30 abril 2008

a falta que não deixa fazer...

não é possível deixar de reconhecer que a autonomia do Banco Central implica um evidente déficit democrático. o Copom está dominado por um pensamento único, redundando em comportamentos idiossincráticos, apoiados não em evidências empíricas fortes, mas na perversão religiosa de um suposto conhecimento "científico" inspirado na imoralidade ínsita no DNA do sistema financeiro. [1]

juros mais elevados costumam cobrar o seu preço em termos de crescimento da economia e desemprego. o produto e o emprego acabam prejudicados pela contração da demanda, pela perda de dinamismo das exportações e pela substituição de produção doméstica por importações. os juros mais altos elevam o custo da dívida interna e desajustam as contas governamentais. concentram a renda, pois beneficiam a minoria de privilegiados que são credores diretos e indiretos do governo. e, como se isso tudo não bastasse, contribuem para agravar a valorização do real, ameaçando recriar o problema da vulnerabilidade externa no médio prazo. [2]

mantendo-se como o bastião inexpugnável que se outorga a única missão de conservar blindada a maior taxa de juros reais do mundo, o Copom entende estar, de fato, contribuindo para a sustentação do crescimento ao evitar que a maior incerteza detectada em horizontes mais curtos se propague para horizontes mais longos. [3]

com efeito, a balança comercial brasileira fechou a terceira semana deste mês com uma queda de 63,7% em relação ao resultado de 2007. na comparação entre os resultados do mesmo período, as exportações cresceram 3,1%, contra uma alta de 30,7% das importações. [4]

as contas do Brasil com o exterior tiveram o pior março já registrado pelo BC, que começou a coletar dados em 1947. considerando todas as transações de comércio - serviço e financeiras -, o resultado foi um déficit de US$ 4,429 bilhões, resultado que surpreendeu o mercado e o próprio BC. foi também o pior primeiro trimestre da história: US$ 10,757 bilhões de déficit. se for confirmada a previsão para abril, um saldo negativo de US$ 2,8 bilhões, o déficit superará, em quatro meses, o total estimado BC para o ano, que é de US$ 12 bilhões. o envio de recursos ao exterior a título de pagamentos de lucros e dividendos atingiu US$ 4,345 bilhões, o maior valor mensal já registrado. No trimestre, foram US$ 8,662 bilhões, também recorde para o período. [5]

o aumento das remessas de lucros e dividendos é causado por quatro fatores:

- os fortes investimentos diretos e em Bolsa, que aumentam o volume de capitais estrangeiros aplicados no país;
- a valorização do real, que aumenta os lucros, quando convertidos em dólares;
- o bom desempenho da economia, que aumenta o lucro das empresas;
- a crise internacional, que leva algumas empresas a remeter resultados ao exterior para cobrir prejuízos registrados em outros países. [6]

a tragédia brasileira é que o governo Lula deu certo para os de cima, para as classes dominantes. quem ganha dinheiro com esse governo? o sistema financeiro e o grande capital produtivo. e perdem com isso os assalariados médios, os de base. os interesses de cima estão absolutamente preservados e garantidos, e a relação com as massas pode prescindir dos partidos. [7]

é nítida também uma migração da base social do governo Lula. muito embora esse governo tenha sido eleito com o apoio da classe trabalhadora organizada, sindical e politicamente, hoje é cada vez menos ancorado nesses setores e cada vez mais respaldado pelas parcelas mais empobrecidas da classe trabalhadora, que não têm emprego, trabalham sem organização sindical e política e vivem da esmola vergonhosa que o governo dá sob o nome de Bolsa Família, que hoje atinge 11 a 12 milhões de famílias, cerca de 60 milhões de pessoas. [8]

há quem diga que se Lula não tivesse cumprido os compromissos assumidos com o mercado financeiro teria caído. entretanto, quem dá o golpe se o povo elegeu e reelegeu esse cara da forma como o elegeu e, sobretudo, como o reelegeu? a mídia compactamente contra ele, todo dia soltando informações sobre corrupção, envolvimentos terríveis com o que há de pior etc. etc., e assim mesmo ele foi reeleito. não havia condições para nenhum tipo de golpe. Lula é um sujeito extremamente dotado, além de tudo tem um QI muito bom. mas os grandes estadistas também precisam ter coragem. o que falta é peito, falta coragem. [9]



[1] Delfim Netto, “Prestar contas”, 23/04/2008
[2] Paulo Nogueira Batista Jr. “Juros e inflação”, 24/04/2008
[3] Ata do Copom, 24/04/2008
[4] Folha Online, 23/04/2008
[5] Lu Aiko Otta, O Estado de São Paulo, 29/04/2008
[6] Altamir Lopes, Chefe do Departamento Econômico do BC, Valor Online, 29/04/2008
[7] Ricardo Antunes, entrevista ao Correio da Cidadania, 08/04/2008
[8] Ricardo Antunes, entrevista ao Correio da Cidadania, 08/04/2008
[9] Mino Carta, Revista do Brasil, abril de 2008

22 abril 2008

derrama

essa não é ainda a pátria com a qual Tiradentes sonhou e, mais do que isso, pela qual morreu. o fato do Brasil ter os juros mais altos do mundo, distancia o país do seu potencial de desenvolvimento e nos conduz ao alto desemprego. [1]

num filme conhecido, reprisado diversas vezes desde o Plano Real, mais uma vez se interrompe o ciclo de recuperação da economia e aprecia-se o câmbio. o déficit em transações correntes, já com forte aumento, deverá se acelerar explosivamente. em relação ao controle da taxa de inflação, são dúbios os efeitos dessa elevação dos juros. a alta da taxa de inflação se deve à inflação importada, isto é, ao aumento dos preços de alimentos, petróleo e derivados, produtos siderúrgicos e outras commodities, todas com pressões vindas do exterior, o que nos diz que a taxa de juros brasileira será incapaz de afetá-la. [2]

a inflação que vemos é provocada pela disparada dos preços das commodities devido ao crescimento da demanda dos países asiáticos. com a desaceleração da economia mundial e a recessão nos Estados Unidos, a China vai junto e a Índia também, arrefecendo as pressões inflacionárias. se o Brasil quer algum dia crescer em um ritmo forte, o caminho tem de ser baixar os juros. se a taxa ficar na casa dos 14%, o país nunca vai realizar todo o seu potencial. [3]


os juros pressionam a inflação, pois fazem parte do custo de produção e comercialização. esses custos são repassados para o trabalhador, que não pode fazer o mesmo. o verdadeiro redutor de custos é a redução salarial. no Brasil a inflação nada tem a ver com excesso de demanda. o crescimento do salário e emprego nos últimos 24 meses foi ridículo. o estoque da dívida é afetado sem justificativa a cada alta dos juros, o que provoca aumento de gastos do governo. embora a participação da dívida pública atrelada à Selic possa estar caindo, isto se deve aos outros títulos pagarem ainda mais caro. [4]

a política monetária brasileira não é apenas imbecil, [5] assim como ontem Tiradentes via sangrar de nossas Minas Gerais o ouro, se vê hoje nos bilhões e bilhões repassados ao sistema financeiro do mercado o seqüestro de nossas esperanças, o adiamento de nossas aspirações legítimas e urgentes. [6]

a terra tão rica e – ó almas inertes! – o povo tão pobre... ninguém que proteste! todos querem liberdade, mas quem por ela trabalha? quem morre, para dar vida? quem quer arriscar seu sangue? pois os heróis chegam à gloria só depois de degolados. antes, recebem apenas ou compaixão ou desdém. [7]


[1] José Alencar, como Presidente interino, em Ouro Preto (MG), 21/04/2008
[2] Yoshiaki Nakano, “Juros na contramão “, 20/04/2008
[3] Leo Abruzzese, diretor editorial da consultoria Economist Intelligence Unit, que publica "The Economist", 20/04/2008
[4] Dércio Garcia Munhoz, entrevistado por Rogério Lessa, 22/04/2008
[5] José Alencar, como Presidente interino, em Ouro Preto (MG), citando Maria da Conceição Tavares, 21/04/2008
[6] José Alencar, como Presidente interino, em Ouro Preto (MG), 21/04/2008
[7] Cecília Meireles, “Romanceiro da Inconfidência”

19 abril 2008

torcicolo

muito embora tenha garantido que uma elevação da taxa básica de juros não traria qualquer transtorno [1], no dia seguinte ao aumento da Selic em 0,50% Lula amanheceu com o pescoço imobilizado por causa de um torcicolo. [2]

ainda mais improvável do que alguém que não tem pescoço sentir dor de torcicolo [3] teria sido o BC recuar de seu anunciado ajuste dos juros. [4]

contrariando a maior parte das expectativas, inclusive do mercado financeiro, que apostava em alta de 0,25 ponto percentual, o Copom entendeu “realizar, de imediato, parte relevante do movimento da taxa básica de juros a fim de contribuir para a diminuição tempestiva do risco que se configura para o cenário inflacionário e, como conseqüência, para reduzir a magnitude do ajuste total a ser implementado”. [5]

talvez a origem do problema no pescoço do Presidente tenha sido apenas contrariedade com resultados de partidas de futebol [6], mas seja como for todos no Palácio do Planalto já tinham absorvido uma subida de 0,25% ponto, como esperava a maior parte do mercado, “mas 0,50 foi demais". [7]

o governo Lula, que teve suas origens na esquerda mas optou por assumir a política e as preocupações da direita [8], realiza magistralmente aquilo que o governo de FHC fez apenas razoavelmente bem [9], criando as condições para corações e mentes da sociedade brasileira serem conquistados pelo slogan definitivo do mercado: o maior e mais incontestável sucesso do governo é a política econômica, que proporciona estabilidade e crescimento, além de bancar os programas sociais. [10]

