31 março 2007

a segunda descida aos infernos de Lula da Silva

nunca um Presidente se elegeu com tanta autonomia para montar sua equipe de governo. [1]

houve poucos momentos na história do Brasil em que isto ocorreu. sem pressa e sem cobranças, Lula teve toda a tranqüilidade para fazer a reforma ministerial. [2]

e qual o resultado?

a coalizão arquitetada para o segundo mandato leva o caciquismo ao centro do palco e consagra a fisiologia no exercício do poder. [3]

no auge de seu capital político, Lula II abdicou de formar um ministério técnico, cedendo mais uma vez a uma composição voltada para garantir a governabilidade e aprovação de projetos do Executivo. [4]

Lula afirma ser "preciso uma cirurgia para curar os males do País" [5], entretanto o BC continua intocável, mesmo após o Copom derrubar o PAC, apenas dois dias após seu lançamento, ao reduzir em somente 0,25% a taxa básica de juros, mantendo-a como a mais alta do mundo, em índice real. [6]

no momento, Lula se empenha em viabilizar a parceria entre Brasil e EUA na produção de biocombustível. não mede esforços para retomar nossa primeira vocação de colônia e reinaugurar nas terras férteis brasileiras um novo ciclo da cana-de-açúcar.

para não prejudicar a negociação em curso com o atual companheiro Bush, Lula fez questão de contestar, em artigo publicado no "Washington Post", a tese do ex-companheiro Fidel Castro que a produção de álcool combustível em larga escala aumentaria a fome no mundo: "A cana-de-açúcar não ameaça a produção de comida. " [7]

contradizendo a declaração de Lula, o Brasil do agronegócio tem que importar arroz, feijão, milho, trigo e leite (alimentos básicos dos trabalhadores brasileiros). e também soja em grãos, farelo e óleo de soja, algodão em pluma, matérias-primas industriais de larga possibilidade de produção no próprio país. [8]

a grande lavoura açucareira carrega uma tradição de escravismo, de trabalho compulsório, de exploração de assalariados e de ruína do meio ambiente. foi esta atividade que deu lugar às oligarquias mais atrasadas de nosso país. durante séculos, senhores de engenho e usineiros viveram pendurados em subvenções governamentais. [9]

a expansão do capitalismo no Brasil se dá introduzindo relações modernas no arcaico e reproduzindo relações arcaicas no moderno. [10]

o “moderno” agronegócio dos usineiros do álcool, os novos heróis de Lula [11], mantém os “trabalhadores em um regime de escravidão disfarçada” e realiza colheitas mediante queimadas. [12]

eleito com o voto das massas trabalhadoras, Lula prefere governar com as elites. o próprio Lula já admitiu, envaidecido, que banqueiros e grandes empresários jamais ganharam tanto dinheiro quanto no governo do PT. [13] contudo, os investimentos e afagos de Lula não foram retribuídos com a rentabilidade eleitoral esperada. as elites se uniram solidamente em torno do candidato adversário. [14]

a burguesia brasileira sempre preferiu se acomodar na condição de sócio-menor do capitalismo internacional, voltando as costas à aliança com as classes subordinadas e ao compromisso com o desenvolvimento nacional. [15]

apesar da consagradora reeleição, Lula só completou seu primeiro mandato em virtude de um erro estratégico da oposição conservadora. no auge da crise do "Mensalão", Lula desceu aos infernos. em dezembro de 2005, teve a mais baixa taxa de aprovação a seu governo (28%), com a mais alta reprovação (29%). enquanto a cúpula do PT desmoronava, deputados do partido choravam no plenário e ministros sugeriam a Lula renunciar, PFL e PSDB optaram por fazer o Presidente sangrar até as eleições. [16]

Lula continua piamente ouvindo as ladainhas dos que querem a estabilidade a qualquer preço e profetizam desastres se os mercados não forem saciados em sua voracidade ilimitada. o desastre já aconteceu. o país e a nação se atolam na barbárie. e Lula leva a sério a satisfação arrogante e autista dos que aconselham cautela. [17]

no auge de seu poder, Lula se embriagou com a vã ilusão de ser possível perenizar um momento. desfrutou de chance inédita para sozinho montar seu governo. sem cobranças e sem pressa.

e qual o resultado?

Lula desperdiçou sua nova chance. [18] foi incapaz de um grande não, para poder dizer um grande sim. não tomou a trajetória que exige autotransformação, a via do engrandecimento, pavimentada com as dores da reconstrução de nós mesmos. [19] apenas preparou o caminho para iniciar sua segunda descida aos infernos. talvez lá enfim se reencontre com o trabalhador brasileiro...



1 arkx, “Lula II: o Homem-Presidência”, 26/10/2006
2 Lula, 13/03/2007
3 Fernando de Barros e Silva, “Aquarela do Brasil”, 20/03/2007
4 Lula, 20/03/2007
5 Lula, 20/03/2007
6 arkx, “0,25%”, 25/01/2007
7 Lula, 30/03/2007
8 Ariovaldo Umbelino de Oliveira, "Os mitos sobre o agronegócio no Brasil "
9 Luiz Felipe de Alencastro, "Yes, we have sugarcane !!! "
10 Francisco de Oliveira, “Crítica à razão dualista”
11 Lula, 30/03/2007
12 José Serra, "O etanol e o futuro"
13 Lula, 28/07/2006
14 arkx, “a era Palocci”, 30/10/2006
15 FHC, "Empresariado industrial e desenvolvimento econômico"
16 arkx, “por bem , ou por mal”, 05/11/2006
17 Francisco de Oliveira, “Carta aberta ao Presidente da República”, 30/06/2004
18 arkx, “uma nova chance”, 30/10/2006
19 Roberto Mangabeira Unger, “Qual futuro?”, 27/03/2007

26 março 2007

ciclos

Lula está no auge do poder político, mas o que Lula faz do auge do seu poder? [1]

é bem verdade que há um certo regozijo por parte da elite com a possibilidade de o Brasil inaugurar um novo ciclo da cana-de-açúcar. [2]

proclamados como heróis por Lula, usineiros do álcool não se esquivam em reconhecer a especial atenção que lhes dedica o Presidente: “Ele é muito amigo nosso. Somos muito gratos a ele. Ele nos defende...” [3]

até o mega-herói internacional George Soros não restringe os elogios: "Lula foi muito precavido ao tornar-se um fiador do mercado financeiro". [4]

porém, mesmo com o Brasil se transformando num imenso canavial, nenhum país que concentrou na cana-de-açúcar sua fonte de riqueza foi capaz de prosperar. [5]

Pedro Ramos, pesquisador da Unicamp, afirma que muitos dos cortadores de cana “são trabalhadores em um regime de escravidão disfarçada”. nos anos 80, um trabalhador cortava quatro toneladas e ganhava o equivalente a R$ 9,09 por dia. hoje, corta na média 15 toneladas e ganha cerca de R$ 6,88 por dia. [6]

o esgotamento dos trabalhadores deve-se ao constante aumento das metas de produção, a novas técnicas de cultivo que buscam mais produtividade e a variedades de cana com mais sacarose, embora menos pesada. se antes 100 metros (quadrados) de cana somavam 10 toneladas, hoje são necessários 300 metros.

nunca um Presidente se elegeu com tanta autonomia para ditar os rumos de seu governo. o quebra-cabeça político do segundo mandato foi montado por inteiro, e com exclusividade, na mente de Lula. [7]

mas o que Lula fez no auge do seu poder?

Lula formou uma ampla coalizão política "pensando nos próximos 20 anos” [8] e reunindo quem nas últimas décadas sempre esteve no poder. contundente exemplo, seu novo Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, também serviu ao regime militar e aos governos Collor e FHC. [9]

enquanto desfruta de seu poder para a instauração de um hipotético consenso abrangente e duradouro [10], Lula mantém blindada a política econômica, com juros e câmbio aprofundando o desemprego e a desindustrialização.

de 2002 a 2006 a produção industrial ostentou índices de crescimento ínfimos , o crescimento do emprego patinou, oscilando pouco acima e pouco abaixo de zero e as importações aumentaram 27,4% em 2004, 17,6% em 2005 e 23.4% em 2006. [11]

a exuberância dos sucessivos ciclos da história econômica do Brasil nunca foi suficiente para desenvolver o país, sempre caracterizado por desigualdades profundas, relacionadas com a superexploração da mão-de-obra e a transferência de riquezas para o exterior.

nosso desenvolvimento truncado, além de desigual, é combinado. o “moderno” (a industrialização/urbanização) e o “atrasado” (a estrutura agrária/rural) na economia brasileira não somente se integram, como são condição necessária para o elevado elevado nível
da taxa de acumulação e da exploração da força de trabalho. [12]

as últimas eleições presidenciais também foram marcadas por ciclos. tudo indicava uma tranqüila e insossa reeleição de Lula ainda no primeiro turno. o tiro no pé do dossiegate provoca o adiamento de uma vitória anunciada. [13] quando parecia que a política se tornara definitivamente irrelevante e os Mercados já festejavam pacificados, pouco importando quem vencesse, o segundo turno politiza a campanha e a pauta das eleições se altera. [14]

a própria personalidade do Presidente parece sujeita a ciclos, oscilando conforme a conjuntura política lhe favorece, ou não.

no auge de seu poder, Lula se esforça na vã tentativa de perenizar um momento. não tem pressa. [15] está no auge de seu poder. porém, ciclos se esgotam e outros se aproximam. o prazo de validade da lua-de-mel de Lula com a opinião pública está perto de vencer...



