25 agosto 2007

ficções do futuro

antecipar o futuro com o olhar do presente provoca distorções de perspectiva.

lançado em 1968, o clássico de ficção-científica "2001: Uma odisséia no espaço" descrevia um futuro de viagens espaciais.

a previsão não se cumpriu. no presente, muito além de 2001, mal se mantém uma estação orbital e naves interplanetárias tripuladas estão fora da agenda.

muito embora tenha sido uma decisiva batalha da Guerra Fria, a corrida espacial também esteve envolta num fantástico glamour. o fascínio da última fronteira, o caminho das estrelas, onde nenhum homem jamais pisou. [1]

tanto charme e sedução mascaram que a conquista do espaço nunca deixou de ser também um projeto expansionista. lançar-se por mares nunca antes navegados, nas grandes navegações pelo cosmos, em busca de novos mundos, para colonizar as terras desbravadas e explorar-lhes os recursos.

em 1968, no auge do programa espacial dos EUA, no limiar de num pequeno passo se dar um grande salto para a humanidade [2] - ao menos conforme a propaganda da época - era então previsível que o futuro de "2001" se apresentasse como o desenvolvimento das viagens espaciais.

nada há no filme, entretanto, que evoque o uso pessoal de computadores em miniatura e sua interligação numa rede planetária, a Internet.

na época da cibernética, em que existiam apenas os pesados e gigantescos mainframes, HAL, o computador a bordo de sua própria odisséia no espaço, era anunciado como o futuro da informática. sendo assim sintomático, como a IBM resistiu o quanto pode na preservação de seus domínios contra a invasão alienígena dos microcomputadores domésticos.

o futuro elaborado pelo presente releva muito mais acerca do presente, ele mesmo, que de um futuro supostamente provável.

qual então a trama futura tecida pela web, em sua teia de interconexões globais e instantâneas? qual futuro será a imagem e semelhança de nosso presente?

o drama de consciência do cérebro-eletrônico de "2001" já preconizava o advento da era das máquinas espirituais. o trans-humano cyborg gerado pelo salto quântico tecno-científico, produzindo de si a singularidade tecnológica. [3]

no justo agora, o delírio em rede de um amanhã não biológico, povoado por entidades imortais navegando sem limites na realidade virtual. um bravo novo mundo em que habitam seres intangíveis, codificados binariamente, sem mais qualquer resíduo físico. um neo-humano software concebido pela inteligência artificial.

a pós-sociedade em que todas as necessidades básicas da existência foram equalizadas, a partir de uma contínua expansão econômica baseada no avanço da computação, a qual, com sua progressiva queda de custos, gerou um ciclo virtuoso propagado para todos os setores da economia, incrementando mais e mais a produtividade, até liberar totalmente a humanidade de seus laços com a produção. [4]

o passado da corrida espacial de 1968, projetado na odisséia de "2001", não chegou a se confirmar ao alcançar o cotidiano presente do ano de 2001, posto que nada mais era que uma ficção de futuro, criada por aspirações e interesses do passado.

do mesmo modo, é bem possível jamais se concretizar o idílico upload da mente pós-humana numa paradisíaca realidade virtual concebida pela tecno-ciência.

o futuro nunca se dá com a simplicidade de um puro continuar do presente. pois o tempo da história não se realiza linearmente. sempre há desvios inesperados. surpreendentes saltos e rupturas. marcha e contra-marcha exasperantes.

o futuro não é o desdobramento do que já existe. o futuro é o que nunca houve.

apesar de situar a narrativa de seu filme no espaço, Kubrick teve como objetivo abordar a evolução do homem, o futuro da espécie, sugerindo o nascimento do neo-humano.

frente à evidência que a civilização criada pela Revolução Industrial aponta de forma inexorável para catástrofes, por concentrar riqueza em beneficio de uma minoria, cujo estilo de vida implica no esgotamento de recursos não-renováveis, enquanto a grande maioria é submetida à exclusão, o desafio que se coloca no umbral do século XXI é nada menos que mudar o curso desta civilização, deslocar seu eixo dos meios a serviço da acumulação, num curto horizonte de tempo, para uma lógica dos fins em função do bem-estar social, do exercício da liberdade e da cooperação entre os povos. [5]

mergulhados no fundo deste impasse, em busca da luz do abismo, ainda há motivos para se ter esperanças no futuro da humanidade?

talvez sim. porque o futuro é o que nunca houve. e nunca houve, nunca houve a humanidade. só agora ela está surgindo. o que estamos fazendo, no presente, são os ensaios desta futura humanidade. [6]




[1] Star Trek
[2] Neil Armstrong, ao pisar em solo lunar em 20/07/1969, 23:56 h
[3] surgimento de seres mais inteligentes que o homem capazes de acelerar o progresso tecnológico além da capacidade humana
[4] Raymond Kurzweil, "The Age of Spiritual Machines: Timeline"
[5] Celso Furtado, "Nova concepção de desenvolvimento"
[6] Mílton Santos, "Encontro com Milton Santos", filme de Silvio Tendler

21 agosto 2007

mutação

em 1336, Francesco Petrarca subiu o monte Ventoux. sua intenção era apenas admirar a vista. depois escreveu uma carta relatando a experiência. ali começava o Renascimento.

um homem sobe uma montanha e muda o mundo?

o que viu Petrarca do alto da montanha? os mares, os rios, o percurso dos astros? homens que contemplam a natureza, mas não se preocupam com eles mesmos? [1]

ao subir a montanha, envolto numa época de transição, Petrarca mergulha dentro de si. ao redor dele, a idade das trevas se dissipava. e, no horizonte, a ascensão das luzes parecia vir para iluminar o renascimento dos tempos.

Deus começava a morrer. o homem se colocaria no centro do universo. clero e nobreza sucumbiriam ao charme discreto da burguesia.

como captar a silenciosa movimentação social que marca a chegada do novo? qual o exato início da mudança?

o que hoje se detecta de alto a baixo, e por toda parte? a promessa iluminista não se cumpriu. redundou em desigualdade abundante, na qual prospera a miséria avassaladora. o critério da máxima racionalidade reduziu o homem ao seu valor de matéria-prima [2], cada vez mais e mais supérflua.

no circuito integrado e volátil das operações instantâneas em mercados apátridas, nação, trabalho e trabalhador estão obsoletos. o lucro prescinde da produção e do consumo. a sociedade inteira foi aprisionada num processo autofágico, uma espécie de buraco negro, em que tudo e todos estão submetidos à voracidade ilimitada do capital pós-financeiro.

robótica, nanotecnologia e engenharia genética engendram um futuro que já não precisa de nós, humanos. [3] confinados nos guetos, refugiados em nossa própria terra, sem nacionalidade, renegados, parias, filhos bastardos do apartheid, fornecedores de órgãos, fonte descartável de energia, cobaias, clones...

eis o homem. eis a obra capital do seu trabalho.

quando os coveiros enterraram Deus, eles mesmos já exalavam cheiro de putrefação. Deus continua morto, e aqueles que o mataram, assassinos entre assassinos, sem que ninguém os venha consolar, também eles estão agora à beira de sua própria cova... [4]

no intenso fulgor do meio dia se distingue também o suave traço de luz que prenuncia o crepúsculo. o inexorável desaparecer, como, na orla do mar, o desvanescer de um rosto de areia. [5]

eis o homem. que obra-prima é o homem! entretanto, o homem não passa da quintessência do pó. [6] a grandeza do homem é ser ele uma ponte, e não uma meta; o que se pode amar no homem é ser ele uma transição e um ocaso. [7]

estamos num ponto excepcional da história. há no mundo um número de pessoas vivas superior ao número de todas quantas viveram e morreram em todas as épocas precedentes. agora os mortos são minoria. [8] os vivos já não mais serão governados pelos mortos... [9] quando a experiência corrente excede a passada, a situação se reverte: a novidade e a mudança reinam supremas.

ao se examinar as fases principais do desenvolvimento humano, verifica-se uma brutal aceleração do tempo evolucionário. dois bilhões de anos para a vida, seis milhões de anos para o hominídeo, uns cem mil anos para a espécie humana, como a conhecemos. quando chegamos à agricultura, revolução científica e revolução industrial, estamos falando de dez mil anos, quatrocentos anos e uns cento e cinqüenta anos, respectivamente. identificamos períodos cada vez mais rápidos e curtos. isto significa que ao passarmos por uma nova evolução, ela estará tão acelerada a ponto que a veremos se manifestar dentro de nosso tempo de vida, dentro de uma mesma geração. [10]

eis o homem. eis a obra capital do seu trabalho.

com a ciência e a tecnologia convertidas em força produtiva, a produção de mercadorias é feita por meio de mercadorias. o circuito mercantil reorganiza a sua imagem e semelhança, pela primeira vez na história humana, toda a vida social. tudo o que é sólido se desmancha no ar. o capital ampliou suas possibilidades de acumulação numa forma na qual ele nunca deixa de existir como riqueza abstrata.

o capitalismo venceu. talvez, agora, possa perder. é preciso que o antigo atinja a sua forma mais plena, que é também a mais simples e mais essencial, abandonando as mediações de que necessitou para desenvolver-se. o momento do auge de um sistema, quando suas potencialidades desabrocham plenamente, é o momento que antecede seu esgotamento e sua superação. [11]

ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, a acumulação de capital não mais poderá ser o eixo em torno do qual a vida social se organiza. a humanidade, para sobreviver, precisa finalmente assumir o comando de sua própria história. esse passo pressupõe que o princípio organizador da vida social deixe de ser a acumulação de capital e a forma-mercadoria. é este o desafio que está posto para nós neste século. ainda não sabemos como resolvê-lo. [12]