o resultado da estabilização da economia brasileira alcançada com o Plano Real foi conservador, mantendo o controle da inflação ao custo de uma explosão da dívida pública, o que concede enorme poder de chantagem aos chamados "mercados", entidade abstrata que, muito concretamente, financia a dívida pública brasileira [11] e se rentabiliza com a mais alta taxa de juros reais do mundo. [12]

atualmente, cerca de um terço da dívida do governo federal é atrelada à Selic. caso esse novo patamar de juros seja mantido pelos próximos 12 meses, o custo fiscal da medida será de cerca de R$ 2,9 bilhões. [13]

um dia após o anúncio do Copom, o Dólar terminou vendido a R$ 1,657 - menor cotação desde maio de 1999. ao se considerar os últimos 12 meses, o Real lidera entre as principais moedas com maior valorização frente ao Dólar: 18,61%. no mercado brasileiro, o Dólar já recuou 5,48% apenas neste mês de abril de 2008, incluindo a queda de 0,42% no dia posterior ao reajuste da Selic. [14]

a elevação dos juros terá efeito em relação às expectativas dos empresários. vai ter impacto nas pessoas ou empresas que estão tomando crédito e na dívida pública. pode também atrair ais recursos estrangeiros especulativos para o país. teremos uma taxa de câmbio ainda mais valorizada, com maior dificuldade para a exportação e maior estímulo à importação, além da substituição de produtos nacionais por importados. [15]

ao "mostrar os dentes" para Lula e para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, [16] o BC, que reclama dos grupos de interesse, como Fiesp e CNI, mas não menciona os interesses do mercado financeiro [17], abocanha a economia brasileira como um todo e pode reduzir drasticamente a sustentabilidade do atual ciclo de crescimento. [18]

embora tenha sido precedida por alertas, vindos de analistas econômicos dos mais variados matizes teóricos e ideológicos, de que elevar os juros seria uma decisão precipitada [19], a decisão unânime pelo aumento em 0,50 ponto, acima até da expectativa de 0,25 ponto, indica como a composição do Copom é monolítica e fechada com uma única visão da política econômica.

isto não é apenas inadmissível num órgão técnico. é totalmente inaceitável numa democracia.

por se esforçar demais em agradar ao mercado, o BC acaba adotando os horizontes extremamente curtos do mercado como seus próprios. com isto se cria uma retroalimentação perigosa, em que o mercado reage exageradamente a percepções sobre o que o BC podera fazer, e o BC recorre ao mercado para se orientar sobre o que deveria fazer. [20]

o BC age como um destreinado atirador do tiro-ao-pato, que, tendo um projétil que leva alguns segundos para chegar ao alvo, sempre mira o ponto em que o pato se encontra no momento do tiro - e não o ponto seguinte. no final de 2007 houve uma mudança no patamar dos preços internacionais de alimentos, o que leva de dois a três meses para chegar ao varejo e só agora se verifica. ao mesmo tempo, a elevação no preço dos alimentos corrói o poder aquisitivo do consumidor, reduzindo o disponível para a compra de bens duráveis ou de novos financiamentos. além disso, há outro vôo do pato sendo percorrido, que é do aumento dos investimentos internos, ampliando a capacidade instalada de indústria. [21]

usando a política monetária para combater suspiros inflacionários [22] a ditadura do Copom inicia um novo ciclo de alta da Selic e condena o Brasil ao eterno vôo da galinha. [23]


o Brasil tem um Banco Central independente de fato, mas cuja independência foi imposta pelo sistema financeiro, sem que viesse acompanhada de nenhum tipo de regulamentação. criou-se assim uma instituição fechada, opaca, guardiã de interesses rentistas, permanentemente contracionista, inimiga do crescimento e socialmente irresponsável. a qualquer pretexto, impunemente, puxa o gatilho dos juros e ataca os suspeitos de sempre, misteriosas ameaças de inflação. [24]




[1] Lula, entrevista no Palácio Noordeinde, na Holanda, 12/04/2008
[2] Valor Online, 17/04/2008
[3] comentário da Primeira-Dama, Marisa Letícia:”Como é que pode alguém que não tem pescoço, ter dor de pescoço?”,Agência Brasil, 17/04/2008
[4] ata do Copom, divulgada em 13/03/2008, “a opção de realizar, neste momento um ajuste na taxa básica de juros"
[5] nota divulgada após a reunião do Copom, em 16/04/2007: "O Comitê entende que a decisão de realizar, de imediato, parte relevante do movimento da taxa básica de juros irá contribuir para a diminuição tempestiva do risco que se configura para o cenário inflacionário e, como conseqüência, para reduzir a magnitude do ajuste total a ser implementado"
[6] Lula comentou que não sabia se a origem do problema [torcicolo] tinha sido a “alta dos juros ou o massacre do Corinthians pelo Goiás”, Agência Brasil, 17/04/2008
[7] Vicente Nunes, citando comentário de auxiliar de Lula, logo depois do final da reunião do Copom, “Uma tacada forte”, Correio Braziliense, 17/04/2008
[8] Paulo Passarinho, “Banco Central: sitiado ou estrela-guia?”, 18/04/2008
[9] Ricardo Antunes, entrevista ao Correio da Cidadania, 08/04/2008
[10] Nelson Mota, “Do sonho ao pesadelo”, Folha de São Paulo, 18/4/2008
[11] Marcos Nobre, “Juros: teoria e prática”, Folha de São Paulo, 15/04/2008
[12] com a Selic em 11,75%, o Brasil manteve o título de campeão mundial de juros altos, com taxa real de 7,1%
[13] segundo o secretário do Tesouro, Arno Augustin, citado em matéria na Folha de São Paulo, 18/04/2008
[14] Fabricio Vieira e Denyse Godoy, Folha de São Paulo, 18/04/2008
[15] Marcio Pochmann, declaração à Folha de São Paulo, 18/04/2008
[16] Kennedy Alencar, citando palavras de um Ministro do Governo Lula, Folha de São Paulo, 18/04/2008
[17] André de M. Modenesi, Miguel Bruno e Salvador Werneck Vianna, “Reversão preventiva na política monetária”, nota técnica do Ipea, 04/2008
[18] André de M. Modenesi, Miguel Bruno e Salvador Werneck Vianna, “Reversão preventiva na política monetária”, nota técnica do Ipea, 04/2008
[19] “Precipitação”, editorial da Folha de São Paulo, 18/04/2008

[20] Alan Blinder, citado em “Macroeconomia da estagnação”, de Luiz Carlos Bresser-Pereira
[21] Luis Nassif, “O BC e o tiro-ao-pato”, 18/04/2008
[22] Paulo Godoy, Presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Base (Abdib), citado por Vicente Nunes, “Uma tacada forte”, Correio Braziliense, 17/04/2008
[23] Abram Szajman, Presidente da Federação do Comércio de São Paulo (Fecomercio), citado por Vicente Nunes, “Uma tacada forte”, Correio Braziliense, 17/04/2008

[24] César Benjamin, “Os suspeitos de sempre”, 19/04/2008

18 abril 2008

estrela guia

desta vez, o BC não conta nem com o aval unânime do mercado financeiro, tradicionalmente a base de apoio nos embates com a Fazenda, que tem a simpatia do empresariado. nas palavras de um importante banqueiro interlocutor do BC com o mercado, ao endurecer o discurso na defesa da alta dos juros, o diretor da instituição Mário Mesquita (Política Econômica) mostrou "certeza demais" para um cenário "com dúvidas em excesso". a situação no Brasil ainda é confortável e o BC teria condições de esperar, sem risco de um descontrole de preços. [1]

a recente alta da inflação foi provocada principalmente pela alta dos preços dos alimentos, um fenômeno mundial e concentrado em alguns produtos, fora das condições de controle do BC. portanto, qualquer avaliação propondo o aumento dos juros para conter uma eventual inflação de demanda é, neste momento, precipitada. a não ser, é claro, que o BC pretenda controlar a inflação do mundo... [2]

além disto, não se deve esquecer que 4,5% é o centro da meta de inflação, com bandas de dois pontos percentuais, acima ou abaixo, para criar padrões de tolerância. fica a impressão que os 4,5% viraram o topo da meta. [3]

não temos hoje inflação por demanda, mas sim uma alta de preços causada pelos alimentos, o que é uma tendência mundial. elevar juros, portanto, em nada vai resolver o problema porque as pessoas precisam continuar consumindo alimentos. o BC tem usado o núcleo da inflação, quando a meta fixada é para o indicador cheio. [4]

mesmo ao reconhecer ser impossível controlar os preços dos alimentos no mundo, para a vozes do mercado só há uma alternativa à elevação dos juros para conter a inflação: uma redução de demanda via um corte de gastos públicos. embora a política fiscal possa ser classificada de austera, pois há superávit primário, com a receita superior aos gastos não financeiros, ainda assim seria expansionista: entre 2003 e 2007, a despesa não financeira do governo central cresceu 9,5% ao ano, a preços constantes. [5]

o que se constata na execução do orçamento da União de 2007, é 53% aplicados no pagamento dos encargos da dívida, juros e amortizações. é uma realidade deprimente a política de gastos do governo federal: à saúde foram destinados 3,49%, à segurança pública 0,40%, à organização agrária 0,31%, à educação 1,74%. [6]

por outro lado, o BC é visto como jamais tão isolado no governo quanto agora. seriam todos contra um diante de um duplo receio: a alta dos juros brecar o crescimento e valorizar ainda mais o real, pondo em risco o equilíbrio das contas externas. [7]

mais do que nunca, Lula se revela como o núcleo central de um governo que ao mesmo tempo tenta acelerar o crescimento, através dos investimentos públicos do PAC, e cujo BC freia a expansão da economia, ao assumir o papel de "caça-fantasmas", em luta contra o desprezo e a descrença para levar a cabo o exorcismo de incipientes e invisíveis pressões inflacionárias. [8]

