter e disciplinar os indivíduos, para que seus corpos sejam dóceis e úteis.

    todos elogiam uma vitória ganha em batalha, porém essa vitória não é realmente tão boa. armas são instrumentos de mau augúrio. nunca se viu nenhum especialista na arte da guerra que as utilizasse por muito tempo. verdadeiramente desejável é poder ver o mundo do sutil e dar-se conta do mundo do oculto, até o ponto de ser capaz de alcançar a vitória onde não mais exista forma. em conseqüência, um guerreiro vitorioso ganha primeiro e inicia a batalha depois; enquanto um derrotado primeiro inicia a batalha para só depois tentar obter a vitória. [4]

    a política não é a arte do possível. é a capacidade de tornar o impossível uma das possibilidades.

    a vitória completa não se obtém com a aniquilação total do inimigo. a vitória completa se produz quando não há luta. o inimigo é vencido pelo emprego da estratégia. ao se criar uma perspectiva mais ampla, a qual, por também englobar o inimigo, conduz obrigatoriamente ao trabalho em conjunto.





    [1] comentário no blog do Luis Nassif
    [2] comentário no blog do Reinaldo Azevedo
    [3] Sun Tzu, “A arte da guerra”
    [4] Sun Tzu, “A arte da guerra”

    05 julho 2007


    Brasil favela

    para sempre se foi o tempo romântico do Rio quatro vezes favelas. agora no berço do samba proliferam os falcões do tráfico. as vozes que vem do morro são estampidos de armas automáticas.

    ainda há salvação para as favelas?

    mega complexos de construções desconexas de alvenaria erguidas umas sobre as lajes das outras, como labirintos de labirintos. múltiplos andares de favelas, empilhados sobre os escombros daquilo que deveria ter sido uma cidade e um país. um território posto à parte do controle do Estado. uma terra de ninguém para que o Chefe do Morro possa reinar. onde prospera o melhor negócio do Brasil.

    um negócio imune à desestruturação de nossa infra-estrutura produtiva. capaz de reconciliar grandeza de escala com descentralização de operações, conforme as práticas empresariais mais avançadas. e combinar o autofinanciamento típico das antigas estratégias nacionais de produção com a aceleração de prazos e com a flexibilidade de métodos que marcam os empreendimentos internacionalizados de última geração. transforma desespero em prazer, prazer em dinheiro, dinheiro em força. o melhor negócio no Brasil. o narcotráfico. [1]

    entretanto, não há plantação de maconha nas favelas. ou de cocaína. tampouco instalações de refino. muito menos fábricas de armas. a verdadeira favela não está na favela. assim como os verdadeiros imperadores do tráfico lá também não estão. a polícia pode executar tantos e quantos traficantes nas favelas. sempre surgirão mais e mais. ou mesmo bombardear a favela com napalm. inútil. novas favelas se multiplicarão em seu lugar.

    o segredo do poder do narcotráfico é sua dupla sustentação em pólos inversos da pirâmide social: as favelas e o sistema financeiro.

    o território sem lei das favelas é imprescindível na rede do tráfico. fora do alcance do Estado, os territórios das favelas são as bases a partir da quais a rede começa a se capilarizar, ramificando-se por todo o tecido social. as favelas não são pontos de venda no varejo, funcionam como as grandes centrais de abastecimento.

    é esta estratégia de negócio que obriga os traficantes a se armarem. as armas pesadas do tráfico não são utilizadas, prioritariamente, para ações criminosas fora das favelas. e muito menos servem para o enfrentamento com a polícia, com a qual sempre é preferível um "pacto de não agressão" (ou além). o armamento tem como objetivo a manutenção e conquista de território. proteger-se de incursões de facções rivais e dominar outras bases de atuação.

    para se legalizar, os lucros astronômicos do narcotráfico passam pelo mesmo circuito do capital financeiro especulativo, beneficiando-se do livre fluxo de capitais em vigor na economia brasileira. são remetidos ao exterior através das contas CC5 e retornam por um fundo offshore, sob o manto de capital estrangeiro.

