13 março 2008

mulheres que amam

mulheres que amam
amam tanto
que de tanto amar
perdidas nos labirintos da paixão
se confundem em seu amor
como uma ânsia
um furor
maníaca obsessão

as mulheres não deveriam amar
não mais
e o amor delas arrancado
como clitóris extirpados
e atirados ao fogo
para que fogo contra fogo
ardam e se consumam
nas chamas da fogueira
os fogos da paixão

mulheres que amam
condenadas eternamente
nas pedras a se arrastarem
exibindo inscritas nas peles cicatrizes
jaculatórias de gozo
tatuadas por prazeres e suplícios
de epifanias obscenas

não, não deveriam
não mais

no isolamento das celas
na clausura dos conventos
pelo jejum, o flagelo, a mutilação
o exorcismo de toda
a maldição do amor e seus tormentos


mulheres amam
mas não sabem o que querem
tampouco sabem
o que delas quer o amor
senão avassalador arrebatamento
de um cio inevitável
sangramento incontrolável
possessão inexplicável
misturando múltiplos orgasmos
transe místico
e deliciosas dores de partos

não mais

ou então...

qual mulher
capaz de arrancar completamente
o amor para fora de seu peito
apenas com o amor vestida

sair às ruas
para ao próprio amor auscultar os pedidos
compreender-lhe as súplicas
e lhe decifrar os desígnios

qual mulher
ousaria enfrentar o gozo
que já não é mais seu
é do amor mesmo que a devora
parindo úteros que geram sonhos
de pura luz iluminando o mundo

qual mulher
a esse amor se entregaria
para que possa
enfim
saber o que é o amar



12 março 2008

parir o novo

para o mal ou para o bem Dilma Roussef se tornou a mãe do PAC. [1]

assim, através da Ministra-Chefe da Casa Civil virão à luz o teleférico do Complexo do Alemão, a elevação da via férrea e construção do parque em Manguinhos e a passarela assinada por Niemeyer na Rocinha.

enquanto providencia o parto das grandes obras que atendem o interesse das construtoras, Dilma se encarrega de justificá-las com as “obras sociais”: saneamento e reurbanização.

no início do primeiro mandato de Lula, Dirceu era reverenciado e temido como genial e implacável operador político.

acabou cassado. sofre processo como “chefe de uma organização criminosa”.

Palocci, por sua vez, se apresentava como pacificador dos mercados, âncora da estabilidade e o mais provável sucessor.

caiu por causa de um simplório caseiro. os mercados continuaram tão pacíficos e tão rentáveis como antes.

membros da equipe econômica não costumam ter problemas de emprego ao deixar o governo. em retribuição aos bons serviços prestados, logo são recompensados com cargos no alto escalão de empresas do mercado financeiro. para receberem o prêmio, contudo, mínima capacitação técnica é requerida. no caso de Palocci, para continuar se dedicando à causa dos banqueiros, só lhe restava a via parlamentar. [2] foi reeleito pelo lobby do sistema financeiro.

num governo em cujo céu há cada vez menos estrelas, agora é a vez de Dilma brilhar. quase solitariamente.

coube a José Dirceu consolidar no PT um modelo de campanha eleitoral financiado pelos grandes empresários e conduzido pelos marketeiros, levando ao afastamento da militância petista das ruas.

a Palocci também não faltou qualidades para articular a capitulação do PT a uma política econômica que faz com que Lula possa admitir, com certa dose de orgulho, que jamais banqueiros e grandes empresários ganharam tanto dinheiro quanto em seu governo, mesmo que os votos tenham sido para seu adversário.

de modo semelhante, Dilma é também muito competente em adotar a bandeira da gestão não-ideológica, desfraldada sem sucesso pelo candidato tucano derrotado nas eleições passadas.

Dilma faria parte de uma lenta, mas sistemática, aproximação dos quadros técnicos das funções-chave do governo, promovendo uma revolução gerencial que se encaminha lentamente para um ponto de equilíbrio, sem mudanças bruscas entre um governo e outro, em prol do equilíbrio do Estado. [3]

num país com desigualdades abissais e ainda no topo do ranking com a mais alta taxa de juros reais do mundo, deve ser algum tipo de sadomasoquismo se referir a "ponto de equilíbrio do Estado".

a grande novidade não é um “gestor não-ideológico”. para isto, há talento de sobra entre os inúmeros executivos das empresas brasileiras.

o que o Brasil precisa é de “gestão ideológica” de qualidade.

por sinal, algo que a Esquerda jamais conseguiu dar conta. e que Direita sempre fez com muita competência, mas nunca a favor dos interesses nacionais.

por que melhorar a gestão pública?

para que o governo gaste melhor. não necessariamente gaste menos, pode até vir a gastar mais com uma melhor gestão.

como o governo pode gastar melhor, se o maior gasto é com os juros da dívida pública?

neste ponto, Dilma tem demonstrado pouca capacidade de gerar alternativas e total inapetência em interferir politicamente.

outro ponto: como melhorar a gestão sem melhorar a gestão de pessoas?

porque gestão é fundamentalmente gestão de pessoas. não existe qualidade na gestão de processos sem qualidade na gestão de pessoas, já que são pessoas concretas que fazem funcionar os processos.

como ter uma boa gestão de pessoas sem destravar o nó provocado pela fisiologia do loteamento político nos órgãos públicos e empresas estatais?

aqui vale frisar que também há, e muito, loteamento político nas empresas privadas.

o mínimo de experiência na administração pública ensina que o corpo técnico e a gerência média é de tão boa qualidade (ou até supera) quanto nas empresas privadas.

ocorre que esta camada média da gestão pública é mantida refém da cúpula, onde estão os apadrinhados dos acordos fisiológicos.

não há como destravar este nó atuando apenas na superestrutura.

Dilma é o derradeiro capítulo da triste novela de se tentar no Brasil desenvolvimento sob a tutela do Copom.

Dilma é hoje o que Dirceu e Palocci foram no passado. e há grande chance de no futuro ela ser como eles são hoje.


não se trata de estratégia para o país, apenas um plano político para percorrer o caminho em direção a 2010.

entretanto, há pesadas e negras surpresas no horizonte, ainda em 2008.

erguer castelos de cartas pode ser tão doce ilusão. o duro tombo na realidade sempre desfaz fantasias.




[1] Dilma Roussef, 11/03/2008, assumindo a condição que lhe foi conferida por Lula, em discurso na Favela do Alemão, no Rio, em 07/03/2008
[2] arkx, “cartas de Palocci”, 05/03/2008
[3] Francisco, comentário no Blog do Nassif, 08/03/2008

29 fevereiro 2008


uma esfinge sem enigmas

ao se considerar as 500 maiores empresas brasileiras, elas nunca ganharam tanto dinheiro como agora. os bancos também nunca ganharam tanto dinheiro.[1]

enquanto ao Bolsa Família cabem meros R$ 8 bilhões, o governo gasta R$ 160 bilhões com os juros da dívida pública interna. em 2007, o lucro dos quatro maiores bancos foi de R$ 20 bilhões contra R$ 21 bilhões de todo o orçamento social de Lula. [2]

apesar de em seu transtorno compulsivo tentar obsessivamente gerar a crise capaz de golpear Lula até a queda derradeira, a grande mídia não deixa de celebrar em manchetes efusivas a política econômica do mesmo governo Lula. [3]

mantendo sua popularidade sequer arranhada, Lula continua dando as cartas e embaralha a política brasileira.

com sua dubiedade e sua arrogância, suas hesitantes meias-medidas e sua vã onipotência, sua capitulação voluntária aos mercados disfarçada sob o álibi de seu assistencialismo compensatório aos miseráveis, Lula faz com que um país inteiro se paralise, girando em círculos numa falsa encruzilhada, prisioneiro de uma esfinge sem enigmas, fugindo de uma resposta simples a tão incômoda pergunta:

como pode um governo dos trabalhadores executar tão bem a política econômica dos patrões?

não que uma defesa incondicional e irracional de Lula o pretenda perfeito e sem defeitos, apenas lhe considera como o pior presidente que o Brasil já teve, com exceção de todos os outros. [4]

a rentabilidade dos bancos não tem sido afetada pelas oscilações da economia brasileira. a única diferença está na fonte de lucros das instituições financeiras. em períodos de menor crescimento e maior instabilidade econômica, os ganhos são inflados pelas operações com títulos públicos, que ficam mais rentáveis com o aumento da taxa básica de juros. com um maior dinamismo da economia, o lucro vem da cobrança de tarifas, impulsionadas pela expansão das operações de crédito. [5]

em 2002, quando as especulações em torno das eleições presidenciais levaram o dólar perto de R$ 4, os principais bancos privados do país tiveram uma rentabilidade sobre patrimônio líquido de 28%. naquela ocasião, a elevada taxa Selic – oscilando em torno de 20% ao ano - favorecia os ganhos com aplicações em títulos públicos. as receitas com operações de tesouraria representavam 34% do faturamento total, enquanto o peso das tarifas era de apenas 11%.