Lula declara haver combinação perfeita entre demanda e oferta. [9] apenas para em seguida reafirmar a importância de garantir que tudo aquilo que deu certo até agora continue dando certo. não seria nem uma redução de 0,25%, nem a manutenção de 11,25% [taxa atual], tampouco o aumento de 0,25% que trariam qualquer transtorno à economia brasileira. [10]

ainda assim, numa demonstração de seu nenhum desconforto em relação à esquizofrenia insanável das contradições de seu governo, Lula garante que loucos são os que acham que ele autorizou o aumento dos juros. [11]

do Palácio do Planalto, se levanta um monumental silêncio, mesmo a contragosto, não se emite qualquer tipo de crítica contra o BC. na lógica eleitoral de Lula, o melhor é subir a Selic agora, quando a economia está "bombando", impulsionada pelo forte consumo interno, e o governo registra sua melhor avaliação junto à população. assim, a demanda dará uma esfriada, recuperando o fôlego em meados de 2009, com a Selic já em baixa, e atingindo o pico em 2010, ampliando a força do Presidente para fazer seu sucessor. [12]

e é nesse contexto que é forçoso reconhecer que, muito diferente de ser uma ilha no atual governo, a direção emanada do BC é a verdadeira estrela-guia das principais e decisivas opções do Palácio do Planalto. [13]


[1] Sheila D'Amorim e Waldo Cruz, Folha de São Paulo, 14/04/2008
[2] Júlio Sérgio Gomes de Almeida, do Iedi, citado por Guilheme de Barros, Folha de São Paulo, 11/04/2008
[3] Francisco Pessoa, da LCA Consultores, citado por Daniele Carvalho, Jornal do Commercio do Rio,11/04/2008
[4] Sérgio Vale, analista da MB Associados, citado por Daniele Carvalho, Jornal do Commercio do Rio,11/04/2008
[5] Sérgio Ribeiro da Costa Werlang, Diretor-Executivo do Banco Itaú, “As conseqüências da política econômica brasileira”, 14/04/2008
[6] Osiris Lopes Filho, citando Maria Lúcia Fatorelli , Auditora da Receita Federal, “Abrir a caixa-preta”, 14/04/2008
[7] Valdo Cruz, “Lula e a TPC”, 14/04/2008
[8] Andrew Haldane, do BC da Inglaterra, citado por Claudia Safatle, em “BC, o caça-fantasmas”, 11/04/2008
[9] Lula, entrevista no Palácio Noordeinde, na Holanda, 12/04/2008
[10] Lula, entrevista no Palácio Noordeinde, na Holanda, 12/04/2008
[11] Lula, “Quem acha isso está louco”, ao refutar que tenha dado aval para o BC elevar os juros, em Praga, 13/04/2008
[12] Vicente Nunes, “Será 0,25 ou 0,50?”, Correio Braziliense, 14/04/2008
[13] Paulo Passarinho, “Banco Central: sitiado ou estrela-guia?”, 18/04/2008

12 abril 2008

fantasmas da inflação e juro real

para o BC, entre todas as reformas feitas pelo Brasil nos últimos anos, a estabilidade é a de maior resultado, isso significa que não se deve ideologizar o debate econômico. [1]

como contrapartida da bolsa Selic, que subvenciona a “estabilidade econômica” com a maior taxa de juros reais do mundo, os programas sociais já atingem 25% da população no país. o Bolsa Família é o mais abrangente, presente em 15% das moradias de todo o Brasil, em 2006. [2]

o Plano Real não foi um simples plano de combate à inflação. a estabilidade monetária aparece como imposição determinada pelas novas condições de circulação e valorização dos capitais. não adianta a maior liberdade de movimentos se os capitais tem de enfrentar a incerteza congênita quanto à magnitude das variáveis reais que caracteriza os regimes de alta inflação e, particularmente, aqueles com mecanismos formais de indexação, como o do Brasil pré-Real. [3]

apesar de até mesmo o FMI reconhecer que a valorização contínua das moedas de alguns países, incluindo o Real, pode significar um canal de vulnerabilidade caso haja picos de volatilidade no futuro [4], o BC chama a si o papel de "caça-fantasmas", pois embora as pressões inflacionárias incipientes ainda sejam invisíveis, como se fossem fantasmas, fazendo com que as revelações sobre elas sejam recebidas com desprezo e descrença, o trabalho do BC é localizar esses fantasmas e exorcizá-los cedo. [5]

o argumento em prol da atual necessidade de se realizar uma alta preventiva da Selic não parece válido. tanto o lado real quanto as expectativas de inflação da economia brasileira desabonam a tese da necessidade de uma reversão na política monetária. [6]

o balanço entre oferta e demanda agregada está equilibrado. claros sinais de expansão da capacidade produtiva, aliados a um ritmo saudável de expansão da atividade industrial, apontam para a disponibilidade de o setor atender ao crescimento da demanda por meio de expansão da oferta, e não por elevações de preços, como teme o BC. [7]

ao caçar os fantasmas da inflação, mirando implacavelmente o limite inferior da meta, o BC acaba por exorcizar a sustentabilidade do atual ritmo de crescimento, ao impor um desnecessário viés deflacionário à economia brasileira.

uma elevação da Selic, ainda que não interrompa os investimentos já em curso, certamente inibiria novos investimentos. aí, sim, a expansão da demanda poderia comprometer a estabilidade dos preços. [8]

o BC vai repetir o mesmo erro de 2004, quando iniciou um ciclo de alta dos juros, com um aumento de 0,25 ponto, e a economia se desacelerou. [9]

apesar das críticas de empresários e de boa parte do governo à decisão do BC de aumentar a taxa básica de juros, os últimos movimentos de aperto na política monetária se mostraram bastante acertados para a estratégia eleitoral de Lula.

um ano após o BC elevar a Selic, em 2004, a inflação passou a rodar em torno dos 3%, os juros começaram a cair e a economia recuperou o fôlego. mesmo com o governo atolado em denúncias de corrupção, Lula foi reeleito em 2006.

é com base nesse histórico que o Lula apóia o BC nesta nova etapa de alta da Selic. Lula espera que, em 2009, com preços novamente sob controle, os juros recuem, a economia avance e, em 2010, ela ajude a fazer seu sucessor. [10]

Lula faz em seu governo aquilo que as classes dominantes nunca imaginaram que aconteceria: realiza magistralmente o que o governo FHC fez apenas razoavelmente bem. [11]

afinal, tem certas coisas, no que tange a favorecer os que dominam fingindo defender os explorados, que só Lula é capaz de fazer... [12]


[1] Henrique Meirelles, Presidente do BC, 09/04/2008
[2] Antônio Gois e Janaína Lage, sobre pesquisa do IBGE, Folha de São Paulo, 29/03/2008
[3] Leda Maria Paulani, “A fraqueza da social-democracia”, 08/12/1996
[4] FMI, relatório sobre a economia global, 09/04/2008
[5] Andrew Haldane, do BC da Inglaterra, citado por Claudia Safatle, em “BC, o caça-fantasmas”, 11/04/2008
[6] André de M. Modenesi, Miguel Bruno e Salvador Werneck Vianna, “Contra o viés deflacionário do Banco Central do Brasil”, 10/04/2008
[7] André de M. Modenesi, Miguel Bruno e Salvador Werneck Vianna, “Contra o viés deflacionário do Banco Central do Brasil”, 10/04/2008
[8] André de M. Modenesi, Miguel Bruno e Salvador Werneck Vianna, “Contra o viés deflacionário do Banco Central do Brasil”, 10/04/2008
[9] Júlio Sérgio Gomes de Almeida, do Iedi, citado por Guilheme de Barros, 11/04/2008
[10] Vicente Nunes, “Pertinho do aumento”, Correio Braziliense, 10/04/2008
[11] Ricardo Antunes, entrevista ao Correio da Cidadania, 08/04/2008
[12] arkx, “suicídio”, 21/12/2007

06 abril 2008

a lugar nenhum

com sua economia mantida num estado de exceção pela ditadura do Copom, mais uma vez o Brasil se vê ameaçado por uma nova rodada de elevação da taxa básica de juros.

apesar da taxa brasileira ser a mais alta do mundo em valor real, o BC considera que o importante para o país não é o movimento dos juros, mas a inflação dentro da meta.
[1]

setores do governo reconhecem que aumentar a Selic, num momento em que os EUA estão num processo de forte redução dos juros, pode ampliar o fluxo cambial no país e induzir a valorização do real. ou seja, dessa forma se gera instabilidade econômica.
[2]

no entanto, a independência e autonomia do BC reivindicam a si a última palavra: Meirelles está certo!