    a maneira mais eficaz de estrangular o crime organizado é cercear suas atividades financeiras de duas maneiras: impedindo a circulação de dinheiro e coibindo as atividades que, de alguma forma, possam estar ligadas ao crime organizado. [2] é preciso tratar penalmente a lavagem de dinheiro com os mesmos instrumentos jurídicos de crimes como o tráfico, mesmo que os crimes correlatos (os que geraram os fundos iniciais) estejam sujeitos a penas pequenas. [3] na medida que o BC amplia enormemente as facilidades para a remessa de dinheiro para o exterior, pratica-se lavagem de dinheiro a céu aberto. pelos dutos que passa o dinheiro frio, passa também o dinheiro de origem criminosa. [4]

    a explosão dos mega complexos de favelas é a contrapartida de uma modernização conservadora do latifúndio brasileiro, sob a forma do agronegócio, através de uma selvagem industrialização do campo, que expropriou os moradores das áreas rurais, criando-se um vasto exército industrial de reserva, miserável e favelado. [5]

    o caminho para desenvolvimento trilhado pelos atuais países industrializados - de um passado rural e agrícola, para um urbano e industrial - não pode mais ser reproduzido. o contexto histórico se alterou irreversivelmente. o binômio indústria/urbanização foi tributário da existência de colônias, das migrações em larga escala e das guerras mundiais. além disto, hoje as indústrias empregam cada vez menos. [6]

    não há saída para as cidades brasileiras sem uma ampla erradicação das favelas. não há rumo para o crescimento economicamente sustentado que não seja através da inclusão social e de um novo ciclo de desenvolvimento rural.

    o Brasil necessita de uma economia de guerra.

    a chave para destravar o desenvolvimento está nas massas do trabalho informal. são os marginalizados das cidades e das áreas rurais, os bóias-frias e os favelados, que, ao serem incorporadas à economia formal de modo organizado e estratégico, trarão consigo o crescimento.

    é na inclusão maciça da periferia das grandes metrópoles brasileiras, implicando na construção de bairros inteiros, escolas, centros de saúde e de capacitação profissional, creches, postos policiais e áreas de lazer, acompanhada da implantação de um modelo agrícola baseado em pequenas unidades produção, mas com uso intensivo de alta tecnologia, é desta economia de guerra, com suas inevitáveis imposições de inovações e criatividade de soluções, que virá o desenvolvimento do Brasil.

    nenhum outro país do mundo reúne como o Brasil condições tão favoráveis à criação gradual de uma nova civilização baseada na exploração sistemática do trinômio biodiversidade-biomassas-biotecnologias, estas últimas aplicadas nas duas pontas para aumentar a podutividade das biomassas e abrir o leque dos produtos dela derivados. [7]



    [1] Roberto Mangabeira Unger, "Qual o melhor negócio do Brasil?"
    [2] Luis Nassif, "O crime organizado e os bancos", 17/05/2006
    [3] Luis Nassif, "Um dia de cão", 16/05/2006
    [4] Luis Nassif, "O crime organizado e os bancos", 17/05/2006
    [5] Wladimir Pomar, "A nova estirpe burguesa"
    [6] Ignacy Sachs, "A revolução energética do século XXI "
    [7] Ignacy Sachs, "Inclusão social pelo trabalho decente"

    04 julho 2007

    novos impasses de uma antiga direita

    as duas vitórias consecutivas de Lula da Silva provocaram danos irreparáveis em ambos os sentidos do espectro ideológico da política brasileira. esquerda e direita já não serão as mesmas. para o bem e para o mal...

    quando o filho do povo Lula I, eleito em nome da esperança de mudança, subiu o Planalto apenas para inaugurar a era Palocci, um estelionato eleitoral como nunca antes se dera na história deste país, a esquerda silenciou. afinal, era o "nosso" governo. não importa que o "nosso" governo tenha uma prática contrária aos "nossos" interesses, ainda assim é o "nosso" governo e cabe a "nós" defendê-lo a todo custo até o último instante.

    em vez de tomar a iniciativa de formular uma crítica consistente ao governo Lula, a quase totalidade da esquerda se empenhou na tentativa de legitimá-lo, entregando-se às mais delirantes teorias esquizofrênicas.

    a manutenção da política econômica derrotada nas urnas era apenas uma inevitável opção tática, por ser impossível dar um cavalo-de–pau no Titanic da economia. ao chegar o devido tempo, um muito bem oculto plano "B" seria implementado. além disto, uma bem sucedida superação do transe da transição dependeria da correlação interna de forças de um governo em disputa. a suposta cautela também se justificava, por não se tratar de uma tomada de poder, apenas se vencera uma eleição presidencial.

    o que restava desta farsa se converteu em tragédia, quando, em agosto de 2005, o publicitário Duda Mendonça confessou ter recebido de caixa dois no exterior pela campanha presidencial de 2002. então, Lula desceu a mais baixa taxa de aprovação a seu governo (28%), com a mais alta reprovação (29%). a cúpula do PT desmoronou, deputados do partido choravam descontrolados no plenário e ministros sugeriam a Lula renunciar. foi também então que PFL (atual DEM) e PSDB optaram por fazer o Presidente sangrar até as eleições de 2006.

    a origem de Lula II deve ser buscada em erros estratégicos da oposição conservadora.