já em 2007, a rentabilidade desse grupo de instituições chegou a 35%, sendo que o peso das tarifas no faturamento subiu para 18%, e os ganhos com tesouraria, ao contrário, caíram para 23% da receita total. [6]

mesmo assim, as taxas de juros dos empréstimos dispararam em janeiro de 2008, sendo que para pessoas físicas o salto foi de 4,9 pontos percentuais. [7]

se é bom que todo mundo ganhe, também é bom lembrar que o povo também precisa ganhar dinheiro. [8]

os ganhos com a prestação de serviços bancários são favorecidos, entre outros fatores, pelo aumento da renda da população, o que estimula o crescimento de setores como o de fundos de investimentos e de seguros. [9]

então, assim se revela o último dos mistérios de um governo dos de baixo, mas governando para os de cima, numa hegemonia às avessas. [10]

devido aos programas sociais, a economia política do governo Lula costuma ser avaliada como a máxima concessão possível de ser arrancada aos mercados, fazendo da taxa de juros, mantida como a segunda mais alta do mundo, e do câmbio apreciado, tornando o Real a moeda que mais se valorizou frente ao dólar, uma espécie de suborno oferecido aos grandes investidores para impedir qualquer chantagem que solape as condições de governabilidade, as quais, por sua vez, possibilitam a continuidade das políticas sociais.

do mesmo modo que o Bolsa Família é o instrumento pelo qual se impede uma explosão dos miseráveis e se mantém a brutal transferência de renda através da taxa de juros, firmando o pacto maldito entre as favelas e o Copom, não haveria expansão de crédito sem recomposição do salário mínimo, caso não se preservasse o preço da cesta básica e fora do risco zero do crédito consignado.

o aumento do consumo das famílias se dá num ritmo superior ao crescimento da massa salarial, indicando como são mecanismos de crédito que sustentam esse incremento. numa clara demonstração de como tem funcionado a expansão daquilo que alguns já denominam de economia do endividamento. [11]

através dos juros da consignação em folha, poupando os credores dos perigos da inadimplência, as camadas populares são conduzidas, em longas prestações, ao paraíso do consumo, gerando a bolha de crédito que possibilita os bancos a cravarem os sucessivos recordes em seus lucros. [12]

assim, embora avaliadas como o grande mérito do governo, as políticas sociais de Lula se encaixam perfeitamente nos fundamentos da “hegemonia às avessas”.

trata-se de um fenômeno novo, em nada parecido com qualquer das práticas de dominação exercidas ao longo da existência do Brasil.

não é o patrimonialismo, pois o que os administradores dos fundos de pensão estatais gerem é capital-dinheiro. não é o patriarcalismo brasileiro de Casa-grande & senzala, porque não é nenhum patriarca quem exerce o mando, nem a economia é “doméstica”. não é populismo, como sugere a crítica da direita, e mesmo de alguns setores da esquerda, porque o populismo foi uma forma autoritária de dominação na transição da economia agrária para a urbano-industrial. [13]

com a eleição de Lula, parecia ter sido derrotada a poderosa discriminação social brasileira, o preconceito de classe absurdamente alto num país com tradição racista. mas, para quê? para governar para os ricos. e os ricos consentem, desde que os fundamentos da exploração não sejam postos em xeque. [14]


ao negar-se a decifrar o enigma do auto-engano em que se imobilizou, para hipotecar apoio incondicional a Lula, a maior parte da Esquerda acaba por se converter em sua própria esfinge, sem se dar conta que devora a si mesma.




[1] Lula, 19/02/2008
[2] Francisco de Oliveira, “Obama, Tocqueville e a ilusão americana”, 28/02/2008
[3] “Brasil já é credor externo, informa BC“, 21/02/2008
[4] “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”, Winston Churchill
[5] Ney Hayashi da Cruz, “Bancos têm lucro com crise ou expansão”
, Folha de São Paulo, 25/02/2008
[6] dados do Inepad (Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração), citados por Ney Hayashi da Cruz, “Bancos têm lucro com crise ou expansão”, Folha de São Paulo, 25/02/2008
[7] Lu Aiko Otta , “Taxas de juros disparam”, Jornal do Commercio, 27/02/2008
[8] Lula, 19/02/2008
[9] Ney Hayashi da Cruz, “Bancos têm lucro com crise ou expansão”, Folha de São Paulo, 25/02/2008
[10] Francisco de Oliveira, entrevista a Gazeta Mercatil, 07/12/2006
[11] Paulo Passarinho, “A economia brasileira se recupera?”
[12] “Lucro do Itaú dobra e é o maior do setor”, Folha de São Paulo, 13/02/2008
[13] Francisco de Oliveira, “Hegemonia às avessas”
[14] Francisco de Oliveira, “Hegemonia às avessas”

24 fevereiro 2008

milagres capitalistas em cuba libre [1]

o jornalista pressiona a tecla ENTER e o e-mail é enviado.

tratava-se de sua coluna semanal para o jornal de maior tiragem no Brasil. em alguns poucos parágrafos, o texto demonstrava como através do capitalismo seria gerado o milagre cubano.

o homem se levanta. acende um cigarro. beberica uma dose de whisky. olha em torno.

por um breve instante, permanece imóvel no centro da ampla sala de seu luxuoso apartamento, no mais rico bairro da maior cidade do país.

mobília. decoração. biblioteca. iluminação indireta. música baixa e suave. conforto e sucesso.

ele caminha até a varanda. estende seu olhar através da noite poluída. tenta vislumbrar a turva linha do horizonte.

a convulsionada paisagem de neon e escuridão parece se contorcer entre gemidos, sussurros, súplicas desconexas.

com perplexidade, o jornalista sente seus pensamentos se embaralharem. sem saber se tomado por epifania ou maldição, pensa estar prestes a desmaiar.

quantos monstruosos milagres não se produziam ali mesmo, naquele exato momento, na atormentada cidade à sua frente?

estupros e mutilações. vício, vaidade, tiroteios, abortos e suicídios. hemorragias, escarro, traições e infâmias. assassinatos, frustrações e tumores.

milagres. milagres capitalistas. por toda a parte. de puro horror e iniqüidade.

com o toque do celular, o jornalista é trazido de volta a seu reconfortante cotidiano de oportunidades e negócios.

encharcado de suor, se atira de costas no sofá, antes de atender o telefone.

enquanto isto, em Cuba, numa das frondosas avenidas de Havana, em um inútil pardieiro, no que antes da Revolução fora um palacete magnífico, dez famílias exercitam sua imaginação.

especulam se a transição cubana será uma saída do fracassado regime de Fidel em direção a algum estágio superior do socialismo. quem sabe, o velho e bom capitalismo...

com a abertura aos investimentos estrangeiros, surgiriam imensas chances de prosperidade em Cuba. e todos sairão ganhando.

a nomenklatura do PC Cubano, corretores imobiliários de Miami, construtoras brasileiras e toda sorte de audazes empreendedores também fazem suposições e traçam seus planos.

chega-se então a um exemplo bastante engenhoso do que o capitalismo pode fazer por Cuba.

para deslanchar o mercado imobiliário em Cuba, será necessário um retorno ao passado para se poder chegar ao futuro.

os milhares de litígios se resolvem indenizando os herdeiros dos antigos proprietários com títulos emitidos pelo governo cubano. estes títulos são comprados, com deságio de até 90%, por corretores de imóveis de Miami.

estes negociam com as famílias cubanas que ocupam os diversos casarões, oferecendo a cada uma delas um apartamento em outros imóveis.

ao mesmo tempo, os corretores lançam agressiva campanha publicitária direcionada a aposentados nos EUA, para trocarem suas propriedades por mais baratos e muito melhores apartamentos de luxo em Havana, a serem erguidos no lugar dos casarões, e ainda embolsarem a diferença entre os preços de compra e venda.

todas estas novas construções ficam a encargo de empreiteiras brasileiros. com a ajuda de farta distribuição de caixinhas, serão beneficiadas pelos programas de incentivo à construção civil e de estímulo a habitações populares, lançados pelo governo cubano, oferecendo um amplo leque de subsídios financeiros e isenções fiscais.

todo mundo ganha.

os herdeiros recebem uma indenização razoável por um casarão já dado como perdido e do qual não tinham como retomar a posse. os “companheiros” da burocracia comunista cubana embolsam polpudas comissões. os moradores do cortiço tornam-se proprietários de apartamentos novos, com excelente perspectiva de valorização num mercado em processo de rápida expansão. os aposentados norte-americanos vão morar no dobro do espaço, ainda sobrando para eles muita grana no bolso. um exército de cubanos consegue emprego nos diversos canteiros de obras espalhados por Havana. os corretores e empreiteiros obtém com o negócio um retorno de 100%. mesmo com a repatriação de parte dos lucros, ainda assim os recursos que entram na economia cubana são, pelo menos, equivalentes ao hipotético valor inicial dos diversos pardieiros inúteis.

despertado o animal spirit do empresariado, a mão invisível do mercado opera seu milagre. e faz com que, pelo poder da consumação dos lucros, o interesse privado se concretize através da realização da necessidade coletiva.

logo ao ocuparem suas novas moradias, os antigos moradores do pardieiro inútil deparam-se com algumas surpresas.

como os prédios foram construídos em um outro bairro, agora a distância de seus locais trabalho é enorme. não há transporte público. tampouco nas cercanias dos prédios existem escolas, postos de saúde, creches.

o governo cubano e as construtoras brasileiras trocam acusações sobre quem seria o responsável pela falta de infra estrutura nos outros bairros onde os prédios populares foram construídos. o tempo passa. não chegam a conclusão alguma. tudo vai ficando como está.

logo nos primeiros meses de uso, os imóveis apresentam graves problemas. desvios e adulteração do material utilizado nas obras prejudicaram a qualidade das construções. rachaduras comprometem as estruturas. alguns dos prédios tem que ser evacuados. muitos dos moradores ficam sem ter para onde ir.

no decorrer daquele ano, a especulação imobiliária avança descontrolada em Havana. os moradores dos conjuntos recém construídos são assediados por vendedores ambiciosos. muitos acabam cedendo. inspirados pelos aposentados norte-americanos, vendem seus apartamentos na esperança de comprarem outra moradia, mesmo que pior mas por um preço menor, e assim ainda ganharem algum dinheiro.