em 1999, FHC baixou o decreto 3.088, em cujo o artigo 1º consta: “Fica estabelecida, como diretriz para fixação do regime de política monetária, a sistemática de metas de inflação”. desde então, o único objetivo institucional da política monetária é o controle da inflação. não há menção a atividade econômica ou emprego. ao BC compete executar as políticas necessárias para cumprimento das metas fixadas.
[3]

por trata-se de um instrumento de regulação do Sistema Financeiro, e este não poderia ser regulado a não ser por lei complementar, como está previsto no Art. 192 da Constituição Federal, o decreto de FHC é claramente inconstitucional.
[4]

inflação não é controlada por meta. inflação é resultado de um processo complexo de interação entre demanda e oferta. a meta que temos que ter, enquanto economia e enquanto sociedade, é uma meta de redução da taxa de desemprego, a partir do aumento da demanda e da produção, simultaneamente. uma sociedade que tem por principal meta uma inflação baixa, a despeito das taxas de desemprego e da queda da renda do trabalho, está acumulando tensões sociais e políticas que, cedo ou tarde, se tornarão insuportáveis.
[5]

segundo o BC, o Brasil colhe os dividendos da estabilidade do poder de compra da moeda, sendo esta a maior contribuição que a política monetária pode oferecer para assegurar o crescimento econômico sustentado com inclusão social. [6]

ao se analisar os números do PIB o que se vê é uma desigualdade irresolvida, e crescente. em 1995, o total pago na forma de salários como proporção do PIB era superior a 35% e as rendas do capital ficavam um pouco acima de 31%. em 2005 a situação se inverte: os salários comparecem com 31/% e as rendas do capital saltam para quase 36%.
[7]

pela hegemonia dos mercados não pode haver alternativa em relação a inflação brasileira, senão render-se ao dogma do pensamento único: a gênese de nosso processo inflacionário está tanto na demanda excessiva quanto na natureza inelástica da oferta, sendo a insuficiência de poupança interna sua causa primária.
[8]

com isso, a inflação se torna a principal variável a se considerar na elaboração de políticas econômicas no Brasil. e o seu controle ser feito pela via da compressão de demanda (juros) e pela abertura comercial (câmbio) demonstrando a supremacia dos bancos e oligopólios nacionais e estrangeiros.
[9]

a idéia de inflação por excesso de demanda impede que se enxergue tanto o problema da capacidade ociosa, quanto seu resultado: a alta taxa de exploração e sua relação direta com o fenômeno inflacionário. em outras palavras, a inflação como efeito da má distribuição de renda no país.
[10]

ocorre que só pode haver aumento da demanda se houver investimento, caso contrário o que ocorre é puro e simples aumento de preços. o centro de gravidade do problema inflacionário no Brasil (devido ao fato de a alta taxa de exploração do sistema afetar a expansão da demanda e a emissão não suscitar o aumento desta) está no mecanismo de formação de preços do sistema.
[11]

devido a sua altamente concentrada estrutura de distribuição de renda, o Brasil é um país de baixíssima propensão a consumir. para quem não erga o “véu monetário”, entretanto, este fato se mostra deformado e mascarado, de tal forma que uma demanda insuficiente aparece como excessiva. um país sufocado ao peso de sua própria capacidade produtiva ociosa apresenta-se como se tudo lhe faltasse.
[12]

embora seja visto como padecendo de insuficiência crônica e incurável de recursos, o Brasil tem sido um país de oferta necessariamente abundante de capitais. [13]

enquanto mantém a direção econômica do país terceirizada para o presidente do BC, Lula não se constrange em cumprir uma agenda de vereador federal, inaugurando, freneticamente, insignificâncias e promessas. as claques aplaudem. o povo gosta. políticos sôfregos pegam carona. e o Brasil não vai a lugar nenhum. quem viver verá. [14]


[1] Henrique Meirelles, Presidente do BC, 06/04/2008
[2] Bernard Appy , Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, 06/04/2008
[3] J. Carlos de Assis, “Meirelles está certo!”
[4] J. Carlos de Assis, “Meirelles está certo!”
[5] J. Carlos de Assis, “Os deputados "infantis" do PT e a confusão das metas de inflação”
[6] Henrique Meirelles, em nota do BC sobre resultado do PIB de 2007, 12/03/2008

[7] João Sicsú, citado por Cyro Andrade, “Um bolo para ser entendido “Valor, 07/03/2008

[8] Elias Jabbour, sobre os 45 anos do livro “A Inflação Brasileira”, de Ignácio Rangel
[9] Elias Jabbour, sobre os 45 anos do livro “A Inflação Brasileira”, de Ignácio Rangel
[10] Elias Jabbour, sobre os 45 anos do livro “A Inflação Brasileira”, de Ignácio Rangel
[11] Elias Jabbour, sobre os 45 anos do livro “A Inflação Brasileira”, de Ignácio Rangel
[12] Ignácio Rangel, “A inflação brasileira”
[13] Ignácio Rangel, “A inflação brasileira”

[14]
César Benjamin, “Em direção a lugar nenhum”, 05/04/2008

02 abril 2008

a banca

impulsionado pela expansão do crédito e pelos juros ainda elevados, o sistema financeiro do Brasil dobrou de tamanho no governo Lula e o crescimento do lucro líquido consolidado atingiu nada menos que 200,5% sobre 2003, ano da posse de Lula em seu primeiro mandato. [1]

um mês antes de entrar em vigor a regulamentação do Conselho Monetário Nacional, que congela o valor das tarifas bancárias por seis meses, tabela divulgada pela Febraban mostra aumento de até 150% em algumas taxas, para uma inflação de 5,54% no período. [2]

a rentabilidade dos bancos não tem sido afetada pelas oscilações da economia brasileira. a única diferença está na fonte de lucros das instituições financeiras. em períodos de menor crescimento e maior instabilidade econômica, os ganhos são inflados pelas operações com títulos públicos, que ficam mais rentáveis com o aumento da taxa básica de juros. com um maior dinamismo da economia, o lucro vem da cobrança de tarifas, impulsionadas pela expansão das operações de crédito. [3]

depois de tudo o que disse na última ata do Copom, não há como o BC não elevar os juros. [4] em mais um de seus surtos esquizofrênicos, o governo Lula ao mesmo tempo acelera e breca o crescimento. [5]

segundo o BC, que projeta 4,8% de crescimento do PIB em 2008, índice inferior aos 5,4% de 2007, o forte ritmo de expansão da economia é o principal fator a ameaçar o cumprimento das metas de inflação. assim, o movimento é de alta dos juros já na próxima reunião do Copom, [6] restando uma única receita para não se elevar a Selic: o corte de gastos públicos. [7]

para as vozes do mercado, entretanto, com o PAC, as transferências sociais e a alta do salário mínimo, o resultado é a colocação de mais recursos na economia, injeção na veia do consumo, pressionando a inflação. [8]

se o PT era um partido de esquerda, o governo Lula acabou sendo um governo extremamente conservador na política econômica. mais conservador até do que os mercados esperavam. [9]

do ponto de vista da banca, nunca o Brasil esteve tão bem como hoje. a educação, a saúde, tudo melhorou enormemente. infelizmente, porém, a taxa de natalidade ainda cresce de forma absurda. o Brasil precisa diminuir a taxa de natalidade. [10]

apesar dos bancos nunca terem ganho tanto dinheiro quanto no governo Lula, [11] o que se constata é um mercado não saturado de crédito. no setor informal e de baixa renda, há muita necessidade não atendida porque os bancos tradicionais não estão prontos para esse segmento. [12]

o maior tomador de crédito no Brasil é o governo, que paga taxas altíssimas. se o governo quer baixar os juros tem de deixar de chancelar essas taxas. se os bancos tem acesso para captar do público e simplesmente emprestar ao governo com uma margem gigante, não precisa ser nenhum gênio para fazer isso. é fácil. além disto, ao pagar juros altos, o Brasil atrai grande quantidade de fluxo estrangeiro, o que valoriza o câmbio. [13]

seria um erro muito grande o BC subir os juros. tem de baixá-los para que a economia cresça mais. a forma para garantir um crescimento que se prolongue é com o mercado interno. o que há é um problema de oferta, e não de demanda. quando sobe os juros, o BC faz a demanda baixar. é preciso criar mais oferta. [14]

sempre com suas idéias fora de lugar, o pensamento liberal brasileiro não desiste de seu sonho impossível: um estado sem nação, uma nação sem povo e um povo sem cidadania.

como jamais chamou a si a responsabilidade pela construção nacional, a burguesia brasileira não consegue encarar a miséria como desafio, e a vê como fatalidade a ser atenuada evitando-se a reprodução dos miseráveis.


[1] blog Diário Gauche, “Bancos mostram força no governo Lula”, 01/04/2008, http://www.diariogauche.blogspot.com
[2] Correio Braziliense, 01/04/2008
[3] Ney Hayashi da Cruz, “Bancos têm lucro com crise ou expansão”, Folha de São Paulo, 25/02/2008
[4] Luís Otávio de Souza Leal, Economista-Chefe do Banco ABC Brasil, 14/03/2008
[5] arkx, “do seu lado”, 16/03/2008
[6] Ney Hayashi da Cruz, “BC prevê inflação acima da meta e sinaliza alta de juros”, Folha de São Paulo, 28/03/2008
[7] Folha de São Paulo, 26/03/2008
[8] Zeina Latif, Economista-Chefe do Banco Real, Newton Rosa, Economista-Chefe da Sul América Investimentos,Otáviode Souza Leal, Economista-Chefe do Banco ABC Brasil, Folha de São Paulo, 26/03/2008
[9] Olavo Setubal, Folha de São Paulo, 13/08/2006
[10] Olavo Setubal, Folha de São Paulo, 13/08/2006
[11] Lula, 19/02/2008
[12] Ricardo Salinas, empresário-banqueiro mexicano ao inaugurar as duas primeiras lojas do grupo Salinas no Brasil,Folha de São Paulo, 31/03/2008
[13] Ricardo Salinas, Folha de São Paulo, 31/03/2008
[14] Ricardo Salinas, Folha de São Paulo, 31/03/2008