    em janeiro de 2006, Serra tinha o dobro das intenções de votos de Alckmin. apesar disto, o tucanato, sempre tão cheio de pavões, começou a exibir papagaios aos montes, galinhas-d’angola, pardais, periquitos, uma vasta algaravia ornitológica. então, com raro senso de ousadia, o PSDB decidiu abrir mão de quem tem o dobro para escolher quem tem a metade. convenha-se: é preciso bastante "coragem" para fazer tal opção. o que mais impressiona é que o PT não precisou mover uma palha para que o PSDB entrasse em transe. ele fez isso absolutamente sozinho. [1]

    quando já não se podia mais negar que Lula não só fraudara a vontade dos brasileiros, ao radicalizar o projeto que foi eleito para substituir, ameaçando a democracia com o veneno do cinismo, como comandara, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro, sendo assim obrigação do Congresso Nacional declarar o impedimento do presidente, também ficou claro que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. as duas cabeças precisam ser esmagadas juntas. [2]

    se o repúdio de parcela bastante minoritária da esquerda em relação ao governo Lula foi politicamente canalizado com a criação do P-SOL, o mesmo não ocorreu com a sua contraparte da direita.

    o anunciado fracasso da alckimia de um candidato a presidente com perfil de gestor não-ideológico só acrescentou frustração a estas parcelas da direita.

    a reeleição de Lula, lastreado apenas na própria imagem e popularidade e impondo derrota arrasadora ao poderoso arco de forças conservadoras que enfrentou, deixou como última opção uma virada de mesa institucional, o recurso desesperado ao terceiro turno. fogo que não se apaga, consome-se por si mesmo. a tática das denúncias gira no vazio. numa confirmação de que certas armas são instrumentos de má sorte. empregá-las por muito tempo é trazer infortúnios para si próprio.

    a sucessão de revezes conduz a direita indignada ao impasse. sem identificação partidária, incapaz de expressão no movimento social, nenhum horizonte histórico para o "golpe redentor"...

    num impensável encontro de paralelas, segmentos da esquerda e da direita, órfãos de um impeachment que não houve e reféns do mesmo sentimento de traição de suas lideranças, convergem na constatação de que a política tradicional se tornou irrelevante.

    enquanto a maior parte da esquerda recuou, se apaziguou e se apadrinhou nos corredores do poder, a direita indignada avançou. deu as caras. a maioria silenciosa se exprime pela web. fazendo dos blogs o seu partido político e dos fóruns de discussão seu parlamento, floresce uma neo-direita. sem envergonhar-se de seu conservadorismo, exibe orgulhosa sua face. o novo impasse faz com que o antigo obscurantismo se manifeste às claras. vindo à luz, corre o risco de se iluminar.

    para uma esquerda que perdeu seu rumo, sua identidade e se prostrou a serviço de um governo que traiu 23 anos de lutas populares não há mais dignidade, nem mesmo no desprezo. ela é hoje o verdadeiro ninho no qual vem se alojar o ovo da serpente.



    [1] Reinaldo Azevedo, em 40 textos defendendo a candidatura de Serra à Presidência, 2006

    [2] Roberto Mangabeira Unger, “Pôr fim ao governo Lula”

    03 julho 2007

    excesso insuficiente

    "Foi aqui, na Scania, nesse pátio, que nós começamos a conquistar a democratização do nosso país. Era um tempo em que eu dizia que era socialista. Mas aí eu fui presidente de um país capitalista, um país capitalista sem capital."

    Lula
    02/07/2007

    embora seja visto como padecendo de insuficiência crônica e incurável de recursos, o Brasil tem sido um país de oferta necessariamente abundante de capitais.
    [1]

    apesar deste enigma da esfinge brasileira já ter sido decifrado em 1963, por Ignácio Rangel, ainda prospera um estado de confortável e conveniente ignorância em relação à questão.

    devido a sua altamente concentrada estrutura de distribuição de renda, o Brasil é um país de baixíssima propensão a consumir. para quem não erga o "véu monetário", entretanto, este fato se mostra deformado e mascarado, de tal forma que uma demanda insuficiente aparece como excessiva. um país sufocado ao peso de sua própria capacidade produtiva ociosa apresenta-se como se tudo lhe faltasse. [2]


    foi também Ignácio Rangel quem anteviu para o Brasil um novo estágio de desenvolvimento, não mais comandado pelo capital industrial, e sim pelo capital financeiro. ousou defender que, para a soberania nacional, a estruturação de um mercado interno de capitais era então da mesma importância estratégica quanto fora no passado a criação de nosso parque industrial. o mercado de capitais se converteria na fonte principal de financiamento da economia, tendo como prioritária destinação dos recursos a criação e expansão dos grandes serviços de utilidade pública.