antes reprimida pela mão de ferro do regime cubano, agora a demanda habitacional explode com toda violência. a frágil economia de Cuba, num delicado processo de transição para um sistema de livre mercado, entra em crise: inflação, desemprego, desabastecimento, colapso energético.

então, nas cercanias de Havana, emerge a verdadeira face dos milagres que o capitalismo produzirá em Cuba: nascem os barracos iniciais das primeiras favelas.

a partir daquela noite, entre as 50 milhões de crianças dormindo na rua em todo o mundo, algumas dentre elas serão cubanas. para se abrigarem já não contam com nem mesmo os antigos pardieiros inúteis.

em São Paulo, ainda transtornado, o jornalista demora um pouco para reconhecer ao telefone a voz do amigo, convidando-o para jantar.

no caminho para o restaurante, o carro blindado enguiça. a trava elétrica das portas entra em pane. quatro homens encapuzados e fortemente armados cercam o veículo. o homem tenta arrancar, mas a embreagem não responde.

ele é tirado do volante. jogado no meio da rua. agredido a chutes e coronhadas. arrastado para dentro de um outro carro, que sai em alta velocidade.

dois dias depois seu corpo é encontrado abandonado no meio de um matagal, numa das mais miseráveis periferias da cidade. completamente despido. há sinais de tortura. executado com tiros na nuca e no tórax, teve sua face desfigurada.

já não há mais os milagres que se esperava. já não há mais profetas. e ninguém sabe quanto tempo tudo isso vai durar. [2]



[1] sobre “O capitalismo produzirá o milagre cubano”, Elio Gaspari, Folha de São Paulo, 24/02/2008
[2] Salmos 74:9

22 fevereiro 2008

socialismo ou morte

poucos assuntos são tão mal entendidos, tão manipulados e tão mal interpretados como a Revolução Cubana. [1]

se Fidel é o único mito vivo da História da Humanidade [2], o mérito é dos EUA. [3]

nos tempos heróicos da Sierra Maestra, Fidel e o Movimento 26 de Julho lutavam contra a ditadura de Fulgencio Batista, por uma Cuba democrática e não tinham nenhuma animosidade contra os EUA. [4]

mesmo após a derrota de Batista, Fidel Castro declarou à Associação de Banqueiros, em 06/03/1959, que desejava a colaboração deles. também afirmou, segundo o "News and World Report", não ter "nenhuma intenção de nacionalizar qualquer indústria". [5]

para os EUA, entretanto, Cuba era uma “fruta madura”, separada da árvore nativa, sem escolha além de apenas cair ao chão. força desligada do seu vínculo e incapaz de se auto-sustentar, gravitaria na direção dos EUA, o qual, pela mesma lei da natureza, não teria como segregá-la do seu seio. [6]

por sua localização geográfica, por necessidade e por direito, Cuba deveria pertencer aos EUA. [7]

a língua dos cubanos seria a primeira coisa a se eliminar, pois a língua latina bastarda de sua nação não resistirá por nenhum tempo ao poder competitivo do forte e vigoroso inglês. e o sentimentalismo político e suas tendências anárquicas serão eliminadas depois da língua e, de maneira gradual, a absorção do povo será absoluta, o que seria devido ao inevitável predomínio da mente americana sobre uma raça inferior. [8]

sendo os habitantes de Cuba, em regra, preguiçosos e apáticos, é claro que a anexação imediata de um número considerável de elementos tão perturbadores aos EUA seria uma loucura, e antes de colocá-la, haveria um saneamento da ilha, empregando o meio que a Divina Providência aplicou às cidades de Sodoma e Gomorra. [9]

assim, seria preciso destruir tudo aquilo que os canhões alcançarem a ferro e a fogo. e também aumentar o bloqueio a fim de que a fome e a peste, sua permanente parceira, dizimem a população. [10]

enquanto o comandante-em-chefe Fidel Castro declarava: “Queremos ter boas relações com os Estados Unidos, mas submissão, não” [11], a revista Time, de 06/04/1959, trazia um artigo afirmando: “o neutralismo de Castro é um desafio aos EUA”. [12]

embora o ideal de Fidel para Cuba fosse a democracia burguesa dos EUA, acabou sendo encurralado pelo próprio EUA, em cuja estratégia geopolítica há leis de gravitação política como as há de gravitação física. [13]

os governantes norte-americanos nunca deixaram de confessar, até com uma certa candura, verem Cuba como um país a ser incorporado aos EUA. [14]

na verdade, os EUA deixaram para Fidel uma única opção: “socialismo ou muerte”.


[1] Herbert Mattews, “Nos meus 30 anos no New York Times, jamais vi um grande assunto tão mal entendido, tão mal manipulado e tão mal interpretado como a Revolução Cubana”
[2] Lula, 19/02/2008
[3] Fidel Castro, “Si se me considera un mito, es mérito de los Estados Unidos."
[4] Fidel Castro, entrevista a Herbert Matthews, New York Times, 24/02/1957
[5] Peter Taafe, “Análise da revolução Cubana”
[6] John Quincy Adams, em 1817 como Secretário de Estado, em 1825-1829 cumpriu mandato como o 6º Presidente dos EUA
[7] The New York Sun, 05/1847
[8] The New York Sun, 05/1847
[9] plano de intervenção dos EUA em Cuba, apresentado em 24/12/1897, por Breckenridge,Secretário de Guerra dos EUA
[10] plano de intervenção dos EUA em Cuba, apresentado em 24/12/1897, por Breckenridge,Secretário de Guerra dos EUA
[11] Fidel Castro, entrevista a U. S. News and World Report
[12] Lázaro Barredo Medina, “O conflito mais duradouro da era contemporânea”
[13] John Quincy Adams, em 1817 como Secretário de Estado, em 1825-1829 cumpriu mandato como o 6º Presidente dos EUA
[14] Thomas Jefferson, um dos fundadores dos EUA, 1807, “Confesso com candura que sempre vi Cuba como o país mais interessante que se podia incorporar a nosso sistema de Estado.”

30 janeiro 2008

a grande besta

se quando os EUA espirram o restante do mundo tem um resfriado [1], o que acontecerá se a economia norte-americana cair gravemente doente?

a mais nociva enfermidade é a idéia que os mercados são perfeitos e, portanto, tendem ao equilíbrio. os mercados são imperfeitos e no futuro podem nos conduzir a um formidável colapso da economia do planeta. [2]

ao relegar os mercados aos seus próprios sistemas de controle, as autoridades monetárias contavam que os mercados se corrigissem a si mesmos. entretanto, os mercados necessariamente não se corrigem. [3]

ainda mais letal que a bolha financeira é sua inseparável e menos discutida contraparte: a bolha militar.

a estratégia do governo Bush pode ser sintetizada como a combinação de duas operações que, apoiando-se mutuamente, deveriam ter relançado e consolidado o poderio imperial dos EUA: a expansão rápida de uma bolha consumista-financeira para produzir um forte impulso econômico associada a uma ofensiva militar que lhe daria a hegemonia energética global e daí a primazia financeira. [4]

enquanto os magos de Wall Street engendravam a bolha de crédito, a previsão dos falcões neocon era que os cowboys retornariam para a terra dos bravos num desfile triunfal em Times Square. e não em deprimentes sacos pretos...

com a irresistível chegada da recessão, estariam também os bárbaros batendo às portas do império norte-americano?

ou já não há mais qualquer bárbaro que seja? mas o que será dos EUA sem os bárbaros? afinal, os bárbaros eram um tipo de solução... [5]

através de suas próprias empresas em território chinês, os EUA se tornaram "Made in China". são os maiores importadores da produção offshore das fábricas norte-americanas instaladas na China, cuja economia depende em cerca de 70% do comércio exterior.

com o déficit fiscal dos EUA alcançando o nível das reservas internacionais da China, os norte-americanos pressionam o consumidor chinês a diminuir a sua poupança, a fim de preservar o dinamismo do comércio internacional.

para os chineses, entretanto, é prudente poupar hoje pensando no amanhã. já os norte-americanos desejam continuar a gastar hoje o que ainda não se ganhou. [6]

qual o tamanho da besta? [7] qual foi ovo da serpente?

o ano de 2001 não é somente o dos atentados de 11/09 e da declaração da “guerra sem fim” por George W. Bush. é também o ano da entrada da China na OMC (Organização Mundial do Comércio). além disto, 2001 é o ano em que as autoridades monetárias norte-americanas adotaram a ampliação do crédito hipotecário, como resposta à crise da bolsa de ações de alta tecnologia (Nasdaq). [8]

os gastos dos consumidores norte-americanos são responsáveis pela maior parte da economia dos EUA. e o consumo dos EUA é o dínamo que mantém em movimento a economia globalizada.

por outro lado, os 50% mais pobres da população dos EUA possuem somente 2,8% do patrimônio, e o 1% mais rico, 32,7%. [9]

como o crescimento da renda salarial é insuficiente para promover a demanda exigida, a resposta ao dilema encontra-se na expansão do crédito, o que desconecta o consumo da renda disponível.

a hipertrofia dos mercados financeiro se expande muito além do ritmo de crescimento da economia real. os negócios com derivativos, que representavam por volta do ano 2000 cerca de duas vezes o Produto Bruto Mundial, eram em 2006 oito vezes maiores. em 2010 essa massa especulativa representaria 16 vezes o Produto Bruto Mundial. [10]

os recursos das importações que os EUA fazem da China e Japão retornam à economia norte-americana como investimentos em títulos do Tesouro norte-americano, permitindo que se mantivessem os juros baixos, o crédito fácil e o consumo forte.