[1] Petrarca citando Santo Agostinho, “Confissões”
[2] Heiner Müller
[3] Bill Joy, “Why the future doesn’t need us”

[4] Nietzsche, “A Gaia Ciência”
[5] Michel Foucault, “As palavras e as coisas”
[6] Shakespeare , “Hamlet”
[7] Nietzsche, “Assim falou Zaratustra”
[8] Robin Robertson, "Uma interpretação junguiana do apocalipse”
[9] Augusto Comte
[10] Eamonn Healy, no filme “Waking life”, de Richard Linklater
[11] César Benjamin , “Caminhos da transformação (uma abordagem teórica)”
[12] César Benjamin , “Caminhos da transformação (uma abordagem teórica)”

18 agosto 2007

pacto diabólico

o príncipe está nu.

como já fizera com o sapo operário, pego no contrapé de um entreato, João Moreira Salles agora desnuda FHC, expondo que também o príncipe não consegue se livrar do ranço batráquio. [1]

na constatação de sua própria neta, são barbaridades o que gorgeia o andarilho sabiá. [2]

talvez os ventos primaveris de Brasília tenham lhe virado ao contrário não somente os cabelos, como também todas as idéias...


confortavelmente entregue a uma lassidão evocada por um voluntário e bem remunerado exílio mental, não só das palmeiras de sua terra, como de si mesmo e de seu passado, a FHC já não mais se lhe importam as glórias, tão somente o dinheiro.

se para FHC o Brasil não tem nada e ser brasileiro é assim quase uma obrigação, então é como o sabiá perversamente invertendo o sentido dos versos de Gonçalves Dias, apenas a cantar o desânimo e a mediocridade de várzeas sem flores, bosques sem vida, vidas sem amores... a Deus pedindo não permitir que vivo volte para cá.

com nosso céu sem mais estrelas, mas com seu book full of stars, no Google, FHC recebe um dinheirão para fazer algo fácil e de seu inteiro gosto: falar de si mesmo. não é sem razão que a lucidez se tornou um estorvo. cavaleiro da ordem de Bath, tampouco lhe agrada ficar sofrendo no meio do povo, à toa...

embora estude a questão do desenvolvimento há cinqüenta anos, FHC não se pautou em seu governo pelo que agora, em sua risonha decadência, não se esquiva em admitir: mercado é bom para produzir lucros, não valores.

curiosamente foi de FHC a análise afirmando que o empresariado brasileiro sempre preferiu se acomodar na condição de sócio-menor do capitalismo internacional, voltando às costas à aliança com as classes populares e ao compromisso com o desenvolvimento nacional. [3]

mais tarde, FHC formulou uma teoria que postulava o desenvolvimento através de recursos externos. [4] como seria confirmado em seus dois mandatos de presidente, por tal teoria a dependência se torna eterna, sujeitando o país a manter-se para sempre ajoelhado frente ao capital financeiro internacionalizado.

enquanto vê em Lula um Macunaíma, FHC confessa se identificar muito com Picasso.

Lula e FHC sofrem do mesmo mal: paixão incontida por si próprio. não toleram concorrência no que tange a hipertrofia do ego.

FHC sente saudade dos tempos em que era Presidente da República, porque andava de helicóptero. Lula mandou comprar um avião novinho só prá ele. FHC não resiste a uma “buchada de bode”, desde que servida num restaurante em Paris. Lula, que já confessou sentir verdadeiro horror ao macacão de operário, é alérgico ao suor de seu rosto, quanto mais a ganhar o pão com dito cujo. ao chegar a Presidência FHC declarou que esquecessem o que escrevera. Lula se orgulha de que, para ser Presidente, não foi preciso ler até o final um único livro.

FHC já admitiu publicamente que queria ser igual ao Lula da época em que este era líder das greves contra a ditadura. o desejo inconfessável de Lula é um dia receber da elite o mesmo tratamento conferido a FHC: um igual entre iguais. [5]

a combinação das virtudes de FHC e Lula formaria o estadista capaz de colocar o país nos rumos do desenvolvimento. como em sua relação atormentada preferem privilegiar os defeitos, se tornaram cúmplices em um do mais bem sucedidos fracassos de nossa História: nunca foi tão grande a distância entre o que somos e o que poderíamos ser. [6]

tanto FHC quanto Lula pertencem a uma geração que teve a ambição de mudar a história. ao chegarem ao poder, constataram que as possibilidades de transformação eram limitadas. não foram capazes de propor alternativa. ou não quiseram fazê-lo...

não pelos anos que se já passaram, mas pela astúcia que tem certas coisas passadas, [7] é como se, em algum momento, tivessem os dois, FHC e Lula, vendido a alma ao diabo, sem que, mesmo respeitando o negócio firmado, possam eles, porém, jamais vir a saber, com certeza, se o diabo lhes aceitou ou não a compra... [8]



[1] João Moreira Salles, “Entreatos”, documentário de 2003 sobre Lula, e “O andarilho”, matéria sobre FHC, revista Piauí, 08/2007
[2] FHC, "Vou fazer uma proposta um pouco estranha: vamos mudar o bico do tucano e botar um bico de sabiá, porque o que nós precisamos é cantar nossos feitos", 14/08/2007
[3] FHC, "Empresariado industrial e desenvolvimento econômico"
[4] FHC e Enzo Faletto, "Dependência e subdesenvolvimento na América Latina"
[5] arkx, “desconstruindo Lula (2)”
[6] Celso Furtado, “A busca de novo horizonte utópico”
[7] Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”
[8] ver César Benjamin, “O enigma Lula: Fausto, Maquiavel ou Riobaldo”

07 agosto 2007

finge que funciona

em janeiro de 2005, o então prefeito de SP, José Serra, passou por uma situação constrangedora na inauguração de um posto de saúde.

na frente dos repórteres, após duas enfermeiras e a própria secretária municipal da Saúde não conseguirem - em sete minutos de tentativa - medir sua pressão arterial, devido a defeito no equipamento, Serra discretamente sussurrou:

"Finge que funciona..."

muitas vezes, não é necessário mais que breve murmúrio para a alma de um homem lhe escapar pelos lábios...

apenas três dias após o fim da greve do Metrô de São Paulo, o atual governador do Estado, José Serra, demite 61 funcionários da companhia.

em relação às empreiteiras da tragédia da cratera do Metrô de São Paulo, acidente ocorrido em 12/01/2007, Serra ainda não foi capaz de emitir um pio sequer...

tido por muitos como o político mais preparado do país para assumir a Presidência da República, Serra se limita a reproduzir a tradicional postura do homem público brasileiro: forte com os de baixo. enquanto mansamente rasteja solícito e submisso aos poderosos.

nada como um cargo executivo para que as máscaras caiam por terra.

Serra jamais escondeu que seu grande sonho na política é se tornar presidente do Brasil.

quem ainda precisará de Serra quando ele estiver com 68 anos? terá ele ainda alguma importância em 2010? talvez possa trocar uma lâmpada. ou cuidar do jardim. quem sabe levar os bisnetos prá passear... [1]

os industriais paulistas sempre se opuseram encarniçadamente aos direitos dos trabalhadores. repudiaram as primeiras leis promulgadas classificando-as como um "ensaio de socialismo de estado" no Brasil. entretanto, quando Getúlio consolidou a legislação trabalhista o que se deu, como resultado, foi um tremendo impulso ao crescimento da economia brasileira.

em 1927, publicação do Centro dos Industriais de Fiação e Tecelagem de São Paulo contestava a Lei de Férias, então de apenas 15 dias e promulgada em 24/12/1925, nos seguintes termos:

"o operário é um trabalhador braçal, cujo cérebro não despende energias. assim, é ilógico que o trabalhador braçal necessite de um período de descanso, pois nada, ou quase nada, pede ao cérebro – a não ser os atos habituais e puramente animais da vida vegetativa."

"o período de férias representa um perigo eminente para o homem afeito ao trabalho. nos lazeres e no ócio o trabalhador encontra seduções extremamente perigosas, se não tiver suficiente elevação moral para dominar os instintos subalternos que dormem em todo ser humano."

"o homem do povo não teve suas faculdades morais e intelectuais afinadas pela educação e pelo meio. sua vida física, puramente animal, supera em muito a vida psíquica. o que fará um trabalhador braçal durante o período de férias, se for compelido por uma lei? como não tem o culto do lar, procurará matar suas longas horas de inação nas ruas."

"o trabalhador é, pois, um elemento da coletividade que as férias estragarão." [2]

é muito bonito se falar na necessidade de um projeto para o país, mas a coisa começa a pegar quando se deve definir qual o papel dos trabalhadores neste projeto.

é muito cômodo propor um mercado regulado, e não aceitar que a única força capaz de regular o mercado são os trabalhadores, o trabalho.

sem direito de greve não há democracia.

o direito de greve no Brasil é um tabu porque nunca se criou aqui um mercado de massas. para se ter um mercado de massas é necessário uma população com poder aquisitivo. aqui se produz, aqui se vende, também. quem irá comprar com salários aviltados?

ocorre que todo o nosso modelo econômico, desde os tempos da colonização, sempre foi voltado para fora, dirigido de fora, para atender interesses de fora.

nunca houve qualquer motivo para se criar um mercado de massas. portanto, quanto menor o salário melhor. quanto menor os custos do trabalho, melhor!

não há democracia sem mercado de massas. não há mercado de massas com desemprego e salários rebaixados.

querem construir um país? defendam o direito de greve.

ou façam como José Serra, finjam que funciona...