[1] Vinicius Torres Freire, "Lula na inércia da história do Brasil", 25/03/2007
[2] Marcio Pochmann, "O silêncio dos cemitérios"
[3] Rubens Ometto, dono do grupo Cosan e de uma fortuna de US$ 2 bilhões, oitavo brasileiro mais rico e 488º do mundo, "o primeiro bilionário mundial do álcool", segundo a "Forbes", 26/03/2007
[4] George Soros (dono da Adeco e investidor de US$ 900 milhões na construção de usinas de cana-de-açúcar no Mato Grosso do Sul e Minas Gerais), em 23/03/2007
[5] Geraldo Majella, presidente da CNBB, 22/03/2007
[6] Luiz Felipe de Alencastro, sequenciasparisienses.blogspot.com
[7] arkx, “Lula II: o Homem-Presidência”
[8] Lula, 23/03/2007
[9] Clóvis Rossi, “20 anos não é nada”, 24/03/2007
[10] Roberto Mangabeira Unger, “Crescer sem dogma”, Folha de São Paulo, 13/03/2007
[11] Luis Nassif, “A desindustrialização em marcha”, 23/03/2007, luisnassif.blig.ig.com.br
[12] Francisco de Oliveira, “Crítica à razão dualista”

[13] arkx, “o adiamento de um vitória anunciada”, 14/09/2006
[14] arkx, “a terceira via”, 18/10/2006
[15] Lula, 13/03/2007

21 março 2007

heroísmos

"Os usineiros, que até seis anos atrás eram tidos como se fossem os bandidos do agronegócio neste país, estão virando heróis nacionais e mundiais porque todo mundo está de olho no álcool."

Lula

20/03/2007


durante inauguração de uma fábrica da Perdigão, indústria de criação e abate de aves, Lula não se conteve e explicou porque se ufana dos usineiros do álcool. os empresários do setor seriam verdadeiros heróis nacionais, e até mundiais. graças a eles o biocombustível, produzido da cana-de-açúcar, desponta como modelo de alternativa energética global. [1]

naquele mesmo dia, fiscais do Ministério Público do Trabalho encontraram numa fazenda no interior de São Paulo ao menos 90 trabalhadores rurais atuando no plantio da cana em condições consideradas "degradantes". os trabalhadores não dispunham de equipamentos de proteção e primeiros socorros, banheiro ou mesmo água potável. além disto, eram obrigados a pagar R$ 38 pela botina e mais R$ 13 pelo facão, equipamento que deve ser fornecido pelo empregador, conforme a legislação. a diária na fazenda é de R$ 14 por dia de trabalho. segundo o Ministério Público do Trabalho, essa condição precária é comum no interior de São Paulo. [2]

talvez Lula não tenha exagerado, já que o empresariado brasileiro demonstra um inesgotável heroísmo no que tange a erguer um patrimônio privado financiado por recursos públicos.


no caso da Perdigão, de um total de R$ 510 milhões em investimentos, apenas R$ 70 milhões são de recursos próprios. a maior parte é dinheiro público, sendo R$ 170 milhões financiados pelo BNDES e R$ 270 milhões vindos do FCO (Fundo Constitucional do Centro-Oeste) e do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador. [3]

ao longo de nossa história não faltam exemplos do heroísmo da elite brasileira:

fez a independência, mas manteve a escravidão; depois aboliu a escravidão, mas sem reforma agrária, sem escola pública, sem direitos trabalhistas, sem que os ex-escravos sequer tivessem direito à propriedade da terra; proclamou uma República que manteve as oligarquias no comando e o povo sob controle, sujeitado ao clientelismo, transformando o que deveria ser direito em favor; sempre procurou eliminar qualquer contra-elite e, quando alguma teve sucesso, foi capaz de levar ao suicídio o presidente Getúlio Vargas; apoiou, entusiasticamente, o regime autoritário enquanto este lhe serviu, para então passar a ser democrática, por conveniência; sob o rótulo autoritário ou democrata, ou defendendo o slogan do Estado-mínimo, sempre se apropriou dos recursos públicos de forma desbragada e despudorada; aspira a desfrutar de padrão de vida internacional e ter mão-de-obra doméstica ultrabarata; tem como meta continuar a ganhar o máximo possível no Brasil, transferindo para o exterior uma boa parte da riqueza aqui auferida, para manter sempre aberta a possibilidade de se converter em seres internacionais, sem nenhuma responsabilidade pelo que acontece no Brasil. [4]

entre seus heroísmos recentes está a criação do mito da "âncora verde" do agronegócio, que seria responsável pela maior parte das divisas internacionais do Brasil, com uma participação significativa no PIB nacional. tal feito heróico é resultado da manipulação de se inserir no denominado PIB do agronegócio a parte correspondente à indústria e também os supermercados, inflando os dados. [5]

o crescente direcionamento da produção para a exportação ou para a agricultura energética corresponde ao desinteresse na produção de alimentos para abastecer o mercado interno. o volume da produção de arroz, feijão e mandioca, os três principais alimentos da população pobre desse país, não teve nenhum crescimento desde 1992.
[6]


o tradicional atraso da elite brasileira em produzir sempre esteve acoplado com a sua modernidade no consumir. [7]

São Paulo produz quase dois terços do álcool e do açúcar do país. a cana ocupa mais da metade das lavouras do Estado. além do risco da monocultura, em pelo menos 2,5 milhões de hectares (10% do território paulista) as colheitas são realizadas mediante queimadas. é uma aberração ecológica e um atentado à saúde das pessoas. [8]

enquanto Lula exalta seus novos heróis, verdadeiro heroísmo é conseguir sobreviver nas condições de trabalho dos canaviais.

transportado ao campo em ônibus sem freio, retrovisor e autorização para trafegar, o diarista Ezequiel Antônio de Araújo foi obrigado a prosseguir trabalhando sob o sol após ter cortado a mão com o facão. "Disseram que não iriam gastar combustível para me levar ao hospital", afirmou ele. desde 2004, 17 bóias-frias morreram no interior do estado de São Paulo. a suspeita é que as mortes ocorreram por excesso de esforço no corte da cana. [9]

poderosos movimentos históricos podem forjar heróis. homens nascidos na pobreza são capazes de derrotar o risco crônico da morte prematura na infância; vencer a humilhação e a desesperança na idade adulta; cumprir a longa jornada de um retirante nordestino desde a imigração num pau-de-arara até subir a rampa do Planalto. homens comuns são levados a condição de heróis. ainda assim, entretanto, são apenas um humilde instrumento, expressão de um projeto coletivo. [10]

entregar-se abertamente a este destino inexorável é o único heroísmo que importa. é o que converte governantes em estadistas. é o que permite um simples homem mover a história de um povo e de uma nação.



[1] Rubens Valente, Folha de São Paulo, 21/03/2007
[2] Maurício Simionato, Folha de São Paulo, 21/03/2007
[3] Rubens Valente, Folha de São Paulo, 21/03/2007
[4] Carlos Lessa, discurso após ser demitido do BNDES por Lula, 19/11/2004
[5] Ariovaldo Umbelino, entrevista ao Correio da Cidadania
[6] Ariovaldo Umbelino, entrevista ao Correio da Cidadania
[7] Carlos Lessa, "A inferioridade brasileira, uma conveniente convicção da elite"
[8] José Serra, "O etanol e o futuro"
[9] Maurício Simionato, Folha de São Paulo, 21/03/2007
[10] Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007

17 março 2007

velhos odres

o indicado para assumir o Ministério da Agricultura no segundo governo de Lula, deputado Odílio Balbinotti (PMDB-PR), maior produtor de sementes de soja do Brasil, responde a inquérito sigiloso, no Supremo Tribunal Federal, por crime contra a fé pública e falsidade ideológica. além disto, a Procuradoria da Fazenda Nacional iniciou cobrança judicial contra ele e abriu processo para inscrevê-lo na Dívida Ativa da União. também foi multado pela Receita Federal por causa de impostos atrasados e o INSS move contra ele três ações de execução fiscal. [1]