31 março 2008

os idiotas

não obstante serem obsequiosamente subsidiados com a maior taxa de juros reais do mundo, os “companheiros” do mercado alertam que a melhor coisa para o governo fazer no momento é aumentar ainda mais a Selic. [1]

antecipando-se ao Copom, os juros bancários dispararam em janeiro de 2008, com a taxa média para pessoas físicas subindo de 43,9% para 48,8%, e para empresas, de 22,9% para 24,7%. [2]

embora o setor bancário tenha apresentado lucro de R$ 45,4 bi em 2007, numa alta de 35,9% em relação ao resultado de 2006 [3], o BC registrou prejuízo de R$ 47,513 bilhões, valor 2,5 vezes maior do que o rombo registrado em 2006, sendo o resultado negativo decorrente da valorização do real no ano passado. [4]

a rentabilidade média conseguida pelos bancos em 2007 correspondeu a 25,2% do patrimônio líquido do setor. em 2006, essa taxa de retorno havia sido de 22,90%. já as despesas do setor com sua folha de pagamentos cresceram apenas 12,9% em relação a 2006. [5]

segundo o BC, o crescimento do PIB de 5,4% em 2007 é não apenas robusto como consiste na melhor prova de que o Brasil colhe os dividendos da estabilidade do poder de compra da moeda, sendo esta a maior contribuição que a política monetária pode oferecer para assegurar o crescimento econômico sustentado com inclusão social. [6]

também como resultado da política monetária do BC, o Brasil reconquista a liderança de país com a maior taxa real de juros do mundo, hoje em 6,73% anuais. a Turquia, vice-líder registra taxa real de 6,69%. seguem a Austrália, com taxa de 4,89%, e o México, com 4,18%. [7]

já o crescimento médio da economia brasileira de 3,8% nos últimos cinco do governo Lula, coloca o Brasil em 35º lugar em desempenho, em um grupo de 39 países emergentes, à frente apenas da Guatemala, México, El Salvador e Haiti. neste período, o crescimento médio do conjunto foi de 5,6% ao ano. [8]

fechado na questão inflacionária, o BC é produto do contexto de uma economia com foco no curto prazo. o objetivo da política econômica é o bem-estar do povo. a inflação é um condicionante ao bem-estar da população, mas é preciso ter visão mais ampla. se a economia brasileira cresceu 5,4%, os juros estão o dobro disso. esse é o problema da decisão de investimento. [9]

para os eternos defensores dos juros infinitamente altos, pessoas bem-intencionadas podem piorar a vida dos que pretendem ajudar. como num romance de Dostoiévsky, ansiosos por fazer o bem, acabam fazendo o mal e terminam como perfeitos idiotas. [10]

Dostoiévsky, entretanto, descreveu em seus romances como os homens, uma vez com o dinheiro, se pretendem originais, no supremo grau da palavra, supondo que o dinheiro, apesar de abjeto e odioso, também confere, além de riqueza, algum tipo de talento. [11]


[1] Marcos Lisboa, Diretor-Executivo do Unibanco, “No curto prazo, a melhor coisa a fazer é aumentar os juros“, Folha de São Paulo, 30/03/2008
[2] Lu Aiko Otta , Estado de São Paulo, 27/02/2008
[3] Ney Hayashi da Cruz, Folha de São Pauol, 05/03/2008
[4] Correio Braziliense, 29/02/2008
[5] Ney Hayashi da Cruz Folha de São Paulo, 05/03/2008
[6] Henrique Meirelles, no em nota do BC sobre resultado do PIB de 2007, 12/03/2008
[7] Fabricio Vieira, Folha de São Paulo, 05/03/2008 - os juros reais são calculados a partir da taxa básica de juros, descontando dela a inflação projetada para os próximos 12 meses.
[8] Tribuna da Imprensa, 13/03/2008
[9] Marcio Pochmann, Folha de São Paulo, 15/03/2008
[10] Marcos Lisboa, Diretor-Executivo do Unibanco, citando “O idiota”, de Fiódor Dostoiévski
[11] Fiódor Dostoiévski, “O idiota”

29 março 2008

o pensamento binário

após o fracasso em duas eleições sucessivas, PSDB e PFL-DEM decididamente não demonstram a menor vocação para o incômodo papel de oposição a que se viram alijados. com sua política sem povo e cúmplices do governo no apoio ao modelo econômico, só lhes resta como arena de batalha o circo da grande mídia. [1]

apesar de em seu transtorno compulsivo tentar obsessivamente gerar a crise capaz de golpear Lula até a queda derradeira, ainda mais uma vez é o anti-lulismo que reabilita e fortalece o lulismo. [2]

um paradoxo paralisando o país. um impasse que mantém o Brasil imobilizado no meio de uma travessia, girando em círculos numa falsa encruzilhada, prisioneiro de uma esfinge sem enigmas. [3]

acorrentado ao falso dilema PT x PSDB, duas faces distintas mas complementares da mesma moeda da macroeconomia de juros altos e câmbio apreciado, o debate político no Brasil segue numa camisa de força, fazendo do pensamento binário a alternativa única.

quando se chocam, PT e PSDB criam uma grande faísca, tão útil quanto efêmera, pode até provocar um incêndio, mas geralmente só faz brilhar os egos envolvidos. [4]

enquanto o PSDB na prática não consegue passar do DEM na teoria, o PT na prática se revelou o PSDB na teoria. [5]

nada há de bifásico nesta dicotomia, apenas uma leve oscilação na intensidade monofásica contínua, sem ao menos chegar a ser alternada. [6]

na desolação do cenário político, mesmo que nada se ouça, além do silêncio de muito barulho por nada, ainda assim é possível sentir um grito infinito atravessando a paisagem. [7]

como se captar a silenciosa movimentação social que marca o inicio de novos tempos? qual o exato início da mudança? quando não há mais caminho de volta ao passado? e também não há como voltar-se para o futuro? [8]

entre 1930 e 1970 houve um esforço teórico considerável para se compreender o Brasil. foram antropólogos, sociólogos, historiadores, economistas que produziram a melhor teoria sobre o país.

nos últimos 25 anos o Brasil mudou muito. se constituiu um novo país que ainda não foi reinterpretado. aquela teoria do Brasil diz respeito ao país que existia até os anos 1980, não a este de hoje. estamos em vôo cego pois não temos uma teoria contemporânea do Brasil.

imersos em uma crise de destino, a maior da nossa existência, a História está nos encarando nos olhos, indagando: “afinal, o que vocês são? o que querem ser? tem sentido existir Brasil? qual Brasil?” [9]

para romper a corrente do estéril sectarismo binário, utilizando a web para pensar em conjunto o cenário econômico, político e social brasileiro, é preciso abrir lugar para a crítica e a dúvida metódica, sempre questionando em primeiro lugar as próprias certezas, a fim de se ter uma interlocução produtiva. [10]

parte desta nova teoria sobre o Brasil será construída em rede, pela contribuição quase anônima, mas insubstituível, de todos nós.



[1] arkx, “uma esfinge sem enigmas”
[2] arkx, “ai! que cansaço...”
[3] arkx, “uma esfinge sem enigmas”
[4] Luiz, comentário no blog do Luis Nassif
[5] Juliano, comentário no blog do Luis Nassif
[6] Neves, comentário no blog do Luis Nassif
[7] arkx, “entreato”
[8] arkx, “ai! que cansaço...”
[9] César Benjamin, “Uma certa idéia de Brasil”
[10] Clara-Maria, comentário no blog do Luis Nassif

22 março 2008

veja o inimigo

qual o pior inimigo? aquele que se apresenta como tal? ou o que esconde sua face e sorri candidamente enquanto apunhala pelas costas?

em 25/03/2008 o iG rescindiu unilateralmente o contrato de Paulo Henrique Amorim, retirando seu blog do ar sem qualquer explicação aos leitores.

o Conversa Afiada ficou fora do ar por 8 horas e 58 minutos, até Paulo Henrique Amorim reabir o site em novo endereço: http://www.paulohenriqueamorim.com.br/ [1]

o que o iG fez com Paulo Henrique Amorim e com os milhares de internautas que freqüentavam diariamente o Conversa Afiada foi, para dizer o mínimo, um grosseiro desrespeito. em respeito aos leitores, deveria ter comunicado oficialmente que o site de Paulo Henrique Amorim seria tirado do ar. [2]

o abrupto rompimento do contrato que ligava o jornalista ao portal ecoa situações inaceitáveis, de sorte a se lhes entender os motivos em um piscar de olhos. basta averiguar quais foram os alvos das críticas negativas de Paulo Henrique neste tempo de Conversa Afiada. [3]

o iG é controlado pelo Internet Group do Brasil. o Internet Group do Brasil é atualmente controlado pela Brasil Telecom.

o Internet Group do Brasil foi fundado pelos grupos GP Investimentos e Opportunity.

da composição societária da Brasil Telecom fazem parte a Telecom Itália, o Citigroup, fundos de pensão brasileiros e o Opportunity.

a aquisição de controle do iG foi controvertida e recebeu manifestações contrárias de acionistas da Brasil Telecom em razão do alto valor pago na transação, com indícios de ser muito acima da avaliação de mercado, e ao fato do Opportunity encontrar-se entre os vendedores.

o dono do Opportunity é Daniel Dantas.