[1] Beatles, “When I'm Sixty-Four”, música citada pelo então prefeito da cidade de SP, José Serra, em seu aniversário de 64 anos, referindo-se a sua provável candidatura ao governo do Estado.
[2] “Um ensaio de socialismo de estado no Brasil e as indústrias nacionais”, citado por Marisa Saenz Leme em “A ideologia dos industriais brasileiros”

03 agosto 2007

o sonho de uma geração

ao ser indicado como futuro Ministro da Casa Civil, no primeiro mandato de Lula, Zé Dirceu afirmou que realizava “o sonho de sua geração”. em se tratando de uma geração cujos mais preciosos sonhos viraram pesadelos crônicos, a declaração soava como um péssimo augúrio.

como hoje todos sabemos, o mau presságio acabou se confirmando...

mudou-se a nossa estrela, as glórias vieram tardes e frias. Dirceu amarga um novo exílio, sem que possa sequer se queixar de alguma Marília ter-lhe roubado o sincero coração. [1]

havia uma certa ingenuidade otimista no Brasil. 1969. vivíamos em perigo. primeiro ano de vigência do AI-5. o demônio da descrença é melhor? a pergunta pode ser respondida por quem morre? [2]

daquele passado romântico ainda ecoam versos de uma canção de sucesso:

eu prefiro as curvas
da Estrada de Santos
onde eu posso esquecer
um amor que eu tive
e vi pelo espelho
na distância se perder
[3]

reflexos de uma época. tempos em que jovens idealistas tinham um sonho otimista de um futuro socialista. muitos morreram por seus sonhos, mas outros sobreviveram, e ainda estão por aí... [4]

perseguir os sonhos é mesmo um ato de coragem. arriscado. eles podem não dar certo. geralmente não dão.

mas viver... viver já é em si muito, muito perigoso. por um só dia que seja... [5]

aliás... escrever também é perigoso. quem tentou, sabe. há o perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas. há ciladas nas palavras. as palavras que dizemos escondem outras – quais? escrever é uma pedra lançada neste abismo sem fundo. [6] e um abismo sempre chama outros abismos. [7]

o que se escreve nunca é o que se escreve e sim outra coisa. é preciso que alguém leia. para que se possa ouvir o silêncio de quem escreve. para captar essa outra coisa que na verdade foi escrita, porque quem mesmo escreve não pode fazê-lo. [8]

houve certa vez, num passado nem tão distante, embora mais e mais remoto, uma geração capaz de ousar tomar os céus de assalto. talvez tenham se equivocado quanto ao assalto e quanto aos céus. porém, nunca em relação ao ímpeto que os motivava.

o mundo mudou? ou mudaram de idéia? e daí... [9] ninguém mudou? é a vida que muda... [10]

pode ser também que o mundo não tenha de fato mudado. e o que se apresenta como mudança não passe de um rearranjo para tudo alterar de modo que, fundamentalmente, nada fique diferente.

atualmente, a desolação do cenário político brasileiro provoca indignação e desalento. o governo não governa e a oposição não se opõe.

o demônio da descrença é melhor? a pergunta pode ser respondida por quem morreu? a morte não é a perda maior, e sim o que morre dentro de nós enquanto vivemos. [11]

devemos nos conformar que nossos sonhos, um por um, todos se transformem em sombras? é melhor precipitar-se na morte no apogeu de uma paixão? ou se extinguir e murchar-se aos poucos com a velhice, deixando a alma se esvair lentamente, enquanto a noite cai com suavidade sobre todos os vivos e todos os mortos? [12]

por quê é mesmo que se morre? talvez por não se sonhar o bastante... [13]

para trazer o morto de volta à vida não é preciso uma grande mágica. poucos estão inteiramente mortos. sopre sobre as cinzas de um homem morto, e uma chama viva surgirá. [14]




[1] Tomás Antônio Gonzaga
[2] Reinaldo Azevedo, “Atos gratuitos”, 27/12/2006
[3] Roberto Carlos e Erasmo Carlos, “As Curvas da Estrada de Santos”
[4] Virgínia, comentário no blog do Reinaldo Azevedo
[5] Virginia Woolf, “Mrs. Dalloway”
[6] Clarice Lispector
[7] Salmos 42:7
[8] Clarice Lispector
[9] Zé Dirceu, 05/2003
[10] Lula, 05/2003
[11] Norman Cousins
[12] James Joyce, “Os Mortos”
[13] Fernando Pessoa, “O Marinheiro”
[14] Robert Graves, “To bring the dead to live”

31 julho 2007

ai! que cansaço...

tudo vai num descalabro sem comedimento, estamos corroídos pelo morbo e pelos miriápodes!

por isso e para eterna lembrança destes paulistas, que são a única gente útil do país, e por isso chamados de Locomotivas, nos demos ao trabalho de metrificarmos um dístico, em que se encerram os segredos de tanta desgraça: [1]

“cansei...”

com as forças exauridas, por insistir em negar uma conjuntura política que lhes assombra como o seu pior pesadelo, as oposições conservadoras convulsionam-se em seus derradeiros suspiros.

OAB-SP, FEBRABAN , FIESP, Associação Comercial de São Paulo...
João Dória Jr., Luiz D'Urso, Paulo Zottolo...
milagres do Brasil são.
mas que importa o branco cueiro, se o cu é tão denegrido! [2]

São Paulo, São Paulo, por que tanto tropeças na pedra de tropeço? [3]

os que tão cansados estão, são também os que mais deveriam estar aplaudindo. foram os que mais ganharam dinheiro neste governo. basta ver quanto ganharam os banqueiros, empresários. [4] foram R$ 43,7 bilhões de superávit, um crescimento de 13,5% no primeiro semestre de 2007. no outro lado, o dos investimentos, só 10% do programado foi realizado. [5]

para o desespero das oposições conservadoras, a força de Lula advém de que não há mais retrocesso para o Brasil. as massas populares serão o protagonista de qualquer novo projeto nacional que se pretenda legítimo.

Lula, por sua vez, em sua ânsia de ser aceito pelas elites, recusa-se a aceitar a mais básica das lições, que a cada crise de seu governo lhe é cuspida na face.

pouco importa seus ternos exclusivos, sua renovada arcada dental, seus charutos e seus vinhos, seu botox e seu aero-Lula, seus 53 milhões de votos e sua reeleição consagradora.

para as elites, pouca importa Lula ser o Presidente da República, porque sempre será aquilo que nunca deixou de ser: um "baiano", um "paraíba". apedeuta. incompetente. analfabeto. leniente. inapetente. ignorante. vagabundo. um trabalhador brasileiro. [6]

Lula, um trabalhador brasileiro. um representante das massas populares que serão o protagonista de qualquer novo projeto nacional que se pretenda legítimo.

ainda mais uma vez é o anti-lulismo que reabilita e fortalece o lulismo. um paradoxo paralisando o país. um impasse que mantém o Brasil imobilizado no meio de uma travessia, sem que possa retornar e interditado seu avanço.

é possível se captar a silenciosa movimentação social que marca o inicio de novos tempos? qual o exato início da mudança? quando não há mais caminho de volta ao passado? e também não há como voltar-se para o futuro?



[1] Mário de Andrade. “Macunaíma”
[2] Gregório de Matos
[3] Romanos 9:32
[4] Lula, 31/07/2007
[5] blog do Zé Dirceu

[6] arkx, “a lição da chibata”

18 julho 2007

a origem da tragédia

  • "A informação que temos é que o avião pousou, e não caiu".
  • Vice-presidente de planejamento da TAM,
    declaração às 19:30h.
    O
    acidente ocorreu às 18:50h.


    a maior tragédia ainda não aconteceu.

    temos sido um país de tragédias discretas e desgraças silenciosas.

    aceitamos como inevitável a crônica tragédia dos juros e do câmbio, responsável por uma transferência de riqueza ainda mais brutal que a tragédia da inflação.

    tornou-se natural a tragédia continuada da concentração de renda, fazendo com que 0,7% da população possua fortuna estimada em cerca de metade do PIB, numa trágica herança dos tempos da escravidão.

    acompanhamos com enfado e deboche a tragédia da representação política, como se fosse cômico...

    uma das tragédias mais recentes é a obstinação na defesa irracional do governo Lula, que além de ter arrastado a esquerda brasileira para a pior crise de sua história, mergulha o país inteiro num buraco negro de cinismo, hipocrisia e total falta de perspectivas.

    são nossas tragédias do dia a dia. por maior que sejam suas dimensões, são ainda pequenas tragédias.

    se algumas utopias são verdades prematuras, até mesmo a mais óbvia e ululante verdade parece inexplicável para quem insiste em enxergar a realidade unicamente a partir de suas próprias premissas.

    a maior tragédia é a de se negar a grande tragédia que se anuncia. uma tragédia que se antevê a partir do desdobramento lógico dos fatos em curso.

    as portas para o futuro estão se fechando. estamos nos colocando, nós brasileiros, num rumo de muitas tragédias, de muito sofrimento. individual e, principalmente, coletivo.

    estamos assistindo ao desmoronamento de um modelo. como toda queda, será explosiva. haverá chamas. não serão poucos os mortos e feridos.

    não vai acontecer de uma vez, se arrastará ao longo da agonizante travessia do segundo mandato de Lula.

    o Brasil está condenado à civilização. ou progredimos, ou desapareceremos.