Balbinotti, que chegou à Câmara em 1995, emprega em seu gabinete um cunhado e uma cunhada. em 12 anos de legislatura, apresentou apenas dois projetos, nenhum deles aprovado. entre as eleições de 2002 e 2006, seu patrimônio registrou um salto de 2.151%. é dono da segunda maior fortuna declarada da Câmara – R$ 123,8 milhões. e tem um dos mais altos índices de faltas as sessões de votação. [2]

quando Tomé de Sousa aportou no Brasil em 1549, para assumir o cargo de
governador-geral, trouxe um Código Regimental de Governo e vieram em sua comitiva o Ouvidor-Mor, o Provedor-Mor, membros do clero e tropas armadas. entretanto, não desembarcaram das caravelas os colonos para povoar nossas imensas terras férteis e verdejantes.


das populações indígenas, tornadas estrangeiras em sua própria terra, não era possível pilhar riquezas acumuladas, tampouco extorquir tributos, nem com elas estabelecer um comércio desigual.


o Brasil se formou pelo avesso. teve Coroa antes de ter Povo. teve Estado antes de ser Nação. fomos obra de inversão.
[3]


não fomos constituídos como nação, nem mesmo como sociedade. surgimos como uma empresa territorial voltada para fora e controlada de fora.
[4] a implantação portuguesa na América teve como base a empresa agrícola-comercial. o Brasil é o único país das Américas criado, desde o início, pelo capitalismo comercial sob a forma de empresa agrícola. [5]

organizou-se uma holding multinacional, com administração portuguesa, capitais holandeses e venezianos, mão-de-obra indígena e africana, tecnologia desenvolvida em Chipre e matéria-prima dos Açores e da ilha da Madeira – a cana. em torno do excelente negócio do açúcar, a primeira mercadoria de consumo de massas em escala planetária, se formou o moderno mercado mundial. [6]

a organização da empresa agrária voltada para exportação, buscando o lucro fácil e imediato, resultado do modelo de colonização implantado, fez com que a atividade agrícola se efetuasse de modo quase extrativo, com total desleixo pela terra, buscando exclusivamente a total exploração, sem qualquer planejamento de longo prazo. [7]

em perspectiva histórica, a organização da agricultura brasileira é marcada por um elemento invariante, que se mantém até os dias de hoje: o sistema de privilégios concedidos à empresa agro-mercantil, instrumento de ocupação econômica da América Portuguesa. [8]


constituiu-se no Brasil um Estado caracterizado pela apropriação do público para interesses privados, em que um grupo social impera, rege e governa, em nome próprio, num círculo impermeável de comando. [9]


assim tem sido os nossos eldorados. a procissão dos milagres há de continuar assim através de todo o período colonial, e não a interromperá a Independência, sequer, ou a República. [10]


nascida
no berço esplêndido das velhas classes dominantes, a burguesa brasileira surge das entranhas do complexo cafeeiro, sem nunca escapar da sina de ser caudatária e agregada ao latifúndio. essa origem servil marcará o desenvolvimento capitalista no Brasil. os respectivos interesses, da burguesia e do latifúndio, se entrelaçam e se completam no decorrer de nossa história. [11]

com a modernização do latifúndio, sob a forma do agronegócio, os antigos latifundiários se transformam numa das frações da burguesia, enquanto os demais setores burgueses se tornam sócios do latifúndio, convertido em sesmarias capitalistas, através do uso de modernos meios de produção. a selvagem industrialização do campo expropria moradores, agregados, rendeiros, foreiros, parceiros, arrendantes e meeiros, criando-se um vasto exército industrial de reserva, miserável e favelado. [12]

o modelo agrícola do agronegócio é orientado para gerar dólares através de produtos que atendem ao mercado externo, por isso não produz comida, empregos e justiça social. em virtude da concentração da propriedade da terra, apenas 14% da área cultivável brasileira é utilizada. o agronegócio ocupa 75% da área cultivada, as melhores terras, para produzir soja, algodão, cacau, laranja, café, cana-de-açúcar e eucalipto. [13]

o Brasil do agronegócio tem que importar arroz, feijão, milho, trigo e leite (alimentos básicos dos trabalhadores brasileiros). e também soja em grãos, farelo e óleo de soja, algodão em pluma, matérias-primas industriais de larga possibilidade de produção no próprio país. [14]

a civilização brasileira chama-se Veleidade, sombra coada entre sombras. é uma "monstruosidade social", engendrada por instituições anacrônicas as quais haurem sua longevidade do veneno, que as alimenta e corrompe o vinho novo, incapaz assim de fermentar. as velhas caldeiras, a fim de que se expanda a pressão, hão de romper-se e fragmentar-se em mil peças disformes. a explosão há de ser total e profunda e os velhos odres devem ser abandonados. [15]


por causa das denúncias, Lula pediu 48 horas para decidir sobre a confirmação de Balbinotti como Ministro da Agricultura. Balbinotti, por sua vez, declarou estar "triste, chateado e magoado". as entidades, associações e demais empresários ligados ao agronegócio ainda não se manifestaram.




[1] Leonardo Souza, Folha de São Paulo, 17/03/2007
[2] Ranier Bragon e Fábio Zanini, Folha de São Paulo, 16/03/2007
[3] Alceu Amoroso Lima, "À margem da História do Brasil – Inquérito por escritores da geração nascida com a República"
[4]
Caio Prado Jr, "A formação do Brasil contemporâneo"
[5]
Celso Furtado, "Análise do Modelo Brasileiro"
[6] César Benjamin, "Uma certa idéia de Brasil"
[7] Sérgio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil
[8] Celso Furtado, "Análise do Modelo Brasileiro"
[9] Raymundo Faoro, "Os donos do poder"
[10] Sérgio Buarque de Holanda, "Visão do Paraíso"
[11] Wladimir Pomar, "Um mundo a ganhar"
[12] Wladimir Pomar, "A nova estirpe burguesa"
[13] João Pedro Stedile, "Brasil: A quem interessa o modelo agrícola do agronegócio"
[14] Ariovaldo Umbelino de Oliveira, "Os mitos sobre o agronegócio no Brasil "
[15] Raymundo Faoro, "O estamento burocrático no Brasil: consequências e esperanças"

14 março 2007

o que precisamos

uma criança de apenas um ano e meio foi estuprada, estrangulada e abandonada dentro da pia batismal de uma igreja. na reconstituição do crime, uma agente de trânsito teve uma crise nervosa e, chorando desesperadamente, arrancou a arma de um policial e disparou contra o próprio peito.

quatro homens desceram de um carro na frente de uma escola e atiraram em direção a um grupo de alunos, matando um deles e ferindo outros oito, sendo três em estado grave. nenhuma das vítimas tem registro de passagem pela polícia.

após 25 anos de medíocre crescimento econômico, o tecido social do país se deteriora a ponto de se multiplicarem, de forma descontrolada, os casos de violência gratuita.

os crimes bárbaros têm sua contraparte: o brutal desemprego. são irmãos siameses, nascidos de uma política econômica responsável por interromper a construção do desenvolvimento nacional.

dos empregos criados a partir de 2000, 64% pagam até um salário mínimo; 85% até um salário mínimo e meio; e nenhum emprego foi gerado a partir de três salários mínimos. [1]

somos hoje um país de faxineiras, motoboys, vigilantes, balconistas...

se para classes dominantes brasileiras a explosão da miséria se resolve com a redução da taxa de natalidade dos miseráveis [2], nada mais natural que virar pelo avesso a questão social, tratando-a como caso de polícia, a ser combatida com suplícios e presídios, a fim de “restabelecer no país inteiro o império da lei”. [3]

desvinculadas dos compromissos com o país e a sociedade [4] e dependentes da rentabilidade dos juros da dívida interna para manterem sua posição de classe [5], as elites só concebem como deboche ser “nos campos da pobreza que os canteiros da violência vicejam com especial intensidade, adubados pela falta de dinheiro, de comida, de trabalho regular, de estudos, de esperança”. [6]

nossos ricos desfrutam de um padrão de vida equivalente aos ricos dos países mais ricos, mesmo que para isto nossos pobres estejam relegados ao padrão dos pobres dos países mais pobres. [7]

a cada vez que o processo histórico desemboca numa crise, impondo a necessidade de mudanças, se restabelece no Brasil um acordo de cúpula, pactuado pelas elites, e a mudança se reduz a um rearranjo que tudo muda para que nada fique diferente. [8]

nossa história tem sido uma sucessão de modernizações conservadoras e transições tuteladas, sem jamais incluir no "pacto democrático" as classes trabalhadoras [9], o que nos mantém aprisionados entre dois mundos: um definitivamente morto e outro que luta por vir à luz. [10]

então, qual a enorme vantagem em se postergar ajustes nos juros e no câmbio, paralisados pelo pânico de uma reação desestabilizadora por parte das forças e interesses dos mercados, e aguardar, em espera paciente, a instauração de um consenso abrangente e duradouro? [11]

enganam-se os que julgaram ser a primeira eleição de Lula um parêntesis histórico. a população brasileira reafirmou modo inequívoco que não precisa nem admite tutela de nenhuma espécie para fazer a sua escolha. a vontade de mudança - que esteve reprimida por décadas, séculos - expressou-se mais uma vez pacificamente, democraticamente. [12]

quanto mais se postergar o inevitável, quanto mais se adiar o já exasperante parto daquilo que luta por nascer, então o verbo mudar será conjugado em toda sua ênfase [13] e desencadeará consequências imprevisíveis.