são os exportadores quem financiam o déficit comercial dos EUA, possibilitando ao mercado norte-americano manter seu nível de consumo de produtos importados.

assim o ciclo se fecha, com a besta engolindo o próprio rabo.

entretanto, ao mesmo tempo que protege o mundo de uma recessão, o déficit em conta corrente dos EUA ameaça a economia mundial com um colapso do dólar.

num cenário de crise, com o dólar se desvalorizando rapidamente, os detentores de títulos norte-americanos podem começar a vendê-los.

com isto, os preços dos importados disparariam nos EUA. Japão e China teriam dificuldade para manter suas exportações. mesmo a Rússia depende de sua venda de petróleo, que está relacionada com a saúde da economia internacional.

apesar das perdas da crise do “subprime” estarem estimadas entre US$ 400 bilhões e US$ 600 bilhões, até o momento só foram reconhecidos US$ 130 bilhões. [11]

com o dólar cadente e as lojas de Manhattan convertidas em algo parecido com um mercado de rua de Tijuana, para turistas alemães [12], a questão não é mais se haverá aterrissagem forçada ou não da economia norte-americana, mas quão dura será. [13]

a recessão dos EUA é inevitável e já começou. será feia, profunda e severa. [14]

qual o tamanho da besta?

tão grande quanto a impossibilidade dos EUA terem seu abissal déficit comercial perpetuamente financiado pelo resto do mundo. ou pretender reduzi-lo graças a uma queda infinita do dólar, sem com isto debilitar gravemente a economia internacional. [15]

apesar de seu tamanho, a besta acabou por engolir o próprio rabo.


[1] painel no Fórum Econômico Mundial – 2008, em Davos
[2] George Soros
[3] George Soros, no Fórum Econômico Mundial – 2008, em Davos
[4] Jorge Beinstein, “Estados Unidos: a irresistível chegada da recessão”, 11/06/2007
[5] Konstantin Kaváfis, “Esperando os bárbaros”
[6] Cheng Siwei, Vice-Presidente do Comitê de Acompanhamento Econômico do Congresso Chinês, no Fórum Econômico Mundial – 2008, em Davos
[7] Javier Santiso, vice-diretor da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, no Fórum Econômico Mundial – 2008, em Davos
[8] François Chesnais, “Até onde irá a crise financeira”
[9] François Chesnais, “Até onde irá a crise financeira”
[10] Jorge Beinstein, “A solidão de Bush, o fracasso dos falcões”, 30/07/2007
[11] José Roberto Mendonça de Barros, entrevista ao Valor, 28/01/2008
[12] Peter Goodman, “Temor de recessão ganha força nos EUA”, 01/12/2007
[13] Nouriel Roubini, no Fórum Econômico Mundial – 2008, em Davos
[14] Nouriel Roubini, “Quando os EUA espirram o resto do mundo constipa-se”, 25/01/2008
[15] Michel Husson, “As raízes da crise”

26 janeiro 2008

daltonismo [1]


no dissimulado racismo brasileiro, todos os pardos são negros.

ou seria ao contrário?

pela insidiosa falácia da miscigenação, com os brancos impositivamente definindo quem é ou não negro, uma população de mestiços e mulatos é maquiada, embranquecida, para se dividir, enfraquecer e melhor se discriminar os negros.

afinal, quem é negro? e quem são os brancos no Brasil?

teríamos desenvolvido uma sofisticada forma de racismo?

camuflado como democracia racial, um racismo daltônico que nos impede de ver a diferença entre negros e brancos? [2]

no racismo, como na arte e no amor, o mais profundo é a pele? [3]

pois não basta uma simples olhadela na cor da pele, no formato dos lábios e do nariz e no tipo de cabelo para o racista discriminar os negros... pronto, tão simples assim... [4]

seria mesmo através deste olhar racista a melhor maneira de se chegar a ver a solução para o fim da discriminação racial?

ou é ao enxergar o mundo pelos olhos do racista que introjetamos sua visão, legitimando-a numa consagração às avessas?

a raiz do racismo é a crença em raças humanas. e o racismo jamais será superado enquanto prevalecer esta crença. embora combatam os efeitos, políticas públicas baseadas em raças reforçam e institucionalizam a causa. [5]

“raça” não é matriz de direitos. somos humanos. e os pretos, as mulheres, os homossexuais e os deficientes são todos vítimas de discriminações. portanto, a matriz de direito é o fato social da discriminação. e meu direito a igualdade é minha condição humana e não a crença na raça. [6]

muito embora daltônicos não sejam capazes de ver algumas cores, possuem visão noturna acima da média. também distinguem com total nitidez o amplo espectro de tons de cinza unindo o branco ao negro.

entretanto, o pior tipo de daltonismo talvez seja o político, por reduzir a complexidade das relações sociais a uma maniqueísta abordagem preto no branco.


[1] sobre post e comentários no blog do Luis Nassif, “Somos racistas?”, 24/01/2008
[2] Orlando, comentário no blog do Luis Nassif, “Somos racistas?”, “[...]o racismo é daltônico e não percebe a diferença.”
[3] Paul Valery
[4] Pyotr Konstantin Schitikoff, comentário no blog do Luis Nassif, “Somos racistas?”
[5] J. Roberto Militão, comentário no blog do Luis Nassif, “Somos racistas?”
[6] J. Roberto Militão, comentário no blog do Luis Nassif, “Somos racistas?”

19 janeiro 2008

lobos e homens

a evolução política brasileira tem sido significativa. e é bom que sobre ela reflitam os jovens brasileiros, que conheçam o quanto de sacrifício devotaram os saudosos patriotas para que se arraigasse nas futuras gerações o amor à liberdade. [1]

Edison Lobão é o novo Ministro das Minas e Energia, nomeado por Lula. [2]

o senador, que era filiado ao DEM (antigo PFL) e abandonou a legenda no início do ano para se filiar ao PMDB, tem um impressionante currículo de condecorações:

- Medalha do Mérito Jornalístico Quintino Bocaiúva;
- Medalha do Pacificador;
- Ordem do Mérito Santos Dumont;
- Ordem do Mérito Militar;
- Ordem do Mérito Aeronáutico;
- Ordem do Mérito Naval;
- Ordem do Mérito Ipiranga;
- Ordem do Mérito Rio Branco;
- Medalha do Imperador D. Pedro II;
- Medalha do Mérito Mauá;
- Mérito La Ravardière;
- Grã-Cruz Judiciário do Trabalho;
- Grã-Cruz da Ordem dos Timbiras (MA);
- Ordem do Mérito de Brasília no grau de Grã-Cruz;
- Ordem do Poder Judiciário do Maranhão;
- Medalha de Mérito do Ministério Público do Maranhão;
- Ordem do Mérito do Tocantins no grau de Grã-Cruz;
- Ordem do Mérito de Rondônia no grau de Grã-Cruz;
- Ordem do Mérito da Inconfidência - Minas Gerais;
- Ordem do Mérito Judiciário Militar;
- Ordem do Congresso Nacional.

a respeito dos assuntos de seu ministério, Lobão afirma estar lendo alguma coisa que lhe chega às mãos. “A imprensa, por exemplo, está escrevendo muita coisa técnica. Todos os dias saem até informações boas. Estou me informando sobre energia elétrica, sobre hidrelétrica, sobre gás, sobre petróleo.” [3]

em sua obscura carreira jornalística, o soturno Lobão usava reportagens e crônicas políticas para transmitir recados saídos dos serviços de informações contra opositores da ditadura. não poderia imaginar na época a retribuição hoje recebida pela democracia de Lula e do PMDB. [4]

numa expressiva prova de gratidão, Lobão reconhece uma “fonte que deve ser considerada e consultada sempre que necessário” [5]: Dilma Roussef - torturada física, psíquica e moralmente por 22 dias durante a ditadura militar. [6]

ao manter o país cindido numa ilusória dicotomia entre os que o apóiam e aquele que o renegam, Lula inaugura uma nova forma de dominação no Brasil. não é patrimonialismo, não é patriarcalismo, não é populismo...

não são mais os dominados voluntariamente consentindo na sua própria exploração. são os dominantes que consentem em ser politicamente conduzidos pelos dominados, desde que estes não questionem a exploração a que estão sujeitos. uma hegemonia às avessas. [7]

enquanto lobos já não mais se dissimulam sob peles de cordeiros, os cordeiros, eles mesmos, se tornaram o lobo dos cordeiros.