    13 julho 2007

    as multidões dos estádios

    cidades sem povo são cidades sem alma. em Brasília a política se faz através das intrigas palacianas, dos conchavos de corredor e dos discursos inflamados para um plenário vazio.

    as vaias a Lula num Maracanã lotado têm significado político claro e implacável: não se faz política sem povo.

    nas ruas e no encontro com as multidões, a popularidade das pesquisas de opinião pública se desmancha no ar.

    como decifrar o enigma de um presidente com mais de 60% de popularidade ser olimpicamente vaiado onde obteve 70% dos votos nas últimas eleições?

    Lula é um interregno. um entreato.

    para o desespero das oposições conservadoras, a força de Lula advém de que não há mais retrocesso para o Brasil. as massas populares serão o protagonista de qualquer novo projeto nacional que se pretenda legítimo.[1]

    eleito por duas vezes em nome da mudança, Lula se tornou o último bastião do continuísmo. como uma metáfora encarnada do processo histórico brasileiro, no qual, muito embora imposta como necessária pelo próprio desenvolvimento da sociedade, a mudança é sempre adiada ao máximo, e, ao se tornar inevitável, é antecipada, para que, no transigir, se possa limitá-la.

    com o Brasil imobilizado no meio de uma travessia, sem que possa retornar e interditado seu avanço, a desolação do cenário político provoca indignação e desalento. mesmo que nada se ouça, além do silêncio, ainda assim é possível sentir um grito infinito atravessando a paisagem.

    um grito silencioso parado no ar, que, por vezes, explode numa vaia vinda do fundo da alma.


    [1] Luis Nassif, “Os cabeças de planilhas”

    10 julho 2007

    à bala

    guerra e política se entrelaçam, sendo uma a continuação da outra, ainda que sob formas distintas e através de outros meios.


    como conduzir o combate político?

    o direito à liberdade de expressão é o direito daqueles com os quais não concordamos? como lidar com o contraditório e qual o limite da tolerância? até que ponto a opção pela não-agressão apenas dissimula covardia e redunda em omissão e conivência?

    teríamos de eliminar a balas um infinito de seres medíocres? [1] essas amebas, seres rastejantes, totalmente descerebrados, que melhor seriam se tivessem nascidos ratos, pelo menos teríamos o direito de exterminá-los, sem dó nem piedade, pois é o que merecem, já que para nada servem... [2]

    fazer-se invencível significa conhecer-se a si mesmo; descobrir a vulnerabilidade do adversário significa conhecer os demais. a invencibilidade está em si mesmo, a vulnerabilidade no adversário. [3]

    onde está o inimigo? quem é o outro? quais são suas idéias?

    é no exame de cada um de nós, nos mais recônditos segredos dissimulados em cada um de nossos próprios pensamentos, que podemos encontrar o outro. somos o nosso próprio inferno.

    as idéias que dominam em nossa mente são aquelas mesmas idéias que dominam em cada época: as idéias da classe dominante daquela época.

    “nós” e “eles”, “direita” e “esquerda”, “progressistas” e “reacionários” não diferem tanto no que tange aos mecanismos de poder, à busca por supremacia, a obsessão pelo controle, à imposição de liderança, ao centralismo “democrático”, à vontade soberana da maioria, a repulsa pela autonomia e ao culto à hierarquia. toda uma série de perversões destinadas a submeter e disciplinar os indivíduos, para que seus corpos sejam dóceis e úteis.

    todos elogiam uma vitória ganha em batalha, porém essa vitória não é realmente tão boa. armas são instrumentos de mau augúrio. nunca se viu nenhum especialista na arte da guerra que as utilizasse por muito tempo. verdadeiramente desejável é poder ver o mundo do sutil e dar-se conta do mundo do oculto, até o ponto de ser capaz de alcançar a vitória onde não mais exista forma. em conseqüência, um guerreiro vitorioso ganha primeiro e inicia a batalha depois; enquanto um derrotado primeiro inicia a batalha para só depois tentar obter a vitória. [4]

    a política não é a arte do possível. é a capacidade de tornar o impossível uma das possibilidades.

    a vitória completa não se obtém com a aniquilação total do inimigo. a vitória completa se produz quando não há luta. o inimigo é vencido pelo emprego da estratégia. ao se criar uma perspectiva mais ampla, a qual, por também englobar o inimigo, conduz obrigatoriamente ao trabalho em conjunto.





    [1] comentário no blog do Luis Nassif
    [2] comentário no blog do Reinaldo Azevedo
    [3] Sun Tzu, “A arte da guerra”
    [4] Sun Tzu, “A arte da guerra”

    05 julho 2007


    Brasil favela

    para sempre se foi o tempo romântico do Rio quatro vezes favelas. agora no berço do samba proliferam os falcões do tráfico. as vozes que vem do morro são estampidos de armas automáticas.

    ainda há salvação para as favelas?

    mega complexos de construções desconexas de alvenaria erguidas umas sobre as lajes das outras, como labirintos de labirintos. múltiplos andares de favelas, empilhados sobre os escombros daquilo que deveria ter sido uma cidade e um país. um território posto à parte do controle do Estado. uma terra de ninguém para que o Chefe do Morro possa reinar. onde prospera o melhor negócio do Brasil.

    um negócio imune à desestruturação de nossa infra-estrutura produtiva. capaz de reconciliar grandeza de escala com descentralização de operações, conforme as práticas empresariais mais avançadas. e combinar o autofinanciamento típico das antigas estratégias nacionais de produção com a aceleração de prazos e com a flexibilidade de métodos que marcam os empreendimentos internacionalizados de última geração. transforma desespero em prazer, prazer em dinheiro, dinheiro em força. o melhor negócio no Brasil. o narcotráfico. [1]

    entretanto, não há plantação de maconha nas favelas. ou de cocaína. tampouco instalações de refino. muito menos fábricas de armas. a verdadeira favela não está na favela. assim como os verdadeiros imperadores do tráfico lá também não estão. a polícia pode executar tantos e quantos traficantes nas favelas. sempre surgirão mais e mais. ou mesmo bombardear a favela com napalm. inútil. novas favelas se multiplicarão em seu lugar.

    o segredo do poder do narcotráfico é sua dupla sustentação em pólos inversos da pirâmide social: as favelas e o sistema financeiro.

    o território sem lei das favelas é imprescindível na rede do tráfico. fora do alcance do Estado, os territórios das favelas são as bases a partir da quais a rede começa a se capilarizar, ramificando-se por todo o tecido social. as favelas não são pontos de venda no varejo, funcionam como as grandes centrais de abastecimento.

    é esta estratégia de negócio que obriga os traficantes a se armarem. as armas pesadas do tráfico não são utilizadas, prioritariamente, para ações criminosas fora das favelas. e muito menos servem para o enfrentamento com a polícia, com a qual sempre é preferível um "pacto de não agressão" (ou além). o armamento tem como objetivo a manutenção e conquista de território. proteger-se de incursões de facções rivais e dominar outras bases de atuação.

    para se legalizar, os lucros astronômicos do narcotráfico passam pelo mesmo circuito do capital financeiro especulativo, beneficiando-se do livre fluxo de capitais em vigor na economia brasileira. são remetidos ao exterior através das contas CC5 e retornam por um fundo offshore, sob o manto de capital estrangeiro.

    a maneira mais eficaz de estrangular o crime organizado é cercear suas atividades financeiras de duas maneiras: impedindo a circulação de dinheiro e coibindo as atividades que, de alguma forma, possam estar ligadas ao crime organizado. [2] é preciso tratar penalmente a lavagem de dinheiro com os mesmos instrumentos jurídicos de crimes como o tráfico, mesmo que os crimes correlatos (os que geraram os fundos iniciais) estejam sujeitos a penas pequenas. [3] na medida que o BC amplia enormemente as facilidades para a remessa de dinheiro para o exterior, pratica-se lavagem de dinheiro a céu aberto. pelos dutos que passa o dinheiro frio, passa também o dinheiro de origem criminosa. [4]

    a explosão dos mega complexos de favelas é a contrapartida de uma modernização conservadora do latifúndio brasileiro, sob a forma do agronegócio, através de uma selvagem industrialização do campo, que expropriou os moradores das áreas rurais, criando-se um vasto exército industrial de reserva, miserável e favelado. [5]

    o caminho para desenvolvimento trilhado pelos atuais países industrializados - de um passado rural e agrícola, para um urbano e industrial - não pode mais ser reproduzido. o contexto histórico se alterou irreversivelmente. o binômio indústria/urbanização foi tributário da existência de colônias, das migrações em larga escala e das guerras mundiais. além disto, hoje as indústrias empregam cada vez menos. [6]

    não há saída para as cidades brasileiras sem uma ampla erradicação das favelas. não há rumo para o crescimento economicamente sustentado que não seja através da inclusão social e de um novo ciclo de desenvolvimento rural.

    o Brasil necessita de uma economia de guerra.

    a chave para destravar o desenvolvimento está nas massas do trabalho informal. são os marginalizados das cidades e das áreas rurais, os bóias-frias e os favelados, que, ao serem incorporadas à economia formal de modo organizado e estratégico, trarão consigo o crescimento.