talvez Deus seja mesmo brasileiro. por isto tem sido tão generoso conosco. mais do que merecemos. mesmo se Dele não recebemos nada do que pedimos, ainda assim nos enviou tudo que precisamos. [14]

e o que precisamos é reabrir as portas do futuro que merecemos. [15]



[1] Sonia Rocha
[2] Olavo Setúbal, 13/08/2006
[3] Augusto Nunes, “O avesso do avesso”, Jornal do Brasil, 13/03/2007
[4] Marcio Pochmann, “A secessão dos ricos”.
[5] Marcelo O. Dantas, “O projeto da recessão perpétua”, Folha de São Paulo, 14/03/2007
[6] Augusto Nunes, “O avesso do avesso”, Jornal do Brasil, 13/03/2007
[7] Sérgio Buarque de Holanda
[8] Raymundo Faoro, “Existe um pensamento político brasileiro?”
[9] Maria da Conceição Tavares, “Política e economia na formação do Brasil contemporâneo”
[10] Sérgio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil”
[11] Roberto Mangabeira Unger, “Crescer sem dogma”, Folha de São Paulo, 13/03/2007
[12] Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007
[13] Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007
[14] Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007
[15] arkx, o que merecemos

05 março 2007

o que merecemos

(a partir de entrevista com
Fabio Giambiagi, publicada em 03/03/2007, na Folha de São Paulo)


talvez o Brasil não cresça porque não mereça.

talvez sejamos mesmo um povo de índole corrompida, sem caráter, padecendo no calor dos trópicos de triste sina, irremediavelmente inscrita pela mestiçagem em nossos genes, sem que jamais sejamos capazes de superar nossa preguiça e atraso ancestrais.

talvez as correntes aprisionando nossa economia sejam mesmo as despesas com a previdência e os gastos sociais, e por causa da Constituição de 1988 nos tornamos cidadãos de mentalidade indolente, espírito acomodado e satisfeitos em depender do Estado.

talvez... talvez...


se assim for, como então conseguimos ser, até 1980, a economia mais dinâmica do mundo, dobrando o PIB cinco vezes seguidas em cinqüenta anos ?

o descontrole do endividamento do Estado veio após o Plano Real (1994), com a dívida interna disparando de 7% do PIB em 1993, para 13% em 1994, até chegar aos 50% em 2006. apesar de sucessivos superávits primários, desde 1994, a taxa de juros reais se manteve a mais alta do mundo.

somos mesmo merecedores de rastejar pela terceira década perdida ? será que não passamos de mero acidente geográfico e nunca seremos uma nação ?

nosso maior problema é aceitar os chavões feitos para nos apequenar, nos induzindo a crer que somos inferiores, para que aceitemos docilmente a subordinação, fazendo com que nunca tenha sido tão grande a distância entre o que nos tornamos e o que deveríamos ser.

já houve época, no inicio do século XX, em que não podíamos crescer por causa do determinismo geográfico e racial. diziam que o desenvolvimento só era possível nos climas frios e por obra de grupos étnicos superiores.

então, ousamos inaugurar, de forma inédita, o que nunca se fizera nessas latitudes. antecipando-nos a uma teoria econômica que naquele tempo ainda não se formulara, aplicamos inovadoras políticas anticíclicas para superar a crise de 1929. a fortuna acumulada com a monocultura cafeeira é reciclada, redirecionando a poupança para financiar o desenvolvimento industrial. deixamos de ser uma colônia agrária para chegarmos a condição de oitava economia do mundo.

foi quando descobrimos o vigor de nossa cultura sincrética, que mulatos, cafuzos e mamelucos geraram nas fissuras entre a casa grande e a senzala; foi quando as massas urbanas entraram em cena para fazer com que o homem cordial começasse a se transformar em cidadão; foi quando já não bastava a parceria coadjuvante na empresa colonial e aspiramos a desenvolver um projeto de nação.

foi quando o país abriu as portas do futuro que merecemos.

durante o período agrário-exportador (até 1930) e a industrialização (1930/80), as classes dominantes mantinham alguma forma de interação local com os trabalhadores, mesmo se na condição de escravos. após 1980, com a hegemonia do capital financeiro globalizado, nossas elites se desvincularam por completo dos compromissos com o país e a população.

no circuito integrado e volátil das operações instantâneas em mercados apátridas, nação, trabalho e trabalhador estão obsoletos. o lucro prescinde da produção e do consumo, graças à rentabilidade diária e sem risco de investimentos garantidos pelo Estado. a sociedade inteira foi aprisionada num processo autofágico, uma espécie de buraco negro, em que tudo e todos estão submetidos à voracidade ilimitada do capital financeiro.

foi quando deixamos de ser um país para nos reduzirmos a mercado emergente... foi quando voltou a ser motivo de orgulho nos envergonharmos de nós mesmos... foi quanto uma cultura ornamental, estéril, vulgar e plagiaria em todos os sentidos passou a nos impor a idéia de que merecemos a humilhação e a miséria...

foi quando abdicamos de nossa grandeza...

nós não merecemos isto...

02 março 2007

honra ao mérito

apesar da projeção do BC ter sido 4%, a economia brasileira cresceu apenas 2,9% em 2006.

mesmo com a inflação (3,14%) muito abaixo meta (4,5%), o Copom vem mantendo os juros (13%) na maior taxa real do mundo.

no primeiro mandato de Lula, a expansão média do PIB foi de 2,6% ao ano, se igualando a mediocridade dos quatro primeiros anos de FHC.

cerca de 40% dos trabalhadores Brasileiros estão sem emprego ou subempregados. 27% da população entre os 15 e 25 anos não trabalha nem estuda.

poderia haver crime mais hediondo ?

enquanto Henrique Meirelles prossegue defendendo "parcimônia" na queda dos juros, Lula não se furta a declarar: "a área econômica está blindada pelo sucesso".

o que eles merecem ?

dias antes da divulgação do PIB de 2006, um assassinato brutal provoca comoção e deixa o país revoltado.

João Hélio Fernandes, 6 anos, foi morto após ser arrastado por 7 quilômetros, preso ao cinto de segurança, do lado de fora do carro que os criminosos roubaram de sua mãe. mesmo sendo avisados por motociclistas, os assaltantes prosseguiram dirigindo em ziguezague, tentando se livrar do garoto. a criança quicava no asfalto e teve sua cabeça arrancada.

a grande mídia dedicou total cobertura ao caso, chegando a ponto de literalmente incitar a vingança, na primeira página e em horário nobre. jamais houve tamanho fervor e determinação nos meios de comunicação para se combater a política econômica.

os grandes empresários deveriam ser os primeiros a se opor, de forma enérgica e constante, a cada dia, numa luta incessante contra as atuais taxas de juros e de câmbio, que asfixiam a produção, derrubam o faturamento e acabam com a competitividade externa. entretanto, se escondem num silêncio servil de cínica cumplicidade.

o que eles merecem ?

01 março 2007

pela paz

as grandes cidades Brasileiras não estão só dominadas pela violência, o subjacente é o tráfico: a droga.


seja em qual de suas formas, a droga já penetrou em todos os poros e camadas do tecido social, invadiu todos os lares, desestabilizou todos os relacionamentos, violou todos os corpos. contaminou a tudo. e ninguém está imune.


somos uma população drogada, refém do vício. em cada esquina, um grupo se reúne em torno de algumas garrafas de cerveja. um gole. uma dose. um tapa. um teco. just in time.


prozac, viagra, calmantes, remédios prá dormir, emagrecer...

narcóticos. narcotráfico. drogas legais. farmácias. muitas farmácias...


assim como todos são contra a criminalidade e pela paz, é também incessante o movimento nas bocas-de-fumo.


dependentes químicos anseiam por comprar saúde, enquanto apenas financiam morbidamente a indústria farmacêutica transnacional.


o desejo, tal como deseja a vida, também deseja a morte.


os homens se rendem tão intensa e voluntariamente à servidão, que não lhes basta a querer apenas para si, precisam também a impor para os outros.


como fazer para se ter paz ?


quantas vinganças implacáveis ? quantos olhos e quantos dentes arrancados com as próprias mãos ? quantas punições exemplares ? as mais demoradas, as mais sofridas. quantos linchamentos ? quantas execuções ? quantos cadáveres ?


o que é preciso para se ter paz ?


quantos policiais ? quantos presídios de segurança máxima ? quantas câmeras de vigilância ? quanta escuta telefônica ? quanta perda de privacidade ?


como se reencontrar com a paz ? em qual refúgio ? atrás de que grades ? de qual muro ? com que blindagem se protegeu a paz ? quais códigos e leis a regulamentam ? quanto custa a paz ? onde se vende ? como se compra ?


e já tivemos, por acaso, algum dia a paz ?


e haverá paz algum dia nesta terra de tanta injustiça ?

há paz sem justiça ?