[1] Edison Lobão, perfil do senador divulgado pelo site do Senado Federal
[2] 01/2008
[3] Edison Lobão, Folha de São Paulo, 12/01/2008
[4] Jânio de Freitas, “O laranja”, 17/01/2008
[5] Edison Lobão, entrevista à Folha de São Paulo, 18/01/2008
[6] Dilma Roussef, depoimento ao projeto "Brasil Nunca Mais"
[7] Francisco de Oliveira, “Hegemonia às avessas”

12 janeiro 2008

zé ninguém

(sobre “O Consultor”, Daniela Pinheiro, Revista Piauí, Janeiro de 2008)

José Dirceu não é qualquer um. mas no jogo jogado, a conta caiu em seu colo.

tudo tem uma explicação. tem que ter.

ao ser indicado com Ministro da Casa Civil do primeiro governo Lula, Dirceu afirmou que realizava “o sonho de sua geração”. em se tratando de uma geração cujos mais preciosos sonhos viraram pesadelos crônicos, a declaração soava como um péssimo augúrio. [1]

como se sabe, o mau presságio acabou se confirmando... [2]

mudou-se a nossa estrela, as glórias vieram tardes e frias. Dirceu amarga um novo exílio, sem que possa sequer se queixar de alguma Marília ter-lhe roubado o sincero coração. [3]

cassado, inelegível até 2015, citado no processo do Mensalão como chefe de uma organização criminosa, Dirceu não tem muita escolha. faz apenas o que dá. está muito pessimista quanto ao futuro e ao lugar que a História lhe reservará.

a festa acabou, o povo sumiu, o dia não veio... protestava. está sem discurso, cuspir já não pode. não veio a utopia e tudo acabou. tudo fugiu... [4]

quando fez treinamento de guerrilha em Cuba, Dirceu não se aplicava nos exercícios com gosto, não era a praia dele.

parece bem mais à vontade agora. tudo o que Dirceu faz está ligado ao capitalismo. estratégia de investimentos, fusões e aquisições. lobby. consultoria. tráfico de influência.

não costuma se lembrar bem das coisas. elas vão acontecendo e ele vira a página. passou, passou. o que fica para trás, ele esquece.

mas ainda não se esqueceu que a sede do PT em Porto Alegre foi construída com dinheiro de caixa 2. e ainda se recorda muito bem para quem eram as malas de dinheiro que Delúbio conseguia com doações dos empresários.

sempre que é insultado publicamente, Dirceu permanece impassível. sua expressão facial se esvazia. não demonstra surpresa, raiva, medo, constrangimento. enfrenta as agressões com a cara mais lisa do mundo.


talvez lhe ajudem os cremes faciais feitos com placenta e comprados em Cuba.

para Dirceu, as hostilidades que sofre não passam de lógica matemática e probabilidade estatística. percentuais. unsuccess fee.

Dirceu foi o comandante em chefe do processo que transformou o PT, de um organismo vivo e a serviço dos movimentos sociais, numa máquina burocrática para atender ambições pessoais.

foi com Dirceu que a militância petista abandonou as ruas e o partido consolidou o modelo de campanha eleitoral financiado pelos grandes empresários e conduzido pelos marketeiros.

hoje, restou apenas um quadro na parede. um espantoso peixe cabeludo. assinado por José Sarney.

mas como dói! [5]



[1] arkx. “a hora da verdade”, 14/12/2002
[2] arkx. “o sonho de uma geração”
[3] Tomás Antônio Gonzaga, “Marília de Dirceu”
[4] Carlos Drummond de Andrade, “José”
[5] Carlos Drummond de Andrade, “Confidências do Itabirano”

10 janeiro 2008

branco de alma negra

como se tornar negro? o que é ser negro?

de qual fonte brota a límpida e pura negritude?

qual certificação pode comprovar a autenticidade de um negro puro sangue?

se de minha bisavó mulata herdei a ramificação genealógica que traz à flor da pele raízes africanas, isto me faz um pouco negro?

um pouco, ao menos?

mas... e minha avó italiana? e minha tataravó índia?

estou confuso. ou cafuzo?

terá sido a miscigenação de meus antepassados uma falácia? [1]

ou o leite branco sugado das tetas pretas de minha mãe de leite foi capaz de escorrer por meu sangue, através de minha carne, para penetrar em minha alma e escurecê-la, tingindo-a indelevelmente de negro?

como é possível, com tanta certeza, alguém se declarar negro?

a cor da pele? os traços fisionômicos? os cabelos e o nariz? o luminoso sorriso dos mais brancos dentes? a incomparável explosão das fibras musculares? o gingado dos quadris? a genética?

o biólogo James Watson, que em 1962 ganhou o Prêmio Nobel por ser um dos descobridores da estrutura do DNA, deu recentemente uma polêmica declaração, afirmando ser cientificamente comprovada a inferioridade da inteligência dos negros africanos. [2]

apesar de ser um típico espécime WASP [3], a análise do genoma de Watson revelou 16% de genes herdados de um antepassado africano, enquanto a maioria dos europeus brancos não tem mais de 1%. Watson possui um genoma compatível com quem tem um bisavô africano. [4]

quanta capoeira e candomblé? quanta feijoada e samba no pé? quanto vatapá, acarajé e munguzá?

quanto preconceito, racismo, discriminação? quanta escravidão é preciso para se ter um negro?

confesso. o segredo: somos brasileiros!

e ninguém pode dizer se somos brancos, mulatos ou negros.

mestiços. da raça humana.

como descendentes de escravos e de senhores de escravos, todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. esta é a mais terrível de nossas heranças. mas nossa crescente indignação contra esta herança maldita nos dará forças para conter os possessos e criar aqui, neste país, uma sociedade solidária. [5]

nossa mais forte ação afirmativa é a cultura. o sincretismo. a mistura. não rejeitamos nada. de braços abertos. abraçamos tudo. incorporamos tudo. numa síntese absolutamente original.

um presente para o mundo. um povo novo: nós, brasileiros.


[1] Orlando, comentário no Blog do Luis Nassif, em 08/01/2008: “O que ocorre é que há um consenso de que somos miscigenados, isto é, uma "democracia étnica" - a única do planeta - é isso também é uma falácia.”
[2] James Watson: “Todas as políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles [negros] é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não".
[3] "Branco, Anglo-Saxão e Protestante" (White, Anglo-Saxon and Protestant).
[4] Kari Stefansson, DeCODE Genetics
[5] Darci Ribeiro, “O povo brasileiro”

31 dezembro 2007


skyline pigeon

se é tão melhor ser bom, por que alguns decidem ser maus? [1]

pelo quarto escuro e solitário projetam-se sombras de melancolia e desolação. e meus olhos são espelhos do mundo lá fora. [2]

sem que interesse por quê, enquanto escrevo posso ouvir pela janela uma antiga música romântica. a melodia vem da direção em que se perdem os sonhos há muito deixados para trás.

a cada vez que se abre o peito, algo escapa, como pombas libertam-se de mãos que as aprisionam e voam para a linha do horizonte.

uma geração inteira encara seu destino: o mergulho no abismo, em busca da luz do abismo.

numa terra imperfeita, cheia de gente imperfeita, o que é ser bom? como é possível ser justo?

por que praticamos tantas atrocidades? em nome da justiça? ou por não querermos ser bons?

neste mundo cheio de matizes, qual o caminho correto entre a bondade e a justiça?
só a arte pode trazer a resposta. [3]


[1] Reinaldo Azevedo, “Iscailainepijonflai”
[2] Skyline Pigeon, Elton John
[3] arkx, comentário no blog do Reinaldo Azevedo, “Iscailainepijonflai”

22 dezembro 2007

merda doce merda

nos tempos do Chile de Allende e de seu governo da Unidade Popular, Maria da Conceição Tavares declarou num desabafo exemplar: “É um governo de merda, mas é o nosso governo de merda.”

depois de 34 anos, a frase é repetida no Brasil de hoje pelos defensores incondicionais do governo Lula: "sei que não quero entrar na história como linchador de Lula e de um governo que ajudei eleger”. [1]

a queda de Allende, na manhã da terça-feira 11 de setembro de 1973, tornou-se uma data trágica e sempre relembrada pela Esquerda.

bem menos se recorda, porém, a posse de Pinochet como chefe das Forças Armadas chilenas, nomeado pelo próprio Allende não mais que poucos dias antes do golpe. [2]

embora Pinochet estivesse conspirando em segredo há mais de um ano, aos olhos de Allende se tratava de um homem leal: o “nosso” Pinochet.

assim que surgiram as primeiras notícias do golpe, Allende teria ordenado: "Chamem o Augusto, que é um dos nossos".

o chamado de Allende foi atendido com uma exigência de rendição e a oferta de um avião com destino ao exílio. numa comunicação para os demais oficiais golpistas, interceptada por um radioamador, revela-se a real intenção de Pinochet: "No caminho os jogaremos de lá". [3]

como explicar a atitude de Allende? um quadro político não age por acaso nem por impulsos repentinos. será que ele queria mesmo era morrer? esse é o grande enigma. um denso mistério que não pode ficar debaixo da terra junto com seu corpo. [4]

com a eleição de Lula, parecia ter sido derrotada a poderosa discriminação social brasileira, o preconceito de classe absurdamente alto num país com tradição racista. mas, para quê? para governar para os ricos. e os ricos consentem, desde que os fundamentos da exploração não sejam postos em xeque. é o que o Lula faz: uma hegemonia às avessas. [5]

ao negar-se a decifrar o enigma do auto-engano em que se imobilizou, parte da Esquerda apela para o argumento definitivo : “mesmo que fosse contra todas as políticas do Governo Lula, ainda assim seria a favor dele.” [6]

além de esquizofrenia política, tal raciocínio se constitui num grave problema de ética. [7]

por que parcelas da Esquerda sempre repetem os mesmos erros? algum insuperável impulso kamikaze?