Paulo Henrique Amorim atacava duramente Daniel Dantas e o processo de fusão da Oi com a Brasil Telecom.

para a “BrOi” sair, o Citi precisa fazer um acordo com Dantas. o que significa retirar da Justiça de Nova York a ação de US$ 350 milhões que move contra Dantas. o Conversa Afiada perguntou ao senhor Sérgio Spinelli, representante legal do Citibank, no Brasil, se ele é a favor desta patranha: “Are you part of this scam ?” [4]

Sergio Spinelli é o chairman of the board da Brasil Telecom. Spinelli também é o representante legal do Citibank no Brasil. o Citibank é um dos principais acionistas da Brasil Telecom. [5]

e a Brasil Telecom é a controladora do iG.

em editorial sobre a “descontinuação do contrato com o jornalista Paulo Henrique Amorim” o iG declara “seguir firme na determinação de ser um portal que aposta na pluralidade de opiniões, no respeito à liberdade de expressão e no protagonismo dos internautas”.

ao mesmo tempo, surge na página principal do iG um anúncio da revista Veja.

dossiê publicado em capítulos na web pelo jornalista Luis Nassif tem demonstrado como Daniel Dantas influencia diretamente o rumo editorial da revista Veja. [6]



[1] Paulo Henrique Amorim, “Esclarecimento I”
[2] Luiz Carlos Azenha, “iG fez com Paulo Henrique Amorim o que nem a Globo fez comigo”
[3] Mino Carta, “O último post”
[4] Paulo Henrique Amorim, “BrOi: DANTAS CHANTAGEIA CITI”, 10/03/2008
[5] Paulo Henrique Amorim, “O CITI ME DEMITIU ?”
[6] Luis Nassif, “O Caso Veja”, www.luis.nassif.googlepages.com/home

16 março 2008

do seu lado

se Dilma assume a maternidade da aceleração do crescimento [1], o Copom continua como sempre: padrasto da maior taxa de juros reais do mundo e aborteiro da expansão do PIB. [2]

depois de tudo o que disse na última ata do Copom, não há como o BC não elevar os juros. a manutenção da Selic provocará um ruído desnecessário na comunicação com os agentes econômicos. [3]

em mais um de seus surtos esquizofrênicos, o governo Lula ao mesmo tempo acelera e breca o crescimento.

na busca da conciliação dos antagonismos insuperáveis, Lula acaba usando sua mão direita para decididamente tomar tudo o que tenta timidamente distribuir com a mão esquerda.

ressurge em 2008 a mesma maldição de 2004, quando Meirelles garantiu a Lula que o aumento dos juros era necessário, pois a inflação caminhava rapidamente para taxas de dois dígitos. segundo o presidente do BC, em pouco tempo, voltaria a cortar a Selic. com a inflação novamente sob controle, a economia retomaria o fôlego e renderia bons dividendos políticos nas eleições presidenciais de 2006. a Selic começou a cair em setembro de 2005, e Lula se reelegeu, a despeito de todas as denúncias de corrupção contra o seu governo. [4]

agora, o argumento do presidente do BC é de que a demanda interna está excessivamente forte. um pequeno aumento nos juros provocará uma leve acomodação no consumo. em 2009, a Selic poderá voltar a cair, reaquecendo a economia em 2010, ano de eleições, ajudando a alavancar a candidatura apoiada por Lula. [5]

entre São Bernardo e a av. Paulista [6], entre a Casa Grande e a Senzala, entre os bancos e os grotões, entre as forças do mercado e as favelas, entre o Copom e o Bolsa Família, entre a Selic e as políticas compensatórias, entre o desenvolvimento com inclusão social e a capitulação voluntária aos mercados, entre os fundamentos sociais e históricos do PT e o programa econômico de FHC [7], Lula nunca teve dúvida de que lado está:


do lado dele mesmo.


[1] Dilma Roussef, 11/03/2008, assumindo a condição que lhe foi conferida por Lula, em discurso na Favela do Alemão, no Rio, em 07/03/2008
[2] ata do Copom, divulgada em 13/03/2008, “a opção de realizar, neste momento [quarta-feira da semana passada], um ajuste na taxa básica de juros"
[3] Luís Otávio de Souza Leal, Economista-Chefe do Banco ABC Brasil, 14/03/2008
[4] “Aumento iminente”, Correio Braziliense, 14/03/2008
[5] “Aumento iminente”, Correio Braziliense, 14/03/2008
[6] Francisco de Oliveira, “Entre São Bernardo e a avenida Paulista?”
[7] Demétrio Magnoli, “O Brasil sem o PT"

13 março 2008

mulheres que amam

mulheres que amam
amam tanto
que de tanto amar
perdidas nos labirintos da paixão
se confundem em seu amor
como uma ânsia
um furor
maníaca obsessão

as mulheres não deveriam amar
não mais
e o amor delas arrancado
como clitóris extirpados
e atirados ao fogo
para que fogo contra fogo
ardam e se consumam
nas chamas da fogueira
os fogos da paixão

mulheres que amam
condenadas eternamente
nas pedras a se arrastarem
exibindo inscritas nas peles cicatrizes
jaculatórias de gozo
tatuadas por prazeres e suplícios
de epifanias obscenas

não, não deveriam
não mais

no isolamento das celas
na clausura dos conventos
pelo jejum, o flagelo, a mutilação
o exorcismo de toda
a maldição do amor e seus tormentos


mulheres amam
mas não sabem o que querem
tampouco sabem
o que delas quer o amor
senão avassalador arrebatamento
de um cio inevitável
sangramento incontrolável
possessão inexplicável
misturando múltiplos orgasmos
transe místico
e deliciosas dores de partos

não mais

ou então...

qual mulher
capaz de arrancar completamente
o amor para fora de seu peito
apenas com o amor vestida

sair às ruas
para ao próprio amor auscultar os pedidos
compreender-lhe as súplicas
e lhe decifrar os desígnios

qual mulher
ousaria enfrentar o gozo
que já não é mais seu
é do amor mesmo que a devora
parindo úteros que geram sonhos
de pura luz iluminando o mundo

qual mulher
a esse amor se entregaria
para que possa
enfim
saber o que é o amar



12 março 2008

parir o novo

para o mal ou para o bem Dilma Roussef se tornou a mãe do PAC. [1]

assim, através da Ministra-Chefe da Casa Civil virão à luz o teleférico do Complexo do Alemão, a elevação da via férrea e construção do parque em Manguinhos e a passarela assinada por Niemeyer na Rocinha.

enquanto providencia o parto das grandes obras que atendem o interesse das construtoras, Dilma se encarrega de justificá-las com as “obras sociais”: saneamento e reurbanização.

no início do primeiro mandato de Lula, Dirceu era reverenciado e temido como genial e implacável operador político.

acabou cassado. sofre processo como “chefe de uma organização criminosa”.

Palocci, por sua vez, se apresentava como pacificador dos mercados, âncora da estabilidade e o mais provável sucessor.

caiu por causa de um simplório caseiro. os mercados continuaram tão pacíficos e tão rentáveis como antes.

membros da equipe econômica não costumam ter problemas de emprego ao deixar o governo. em retribuição aos bons serviços prestados, logo são recompensados com cargos no alto escalão de empresas do mercado financeiro. para receberem o prêmio, contudo, mínima capacitação técnica é requerida. no caso de Palocci, para continuar se dedicando à causa dos banqueiros, só lhe restava a via parlamentar. [2] foi reeleito pelo lobby do sistema financeiro.

num governo em cujo céu há cada vez menos estrelas, agora é a vez de Dilma brilhar. quase solitariamente.

coube a José Dirceu consolidar no PT um modelo de campanha eleitoral financiado pelos grandes empresários e conduzido pelos marketeiros, levando ao afastamento da militância petista das ruas.

a Palocci também não faltou qualidades para articular a capitulação do PT a uma política econômica que faz com que Lula possa admitir, com certa dose de orgulho, que jamais banqueiros e grandes empresários ganharam tanto dinheiro quanto em seu governo, mesmo que os votos tenham sido para seu adversário.

de modo semelhante, Dilma é também muito competente em adotar a bandeira da gestão não-ideológica, desfraldada sem sucesso pelo candidato tucano derrotado nas eleições passadas.

Dilma faria parte de uma lenta, mas sistemática, aproximação dos quadros técnicos das funções-chave do governo, promovendo uma revolução gerencial que se encaminha lentamente para um ponto de equilíbrio, sem mudanças bruscas entre um governo e outro, em prol do equilíbrio do Estado. [3]

num país com desigualdades abissais e ainda no topo do ranking com a mais alta taxa de juros reais do mundo, deve ser algum tipo de sadomasoquismo se referir a "ponto de equilíbrio do Estado".

a grande novidade não é um “gestor não-ideológico”. para isto, há talento de sobra entre os inúmeros executivos das empresas brasileiras.

o que o Brasil precisa é de “gestão ideológica” de qualidade.

por sinal, algo que a Esquerda jamais conseguiu dar conta. e que Direita sempre fez com muita competência, mas nunca a favor dos interesses nacionais.

por que melhorar a gestão pública?

para que o governo gaste melhor. não necessariamente gaste menos, pode até vir a gastar mais com uma melhor gestão.

como o governo pode gastar melhor, se o maior gasto é com os juros da dívida pública?

neste ponto, Dilma tem demonstrado pouca capacidade de gerar alternativas e total inapetência em interferir politicamente.

outro ponto: como melhorar a gestão sem melhorar a gestão de pessoas?

porque gestão é fundamentalmente gestão de pessoas. não existe qualidade na gestão de processos sem qualidade na gestão de pessoas, já que são pessoas concretas que fazem funcionar os processos.

como ter uma boa gestão de pessoas sem destravar o nó provocado pela fisiologia do loteamento político nos órgãos públicos e empresas estatais?

aqui vale frisar que também há, e muito, loteamento político nas empresas privadas.

o mínimo de experiência na administração pública ensina que o corpo técnico e a gerência média é de tão boa qualidade (ou até supera) quanto nas empresas privadas.

ocorre que esta camada média da gestão pública é mantida refém da cúpula, onde estão os apadrinhados dos acordos fisiológicos.

não há como destravar este nó atuando apenas na superestrutura.

Dilma é o derradeiro capítulo da triste novela de se tentar no Brasil desenvolvimento sob a tutela do Copom.