25 fevereiro 2007

demasiado humano

(sobre “Razão e Sensibilidade”, de Roberto Janine Ribeiro, publicado na Folha de São Paulo, em 18/02/2007)

por vezes, o puro horror cotidiano dos que vivem nas periferias e nas favelas conflagradas atinge o circo da mídia e alimenta a sede de sangue do público.

casos emblemáticos levam os bem pensantes a questionarem duas ou três coisas em suas más consciências.

é o momento em que a hipócrita pretensão de virtude se dissolve em rancor e vingança. paladinos da justiça resgatam os mais infames suplícios medievais, a fim de que a morte seja pouco e a paga demorada e sofrida.

a barbaridade merecedora de incontida indignação e revolta deveria ser o dia a dia do Brasileiro pobre e humilde, entregue a si próprio.


certos economistas e filósofos precisam conversar com as balconistas, os trabalhadores rurais, as faxineiras, os vendedores ambulantes, a multidão que vaga pelas ruas em busca de trabalho, nem mais de emprego. aqueles que padecem a vida como se fosse uma pena, “uma paga de modo demorado e sofrido”.

o que nos falta é colocar os pés no solo de nossa pátria. abandonar os gabinetes. ficar ombro a ombro com nossa gente. sair para as ruas. mas esse pessoal tem asco do cheiro do povo...

não que o “cheiro do povo” seja agradável. nem um pouco... como não é também nada agradável a vida além dos corredores palacianos.

talvez nosso maior problema esteja, enquanto país e população, em não sabermos o que é de fato “violência”. alguns tiros nas ruas, criminalidade descontrolada e insegurança pública viram “guerra”.

somos um povo que não teve sua têmpera forjada pela bestialidade sem propósito da guerra.

não temos, tampouco nossos pais, ou avós, assim como bisavós, qualquer convivência com o fedor nauseante de carne queimada e das poças de sangue. nunca tivemos que empilhar centenas, e milhares, de corpos nas ruas. atear fogo nos cadáveres de nossas mães, de nossos filhos, da mulher que amamos.

apesar de nosso sofrimento na humilhação do cotidiano, da brutal criminalidade, não passamos ainda, enquanto nação, por uma experiência coletiva de violência real. sofremos sozinhos, cada qual em seu canto com sua dor, mas não em conjunto.

não tivemos guerras, tampouco catástrofes naturais, para conferir a real dimensão do que é ser “vítima” de violência. por isto somos tão imaturos e levianos e desconhecemos também o sentido pleno do que seja “solidariedade”.

a imensa parte dos defensores da tortura, da pena de morte e de uma "paga sofrida e demorada" seria capaz de, com as próprias mãos, executar o que propõe ?

costumam ser daqueles que tem nojo de trocar as fraldas dos filhos; não pisam no barro do chão para não “sujarem” os pés; passam mal ao doar sangue; no parto das crianças; sequer imaginar limpar uma latrina provoca ânsias de vômito; jamais mataram uma galinha, um coelho...

como reagiriam ao encarar a vítima nos olhos e, sem misericórdia, desfechar o golpe fatal ? ou lentamente arrancarem unhas, esmagarem testículos, vazarem olhos ?

bem verdade que da primeira vez é tudo muito mais difícil. depois se pega o jeito. e os monstros que habitam nos subterrâneos da alma de cada um de nós estão livres para saciarem sua fúria.

muito conveniente é concluir que “os nazistas foram culpados do que fizeram” e que “optaram pelo mal”. incomoda, porém, admitir que as massas não foram enganadas. as massas desejaram o fascismo.

afinal, o que poderia ser mais humano, demasiadamente humano, do que nossa longa história de bípedes implumes, predadores compulsivos, espalhando gratuitamente o terror pela face da Terra, destruindo a natureza, escravizando os animais e nos dilacerando uns aos outros...

25 janeiro 2007

0,25%

o modo como a mídia em geral se refere ao assim chamado "mercado" dá a entender tratar-se de uma entidade abstrata.

"mercado" em termos de Brasil tem nome e CNPJ: são os bancos e alguns grandes investidores. cerca de 1/3 dos ativos dos bancos estão aplicados em títulos públicos federais. as grandes assets (fundos de investimentos) são ligadas aos bancos. a maior parte dos recursos administrados são de fundos exclusivos.

o mercado de capitais brasileiro, como todo o resto de nossa economia, é altamente concentrado. o volume de negócios operado na Bolsa é pouco relevante frente às aplicações em renda fixa.

as afirmações que todo o "mercado" já esperava um corte de 0,25% na taxa básica dos juros, em nada mais implica do que os negócios efetuados no mercado futuro de contratos de DI trabalharem com esta expectativa. o Copom tem se limitado a atender a preferência dos investidores.

o tão reverenciado "mercado" é o sistema financeiro vivendo de subsídio governamental - a Selic - enquanto seus porta-vozes defendem corte de gastos com previdência, educação, saúde, infraestrutura.

não se trata de teoria, ortodoxia, econometrias, monetarismo, Smith ou Friedman. são apenas interesses econômicos. manter girando a máquina da arbitragem de juros às custas da estagnação e do desemprego.

existe sim uma grande reforma a ser feita: a do sistema financeiro. para que os bancos voltem a sua atividade fim: financiar a produção e o consumo, fomentando o crescimento econômico.

o Brasil ainda tem a possibilidade de reencontrar seu caminho de forma não traumática. o próprio PAC é um bom exemplo disto.

acabou-se o tempo de tão somente paciência e persistência. sem renegá-las, chegou o momento de ousadia, coragem e criatividade para abrir novos caminhos. chegou a hora de conjugar, em sua forma mais afirmativa, o verbo mudar.

05 novembro 2006


por bem, ou por mal

apesar da consagradora reeleição, Lula só completou seu primeiro mandato em virtude de um erro estratégico da oposição conservadora.

em agosto de 2005, quando o publicitário Duda Mendonça confessou ter recebido de caixa dois no exterior pela campanha presidencial de 2002, a vantagem de Lula sobre seu adversário do PSDB chegou a apenas dez pontos. em dezembro, empataram. então, Lula descera a mais baixa taxa de aprovação a seu governo (28%), com a mais alta reprovação (29%).

enquanto a cúpula do PT desmoronava, deputados do partido choravam descontrolados no plenário e ministros sugeriam a Lula renunciar, PFL e PSDB optaram por fazer o Presidente sangrar até as eleições.

para a oposição conservadora, assumir o processo de impeachment era também enfrentar seus próprios cadáveres no armário. o governo do PT não cairia sozinho, arrastaria junto, em seu abraço de afogado, os “obscuros negócios“ das privatizações de FHC. nem o PT ou o PSDB, e muito menos o PFL, tem o menor interesse numa operação “Mãos Limpas“ no Brasil.

as urnas não concedem a Lula, junto com o segundo mandato, anistia pelos erros de seu Governo. ao contrário, o resultado do primeiro turno foi uma indicação incisiva da necessidade de mudança. mesmo o recorde de avaliação positiva (52%), alcançado ao final das eleições, foi muito mais uma demonstração de apoio político, num contexto de ataque cerrado a sua candidatura pelas elites, que endosso incondicional a um governo de “aloprados“.

Lula terá os cem primeiros dias de seu segundo mandato para promover uma inflexão na política econômica. chegou a um impasse a renovação do acordo entre o Bolsa Família e a Selic Banqueiro.

as medidas compensatórias do primeiro governo são incompatíveis com o ajuste fiscal perpétuo exigido pelo Mercado. muito embora todas as benesses recebidas, as elites deram prova, durante a campanha eleitoral, que, para derrubar Lula, não precisam exatamente de motivos, qualquer pretexto lhes serve.

por outro lado, as camadas populares que passaram a desfrutar de um maior acesso ao consumo e à política já não podem mais ser ignoradas. a classe média sinalizou ter chegado ao limite do asfixiamento e da condescendência com os escândalos. com o medíocre crescimento da economia, está esgotada a margem de ampliação do arrocho tributário.

no início de seu primeiro mandato, a justificativa para postergar a mudança da política econômica foi a “herança maldita“ de FHC. agora Lula se vangloria de estarem dadas todas as condições para o país voltar a crescer.

a continuidade no mesmo rumo econômico produzirá efeitos ainda mais graves do que anteriormente. o alto desemprego crônico deixará em frangalhos a base social do governo. com a manutenção da fórmula política surgirão novos escândalos. o apoio popular a Lula refluirá e a oposição não repetirá seus erros.

no auge da crise do “mensalão“, quando tudo e todos pareciam perdidos, foi de Lula a decisão de resistir. desta vez, contudo, qualquer resistência será vã.

Lula está condenado a entrar para a História. por bem, ou por mal...