[1] Bernardo Kucinsky, “O Natal da discórdia”
[2] Pinochet tomou posse em 25/08/1973
[3] Patricia Verdugo, “Interferência Secreta”
[4] Bernardo Kucinsky, “O bispo de Barra quer morrer”
[5] Francisco de Oliveira, “Hegemonia às avessas”
[6] Wladimir Pomar , “Declaração de Voto”
[7] arkx, "o nosso governo", 05/10/2003

21 dezembro 2007

suicídio

quando a razão se extingue, a loucura é o caminho? [1]

quantas vidas valem a vida de um rio e de seu povo?

o bispo de Barra quer morrer? é obvio que o que ele quer mesmo é morrer... [2]

então, faça o favor de morrer logo. prometem enviar flores. [3]

por que incomoda tanto a atitude do bispo?

por que a atitude do bispo incomoda tanto o governo? por que incomoda tanto algumas pessoas?

o PT foi fundado sob a premissa de não apenas apoiar-se no movimento social como colocar-se a serviço dele.

hoje, o PT não apenas está completamente desvinculado de sua base social histórica, como se tornou um instrumento de neutralização e desmobilização do movimento social.

o bispo incomoda tanto por ser liderança de um dos poucos setores da sociedade que não se desestruturou inteiramente no governo Lula.

durante um ano, de 04/10/1992 a 04/10/1993 [4], o bispo "suicida" realizou uma caminhada ao longo do Rio São Francisco, da nascente a foz.

visitou todas as comunidades, realizou palestras nas escolas – desde o pré-primário até as universidades. debateu os objetivos da caminhada com os meios de comunicação, com os grupos organizados e associações de bairro, com as entidades, câmaras de vereadores e prefeituras .

o bispo incomoda tanto por não ser possível silenciá-lo, comprá-lo. para que desfrute da conveniente ida de Lula ao paraíso através do pacto sinistro firmado pelo governo entre os grandes investidores, agraciados com os juros do Copom, e os miseráveis, mantidos desmobilizados pelo Bolsa Família.

incomoda tanto por não aceitar ser refém do impasse suicida no qual a maior parte da Esquerda se aprisionou: “É um governo de merda, mas é o nosso governo de merda.” [5]

afinal, tem certas coisas, no que tange a favorecer os que dominam fingindo defender os explorados, que só Lula é capaz de fazer...

em algum momento, infelizmente mais tarde do que cedo, os setores progressistas da sociedade brasileira enfim se renderão a inexorável compreensão do mal causado pelo apoio que incondicionalmente empenharam ao governo Lula.

por vários e vários motivos, Lula tudo confunde e nada explica, com sua dubiedade e sua arrogância, suas meias-medidas e sua vã onipotência, o que faz com que um país inteiro se paralise, prisioneiro de uma encruzilhada e de uma esfinge, sem que possa dar uma resposta simples a tão incômoda pergunta:

- como pode um governo dos trabalhadores executar tão bem a política dos patrões?

quando finalmente a resposta óbvia que os progressistas tanto teimam em deixar oculta não mais se for capaz de evitar, o impasse brasileiro terá se aprofundado a tal ponto que já não mais será possível nenhuma saída pactuada.

nada pior do que negar a realidade. ainda mais em nome de avanços frágeis, promessas destinadas a frustração e absoluta falta de compromisso com princípios e ética na política.

assim como os indivíduos, países e sociedade são responsáveis por seu destino. em última instância, nos tornamos aquilo que escolhemos. e o momento da opção já passou para o Brasil...

talvez o bispo seja um "suicida"? pode ser... quando a razão se extingue, a loucura é caminho? não sei...

nada porém é mais certo que Lula empenhou sua palavra num acordo com o bispo, e não cumpriu!

o bispo incomoda tanto por se tratar de uma questão de princípios! de se fazer valer a palavra empenhada! de se honrar compromissos assumidos!

e nada pode ser mais incômodo para os fariseus que nem todos aceitem se tornar semelhantes a eles.



[1] D. Luiz Cappio
[2] Bernardo Kucinski, “O bispo de Barra quer morrer”, Carta Capital, 11/12/2007
[3] comentário de Arlete Santos, no Blog do Nassif, 07/12/2007
[4] 4 de outubro: dia de São Francisco
[5] Maria da Conceição Tavares, no Chile antes da derrubada de Allende, ciatada por Bernardo Kucinski, “O Natal da discórdia”, Carta Maior, 18/12/2007

20 dezembro 2007

indústria da seca

em 1959, Celso Furtado foi chamado por JK para estudar e traçar um plano para o Nordeste. cumprindo essa missão, o economista paraibano chegou a conclusão de que não mais se deveria inutilmente combater as secas com “soluções hídricas e grandes projetos de engenharia”. [1]

embora no imaginário nacional o semi-árido seja visto como uma região seca, tem uma pluviosidade de 750 bilhões de metros cúbicos por ano, dos quais apenas são aproveitados 30 bilhões, tem águas de subsolo e muita água estocada em açudes. [2]

a “seca do nordeste” é muito mais um problema social do que um problema da natureza.

Celso Furtado entendia que o projeto da transposição do rio São Francisco era "uma panacéia”, prioritariamente beneficiando os grandes proprietários de terras, que teriam "novos açudes para evaporar”, pois “o problema não está em ter mais água, mas em usar bem a água que já existe." [3]

o Nordeste tem mais de setenta mil açudes particulares de pequeno e médio portes, e mais de quatrocentos açudes públicos de médio e grande portes, com capacidade de armazenamento total de cerca de trinta bilhões de metros cúbicos, maior que a da barragem de Três Maria (cerca de 21 bilhões) e quase igual ao da grande barragem de Sobradinho (cerca de 34 bilhões). [4] trata-se do maior volume represado em regiões semi-áridas do mundo. [5]

a defesa do projeto da transposição se baseia nos seguintes pontos principais:

- a transposição é indispensável para resolver a situação de doze milhões de pessoas no Nordeste Setentrional;
- prevê retirar apenas 1% da vazão do São Francisco, sem prejudicar a utilização já existente;
- só haverá utilização maior de águas quando o nível do reservatório de Sobradinho estiver acima de 94%.
- o custo é muito baixo, pois evitará as despesas de quase todo ano no socorro a flagelados da seca;

nenhum destes pontos tem o menor embasamento técnico.

no Eixo Norte não há déficit hídrico para abastecimento da população. conforme o EIA/RIMA do empreendimento, 80% da água a ser transportada para esta região destina-se à irrigação e à criação de camarões. [6]

no Ceará, por exemplo, existe uma oferta hídrica potencial de 215 m³/s em suas bacias hidrográficas e uma demanda atual de 54 m³/s. no Rio Grande do Norte existe uma oferta potencial de 70 m³/s e uma demanda de 33 m³/s . na Paraíba, um dos estados mais problemáticos da região em termos de garantias hídricas, existe uma oferta potencial de 32 m³/s e uma demanda atual de 21 m³/s. não há escassez hídrica nos estados receptores, não se justificando, portanto, o ingresso das águas do rio São Francisco naqueles estados para fins de abastecimento. [7]

só os 2,4 bilhões de metros cúbicos do açude Açu seriam suficientes para abastecer a população do Rio Grande do Norte durante vinte anos – mas prevê-se abastecer o estado com águas transpostas do São Francisco. [8]

se a região receptora precisasse de água apenas para consumo humano, nem haveria a necessidade da transposição. o problema básico do semi-árido é a falta de confiabilidade de água para atividade produtiva, o que obriga a manter muita reserva técnica nos açudes, parte das quais acaba se evaporando. [9]

o acréscimo vindo da transposição não cobre nem a evaporação dos açudes. se os 2,10 bilhões fossem totalmente direcionados só para o açude do Castanhão (CE), apenas compensaria a evaporação deste mega açude que é, igualmente, de 2,10 bilhões de m³/ano. [10]

é um sofisma dizer que a transposição utilizará apenas 1% da água do São Francisco que chega ao Atlântico. a comparação honesta é relacionar o volume a ser captado com a vazão outorgável definida no âmbito do Plano de Recursos Hídricos. a vazão outorgável foi definida em 360 m³/s. este é o volume reservado para uso consuntivo em toda a bacia. [11]

dos 360 m³/s alocáveis na bacia, cerca de 335 m³/s já foram outorgados, restando apenas 25 m³/s - coincidentemente o que se pretende alocar como a nova justificativa do projeto de transposição. [12]

a demanda média do projeto será de 65 m³/s, podendo a vazão máxima atingir cerca de 127 m³/s, como restam apenas 25 m³/s outorgáveis, o rio já não dispõe, hoje, dos volumes necessários ao atendimento das demandas do projeto. [13]

mesmo com a regra de operação do projeto, de retirar uma vazão acima de 26m³/s somente quando o reservatório de Sobradinho estiver vertendo, isto é, quando tiver água “sobrando”, traz mais dúvidas do que certezas, porque os estudos comprovam que esta situação ocorre somente em 40% do tempo. em 10 anos só seriam retirados mais de 26 m³/s durante 4 anos. [14]

a represa de Sobradinho verteu em 1997 e voltou a verter em 2004. nesses sete anos, a bacia do rio passou por secas sucessivas, culminando, em 2001, com a mais séria crise energética da nossa história. [15]

o custo médio da água do projeto de transposição cobrado pelo uso da água bruta nos estados receptores será de R$ 0,1467/m³. este será o metro cúbico de água para irrigação dos mais caro do mundo, os projetos agrícolas ficarão inviáveis. [16]

segundo o EIA-Rima do projeto, a região potencialmente irrigável a ser beneficiada pela transposição é de 265.853 hectares. no Vale do São Francisco - segundo o Comitê de Bacias - existem 340 mil hectares irrigáveis e um potencial de mais 800 mil hectares, hoje não aproveitados justamente por falta de investimentos em valor muito inferior ao da transposição. [17]


as projeções do Ministério da Integração Nacional apontam como beneficiados pela transposição 9,075 milhões de habitantes. número que, pela evolução demográfica, deverá alcançar cerca de 12 milhões em 2025. a auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), com base em informações fornecidas pelos governos dos Estados "receptores" de águas do São Francisco (Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba), estima à população potencialmente beneficiada pelo projeto em 7,031 milhões de pessoas. [18]