    é na inclusão maciça da periferia das grandes metrópoles brasileiras, implicando na construção de bairros inteiros, escolas, centros de saúde e de capacitação profissional, creches, postos policiais e áreas de lazer, acompanhada da implantação de um modelo agrícola baseado em pequenas unidades produção, mas com uso intensivo de alta tecnologia, é desta economia de guerra, com suas inevitáveis imposições de inovações e criatividade de soluções, que virá o desenvolvimento do Brasil.

    nenhum outro país do mundo reúne como o Brasil condições tão favoráveis à criação gradual de uma nova civilização baseada na exploração sistemática do trinômio biodiversidade-biomassas-biotecnologias, estas últimas aplicadas nas duas pontas para aumentar a podutividade das biomassas e abrir o leque dos produtos dela derivados. [7]



    [1] Roberto Mangabeira Unger, "Qual o melhor negócio do Brasil?"
    [2] Luis Nassif, "O crime organizado e os bancos", 17/05/2006
    [3] Luis Nassif, "Um dia de cão", 16/05/2006
    [4] Luis Nassif, "O crime organizado e os bancos", 17/05/2006
    [5] Wladimir Pomar, "A nova estirpe burguesa"
    [6] Ignacy Sachs, "A revolução energética do século XXI "
    [7] Ignacy Sachs, "Inclusão social pelo trabalho decente"

    04 julho 2007

    novos impasses de uma antiga direita

    as duas vitórias consecutivas de Lula da Silva provocaram danos irreparáveis em ambos os sentidos do espectro ideológico da política brasileira. esquerda e direita já não serão as mesmas. para o bem e para o mal...

    quando o filho do povo Lula I, eleito em nome da esperança de mudança, subiu o Planalto apenas para inaugurar a era Palocci, um estelionato eleitoral como nunca antes se dera na história deste país, a esquerda silenciou. afinal, era o "nosso" governo. não importa que o "nosso" governo tenha uma prática contrária aos "nossos" interesses, ainda assim é o "nosso" governo e cabe a "nós" defendê-lo a todo custo até o último instante.

    em vez de tomar a iniciativa de formular uma crítica consistente ao governo Lula, a quase totalidade da esquerda se empenhou na tentativa de legitimá-lo, entregando-se às mais delirantes teorias esquizofrênicas.

    a manutenção da política econômica derrotada nas urnas era apenas uma inevitável opção tática, por ser impossível dar um cavalo-de–pau no Titanic da economia. ao chegar o devido tempo, um muito bem oculto plano "B" seria implementado. além disto, uma bem sucedida superação do transe da transição dependeria da correlação interna de forças de um governo em disputa. a suposta cautela também se justificava, por não se tratar de uma tomada de poder, apenas se vencera uma eleição presidencial.

    o que restava desta farsa se converteu em tragédia, quando, em agosto de 2005, o publicitário Duda Mendonça confessou ter recebido de caixa dois no exterior pela campanha presidencial de 2002. então, Lula desceu a mais baixa taxa de aprovação a seu governo (28%), com a mais alta reprovação (29%). a cúpula do PT desmoronou, deputados do partido choravam descontrolados no plenário e ministros sugeriam a Lula renunciar. foi também então que PFL (atual DEM) e PSDB optaram por fazer o Presidente sangrar até as eleições de 2006.

    a origem de Lula II deve ser buscada em erros estratégicos da oposição conservadora.

    em janeiro de 2006, Serra tinha o dobro das intenções de votos de Alckmin. apesar disto, o tucanato, sempre tão cheio de pavões, começou a exibir papagaios aos montes, galinhas-d’angola, pardais, periquitos, uma vasta algaravia ornitológica. então, com raro senso de ousadia, o PSDB decidiu abrir mão de quem tem o dobro para escolher quem tem a metade. convenha-se: é preciso bastante "coragem" para fazer tal opção. o que mais impressiona é que o PT não precisou mover uma palha para que o PSDB entrasse em transe. ele fez isso absolutamente sozinho. [1]

    quando já não se podia mais negar que Lula não só fraudara a vontade dos brasileiros, ao radicalizar o projeto que foi eleito para substituir, ameaçando a democracia com o veneno do cinismo, como comandara, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro, sendo assim obrigação do Congresso Nacional declarar o impedimento do presidente, também ficou claro que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. as duas cabeças precisam ser esmagadas juntas. [2]

    se o repúdio de parcela bastante minoritária da esquerda em relação ao governo Lula foi politicamente canalizado com a criação do P-SOL, o mesmo não ocorreu com a sua contraparte da direita.

    o anunciado fracasso da alckimia de um candidato a presidente com perfil de gestor não-ideológico só acrescentou frustração a estas parcelas da direita.

    a reeleição de Lula, lastreado apenas na própria imagem e popularidade e impondo derrota arrasadora ao poderoso arco de forças conservadoras que enfrentou, deixou como última opção uma virada de mesa institucional, o recurso desesperado ao terceiro turno. fogo que não se apaga, consome-se por si mesmo. a tática das denúncias gira no vazio. numa confirmação de que certas armas são instrumentos de má sorte. empregá-las por muito tempo é trazer infortúnios para si próprio.

    a sucessão de revezes conduz a direita indignada ao impasse. sem identificação partidária, incapaz de expressão no movimento social, nenhum horizonte histórico para o "golpe redentor"...

    num impensável encontro de paralelas, segmentos da esquerda e da direita, órfãos de um impeachment que não houve e reféns do mesmo sentimento de traição de suas lideranças, convergem na constatação de que a política tradicional se tornou irrelevante.

    enquanto a maior parte da esquerda recuou, se apaziguou e se apadrinhou nos corredores do poder, a direita indignada avançou. deu as caras. a maioria silenciosa se exprime pela web. fazendo dos blogs o seu partido político e dos fóruns de discussão seu parlamento, floresce uma neo-direita. sem envergonhar-se de seu conservadorismo, exibe orgulhosa sua face. o novo impasse faz com que o antigo obscurantismo se manifeste às claras. vindo à luz, corre o risco de se iluminar.

    para uma esquerda que perdeu seu rumo, sua identidade e se prostrou a serviço de um governo que traiu 23 anos de lutas populares não há mais dignidade, nem mesmo no desprezo. ela é hoje o verdadeiro ninho no qual vem se alojar o ovo da serpente.



    [1] Reinaldo Azevedo, em 40 textos defendendo a candidatura de Serra à Presidência, 2006

    [2] Roberto Mangabeira Unger, “Pôr fim ao governo Lula”

    03 julho 2007

    excesso insuficiente

    "Foi aqui, na Scania, nesse pátio, que nós começamos a conquistar a democratização do nosso país. Era um tempo em que eu dizia que era socialista. Mas aí eu fui presidente de um país capitalista, um país capitalista sem capital."

    Lula
    02/07/2007

    embora seja visto como padecendo de insuficiência crônica e incurável de recursos, o Brasil tem sido um país de oferta necessariamente abundante de capitais.
    [1]

    apesar deste enigma da esfinge brasileira já ter sido decifrado em 1963, por Ignácio Rangel, ainda prospera um estado de confortável e conveniente ignorância em relação à questão.

    devido a sua altamente concentrada estrutura de distribuição de renda, o Brasil é um país de baixíssima propensão a consumir. para quem não erga o "véu monetário", entretanto, este fato se mostra deformado e mascarado, de tal forma que uma demanda insuficiente aparece como excessiva. um país sufocado ao peso de sua própria capacidade produtiva ociosa apresenta-se como se tudo lhe faltasse. [2]


    foi também Ignácio Rangel quem anteviu para o Brasil um novo estágio de desenvolvimento, não mais comandado pelo capital industrial, e sim pelo capital financeiro. ousou defender que, para a soberania nacional, a estruturação de um mercado interno de capitais era então da mesma importância estratégica quanto fora no passado a criação de nosso parque industrial. o mercado de capitais se converteria na fonte principal de financiamento da economia, tendo como prioritária destinação dos recursos a criação e expansão dos grandes serviços de utilidade pública.

    hoje, a indústria de fundos de investimentos no Brasil, com patrimônio líquido atual superior a R$ 1 trilhão, é mais desenvolvida, mais sofisticada, mais competitiva e maior como proporção do PIB se comparada a qualquer outro país emergente. [3]

    bastaria uma redução na oferta dos títulos públicos - por conta da diminuição da dívida interna - para disponibilizar uma dinheirama no mercado, para financiar o desenvolvimento. os gestores terão que buscar ativos com rentabilidade para substituir títulos públicos. é erro pensar que o sistema bancário é quem irá prover recursos para financiar empresas e consumo. o funding será dado pelos fundos, financiando a produção por meio de debêntures e o consumo por meio de instrumentos como os Fundos de Direitos Creditórios, pelos quais as empresas antecipam receitas futuras contratadas. [4]

    este cenário promissor é, evidentemente, incompatível com a atual taxa básica de juros. não há incentivo em se investir em atividade produtiva, gerando empregos, renda e aumentando a propensão ao consumo, enquanto a taxa básica do BC regular a disponibilidade de recursos bancários para empréstimos e também remunerar a maior parte da dívida pública. os títulos públicos, qualquer que seja seu prazo nominal de vencimento, têm liquidez diária garantida pelo governo. além disto, a taxa básica por um dia é maior que as taxas de juros de médio e longo prazo. o resultado é um ativo financeiro que rende juros e nunca fica indisponibilizado. esta anomalia proporciona uma rentabilidade diária alta, segura e sem os embaraços de ter que contratar e pagar salário a trabalhadores, sem as complicações com o Fisco, sem taxas e impostos, sem ter que cumprir regras ambientais, sem obrigações sociais. um capitalismo sem risco e que dispensa a produção. [5]



    [1] Ignácio Rangel, "A inflação brasileira"
    [2] Ignácio Rangel, "A inflação brasileira"
    [3] Nélson Rocha Augusto, Folha de São Paulo , 02/07/2007
    [4] Luis Nassif, "Fundos e investimento", 14/08/2003
    [5] José Carlos de Assis