31 outubro 2006

a era Palocci

no Ministério da Fazenda, Palocci teve uma atuação inquestionável, exercendo com absoluto brilhantismo seu profundo desconhecimento de economia.

como líder de "uma equipe de excelência e eficiência técnica, totalmente voltada para o interesse público", conduziu o país a uma memorável façanha, que só não foi completa porque o Haiti defendeu com êxito o posto de último lugar em crescimento econômico na América Latina, no ano de 2005.

seu desempenho como médico no comando da economia só é comparável ao de um economista chefiando uma cirurgia.

Palocci manteve a economia Brasileira paralisada sob a ortodoxia convencional: taxa juros real alta, câmbio valorizado, superávit primário. resultado previsível: o ganho com a inflação sob controle foi anulado por crescimento medíocre, elevado desemprego e aumento da carga tributária.

numa metáfora médica: o medicamento ministrado não deixa o doente morrer, tampouco permite que saia da UTI... os mercados foram pacificados às custas da economia ser mantida com a estabilidade dos necrotérios.

graças à “era Palocci”, Lula pode admitir, com certa dose de orgulho, que jamais banqueiros e grandes empresários ganharam tanto dinheiro quanto em seu governo. já os votos, foram para seu adversário.

se os investimentos de Lula junto à elite não retornaram a rentabilidade eleitoral esperada, as camadas populares, porém, não retribuíram afagos com ingratidão. o custo da cesta básica em queda, o aumento do salário mínimo e um maior acesso ao consumo proporcionaram a Lula uma esmagadora maioria no eleitorado de baixa renda.

a herança de Lula para si próprio é um pacto maldito entre a Casa Grande e a Senzala, entre os bancos e os grotões, entre as forças do mercado e as favelas. para uns distribui juros, enquanto perpetua a miséria dos outros com políticas compensatórias.

excluída da aliança paradoxal dos mais ricos com os mais pobres, a classe média é a principal vítima da “era Palocci”. desde o milagre brasileiro na década de 70, a participação dos salários no PIB caiu de 50% para os atuais 27%.

com sua renda encolhida em 12% nos últimos quatro anos, a classe média foi o pêndulo das eleições de 2006. mandou um incisivo recado a Lula ao forçar o segundo turno, para, então, reafirmar seu repúdio à política econômica da “era Palocci”, legado de FHC.

tanto sob o aspecto político quanto o econômico, o modelo chegou ao seu limite. por fadiga de material, esgotou-se a capacidade de reciclagem do acordo entre o Copom e o Bolsa Família. mesmo o tempero de uma tímida distribuição de renda bancada pelo Estado não é compatível com o ajuste fiscal perene exigido pelo liberalismo sem meias medidas.

já não há como sustentar a manutenção dos programas sociais, ainda mais transferência pontual de renda via aumento de salário mínimo, sem a retomada do desenvolvimento, o que pressupõe mudanças macroeconômicas: queda dos juros e mudança no câmbio.

embora choque de gestão seja necessário para melhorar qualidade do funcionamento da máquina estatal, seu impacto no total de gastos públicos, considerando juros da dívida, é insuficiente. algo como cortar cabelos para perder peso.

inviável expandir ainda mais a carga tributária. novas reformas neoliberais (previdência, trabalho) e privatizações ficam descartadas após a inflexão política do segundo turno.

para arrecadar mais e gastar menos, resta como única opção o Estado alavancar o desenvolvimento com distribuição de renda. a própria lógica interna do modelo levou-o a um beco sem saída: nem viabilidade econômica tampouco apoio político.

seja de um jeito ou de outro (aliás, em Ribeirão Preto está aberta a porta da cela) não resta dúvida: acabou-se a “era Palocci”.

29 outubro 2006



mensagem

era incerto, derradeiro
estava disperso, não era inteiro
se dissipa o nevoeiro

a hora é agora!

28 outubro 2006

aniversário

27/10/2006. no dia de seu aniversário, que melhor presente poderia Luiz Inácio desejar?

as pesquisas apontavam que ele abrira uma dianteira de mais de 20 pontos sobre seu adversário. ao soprar as 61 velinhas já poderia comemorar antecipado a realização de seu pedido. a faixa do segundo mandato estava ao alcance da mão.

para aquela noite se esperava, no último debate das eleições, uma exibição de afável bom-humor do vencedor magnânimo. mesmo se Alckmin ressuscitasse alguma vocação de guerreiro, não valia a pena Lula aceitar provocação e chutar uma candidatura morta.

havia mesmo a expectativa que, no melhor estilo “paz e amor”, Lula lançaria, no clímax do debate, um apelo conciliatório à oposição.

entretanto, como nos velhos tempos das greves de metalúrgico, naquele dia Lula não estava bom.

muito embora Alckmin mantivesse todo o tempo sua inofensiva postura leguminosa, Lula o golpeou com tanta agressividade, não dispensando inclusive o contato físico, que faltou muito pouco para uma intervenção do mediador a fim de evitar as vias de fato.

ao invés de sorrisos de um feliz aniversário, uma carrancuda irritação. o Presidente-candidato contrariou todas as boas-maneiras do marketing político. deixando de lado o manual do politicamente correto, extravasa espontaneidade e emoções. não que passasse descontrole, e sim um total desinteresse em reprimir a tensão.

com sua atitude, Lula desdenha por completo as consequências eleitorais. já não é o voto que importa. algo o perturbava, mas nada tinha a ver com a certeza da vitória.

quem poderá dizer o que vai no coração de um homem?

talvez Lula já se sentisse à distância, e que distância, sobrevivendo a si mesmo, sem saber como ter esperança, ao se ver, enfim, com uma nitidez que cega, como foi no tempo em que festejavam o dia dos seus anos.

como parar um coração? para que não pense. como fazer para que não vendam a casa? e que os dias não se somem... e que já não se faça anos...

quem sabe Lula apenas pensasse em quando não mais festejarem os dias dos seus anos. mais nada...

26 outubro 2006

Lula II: o Homem-Presidência

a reeleição de Lula o colocará numa situação absolutamente singular.

ele não se descolou somente do PT, move-se através da estrutura partidária e acima do sistema político com a desenvoltura de um mito.

lastreado na própria imagem e popularidade, Lula enfrenta, nesta eleição, um poderoso arco de forças, ao qual está impondo uma derrota arrasadora. não terá qualquer obrigação de compartilhar os créditos da vitória com quase ninguém. “quase”, porque sempre é bom prestar alguma satisfação ao eleitor.

o quebra-cabeça político do segundo mandato está sendo montado por inteiro, e com exclusividade, na mente de Lula. nunca um Presidente se elegerá com tanta autonomia para ditar os rumos de seu governo.

caso seja consagrado pelas urnas da reeleição, que outra glória mundana poderia cobiçar aquele antigo retirante nordestino, filho de Dona Lindu? alguma outra fortuna? ainda mais prestígio? envelhecer calmamente, orgulhoso e impenitente?

o surgimento de Lula II será um momento crítico na biografia de Luiz Inácio da Silva. do ponto de vista das ambições pessoais, seu currículo estará completo, mas à sua frente estará se abrindo uma nova perspectiva.

caberá a Lula decidir se aceita o desafio que lhe será lançado: iniciar a contagem regressiva para uma confortável aposentadoria política, ou abraçar sua definitiva oportunidade de entrar para a História.

24 outubro 2006

uma nova chance

mesmo todo coberto com a lama dos sucessivos escândalos, nada parece deter a marcha triunfal de Lula em direção ao segundo mandato.

a perspectiva de uma votação acachapante conduz ao retorno do contexto da vitória de 2002.

então, havia júbilo no ar. furando o asfalto, o tédio, o nojo, o ódio e o medo, brotava a Rosa do Povo.

antes mesmo de tomar posse, porém, Lula-lá vai a Washington para selar, num aperto de mão com Bush, a nomeação de um banqueiro como presidente do BC. apesar das mil flores nas ruas, mais uma vez se adiava a chegada da primavera...

o temor às “forças do mercado” derrotara a esperança de uma inteira nação. antes de sequer ousar lutar, Lulinha paz e amor preferiu sucumbir voluntariamente, dando continuidade à maldita política econômica herdada de FHC.

agora, a espiral do tempo completa mais uma volta, trazendo Lula de novo ao mesmo ponto em que, da primeira vez, rejeitara o chamado da História.

já não há festa. o voto é desanimado. muito mais contra o PSDB que de aprovação ao Presidente-candidato. o eleitorado associa Alckmin a FHC e se identifica com Lula. entre os dois governos, faz uma óbvia escolha pelo menos ruim.

por outro lado, o modelo do pensamento único caiu estilhaçado. o debate por alternativas se propaga na sociedade. as “forças do mercado” entram em movimento defensivo, sem condição de manter o Governo como refém. com seus “fundamentos” abalados, a macroeconomia se torna suscetível a mudanças.

a remota probabilidade de reversão do jogo eleitoral, leva a oposição ao desespero de cogitar uma virada de mesa institucional. resta o recurso ao terceiro turno. caso haja reeleição, prevêem, o novo governo acabará antes de começar. mesmo Lula reconhece que, confirmado crime eleitoral no dossiegate, será ele quem terá que pagar.

o PT também já não é o mesmo. demorou 23 anos para chegar ao poder, e menos de um mandato para ter seus principais quadros afastados dos postos chaves do governo e do próprio partido. rompido com sua base social e deteriorado seu solo histórico, o PT sobrevive às custas da popularidade de Lula.

na repetição de 2002 em 2006, as respectivas conjunturas trocam sinais entre a farsa e a tragédia. para Lula, contudo, permanece a mesma questão: fazer História ou submeter-se às circunstâncias legadas pelo passado.