Dilma é hoje o que Dirceu e Palocci foram no passado. e há grande chance de no futuro ela ser como eles são hoje.


não se trata de estratégia para o país, apenas um plano político para percorrer o caminho em direção a 2010.

entretanto, há pesadas e negras surpresas no horizonte, ainda em 2008.

erguer castelos de cartas pode ser tão doce ilusão. o duro tombo na realidade sempre desfaz fantasias.




[1] Dilma Roussef, 11/03/2008, assumindo a condição que lhe foi conferida por Lula, em discurso na Favela do Alemão, no Rio, em 07/03/2008
[2] arkx, “cartas de Palocci”, 05/03/2008
[3] Francisco, comentário no Blog do Nassif, 08/03/2008

29 fevereiro 2008


uma esfinge sem enigmas

ao se considerar as 500 maiores empresas brasileiras, elas nunca ganharam tanto dinheiro como agora. os bancos também nunca ganharam tanto dinheiro.[1]

enquanto ao Bolsa Família cabem meros R$ 8 bilhões, o governo gasta R$ 160 bilhões com os juros da dívida pública interna. em 2007, o lucro dos quatro maiores bancos foi de R$ 20 bilhões contra R$ 21 bilhões de todo o orçamento social de Lula. [2]

apesar de em seu transtorno compulsivo tentar obsessivamente gerar a crise capaz de golpear Lula até a queda derradeira, a grande mídia não deixa de celebrar em manchetes efusivas a política econômica do mesmo governo Lula. [3]

mantendo sua popularidade sequer arranhada, Lula continua dando as cartas e embaralha a política brasileira.

com sua dubiedade e sua arrogância, suas hesitantes meias-medidas e sua vã onipotência, sua capitulação voluntária aos mercados disfarçada sob o álibi de seu assistencialismo compensatório aos miseráveis, Lula faz com que um país inteiro se paralise, girando em círculos numa falsa encruzilhada, prisioneiro de uma esfinge sem enigmas, fugindo de uma resposta simples a tão incômoda pergunta:

como pode um governo dos trabalhadores executar tão bem a política econômica dos patrões?

não que uma defesa incondicional e irracional de Lula o pretenda perfeito e sem defeitos, apenas lhe considera como o pior presidente que o Brasil já teve, com exceção de todos os outros. [4]

a rentabilidade dos bancos não tem sido afetada pelas oscilações da economia brasileira. a única diferença está na fonte de lucros das instituições financeiras. em períodos de menor crescimento e maior instabilidade econômica, os ganhos são inflados pelas operações com títulos públicos, que ficam mais rentáveis com o aumento da taxa básica de juros. com um maior dinamismo da economia, o lucro vem da cobrança de tarifas, impulsionadas pela expansão das operações de crédito. [5]

em 2002, quando as especulações em torno das eleições presidenciais levaram o dólar perto de R$ 4, os principais bancos privados do país tiveram uma rentabilidade sobre patrimônio líquido de 28%. naquela ocasião, a elevada taxa Selic – oscilando em torno de 20% ao ano - favorecia os ganhos com aplicações em títulos públicos. as receitas com operações de tesouraria representavam 34% do faturamento total, enquanto o peso das tarifas era de apenas 11%.

já em 2007, a rentabilidade desse grupo de instituições chegou a 35%, sendo que o peso das tarifas no faturamento subiu para 18%, e os ganhos com tesouraria, ao contrário, caíram para 23% da receita total. [6]

mesmo assim, as taxas de juros dos empréstimos dispararam em janeiro de 2008, sendo que para pessoas físicas o salto foi de 4,9 pontos percentuais. [7]

se é bom que todo mundo ganhe, também é bom lembrar que o povo também precisa ganhar dinheiro. [8]

os ganhos com a prestação de serviços bancários são favorecidos, entre outros fatores, pelo aumento da renda da população, o que estimula o crescimento de setores como o de fundos de investimentos e de seguros. [9]

então, assim se revela o último dos mistérios de um governo dos de baixo, mas governando para os de cima, numa hegemonia às avessas. [10]

devido aos programas sociais, a economia política do governo Lula costuma ser avaliada como a máxima concessão possível de ser arrancada aos mercados, fazendo da taxa de juros, mantida como a segunda mais alta do mundo, e do câmbio apreciado, tornando o Real a moeda que mais se valorizou frente ao dólar, uma espécie de suborno oferecido aos grandes investidores para impedir qualquer chantagem que solape as condições de governabilidade, as quais, por sua vez, possibilitam a continuidade das políticas sociais.

do mesmo modo que o Bolsa Família é o instrumento pelo qual se impede uma explosão dos miseráveis e se mantém a brutal transferência de renda através da taxa de juros, firmando o pacto maldito entre as favelas e o Copom, não haveria expansão de crédito sem recomposição do salário mínimo, caso não se preservasse o preço da cesta básica e fora do risco zero do crédito consignado.

o aumento do consumo das famílias se dá num ritmo superior ao crescimento da massa salarial, indicando como são mecanismos de crédito que sustentam esse incremento. numa clara demonstração de como tem funcionado a expansão daquilo que alguns já denominam de economia do endividamento. [11]

através dos juros da consignação em folha, poupando os credores dos perigos da inadimplência, as camadas populares são conduzidas, em longas prestações, ao paraíso do consumo, gerando a bolha de crédito que possibilita os bancos a cravarem os sucessivos recordes em seus lucros. [12]

assim, embora avaliadas como o grande mérito do governo, as políticas sociais de Lula se encaixam perfeitamente nos fundamentos da “hegemonia às avessas”.

trata-se de um fenômeno novo, em nada parecido com qualquer das práticas de dominação exercidas ao longo da existência do Brasil.

não é o patrimonialismo, pois o que os administradores dos fundos de pensão estatais gerem é capital-dinheiro. não é o patriarcalismo brasileiro de Casa-grande & senzala, porque não é nenhum patriarca quem exerce o mando, nem a economia é “doméstica”. não é populismo, como sugere a crítica da direita, e mesmo de alguns setores da esquerda, porque o populismo foi uma forma autoritária de dominação na transição da economia agrária para a urbano-industrial. [13]

com a eleição de Lula, parecia ter sido derrotada a poderosa discriminação social brasileira, o preconceito de classe absurdamente alto num país com tradição racista. mas, para quê? para governar para os ricos. e os ricos consentem, desde que os fundamentos da exploração não sejam postos em xeque. [14]


ao negar-se a decifrar o enigma do auto-engano em que se imobilizou, para hipotecar apoio incondicional a Lula, a maior parte da Esquerda acaba por se converter em sua própria esfinge, sem se dar conta que devora a si mesma.




[1] Lula, 19/02/2008
[2] Francisco de Oliveira, “Obama, Tocqueville e a ilusão americana”, 28/02/2008
[3] “Brasil já é credor externo, informa BC“, 21/02/2008
[4] “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”, Winston Churchill
[5] Ney Hayashi da Cruz, “Bancos têm lucro com crise ou expansão”
, Folha de São Paulo, 25/02/2008
[6] dados do Inepad (Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração), citados por Ney Hayashi da Cruz, “Bancos têm lucro com crise ou expansão”, Folha de São Paulo, 25/02/2008
[7] Lu Aiko Otta , “Taxas de juros disparam”, Jornal do Commercio, 27/02/2008
[8] Lula, 19/02/2008
[9] Ney Hayashi da Cruz, “Bancos têm lucro com crise ou expansão”, Folha de São Paulo, 25/02/2008
[10] Francisco de Oliveira, entrevista a Gazeta Mercatil, 07/12/2006
[11] Paulo Passarinho, “A economia brasileira se recupera?”
[12] “Lucro do Itaú dobra e é o maior do setor”, Folha de São Paulo, 13/02/2008
[13] Francisco de Oliveira, “Hegemonia às avessas”
[14] Francisco de Oliveira, “Hegemonia às avessas”

24 fevereiro 2008

milagres capitalistas em cuba libre [1]

o jornalista pressiona a tecla ENTER e o e-mail é enviado.

tratava-se de sua coluna semanal para o jornal de maior tiragem no Brasil. em alguns poucos parágrafos, o texto demonstrava como através do capitalismo seria gerado o milagre cubano.

o homem se levanta. acende um cigarro. beberica uma dose de whisky. olha em torno.

por um breve instante, permanece imóvel no centro da ampla sala de seu luxuoso apartamento, no mais rico bairro da maior cidade do país.

mobília. decoração. biblioteca. iluminação indireta. música baixa e suave. conforto e sucesso.

ele caminha até a varanda. estende seu olhar através da noite poluída. tenta vislumbrar a turva linha do horizonte.

a convulsionada paisagem de neon e escuridão parece se contorcer entre gemidos, sussurros, súplicas desconexas.

com perplexidade, o jornalista sente seus pensamentos se embaralharem. sem saber se tomado por epifania ou maldição, pensa estar prestes a desmaiar.

quantos monstruosos milagres não se produziam ali mesmo, naquele exato momento, na atormentada cidade à sua frente?

estupros e mutilações. vício, vaidade, tiroteios, abortos e suicídios. hemorragias, escarro, traições e infâmias. assassinatos, frustrações e tumores.

milagres. milagres capitalistas. por toda a parte. de puro horror e iniqüidade.

com o toque do celular, o jornalista é trazido de volta a seu reconfortante cotidiano de oportunidades e negócios.

encharcado de suor, se atira de costas no sofá, antes de atender o telefone.

enquanto isto, em Cuba, numa das frondosas avenidas de Havana, em um inútil pardieiro, no que antes da Revolução fora um palacete magnífico, dez famílias exercitam sua imaginação.

especulam se a transição cubana será uma saída do fracassado regime de Fidel em direção a algum estágio superior do socialismo. quem sabe, o velho e bom capitalismo...