    02 julho 2007

    c'est moi

    no vácuo político brasileiro tudo parece se desmanchar no ar. como retomar a construção nacional interrompida? ainda faz sentido existir algum Brasil?

    quem é o Brasil? o que quer o Brasil?

    como Madame Bovary estamos condenados a uma vida medíocre e provinciana de um Estado periférico? nossas aspirações de grandeza e desenvolvimento não passam de sonhos românticos?

    desejamos um destino para o qual nos faltam condições objetivas? o que precisamos para mudar de vida? nos bastam nossos próprios recursos? a mesma realidade que nos oprime também nos mostra o caminho de saída?

    na ânsia de viver nossos sonhos, apenas nos frustramos com o desânimo e a decadência.

    pode ser que tenhamos perdido definitivamente o bonde da história, fadados a um inexorável processo de favelização, com perda da unidade nacional, e mesmo territorial.

    um país a serviço do tráfico. drogas, armas, órgãos, pessoas... um arquipélago desordenado de minúsculos guetos de luxo, protegidos por segurança privada e cercados de imensas áreas populares controladas por milícias.

    a cada vez que o processo histórico desemboca numa crise, impondo a necessidade de mudanças, se restabelece no Brasil um acordo de cúpula, pactuado pelas elites, e a mudança se reduz a um rearranjo que tudo muda para que nada fique diferente.

    desta vez não há mais âncoras institucionais disponíveis. o país vaga ao sabor dos escombros.

    países também se suicidam?

    haverá outro caminho para o Brasil? ou permaneceremos reféns do carisma e popularidade de Lula...

    é possível se captar a silenciosa movimentação social que marca o inicio de novos tempos? qual o exato início da mudança? o momento em que os velhos personagens se debatem ao serem todos tragados pela escuridão...

    quem é o Brasil? o que quer o Brasil?

    o Brasil somos nós. o que nós queremos.

    talvez a época dos lobos e dos chacais esteja chegando ao fim. e nossa exasperante tradição de mudanças lentas, seguras e graduais se aproxime vertiginosamente do ponto de ruptura.

    na década de 80 o futuro era dominar o conhecimento do que seria conhecido posteriormente como Tecnologia da Informação.

    hoje, o futuro está em descobrir como estabelecer relação cooperativa com o meio-ambiente, para gerar desenvolvimento sustentável e includente. quem dominar este conhecimento estará na liderança mundial nas próximas décadas.

    estamos destinados a ser a primeira biocivilização da história?

    22 maio 2007

    horizonte dos eventos

    sem que tenha havido um conhecimento prévio ou nenhuma visão estratégica por parte do governo, uma nova situação altera a dinâmica da economia brasileira. o acúmulo de dólares em nossa balança de pagamentos, criada pela colossal demanda chinesa por matérias-primas, provoca a mudança de sinal em nossas contas externas. [1]

    analistas com fortes conexões com o mercado financeiro, muito embora acertem no diagnóstico, falham na conclusão sobre os motivos da apreciação da moeda brasileira, colocando-a como reflexo natural da mudança estrutural da balança de pagamentos e da desvalorização mundial do dólar.

    os dados entre 2003 e 2006 indicam que a valorização cambial não pode ser exclusivamente creditada às contas externas. a grande maioria das principais economias emergentes teve um saldo em conta corrente como porcentagem do PIB mais elevado que o Brasil, apresentando uma valorização cambial menor. [2]



    ao se relacionar saldo em conta corrente e os juros reais em várias economias, a curva resultante indica que quanto melhor o resultado nas contas externas do país, menores os juros reais verificados. no gráfico se destaca apenas um ponto muito fora da curva: o Brasil. esta distorção abre excelente oportunidade para o mundo financeiro ganhar dinheiro em cima do contribuinte brasileiro. não é por outra razão que o real não pára de se valorizar, apesar da intervenção febril do BC. [3]

    para conter a tendência de sobrevalorização da taxa de câmbio, além de baixar os juros e controlar fluxo de capitais especulativos de curto prazo, é necessário estabelecer um imposto sobre a exportação de commodities, criando um fundo internacional. apesar da tributação, os setores exportadores não têm perda de receita. o ganho com a estabilidade cambial repõe a despesa do imposto. [4]

    para superar a rendição incondicional ao mercado a que o governo voluntariamente se entregou, há uma infinidade de opções.

    no exemplo, um imposto – o que numa abordagem esquemática é prejudicial ao setor exportador – acaba trazendo vantagens. não apenas para os próprios exportadores, como para toda a economia.

    as forças políticas e econômicas pensam e atuam com foco obtuso, movidas por interesses corporativos e sem abrir horizonte estratégico global.

    o que os exportadores querem? exportar mais e melhor. precisam de uma taxa de câmbio competitiva e com retorno atraente em reais. isto é possível através de um instrumento aparentemente contraditório com seus interesses: uma tributação, que provoca efeito inverso de uma primeira análise apressada e obtusa.

    o que os investidores querem? rentabilidade. podem conseguí-la aplicando em títulos públicos, asfixiando a economia com uma dívida interna crescente que suga recursos da produção através da gigantesca carga tributária necessária para arcar com os juros pagos pelo governo. ou podem financiar produção e consumo, via ativos modelados neste sentido.

    basta uma redução na oferta dos títulos - por conta da queda dos juros e da conseqüente diminuição da dívida pública - para disponibilizar uma dinheirama no mercado, que financiará o desenvolvimento. os gestores terão que buscar ativos com rentabilidade para substituir títulos públicos. é erro pensar que o sistema bancário é quem irá prover recursos para financiar empresas e consumo. o funding será dado pelos fundos de investimento, financiando a produção por meio de debêntures e o consumo por meio de instrumentos como os Fundos de Direitos Creditórios (recebíveis, já regulamentados no Brasil). [5]

    não existe antagonismo excludente entre exportações e mercado interno. assim como também entre mercado de capitais e desenvolvimento. o mesmo vale para pequenas empresas e transnacionais.

    o nó que trava o desenvolvimento e mantém a extrema desigualdade social do país não está nessas oposições simplistas.

    óbvio que o grande empresariado, o agronegócio exportador e o capital financeiro historicamente não construíram uma nação desenvolvida, com um forte mercado interno, socialmente justa e relevante na política internacional. inegável este fato. entretanto, a estratégia desses setores sempre foi dependente e associada – com o ápice de sua glória (e ocaso da nação) com os dois mandatos de FHC – que desde os anos 60 teorizou sobre a impossibilidade de um desenvolvimento autônomo, apresentando como única possibilidade a subordinação internacional e o crescimento com investimentos externos.

    o que nos falta é tanto um governo quanto setores da sociedade civil (desde organizações de classe empresarial quanto sindicatos de trabalhadores - sem falar nos partidos políticos) com um claro e coerente projeto de articulação das forças produtivas brasileiras em torno de uma estratégia de desenvolvimento sustentado e includente.



    [1] Luiz Carlos Mendonça de Barros, “Lula e seu keynesianismo”, 06/04/2007
    [2] Bruno Galvão Santos, “A criminosa política monetária-cambial do Brasil”
    [3] Luiz Carlos Mendonça de Barros, “Por que reduzir os juros”, 10/02/2006
    [4] Luiz Carlos Bresser-Pereira, 16/05/2006
    [5] Luís Nassif, “Fundos e investimento”, 14/08/2003

    20 maio 2007

    tudo a R$ 1,99

    o Brasil vive o melhor momento de sua história. ainda melhor do que os anos dourados de JK e superior ao “milagre” econômico da década de 70. [1]

    mesmo que estejamos “fracassando miseravelmente há 27 anos e ficando para trás, para trás e para trás” [2], os indicadores macroeconômicos vistos pela ótica do mercado financeiro não mentem: "o Brasil vive hoje um círculo virtuoso de crescimento" [3]

    convidados de honra ao banquete especulativo [4], banqueiros, grandes investidores e empresários festejam o negócio da China: dólar a R$ 1,99. e descendo a ladeira...

    deslizando na onda de euforia provocada pelo colossal apetite chinês por commodities, os mega exportadores brasileiros fazem rugir seu espírito animal. não se acanham em declarar que suportam um dólar bem mais barato. [5]

    os maiores empresários que o Brasil já teve, por maiores que sejam, como empresários eles têm apenas um projeto de empresa - mesmo que seja um enorme conglomerado - e não um projeto de pais. para eles, projeto de pais é coisa de estadista. [6]

    historicamente resignados a um medíocre, porém rentável, modelo de desenvolvimento dependente e associado, o grande empresariado brasileiro sempre privilegiou o comércio exterior. são voltados para as exportações. não necessitam desenvolver um mercado interno forte. por isto não se preocupam com um projeto de país. o país é mera plataforma de seus negócios. um acidente geográfico.

    um projeto de país é para todo e qualquer cidadão do país. e deveria constar dos interesses prioritários dos grandes empresários e do planejamento estratégico de suas empresas. sem projeto de país, toda grande empresa, por maior que seja, sempre será pequena no âmbito internacional. relações comerciais internacionais exigem muito mais do que contratos de compra e venda, são assunto de segurança nacional, envolvendo política de governo e esforço integrado da máquina estatal.

    o câmbio está bom para as commodities. é isto. não se poderia resumir e ilustrar melhor. bom para os negócios particulares. pouco importa se está péssimo para o Brasil.

    o crescimento sustentado só será alcançado com competitividade sistêmica, com inclusão social e industrial e trabalho colaborativo [7], com as grandes empresas entendendo que sua competitividade depende do grau de competitividade sistêmica da economia, substituindo a relação de subordinação entre a grande empresa e seus fornecedores pelo conceito de cadeia produtiva. [8]