22 outubro 2006

giro no vazio

na passagem para o segundo turno havia a percepção de Alckmin estar em superioridade estratégica.

enquanto os tucanos, acomodados no ninho, cantavam vitória, Lula não perde tempo em reagrupar suas forças e lança a contra-ofensiva. a vertiginosa recuperação da campanha do PT deixa tonta a cúpula alckmista.

ao conduzir com brilhantismo a arte da guerra política, ganhando primeiro para só então iniciar a batalha, Lula reconquista a iniciativa e assume a pauta das eleições.

como um exército derrotado que primeiro luta para depois tentar a vitória, a campanha de Alckmin tarda em se dar conta que, pelos fatos em curso, se inclina ao fracasso.

numa pronta, e inédita, autocrítica, Lula reconhece publicamente o erro de faltar ao último debate, reformula sua relação com os meios de comunicação, afasta os envolvidos com o dossiegate e desnuda as vulnerabilidades do adversário, trazendo a eleição para um terreno em que não pode perder.

Alckmin não tem como exorcizar a maldição que herdou de FHC.

à medida que nas pesquisas se amplia a vantagem do PT, também se intensifica na mídia a campanha contra Lula. as primeiras páginas dos jornais e as capas de revistam rivalizam na disputa pela publicação da matéria com poder para, enfim, fulminar a imagem do Presidente.

muito barulho, pouca repercussão. há muito que o quarto poder sucumbira a si próprio. por reduzir informação e crítica à publicidade, já não forma opinião e atinge apenas audiência cativa.

mesmo que Lula e seu governo de “aloprados” tenham fornecido todos os argumentos para a oposição de grande parte da mídia, na verdade esta precisa de apenas um único motivo: o próprio Lula. caso não houvesse nenhuma das razões de fato existentes, a mídia agiria do mesmo modo. o que incomoda não são os inúmeros defeitos, mas as poucas virtudes do Presidente-candidato.

as oligarquias regionais tentam a todo custo manter acesas as chamas do caso dossiegate. fogo que não se apaga, consome-se por si mesmo. a tática das denúncias gira no vazio.

não que haja ilusão e ingenuidade no eleitorado. voto não é absolvição. pesquisa indica Lula como o mais "corrupto", entretanto Alckmin é visto como o que "mais defenderá os ricos”.

certas armas são instrumentos de má sorte. empregá-las por muito tempo produz calamidades.

18 outubro 2006

a terceira via

aquela vinha sendo a eleição presidencial mais apática desde a redemocratização do país. parecia que a política se tornara definitivamente irrelevante.

o jogo eleitoral fora armado de tal forma a não haver possibilidade de terceira via. como na época da ditadura militar, a disputa se reduzia a dois partidos, ambos a serviço do mesmo projeto político conservador. pouco importa quem vencesse, os Mercados festejariam pacificados.

entretanto, a cada vez que os homens pretendem ser mais espertos que a História, e a ela dar fim, acabam logrados como tolos.

quando a campanha de Lula já comemorava por antecipação, o "Núcleo de Inteligência" do PT mira no dossiê Vedoin e acerta o próprio pé. o escândalo resultante, somado aos votos não precificados pelo Mercado, dados a HH e Cristovam, provoca o adiamento de uma vitória anunciada.

mais importante: altera-se por completo o perfil das eleições. se Lula já não podia manter-se escondido em cima do salto alto, Alckmin, por sua vez, tinha que deixar para trás o currículo de Governador e mostrar suas propostas como Presidente.

sem compreender que a pauta das eleições já lhes fugira ao controle, as "forças do mercado" tentam monopolizar o debate em torno do lema do pensamento único: ajuste fiscal.

inútil. o curto-circuito viciado se rompera. as duas campanhas precisavam render alguma homenagem à virtude, mesmo que sob o manto da hipocrisia.

as urnas do primeiro turno revelaram um outro país, nunca uma eleição fora tão polarizada, com as diversas camadas sociais votando claramente conforme seus respectivos interesses.

com a inflação sob controle, o custo da cesta básica em queda e o aumento do salário mínimo, silenciosamente uma multidão se incorporara ao consumo e à política e não podia mais ser ignorada.

a classe média, esmagada entre o Bolsa-Família e a Selic-Banqueiro, dá seu basta à estagnação e ao desemprego. o agronegócio se revolta contra o câmbio artificialmente desvalorizado. a indústria recusa-se a morrer de “doença holandesa”. banqueiros e grandes empresários aplaudem e pedem mais do mesmo, se possível, sem Lula...


com o segundo turno, a surpresa: abre-se inesperadamente o caminho da terceira via.

entram em discussão juros e câmbio. cai o tabu do controle de capitais. Alckmin assina carta antiprivatização. Lula carimba o segundo mandato como "desenvolvimentista". economistas de mercado têm faniquito, mas são obrigados pelo patrão a ficar de boca fechada.

mais uma vez, o Brasil se move. o rumo para o futuro começa agora.

14 outubro 2006


reinventando Alckmin

inebriados com uma vitória que euforicamente alardeavam ter obtido no primeiro debate do segundo turno, os tucanos se prepararam para voar mais alto.

com os resultados das pesquisas, porém, são abatidos em pleno ar.

a brutal reversão de expectativas faz com que o candidato do PSDB procure sua identidade nos reflexos do espelho despedaçado.

Alckmin ou Geraldo? polido ou agressivo? técnico ou passional? PSDB ou PFL? HH ou Cristovam? ricos ou pobres? Sul ou Nordeste? gerente ou estadista? choque de gestão ou Bolsa-Família? privatizar ou resgatar o Estado? desenvolvimentista ou neoliberal? cortar gastos públicos ou controlar fluxo de capitais? soberania nacional ou submissão internacional?

foi como se, de repente, o tucano se tornasse a encarnação das contradições das classes dominantes Brasileiras.

no meio de tanta angústia e desorientação, os alckmistas ainda não descobriram que lhes resta uma chance de vencer. precisam encontrar a pedra filosofal que transforme a eleição. para que deixe de ser uma disputa de projetos de poder e se torne busca de rumos para o Brasil.

a marca de nascença das classes dominantes Brasileiras é jamais terem lutado por um projeto para o país. sempre mantiveram planos exclusivos para si mesmas, resignadas a um papel dependente e submisso à sua contraparte internacional.

neste aspecto, o PT, após sua chegada ao governo, em nada difere. e o mesmo se pode afirmar da candidatura Alckmin. todos têm em comum abdicar espontaneamente a professar idéias próprias, sem qualquer outro horizonte estratégico além de perpetuar o exercício do poder.

apesar da exigüidade de tempo e recursos, Alckmin vive um dilema extremamente rico. precisa se reinventar.

caso seja bem sucedido, com ele estarão sendo reciclados os setores que representa: as elites Brasileiras, que jamais chamaram para si o destino do país, privado do sentido de nação e mantido na condição de empresa constituída para abastecer o mercado externo.

muito embora o próprio candidato-Presidente admita que nunca as elites ganharam tanto dinheiro quanto em seu governo, os banqueiros e grandes empresários, mesmo considerando Lula e Alckmin como iguais, ambos "conservadores", dão seu apoio a Alckmin, maciçamente.

não é sem motivo que pesquisa do Datafolha, na qual Lula aparece como o mais "corrupto", aponta o tucano como o mais "inteligente, moderno e inovador" e também como o mais "autoritário" e o que "mais defenderá os ricos".

como o país que almeja governar, Alckmin está no centro de uma crise de destino. para vence-la, não lhe bastará sua religiosidade conservadora, tampouco seu orgulho interiorano e, muito menos, sua competência de gestor não ideológico.

chegou o momento de Alckmin provar que pode ser algo mais. caso consiga, mesmo que não ganhe as eleições, terá sido vitorioso.