conforme informa o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, o Projeto de Transposição atende a menos de 20% da área do Semi-Árido e 44% da população que vive no meio rural continuará sem acesso a água. significa dizer que, de 5.712.160 habitantes (Censo IBGE 2001) da população rural dos quatro estados, apenas 3.198.809 habitantes é que serão beneficiados. [19]

portanto um número muito diferente daquele anunciado pelo projeto, que é de 9,075 milhões de pessoas. [20]

de acordo com a Embrapa, do total de precipitação pluviométrica caído anualmente no Nordeste, estimado em cerca de 700 bilhões de m³, 642 bilhões são consumidos pelo fenômeno da evapotranspiração. cerca de 36 bilhões são despejados no mar, em virtude do intenso escoamento superficial existente. e 22 bilhões de m³ são efetivamente pelos habitantes da região. bastaria o aproveitamento de 1/3 dos volumes escoados e manejados para o efetivo abastecimento de toda população nordestina (hoje estimada em 47 milhões de pessoas), com uma taxa de 200 litros por pessoa/dia e para a irrigação de cerca de 2 milhões de hectares, com uma taxa de 7.000 m³ por hectare/ano. [21]

numa só noite chuvosa, com precipitação de 70 mm num terço do Semi-Árido (300.000 km²) desabam sobre esta superfície exatamente 2,1 bilhões de m³ de água, o mesmo volume da transposição. [22]

o problema não está em ter mais água, mas em usar bem a água que já existe.

falta apenas uma grande e potente rede de adutoras para levar esta água a todos os recantos do semi-árido.70% dos açudes públicos não estão disponíveis para a população.

o custo atual da transposição, a maior obra do PAC, totaliza R$ 6,6 bilhões. esta verba não inclui os investimentos adicionais para levar a água para a população nas áreas laterais dos canais e para regiões mais dispersas do sertão, cujas despesas ocorrerão por conta dos governos estaduais. estima-se na verdade, que o custo final da obra chegue à R$ 20 bilhões. [23]

nos últimos anos, apesar da obra não ter saído do papel, a transposição do Rio São Francisco já custou aos cofres públicos, de acordo com o SIAFI, cerca de 466 milhões de reais. a maior parte do dinheiro foi paga ao consórcio Logos-Concremat, que venceu licitação para administrar o projeto, a começar pelas licenças ambientais. [24]



[1] Celso Furtado, “A Operação Nordeste”
[2] Marco Antônio Coelho, “A política governamental de obras contra as secas”
[3] Washington Novaes, “A transposição demolida antes de começar”
[4] Alberto Daker, em “Os descaminhos do São Francisco”, Marco Antônio Coelho
[5] João Suassuna, “Abastecimento no Nordeste: morrendo de sede no deserto com água no joelho.”
[6] José Carlos Carvalho, depoimento na Câmara dos Deputados
[7] João Suassuna, “Abastecimento no Nordeste: morrendo de sede no deserto com água no joelho.”
[8] Universidade Federal do Rio Grande do Norte
[9] Luis Nassif, “A transposição do São Francisco”
[10] Manoel Bomfim Ribeiro, “Ttransposição – uma análise cartesiana”
[11] José Carlos Carvalho, depoimento na Câmara dos Deputados
[12] João Abner Guimarães Jr., “O lobby da transposição”
[13] João Suassuna, “Transposição: projeto tecnicamente ruim, socialmente preocupante e politicamente desastroso.”
[14] José Carlos Carvalho, depoimento na Câmara dos Deputados
[15] João Suassuna, “Transposição: projeto tecnicamente ruim, socialmente preocupante e politicamente desastroso.”
[16] João Abner Guimarães Jr.
[17] Luis Nassif, “O Bird e a transposição”
[18] Alberto Daker
[19] Alberto Daker
[20] Alberto Daker
[21] Aldo Rebouças
[22] Manoel Bomfim Ribeiro, “Transposição – uma análise cartesiana”
[23] Alberto Daker
[24] Alberto Daker

12 dezembro 2007

Economistas: a chave do tesouro

economistas de mercado se distribuem em dois grandes grupos.

no primeiro estão os que fazem o marketing da política econômica neoliberal.

precisam adquirir currículo acadêmico em universidades norte-americanas. isto tanto os certifica como devidamente capacitados a servir os interesses do mercado, quanto confere respeitabilidade ao marketing, revestindo-o de "teoria e história da economia".

geralmente ocupam cargos ligados a análise macroeconômica, com grande visibilidade na mídia. e quase sempre não possuem a menor intimidade com o dia a dia das operações de mercado.

exemplo: Alexandre Schwartsman.

já os do segundo grupo não dão a mínima para o marketing, pois sabem que se trata apenas de jogo de interesses. preferem focar diretamente no cerne do negócio: rentabilidade.

decidem sobre o destino de centenas de bilhões de reais. são responsáveis por rolar aplicações de curtíssimo prazo. identificam oportunidades de arbitragem que se fecham em segundos. definem estratégia de investimentos baseada nos movimentos do mercado e não nos "fundamentos macroeconômicos". buscam a combinação certa de risco, prazo, rentabilidade, normas e instrumentos de gestão, para o que as "boas teorias econômicas" não passam de literatura ideológica.

embora tenham acesso franqueado a grande mídia, evitam o excesso de exposição. também não costumam se comprometer com a defesa fundamentalista do neoliberalismo.

exemplo: Armínio Fraga.

economistas do primeiro grupo até podem ocupar altos postos no mercado financeiro, como economistas-chefe ou diretores, mas não é comum lançarem-se a frente de empresas próprias (exceto consultorias), como acontece com os do segundo grupo.

para apoio a tomada de suas decisões de negócio, economistas do segundo grupo se valem de estudos técnicos, nos quais fica flagrante que, num cenário de queda de juros, o pré-fixado é excelente investimento, e não uma exatamente opção para "melhorar o perfil da dívida interna". [1]

entretanto, a manutenção da política econômica, que garante as rentabilidade obtida pelos economistas do segundo grupo em suas operações no mercado, necessita do marketing conduzido pelos economistas do primeiro grupo.


apesar disto, nas reuniões matinais realizadas pelos economistas do segundo grupo para traçar a estratégia das operações do dia, o marketing dos economistas do primeiro grupo não tem nenhum significado – nem mesmo como alguma poesia. [2]

tudo o que lhes importa é em quais mãos está segura a chave do Banco Central.






[1] vide Ricardo Summa, “Alongamento da dívida pública e pré fixados interessam aos rentistas”
[2] comentário do Economista no site Crítica Econômica, www.criticaeconomica.com.br

06 dezembro 2007

óbvio ululante

nada é mais cansativo do que tentar demonstrar o óbvio.
[1]

para Fabio Giambiagi, um dos “expurgados” do Ipea, o Brasil não cresce porque não merece. não passamos de um país com "mentalidade de funcionário público acomodado”.
[2]

talvez as correntes aprisionando nossa economia sejam mesmo as despesas com a previdência e os gastos sociais. e por causa da Constituição de 1988 nos tornamos cidadãos de mentalidade indolente, espírito acomodado e satisfeitos em depender do Estado.

também já houve época, no inicio do século XX, em que não podíamos crescer por causa do determinismo geográfico e racial. diziam que o desenvolvimento só era possível nos climas frios e por obra de grupos étnicos superiores.

talvez sejamos mesmo um povo de índole corrompida, sem caráter, padecendo no calor dos trópicos de triste sina, irremediavelmente inscrita pela mestiçagem em nossos genes, sem que jamais sejamos capazes de superar nossa preguiça e atraso ancestrais.

se assim for, como então conseguimos ser, até 1980, a economia mais dinâmica do mundo, dobrando o PIB cinco vezes seguidas em cinqüenta anos?

o descontrole do endividamento do Estado veio após o Plano Real (1994), com a dívida interna disparando de 7% do PIB em 1993, para 13% em 1994, até chegar aos 50% em 2006. apesar de sucessivos superávits primários, desde 1994, a taxa de juros reais se manteve a mais alta do mundo.
[3]

dissimulado sob a marca do Ipea, Giambiagi dedica-se em tempo integral a destruir o que restou da previdência pública brasileira. é também co-autor de um projeto de reforma previdenciária elaborado por encomenda de um conjunto de entidades do setor financeiro.
[4]

em 1989, quando Giambiagi estava em Caracas, como membro da equipe do BID que assessorava o governo de Andrés Pérez, a Venezuela foi sacudida por intensos protestos em reação a um pacote de medidas neoliberais inspirado pelo FMI .

iniciada em 27 de fevereiro daquele ano, a explosão social ficou conhecida como El Caracazo e sofreu repressão brutal. números oficiais admitem 300 vítimas. estima-se que entre 3.000 e 10.000 pessoas foram assassinadas.

referindo-se ao episódio, Giambiagi comenta da “perplexidade” que ele e seus colegas “sentiram na Venezuela vendo como as ruas reagiam diante daquilo que no resto do mundo pertencia ao terreno da obviedade”.
[5]

a quem serve Giambiagi? não é preciso ser profeta para se enxergar o óbvio ululante...
[6]



[1] Nélson Rodrigues, citado por Fabio Giambiagi, “Raízes do atraso - As dez vacas sagradas que acorrentam o país”
[2]
Fabio Giambiagi, Folha de São Paulo, 04/03/2007
[3]
arkx, “o que merecemos”
[4]
Henrique Júdice Magalhães , “A quem serve Giambiagi?”
[5]
Henrique Júdice Magalhães, “A Previdência e o Caracazo”
[6] Nélson Rodrigues: “Só os profetas enxergam o óbvio”

16 novembro 2007

a batalha do Ipea

tradicional colunista social do mercado execra o que denomina de “expurgos” no Ipea, segundo ele, um ataque a pluralidade do órgão. [1]

como se sabe, o famoso "pluralismo" do pensamento único do mercado foi inaugurado de forma categórica por Madame Thachter, na década de 80, ao decretar: “there is no alternative”.

sintomaticamente um dos "expurgados", dedicado em tempo integral a destruir o que restou da previdência pública brasileira, é também co-autor de um projeto de reforma previdenciária elaborado por encomenda de um conjunto de entidades do setor financeiro – aglutinadas na Ação Para o Desenvolvimento do Mercado de Capitais. [2]

trata-se de uma versão muito peculiar do pluralismo, desde que todos compartilhem das mesmas idéias e concepção do mundo e estejam a serviço, muito bem remunerado, dos mesmos senhores.