    [1] Consultoria Tendências, Folha de São Paulo, 20/05/2007
    [2] Luiz Carlos Bresser-Pereira, Folha de São Paulo, 20/05/2007
    [3] Guido Mantega, Ministro da Fazenda, Folha de São Paulo, 20/05/2007
    [4] Marco Antonio Cintra, “Banquete especulativo”, 20/05/2007
    [5] Antonio Ermírio de Moraes, 19/05/2007
    [6] Blog do Nassif, comentários dos leitores, 19/05/2007
    [7] Luís Nassif, “Cooperação e inovação”, 14/07/2004
    [8] Luís Nassif, “O papel da grande empresa”, 15/07/2004

    15 maio 2007

    “made in Brazil”

    muito embora tenha sido notável o crescimento da economia brasileira entre 1930 e 1980, nosso modelo de desenvolvimento nunca foi autônomo. desigual e combinado, associado e dependente, o desenvolvimento brasileiro foi “consentido”.

    o avanço histórico no Brasil se processa por um crescimento desigual - mais rápido ou mais lento - das forças produtivas, fazendo com que características de etapas inferiores e superiores de desenvolvimento se combinem em nossa sociedade. [1]

    não fomos constituídos como nação, nem mesmo como sociedade. surgimos como uma empresa territorial voltada para fora e controlada de fora. [2] a implantação portuguesa na América teve como base a empresa agrícola-comercial. o Brasil é o único país das Américas criado, desde o início, pelo capitalismo comercial sob a forma de empresa agrícola. [3]

    organizou-se uma holding multinacional, com administração portuguesa, capitais holandeses e venezianos, mão-de-obra indígena e africana, tecnologia desenvolvida em Chipre e matéria-prima dos Açores e da ilha da Madeira – a cana. em torno do excelente negócio do açúcar, a primeira mercadoria de consumo de massas em escala planetária, se formou o moderno mercado mundial. [4]

    do ponto de vista da história mundial, a escravidão foi um anacronismo, pois já havia desaparecido da Europa Ocidental. entretanto, como solução para superar a carência de mão-de-obra demandada pela empresa agrícola-exportadora, a escravidão colonial cresce como um braço do capitalismo comercial. assim, um modo de produção historicamente já superado, novamente ressurge, em conseqüência das exigências de um sistema mais moderno, e com ele se combina e dele faz parte.

    a expansão do capitalismo no Brasil se dá introduzindo relações modernas no arcaico e reproduzindo relações arcaicas no moderno. [5] o “moderno” agronegócio dos usineiros do álcool não produz comida [6] e submete os “trabalhadores em um regime de escravidão disfarçada” [7], impondo uma rotina aos cortadores de cana que lhes reduz a vida útil de trabalho à cerca de 12 anos, comparável a dos escravos em 1850, antes da proibição do tráfico negreiro. [8]

    o “arcaico” e o “moderno” se entrelaçam e formam o nó que interdita o avanço do país para um desenvolvimento com inclusão social.

    surgida nas entranhas do complexo cafeeiro, a burguesia industrial jamais teve a mais longínqua pretensão de liderar um projeto de soberania nacional.

    associada ao latifúndio, em cujo berço esplêndido foi nascida [9], e dependente dos compromissos externos, para manter sua sustentação interna, a burguesia brasileira sempre preferiu se acomodar na condição de sócio-menor do capitalismo internacional, voltando as costas à aliança com as classes subordinadas e ao compromisso com o desenvolvimento nacional. [10]

    o capital industrial brasileiro não surge num momento de crise do complexo cafeeiro exportador. ao contrário, desponta num instante de auge, em que a taxa de rentabilidade alcançava níveis elevadíssimos. os lucros gerados entre 1889 e 1894 não encontravam plena aplicação na economia cafeeira. a acumulação financeira excedia as possibilidades de acumulação produtiva. bastava, portanto, que os projetos industriais assegurassem uma rentabilidade positiva, garantindo a reprodução global dos lucros, para que se transformassem em decisões de investir. [11]

    o núcleo da nascente burguesia industrial brasileira encontra suas origens na emigração européia. entretanto, ao contrário do mito do self-made man, de origem modesta e que constitui fortuna graças ao trabalho árduo e persistente, o imigrante que vem a se tornar proprietário de empresas no Brasil aqui já chega com alguma forma de capital, pertencia a famílias de classe média, possuía também instrução técnica, e, muitas vezes, havia sido contratado como administrador. [12]

    para a burguesia industrial nascente, a base de apoio para o início da acumulação não é a pequena empresa industrial, mas o grande comércio ligado às atividades de importação e exportação. do mesmo modo que a exportação, a importação é dominada em grande parte por empresas estrangeiras. por sua vez, o comércio interno é controlado pelos importadores. graças a sua origem social, o burguês imigrante encontra facilmente um lugar no grande comércio. [13]

    desse modo, o latifúndio exportador, a importação, o grande comércio e a burguesia imigrante, que vem a ser o núcleo da burguesia industrial nascente, estão todos intimamente conectados.

    dependente de capital externo e associado aos países centrais, o desenvolvimento brasileiro é caracterizado por desigualdades profundas, relacionadas com a superexploração da mão-de-obra, o que possibilita a transferência de lucros para o exterior. a desigualdade interna se torna, desse modo, um elemento estrutural da economia mundial. [14]

    o subdesenvolvimento não se constitui em de etapa obrigatória dentro de uma perspectiva evolucionista em direção ao desenvolvimento. o subdesenvolvimento é a forma pela qual o desenvolvimento capitalista se efetuou nas ex-colônias - as quais tinham a função histórica de serem elementos subordinados na cadeia de acumulação de capital. o subdesenvolvimento é o lugar próprio da periferia na divisão internacional do capitalismo, exprime uma relação de dependência e subordinação em relação aos países centrais do sistema. como resultante se tem a criação de estruturas híbridas, uma parte das quais tende a se comportar como um sistema capitalista, a outra, a manter-se dentro da estrutura preexistente. [15]

    apesar da aparente oposição formal, o “moderno” e o “atrasado” se integram. a combinação de um intenso processo de industrialização com uma estrutura agrária basicamente atrasada produz taxas extraordinárias de acumulação por um lado, e por outro, níveis absurdos de exploração da força de trabalho. [16]

    a partir de 1930, com a mudança da potência hegemônica no plano internacional, as condições para a industrialização do Brasil se ampliam. o capitalismo financeiro europeu mantinha a política de organizar o suprimento de matérias-primas e produtos agro-primários para a metrópole, preservando o mercado periférico para os produtos industriais metropolitanos. outra, porém, seria a atitude do capital financeiro norte-americano, que não era supridor tradicional de produtos industriais no Brasil e contava com uma vasta e diversificada produção metropolitana, condição que o desenvolvimento da técnica só tendia a consolidar, industrializando a agricultura e a produção de matérias-primas. conseqüentemente, esse novo capital financeiro pouco tinha a perder com o desenvolvimento de alguma indústria no Brasil e, ao contrário, muito tinha a ganhar. [17]

    em 1950, Getúlio Vargas contava com uma versão do Plano Marshall para a América Latina. entretanto, a estratégia dos EUA previa o investimento privado das grandes corporações, e não a ajuda oficial. foi Juscelino quem compreendeu o espírito da época. sem Plano Marshall, tivemos a Volkswagen e a Ford... [18]

    as empresas multinacionais e o capital financeiro internacional não impedem, mas condicionam perversamente o desenvolvimento econômico, promovendo a concentração de renda da classe média para cima e estimulando o autoritarismo. a causa do atraso dos países subdesenvolvidos não está apenas na exploração do centro imperial, mas também, senão principalmente, na incapacidade das elites locais, especificamente da burguesia, de serem nacionais, ou seja, de pensarem e agirem em termos dos interesses nacionais. [19]

    os países periféricos passam a produzir certos artigos industriais, primeiro para o mercado interno, depois para exportação, inclusive para os próprios países centrais, quando por eles não podem mais ser produzidos tão lucrativamente. longe de diminuir a dependência, este processo apenas a intensifica e fracassa na resolução do problema central do desenvolvimento do mercado interno. [20]


    [1] Trotsky, "A história da revolução russa"
    [2] Caio Prado Jr, "A formação do Brasil contemporâneo"
    [3] Celso Furtado, "Análise do Modelo Brasileiro"
    [4] César Benjamin, "Uma certa idéia de Brasil"
    [5] Francisco de Oliveira, “Crítica à razão dualista”
    [6] Ariovaldo Umbelino de Oliveira, Correio da Cidadania, 02/05/2007
    [7] Luiz Felipe de Alencastro, sequenciasparisienses.blogspot.com
    [8] Maria Aparecida de Moraes Silva, citada por Mauro Zafalon, Folha de São Paulo, 29/04/2007
    [9] Wladimir Pomar, "Um mundo a ganhar"
    [10] FHC, "Empresariado industrial e desenvolvimento econômico"
    [11] João Manuel Cardoso de Mello, "O capitalismo tardio"
    [12] Warren Dean, "A industrialização de São Paulo"
    [13] Sérgio Silva, "Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil"
    [14] Theotônio dos Santos, “Dependência e mudança social”
    [15] Celso Furtado, “Elementos de uma teoria do desenvolvimento”
    [16] Francisco de Oliveira, “Crítica à razão dualista”
    [17] Ignácio Rangel, “História da dualidade brasileira”
    [18] José Luis Fiori, “O capitalismo e suas vias de desenvolvimento”
    [19] Luiz Carlos Bresser-Pereira, “Do ISEB e da CEPAL à Teoria da Dependência”