09 outubro 2006


os olhos de quem vè

após o primeiro debate do segundo turno, eleitores de Alckmin não conseguiam conter a euforia e entraram em estado de êxtase. para eles, não restava a menor dúvida, o candidato do PSDB massacrara Lula. uma vitória completa e inquestionável, anunciando o nascimento de um Presidente.

o eleitorado do PT, por sua vez, também festejava. sem fogos de artifício, entretanto.

os petistas sonhavam em liquidar as eleições no primeiro turno. estavam agora um tanto inseguros, desacostumados que ficaram do confronto direto de idéias e propostas.

apesar das ironias de Lula durante o debate, tão a gosto de sua turma, a mudança de estilo de Alckmin deixara a cúpula petista desorientada. como se tocado por alguma pedra filosofal, o candidato alckmista transmutou-se de "xuxu" em "pimenta". tão cheio de som e fúria que parecia uma HH calva e engravatada.

como se vê, dependendo de quem olha o debate teve vencedores diferentes.

o tucano entrou em cena decidido a vencer por nocaute logo no início do primeiro round. estratégia correta e surpreendente. porém, tática equivocada e previsível.

escolheu o tema óbvio, para o qual Lula ensaiara exaustivamente. muito embora o petista deixasse suspensa no ar a pergunta que não quer se calar, sua resposta, mesmo insuficiente, não o comprometeu com seu próprio eleitorado.

empolgado com o papel inédito como gladiador, em contradição com a imagem construída ao longo de sua carreira política, o ex Governador de SP acabou exagerando. mostrou o que não devia: a cara nua do conservadorismo à Brasileira. por exemplo, quando Lula o comparou a Bush, só faltou agradecer o elogio.

a partir de então, Alckmin foi aos poucos retornando à sua habitual condição de Geraldo. do ímpeto inicial restou a agressividade ensaiada e uma indignação caricatural.

seja como for, a performance de Alckmin atendeu de forma impecável a expectativa de seus eleitores cativos. uma platéia com sede de sangue que ganhou um momento catártico. mais do que aplaudir Lula apanhando, vibraram mesmo foi com aquilo pelo que tanto ansiaram: os rugidos de seu candidato.


cruel paradoxo. quanto mais Alckmin agrada a seu eleitorado convicto, mais se afasta daqueles que precisa conquistar para vencer a eleição. como a disputa é pelos votos dados à HH e Cristovam, os alckmistas deveriam adiar a festa. a não ser, é claro, que pretendam comemorar apenas entre eles mesmos.

além disto, Alckmin também deve perder apoio entre os que nele votaram com intenção de forçar um segundo turno. tratou-se muito mais de um protesto contra a arrogância lulista do que um aval à santa aliança entre PSDB e PFL.

assim que vier a ressaca, os alckimistas estarão chegando a uma desesperadora conclusão: Alckmin perdeu o debate.

07 outubro 2006


à esquerda

mesmo com o fraco desempenho nacional, menos de 7%, HH teve no estado do Rio de Janeiro 17% dos votos, alcançando 20% na capital.

apesar da mediocridade de sua política local, dividida entre Césares e Molequinhos, os cariocas mostraram, mais uma vez, vocação de alcance nacional e uma orientação nitidamente à esquerda.

numa eleição polarizada, HH e Cristovam dividiram 25% do eleitorado do RJ. sem qualquer prejuízo para Lula, que obteve mais de 49%.

Juscelino foi mesmo um visionário ao transferir a capital para os ermos do planalto central do país. isolou a casta política do contato direto com as massas numa cidade sem raízes e povoada por burocratas e lobistas. até hoje Brasília não tem a menor característica de caixa de ressonância, quanto mais de vanguarda. militares ditadores, tecnocratas e economistas neo-liberais devem muito a Kubitschek.

embora tenha cometido erros básicos que minaram sua chance real de tornar-se a terceira via nas eleições de 2006, a campanha de HH conquistou uma grande vitória para todos os Brasileiros. a realização do segundo turno, para o que a candidatura de HH contribuiu como fator decisivo, permitirá ao país se questionar e amadurecer.

infelizmente, a frente de apoio a HH, formada pelo P-SOL, PSTU e PCB, mostrou-se coerente com o insuperável talento da esquerda em sucumbir a seus próprios conflitos internos. nem ao menos um programa de governo foram capazes de produzir.

sempre se critica o aspecto multifacetado da Esquerda como um de seus mais graves problemas. este tipo de análise é um erro monumental. multiplicidade e diversidade são inerentes a Esquerda e uma vacina infalível contra todos os tipos de totalitarismos. como somos grupúsculos todos nós, que os grupos se multipliquem ao infinito, ao invés de se devorarem uns aos outros.

nascido da falência do PT, e tendo como um dos lemas de campanha que PSDB e PT são como irmãos siameses, o P-SOL se vê diante da encruzilhada de um segundo turno, que possivelmente não aconteceria sem a candidatura de HH.

alguns de seus dirigentes declaram ser inaceitável uma "neutralidade insossa". afirmam também que não se faz política com o fígado, não se importando em ser ou não coerentes. exatamente o mesmo rumo que o PT tomou para se converter no que é hoje em dia. só que demorou mais tempo...

não se trata de mera coincidência que os defensores de um apoio a Lula no segundo turno são os mesmos que permaneceram agarrados ao PT até o último instante. enquanto aqueles que foram expulsos por se manterem fiéis ao programa petista traído por Lula, são também os que fundaram o P-SOL e se mantém firmes às posições assumidas pela campanha de HH.

talvez nunca tenha sido tão necessário quanto agora assumir posições claras e conservar princípios inabaláveis. para resgatar a ética na política o país precisa superar um cenário no qual a Direita sempre vence eleições com candidatos de aluguel; e a Esquerda se conforma em seguir a reboque, condenando-se a optar entre o péssimo e o muito ruim.

sob o disfarce desta encruzilhada se esconde um beco sem saída. é sempre melhor seguir o próprio caminho.

06 outubro 2006

secessão

o grande empresariado Paulista tem uma imagem extremamente peculiar de si próprio. sempre se considerou o portador da modernidade e exemplo de um Brasil que funciona e prescinde do Estado.

curiosa auto-definição para uma classe cuja origem não veio, como nos EUA, de camadas médias lutando pela independência do país, mas, ao contrário, nasceu dos antigos latifundiários e dos traficantes de escravos, contando com a proteção do Império e sempre agregada a sua contraparte internacional.

são os atuais descendentes dos “barões do café“, que produziam para exportar e não para abastecer o mercado interno, dependendo inteiramente do capital estrangeiro, tanto para a colocação internacional do produto quanto para a construção das ferrovias pelas quais escoava a produção.

é a brava gente que hoje prega um corajoso corte dos gastos públicos e defende uma redução generosa na carga tributária.

não se referem, é claro, a reduzir as despesas com os juros da dívida pública. já que, sem esforço, ganham nas aplicações em títulos federais, investimento sem risco garantido pelo Estado, uma rentabilidade maior do que conseguiriam em qualquer atividade produtiva.

como sempre, propõe corte na carne alheia.

as despesas com os serviços públicos que atendem a maior parte da população oscilaram, nos últimos dez anos, em torno de 17% do PIB, sem grande variação.

já a dívida pública segue acima de 50% do PIB, alimentada pela maior taxa real de juros do mundo. os gastos com os juros atingem 8% PIB, com cerca de 80% dos títulos concentrados em apenas 15 mil famílias.

tamanha transferência de riqueza é sustentada por uma carga tributária de 37% do PIB, dos quais apenas 33% são oriundos de receitas, enquanto 67% provêm das contribuições.

ou seja, tanto os rendimentos com os juros da dívida pública, quanto o sistema tributário, são altamente concentradores de renda, beneficiando as camadas mais ricas da população.

apesar disto, nossa brava gente vê, quando examinam o resultado do primeiro turno das eleições de 2006, ao Norte e Nordeste um Brasil vermelho, pobre e dependente do Estado, que seria sustentado pelos impostos arrecadados no Brasil rico do Sul e Centro-Oeste, colorido com o azul da economia de mercado.

FEBRABAN e FIESP ainda não se libertaram do modelo da Abolição da Escravatura. quem tem direito à indenização é o senhor, afinal foi expropriado de seus “meios de produção“, e não o escravo a quem negaram a condição humana.

não é que falte fé no povo para nossas classes dominantes, não têm fé em si mesmas. desconfiam de suas próprias palavras de ordem. divulgam chavões em vez de idéias. intimidadas pela crise do país, mas dela desfrutando. vulgares porque nunca foram originais e originais em sua vulgaridade. sem energia, em nenhum sentido, plagiaria em todos os sentidos.

não avançaram nem avançam para um projeto político alternativo para a sociedade nacional. jogam com as classes subalternas de modo tímido, pouco elaborado. temem a força política dessas classes, principalmente o risco de ter de compartilhar o poder. não construíram nem constroem um projeto de cunho hegemônico, porque não interpretam os interesses das outras classes e muito menos da sociedade como um todo. apenas defendem seus próprios interesses corporativos.

nestas eleições, apóiam um candidato com perfil similar ao que possuem, embora tudo façam para negar esta condição para si próprias. em vez de progressista, Alckmin é católico conservador; em vez de cidadão cosmopolita, ostenta com orgulho a marca do interiorano; em vez de sociólogo ou economista, é um gerente pós-ideológico.