    hoje, a indústria de fundos de investimentos no Brasil, com patrimônio líquido atual superior a R$ 1 trilhão, é mais desenvolvida, mais sofisticada, mais competitiva e maior como proporção do PIB se comparada a qualquer outro país emergente. [3]

    bastaria uma redução na oferta dos títulos públicos - por conta da diminuição da dívida interna - para disponibilizar uma dinheirama no mercado, para financiar o desenvolvimento. os gestores terão que buscar ativos com rentabilidade para substituir títulos públicos. é erro pensar que o sistema bancário é quem irá prover recursos para financiar empresas e consumo. o funding será dado pelos fundos, financiando a produção por meio de debêntures e o consumo por meio de instrumentos como os Fundos de Direitos Creditórios, pelos quais as empresas antecipam receitas futuras contratadas. [4]

    este cenário promissor é, evidentemente, incompatível com a atual taxa básica de juros. não há incentivo em se investir em atividade produtiva, gerando empregos, renda e aumentando a propensão ao consumo, enquanto a taxa básica do BC regular a disponibilidade de recursos bancários para empréstimos e também remunerar a maior parte da dívida pública. os títulos públicos, qualquer que seja seu prazo nominal de vencimento, têm liquidez diária garantida pelo governo. além disto, a taxa básica por um dia é maior que as taxas de juros de médio e longo prazo. o resultado é um ativo financeiro que rende juros e nunca fica indisponibilizado. esta anomalia proporciona uma rentabilidade diária alta, segura e sem os embaraços de ter que contratar e pagar salário a trabalhadores, sem as complicações com o Fisco, sem taxas e impostos, sem ter que cumprir regras ambientais, sem obrigações sociais. um capitalismo sem risco e que dispensa a produção. [5]



    [1] Ignácio Rangel, "A inflação brasileira"
    [2] Ignácio Rangel, "A inflação brasileira"
    [3] Nélson Rocha Augusto, Folha de São Paulo , 02/07/2007
    [4] Luis Nassif, "Fundos e investimento", 14/08/2003
    [5] José Carlos de Assis

    02 julho 2007

    c'est moi

    no vácuo político brasileiro tudo parece se desmanchar no ar. como retomar a construção nacional interrompida? ainda faz sentido existir algum Brasil?

    quem é o Brasil? o que quer o Brasil?

    como Madame Bovary estamos condenados a uma vida medíocre e provinciana de um Estado periférico? nossas aspirações de grandeza e desenvolvimento não passam de sonhos românticos?

    desejamos um destino para o qual nos faltam condições objetivas? o que precisamos para mudar de vida? nos bastam nossos próprios recursos? a mesma realidade que nos oprime também nos mostra o caminho de saída?

    na ânsia de viver nossos sonhos, apenas nos frustramos com o desânimo e a decadência.

    pode ser que tenhamos perdido definitivamente o bonde da história, fadados a um inexorável processo de favelização, com perda da unidade nacional, e mesmo territorial.

    um país a serviço do tráfico. drogas, armas, órgãos, pessoas... um arquipélago desordenado de minúsculos guetos de luxo, protegidos por segurança privada e cercados de imensas áreas populares controladas por milícias.

    a cada vez que o processo histórico desemboca numa crise, impondo a necessidade de mudanças, se restabelece no Brasil um acordo de cúpula, pactuado pelas elites, e a mudança se reduz a um rearranjo que tudo muda para que nada fique diferente.

    desta vez não há mais âncoras institucionais disponíveis. o país vaga ao sabor dos escombros.

    países também se suicidam?

    haverá outro caminho para o Brasil? ou permaneceremos reféns do carisma e popularidade de Lula...

    é possível se captar a silenciosa movimentação social que marca o inicio de novos tempos? qual o exato início da mudança? o momento em que os velhos personagens se debatem ao serem todos tragados pela escuridão...

    quem é o Brasil? o que quer o Brasil?

    o Brasil somos nós. o que nós queremos.

    talvez a época dos lobos e dos chacais esteja chegando ao fim. e nossa exasperante tradição de mudanças lentas, seguras e graduais se aproxime vertiginosamente do ponto de ruptura.

    na década de 80 o futuro era dominar o conhecimento do que seria conhecido posteriormente como Tecnologia da Informação.

    hoje, o futuro está em descobrir como estabelecer relação cooperativa com o meio-ambiente, para gerar desenvolvimento sustentável e includente. quem dominar este conhecimento estará na liderança mundial nas próximas décadas.

    estamos destinados a ser a primeira biocivilização da história?