    [20] André Gunder Frank, “Acumulação dependente e subdesenvolvimento”

    05 maio 2007

    ruptura

    nas eleições presidenciais de 2006, quando parecia que a política se tornara definitivamente irrelevante e os Mercados já festejavam pacificados, não importando quem vencesse, o segundo turno politiza a campanha e a pauta das eleições se altera. [1]

    com a reeleição de Lula, a população brasileira reafirma modo inequívoco a sua escolha. a vontade de mudança, reprimida por décadas, séculos, expressou-se mais uma vez pacificamente, democraticamente. [2]

    as massas populares passam a ser o protagonista de qualquer novo projeto nacional que se pretenda legítimo. a inclusão social se torna o ponto central da política. [3]

    o país entra em um instante particularmente rico de sua história. forma-se um consenso: o Brasil precisa crescer. [4] e, dessa vez, um crescimento que surta efeito includente e de superação das desigualdades. [5]

    mas como crescer? em qual direção? qual o desenvolvimento que precisamos? bastaria apenas tentar reproduzir o padrão de consumo dos países desenvolvidos?

    a hipótese de extensão ao conjunto dos países das formas de consumo que prevalecem nos países centrais não tem cabimento dentro das possibilidades evolutivas aparentes do sistema capitalista. o custo, em termos de depredação do mundo físico é de tal forma elevado, que toda tentativa de generalização levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco a sobrevivência da espécie humana. a idéia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos é simplesmente irrealizável. as economias da periferia nunca serão desenvolvidas no sentido similar às economias que formam o atual centro do sistema capitalista. cabe, portanto, afirmar que a idéia de desenvolvimento econômico é simplesmente um mito. [6]

    qualidade de vida não é uma mercadoria que se possa comprar. tampouco uma posição a ser ocupada na pirâmide social. não importa o quanto de dinheiro e riqueza disponível. taxa de lucro e acumulação de capital não redundam, automaticamente, em qualidade de vida.

    qual então o modelo de desenvolvimento que também proporcione qualidade de vida?

    eleito com o voto das massas trabalhadoras, Lula prefere governar com as elites. [7] sua ampla coalizão política "pensando nos próximos 20 anos” [8], reúne apenas quem nas últimas décadas sempre esteve no poder. [9]

    por mais ampla, porém, que seja a coalizão, não haverá alternativa para um governo de mudanças se sua liderança, o presidente, não introduzir a sociedade brasileira como interlocutora. se uma vez mais – em 2007 repetindo 2003 – , o governo optar pelos entendimentos de gabinete, se uma vez mais apostar na solução dos impasses através as negociações de elite, de cima para baixo, em entendimentos com banqueiros e empresários da grande imprensa, perderá a força do apoio popular e não realizará qualquer das mudanças necessárias, ou pelo menos não as realizará na medida exigida pelo país. [10]

    Lula privilegia os grandes grupos, o grande capital. oferece desonerações tributárias para os setores afetados pelo câmbio, enquanto mantém blindado o cerne da política econômica, atendendo aos setores dominantes, bancos e grandes investidores, com a mais alta taxa de juros reais do mundo.

    o “moderno” agronegócio dos usineiros do álcool, os novos heróis de Lula [11], não produz comida [12] e submete os “trabalhadores em um regime de escravidão disfarçada”. [13] o novo ciclo da cana-de-açúcar impõe uma rotina aos cortadores que lhes reduz a vida útil de trabalho à cerca de 12 anos, comparável a dos escravos em 1850, antes da proibição do tráfico negreiro. [14] mesmo assim, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, titular da pasta no primeiro mandato de Lula, afirma que o trabalho dos cortadores de cana é "bruto, pesado, mas bem remunerado". [15]

    do café à cana-de-açúcar, numa viagem imóvel pelos séculos, Ribeirão Preto é a imagem do Brasil e de sua elite. paralisada no tempo, produzindo commodities e combinando a desigualdade do trabalho semi-escravo dos cortadores de cana com o enriquecimento dos senhores das modernas usinas. resiste obstinadamente a todas as transformações fundamentais. haure sua longevidade do veneno, que a alimenta e corrompe o vinho novo, incapaz assim de fermentar. um modelo incapaz de trazer desenvolvimento e muito menos inclusão social. o “arcaico” e o “moderno” se entrelaçam e formam o nó que interdita o avanço do país.

    como reconstruir a sociedade após um século de derrocada das utopias? a esquerda atua e fala como se escondesse um plano que não tem. temerosa da reação econômica a qualquer iniciativa transformadora, esforça-se para parecer confiável aos que manejam o dinheiro. as lições da experiência contemporânea são inequívocas: os países que avançam são os que insistem em fazer diferente, os que inovam [16]

    enquanto Lula desperdiça o auge de seu poder na instauração de um hipotético consenso abrangente e duradouro [17], na desolação do cenário político brasileiro, mesmo que nada se ouça, além do silêncio, ainda assim é possível sentir um grito infinito atravessando a paisagem. [18]

    para romper este silêncio gritante no qual um país inteiro se imobilizou, surge a situação que toma impossível qualquer retrocesso e na qual são as próprias condições que gritam: aqui está o Brasil, salta aqui! [19]

    os velhos odres devem ser abandonados. [20]

    não há mudança sem ruptura. parto sem dor. passamos do tempo das postergações, hesitações, meias-medidas, apaziguamentos, conciliações, recuos e capitulações voluntárias. chegou o momento de tomar a trajetória que exige autotransformação, a via do engrandecimento, pavimentada com as dores da reconstrução de nós mesmos. [21]

    sem atingir o coração das trevas da política econômica, rompendo o pacto maldito entre a Casa Grande e a Senzala, entre os bancos e os grotões, entre as forças do mercado e as favelas, entre o Copom e o Bolsa Família, que para uns distribui juros, enquanto perpetua a miséria dos outros com políticas compensatórias, não haverá desenvolvimento, não haverá inclusão social.

    as soluções existem. elas são mais do que sabidas. estão colocadas sobre as mesas de todas as autoridades. todo mundo sabe como resolver. o que falta é decisão: [22]

    controle de fluxo de capitais; queda dos juros até patamar correspondente a classificação de risco internacional do Brasil; reforma para terminar com a indexação dos títulos federais pela Selic, ou seja, fim da correção diária da dívida pública interna pela mesma taxa de juros que o Banco Central estabelece sobre as reservas bancárias para conduzir a política monetária; desindexação dos preços dos serviços públicos, e, mais amplamente, a proibição terminante de o governo brasileiro aceitar qualquer indexação em seus contratos e preços administrados; BC assumir como missão, além do controle da inflação, a manutenção do nível do emprego e do crescimento econômico.

    para nos livrarmos das armadilhas do fiscalismo - aceitação integral da cartilha dos mercados financeiros - e do mercantilismo – economia voltada para as exportações e o mercado externo - é preciso produzir mais e melhor, dando a dezenas de milhões de brasileiros as condições para participarem do esforço produtivo e para consumir-lhe os produtos. [23]

    a chave para destravar o desenvolvimento está nas massas do trabalho informal. são os marginalizados das cidades e das áreas rurais, os bóias-frias e os favelados, que, ao serem incorporadas à economia formal de modo organizado e estratégico, trarão consigo o crescimento.

    é na inclusão maciça da periferia das grandes metrópoles brasileiras, implicando na construção de bairros inteiros, escolas, centros de saúde e de capacitação profissional, acompanhada da implantação de um modelo agrícola baseado em pequenas unidades camponesas de produção, é desta economia de guerra, com suas inevitáveis imposições de inovações tecnológicas e criatividade de soluções, que virá o desenvolvimento do Brasil.






    [1] arkx, “a terceira via”, 18/10/2006
    [2] Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007
    [3] Luis Nassif, “Os cabeças de planilhas”
    [4] Roberto Mangabeira Unger, “Duas ilusões ruinosas“

    [5] Roberto Mangabeira Unger, “Crescer“
    [6] Roberto Mangabeira Unger, “Duas ilusões ruinosas“
    [7] arkx, “a segunda descida aos infernos de Lula da Silva”, 31/03/2006
    [8] Lula, 23/03/2007
    [9] arkx, “ciclos”, 26/03/2006
    [10] Roberto Amaral, “As eleições de 2006 e as massas: uma emergência frustrada?”
    [11] Lula, 30/03/2007
    [12] Ariovaldo Umbelino de Oliveira, Correio da Cidadania, 02/05/2007
    [13] Luiz Felipe de Alencastro, sequenciasparisienses.blogspot.com
    [14] Maria Aparecida de Moraes Silva, citada por Mauro Zafalon, Folha de São Paulo, 29/04/2007
    [15] Folha de são Paulo, 01/05/2007
    [16] Roberto Mangabeira Unger, “Contra a corrente“
    [17] Roberto Mangabeira Unger, “Crescer sem dogma”, 13/03/2007
    [18] arkx, “entreato”, 15/04/2007
    [19] Karl Marx, "O 18 Brumário"
    [20] Raymundo Faoro, "O estamento burocrático no Brasil: consequências e esperanças"
    [21] Roberto Mangabeira Unger, “Qual futuro?”, 27/03/2007
    [22] Julio Sergio Gomes de Almeida, ex secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, demitido por ter criticado a política monetária do BC e seus efeitos sobre o câmbio, 04/04/2007

    [23] Roberto Mangabeira Unger, “Duas ilusões ruinosas“