Pochmann e Sicsú implementam no Ipea o que Lula deveria fazer no BC: uma troca de guarda para reconduzir o Brasil ao rumo do desenvolvimento.

enquanto os fiéis defensores da democracia do pensamento único alugam os cadernos de economia da grande mídia para histericamente espernearem contra as mudanças no Ipea, uma pergunta não pode se calar:

por que o Ipea, um órgão público, deveria acobertar um emérito lobista da previdência privada, travestido de pesquisador, que nem funcionário é do Ipea, e sim do Bndes?

muito embora Pochmann já tenha trocado 5 dos 6 diretores do Ipea, não houve esta gritaria de agora. foi considerado normal. ninguém saiu se fazendo de "expurgado".

muito bem, por que?

é que agora mexeram com o lobista. e o lobby saiu em socorro dele.

agora mexeram com um dos inventores do déficit da previdência - aquele que nunca existiu, não existe e nem pode existir nos termos da Constituição de 88.

nenhum dos argumentos do lobista a favor de uma nova reforma da previdência tem sustentação técnica.

são apenas negócios. a cada vez que o governo apenas cogita uma nova reforma - e o lobby faz ecoar através da grande mídia – dispara a captação dos fundos privados de previdência.

por que o lobista não faz suas pesquisas contratado diretamente pela Febraban? porque então seria tudo muito descarado, revelando tratar-se apenas de negócios e não de produção de conhecimento.


o lobby funciona bem melhor disfarçado através da bandeira do Ipea.




[1] Guilherme de Barros, Folha de São Paulo, 15/11/2007
[2] Henrique Júdice Magalhães , “A quem serve Giambiagi?”

24 outubro 2007

concessões

enquanto a grande mídia classifica o leilão de concessão das principais rodovias do país como uma vitória pessoal da ministra-chefe da Casa Civil da Presidência, é a própria Dilma Rousseff quem revela a razão do "sucesso": "aplicar regras capitalistas no capitalismo". [1]

de fato, as empresas vencedoras apresentaram preços bem abaixo do máximo estipulado pelo governo, com a proposta da espanhola OHL, que arrematou 4 dos 5 trechos leiloados, chegando a um deságio de 65% para a BR-381 (Fernão Dias).

segundo a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência, "o governo aplicou regras de competição", e mesmo ao reduzir a taxa interna de retorno do projeto para 8,95%, ainda assim as tarifas vencedoras foram mais baixas.

Lula não pode conter seu júbilo e festejou: "pela primeira vez os pedágios ficaram mais baratos".

a questão das privatizações foi tema central no segundo turno das eleições presidenciais de 2006. encurralado pela campanha petista, Alckmin vestiu jaqueta e usou boné cobertos de logotipos das estatais ao assinar uma carta antiprivatização.

agora, segundo Lula, não se trata de privatização, e sim "concessão". por 25 anos. e sem que por ela o Estado nada receba. uma graciosa doação "não onerosa" de infraestrutura pública para ser explorada pelo capital privado internacional.

e como ironia maior, a bandeira da gestão não-ideológica, desfraldada sem sucesso pelo candidato tucano nas eleições passadas, é assumida por Dilma Roussef, já em pleno rumo da sucessão de 2010.

apesar de todos os aplausos e comemorações, ninguém no governo, ou mesmo fora dele, teve capacidade de explicar quais as justificativas técnicas e políticas para se privatizar, enquanto se prossegue transferindo cerca de 7% do PIB como juros da dívida pública interna aos setores rentistas.

logo nos primeiros dias subseqüentes ao leilão, as verdadeiras razões do "sucesso" das privatizações vieram a público:

- o BNDES financiará 70% do valor a ser investido nas rodovias;

- para estimular a internacionalização das empresas, o governo da Espanha concede incentivos e benefícios que podem alcançar 25% do total do investimento.

com tamanha felicidade em seus negócios com o governo brasileiro, os empresários espanhóis não podem deixar de se conceder um esfuziante entusiasmo:


"O Brasil é um país fantástico, com bancos fantásticos, empresários fantásticos. E teve o privilégio de contar com dois presidentes fantásticos: Fernando Henrique Cardoso e Lula, que é uma figura sensacional." [2]



[1] Dilma Roussef, entrevista à revista "Época", 10/2007
[2] Emilio Botín, presidente mundial do banco Santander, 23/10/2007

07 outubro 2007

tropa de elite

“na cara não... na cara não... prá não estragar o velório.”

caído no chão, já desarmado e ferido, o traficante suplica. mas não implora pela vida. só pede para não tomar um tiro no rosto, que não lhe prejudiquem o velório...

o sucessor do Capitão Nascimento aponta a arma. no contra-plano, encara a platéia, que passa a ocupar o lugar de quem vai ser executado. com o dedo no gatilho, parece titubear por um momento. por detrás dele, a luz do sol invade a cena e explode a imagem no instante do disparo.

numa época de total crise de valores de uma sociedade dominada pela hipocrisia e o cinismo, o filme “Tropa de Elite” cria um herói.

onde tudo tem um preço e todos se vendem, o personagem do capitão do BOPE não compactua com o tráfico e muito menos com a corrupção da própria polícia.

pesquisa do Datafolha indica que 19% dos paulistanos já viram o filme antes da estréia, sendo que 80% destes classificam “Tropa de Elite” como ótimo ou bom. estimativa do diretor calcula que mais de 5 milhões de pessoas, em São Paulo e no Rio, já assistiram ao filme em cópias piratas, sem nenhum investimento de marketing, numa fenomenal demanda espontânea.

por quê as camadas populares estão aplaudindo o filme?

por quê o Capitão Nascimento é um justiceiro? o Salvador, acima de tudo e de todos, que encarna em si a Lei.

ou apenas alguém que, finalmente, assume valores que pareciam perdidos para sempre? um homem comum, com toda a fraqueza de suas certezas, perdido no meio de uma guerra suja, instado a tomar decisões e agir, sem nunca desobedecer sua própria consciência.

num tempo de líderes traidores e de tantos anti-heróis, o Capitão Nascimento jamais abre mão de seus princípios: jurou fazer o bem, nem que seja à força. é tão forte seu compromisso com o bem, que ele não pode deixar de fazê-lo, nem que seja pelo mal...

missão dada é missão cumprida.

como fenômeno de massas, o surgimento de um personagem como o Capitão Nascimento é um sintoma importante. uma reação extremada a uma época em que a perda de referências chegou ao extremo.

é possível se fazer o bem à força? certamente que não!

o Capitão Nascimento sente remorso. tem consciência que está errado. dispensa os que não concordam em prosseguir na caçada de vingança ao traficante.

mas, por outro lado, é possível se fazer o bem quando se é fraco?

assim como todos são contra a criminalidade e pela paz, se mantém incessante o movimento nas bocas-de-fumo. as mesmas ONGs que trabalham pela consciência social nas favelas, também selam acordos de coexistência “mais do que pacífica” com os traficantes. políticas de redução de danos se recusam a combater as causas do vício e perenizam a dependência dos viciados. chefes do tráfico são tratados como magnânimos patronos beneméritos pelos moradores das “comunidades’.

como se tornar forte? quem está disposto a ir até o fim com os seus princípios? qual é esta força que nos torna invencíveis para jamais trairmos nossos valores?

a ascensão irresistível de um símbolo é sempre claro indicativo de mudanças sociais. a espontânea adoção do Capitão Nascimento como herói popular é indício que a sociedade brasileira começou a subida do fundo do poço.

revela movimento e saída da estagnação. busca de valores pelos quais há um alto preço a se pagar, às vezes com a própria vida, e não mais a conveniente malandragem de se “levar vantagem em tudo”. busca de soluções, mesmo a qualquer preço, ao invés do plácido conformismo do “não tem mais jeito”.

o Capitão Nascimento é um líder autêntico. sabe que não pode se perpetuar na liderança. sabe que ninguém fica incólume muito tempo na linha de frente. prepara seu substituto. alguém digno para sucedê-lo e liderar a equipe. seu sucessor é também o passo a frente no processo. caberá a ele questionar os métodos de Nascimento.

terá a força necessária para fazê-lo? como se tornar forte?

na cena final do filme, um rito de passagem, o substituto do Capitão Nascimento atira contra a platéia. a luz do sol invade a cena, explodindo a imagem no instante do disparo. a tela fica branca. plena de luz.

embora a narrativa nos induza a crer que o traficante acaba executado, a rigor não se pode ter certeza disto. não se vê esta imagem. não se sabe ao certo o que acontece. apenas se imagina.

só há uma única certeza: quem leva o tiro na cara é a platéia.