com a abertura aos investimentos estrangeiros, surgiriam imensas chances de prosperidade em Cuba. e todos sairão ganhando.

a nomenklatura do PC Cubano, corretores imobiliários de Miami, construtoras brasileiras e toda sorte de audazes empreendedores também fazem suposições e traçam seus planos.

chega-se então a um exemplo bastante engenhoso do que o capitalismo pode fazer por Cuba.

para deslanchar o mercado imobiliário em Cuba, será necessário um retorno ao passado para se poder chegar ao futuro.

os milhares de litígios se resolvem indenizando os herdeiros dos antigos proprietários com títulos emitidos pelo governo cubano. estes títulos são comprados, com deságio de até 90%, por corretores de imóveis de Miami.

estes negociam com as famílias cubanas que ocupam os diversos casarões, oferecendo a cada uma delas um apartamento em outros imóveis.

ao mesmo tempo, os corretores lançam agressiva campanha publicitária direcionada a aposentados nos EUA, para trocarem suas propriedades por mais baratos e muito melhores apartamentos de luxo em Havana, a serem erguidos no lugar dos casarões, e ainda embolsarem a diferença entre os preços de compra e venda.

todas estas novas construções ficam a encargo de empreiteiras brasileiros. com a ajuda de farta distribuição de caixinhas, serão beneficiadas pelos programas de incentivo à construção civil e de estímulo a habitações populares, lançados pelo governo cubano, oferecendo um amplo leque de subsídios financeiros e isenções fiscais.

todo mundo ganha.

os herdeiros recebem uma indenização razoável por um casarão já dado como perdido e do qual não tinham como retomar a posse. os “companheiros” da burocracia comunista cubana embolsam polpudas comissões. os moradores do cortiço tornam-se proprietários de apartamentos novos, com excelente perspectiva de valorização num mercado em processo de rápida expansão. os aposentados norte-americanos vão morar no dobro do espaço, ainda sobrando para eles muita grana no bolso. um exército de cubanos consegue emprego nos diversos canteiros de obras espalhados por Havana. os corretores e empreiteiros obtém com o negócio um retorno de 100%. mesmo com a repatriação de parte dos lucros, ainda assim os recursos que entram na economia cubana são, pelo menos, equivalentes ao hipotético valor inicial dos diversos pardieiros inúteis.

despertado o animal spirit do empresariado, a mão invisível do mercado opera seu milagre. e faz com que, pelo poder da consumação dos lucros, o interesse privado se concretize através da realização da necessidade coletiva.

logo ao ocuparem suas novas moradias, os antigos moradores do pardieiro inútil deparam-se com algumas surpresas.

como os prédios foram construídos em um outro bairro, agora a distância de seus locais trabalho é enorme. não há transporte público. tampouco nas cercanias dos prédios existem escolas, postos de saúde, creches.

o governo cubano e as construtoras brasileiras trocam acusações sobre quem seria o responsável pela falta de infra estrutura nos outros bairros onde os prédios populares foram construídos. o tempo passa. não chegam a conclusão alguma. tudo vai ficando como está.

logo nos primeiros meses de uso, os imóveis apresentam graves problemas. desvios e adulteração do material utilizado nas obras prejudicaram a qualidade das construções. rachaduras comprometem as estruturas. alguns dos prédios tem que ser evacuados. muitos dos moradores ficam sem ter para onde ir.

no decorrer daquele ano, a especulação imobiliária avança descontrolada em Havana. os moradores dos conjuntos recém construídos são assediados por vendedores ambiciosos. muitos acabam cedendo. inspirados pelos aposentados norte-americanos, vendem seus apartamentos na esperança de comprarem outra moradia, mesmo que pior mas por um preço menor, e assim ainda ganharem algum dinheiro.

antes reprimida pela mão de ferro do regime cubano, agora a demanda habitacional explode com toda violência. a frágil economia de Cuba, num delicado processo de transição para um sistema de livre mercado, entra em crise: inflação, desemprego, desabastecimento, colapso energético.

então, nas cercanias de Havana, emerge a verdadeira face dos milagres que o capitalismo produzirá em Cuba: nascem os barracos iniciais das primeiras favelas.

a partir daquela noite, entre as 50 milhões de crianças dormindo na rua em todo o mundo, algumas dentre elas serão cubanas. para se abrigarem já não contam com nem mesmo os antigos pardieiros inúteis.

em São Paulo, ainda transtornado, o jornalista demora um pouco para reconhecer ao telefone a voz do amigo, convidando-o para jantar.

no caminho para o restaurante, o carro blindado enguiça. a trava elétrica das portas entra em pane. quatro homens encapuzados e fortemente armados cercam o veículo. o homem tenta arrancar, mas a embreagem não responde.

ele é tirado do volante. jogado no meio da rua. agredido a chutes e coronhadas. arrastado para dentro de um outro carro, que sai em alta velocidade.

dois dias depois seu corpo é encontrado abandonado no meio de um matagal, numa das mais miseráveis periferias da cidade. completamente despido. há sinais de tortura. executado com tiros na nuca e no tórax, teve sua face desfigurada.

já não há mais os milagres que se esperava. já não há mais profetas. e ninguém sabe quanto tempo tudo isso vai durar. [2]



[1] sobre “O capitalismo produzirá o milagre cubano”, Elio Gaspari, Folha de São Paulo, 24/02/2008
[2] Salmos 74:9

22 fevereiro 2008

socialismo ou morte

poucos assuntos são tão mal entendidos, tão manipulados e tão mal interpretados como a Revolução Cubana. [1]

se Fidel é o único mito vivo da História da Humanidade [2], o mérito é dos EUA. [3]

nos tempos heróicos da Sierra Maestra, Fidel e o Movimento 26 de Julho lutavam contra a ditadura de Fulgencio Batista, por uma Cuba democrática e não tinham nenhuma animosidade contra os EUA. [4]

mesmo após a derrota de Batista, Fidel Castro declarou à Associação de Banqueiros, em 06/03/1959, que desejava a colaboração deles. também afirmou, segundo o "News and World Report", não ter "nenhuma intenção de nacionalizar qualquer indústria". [5]

para os EUA, entretanto, Cuba era uma “fruta madura”, separada da árvore nativa, sem escolha além de apenas cair ao chão. força desligada do seu vínculo e incapaz de se auto-sustentar, gravitaria na direção dos EUA, o qual, pela mesma lei da natureza, não teria como segregá-la do seu seio. [6]

por sua localização geográfica, por necessidade e por direito, Cuba deveria pertencer aos EUA. [7]

a língua dos cubanos seria a primeira coisa a se eliminar, pois a língua latina bastarda de sua nação não resistirá por nenhum tempo ao poder competitivo do forte e vigoroso inglês. e o sentimentalismo político e suas tendências anárquicas serão eliminadas depois da língua e, de maneira gradual, a absorção do povo será absoluta, o que seria devido ao inevitável predomínio da mente americana sobre uma raça inferior. [8]

sendo os habitantes de Cuba, em regra, preguiçosos e apáticos, é claro que a anexação imediata de um número considerável de elementos tão perturbadores aos EUA seria uma loucura, e antes de colocá-la, haveria um saneamento da ilha, empregando o meio que a Divina Providência aplicou às cidades de Sodoma e Gomorra. [9]

assim, seria preciso destruir tudo aquilo que os canhões alcançarem a ferro e a fogo. e também aumentar o bloqueio a fim de que a fome e a peste, sua permanente parceira, dizimem a população. [10]

enquanto o comandante-em-chefe Fidel Castro declarava: “Queremos ter boas relações com os Estados Unidos, mas submissão, não” [11], a revista Time, de 06/04/1959, trazia um artigo afirmando: “o neutralismo de Castro é um desafio aos EUA”. [12]

embora o ideal de Fidel para Cuba fosse a democracia burguesa dos EUA, acabou sendo encurralado pelo próprio EUA, em cuja estratégia geopolítica há leis de gravitação política como as há de gravitação física. [13]

os governantes norte-americanos nunca deixaram de confessar, até com uma certa candura, verem Cuba como um país a ser incorporado aos EUA. [14]

na verdade, os EUA deixaram para Fidel uma única opção: “socialismo ou muerte”.


[1] Herbert Mattews, “Nos meus 30 anos no New York Times, jamais vi um grande assunto tão mal entendido, tão mal manipulado e tão mal interpretado como a Revolução Cubana”
[2] Lula, 19/02/2008
[3] Fidel Castro, “Si se me considera un mito, es mérito de los Estados Unidos."
[4] Fidel Castro, entrevista a Herbert Matthews, New York Times, 24/02/1957
[5] Peter Taafe, “Análise da revolução Cubana”
[6] John Quincy Adams, em 1817 como Secretário de Estado, em 1825-1829 cumpriu mandato como o 6º Presidente dos EUA
[7] The New York Sun, 05/1847
[8] The New York Sun, 05/1847
[9] plano de intervenção dos EUA em Cuba, apresentado em 24/12/1897, por Breckenridge,Secretário de Guerra dos EUA
[10] plano de intervenção dos EUA em Cuba, apresentado em 24/12/1897, por Breckenridge,Secretário de Guerra dos EUA
[11] Fidel Castro, entrevista a U. S. News and World Report
[12] Lázaro Barredo Medina, “O conflito mais duradouro da era contemporânea”
[13] John Quincy Adams, em 1817 como Secretário de Estado, em 1825-1829 cumpriu mandato como o 6º Presidente dos EUA
[14] Thomas Jefferson, um dos fundadores dos EUA, 1807, “Confesso com candura que sempre vi Cuba como o país mais interessante que se podia incorporar a nosso sistema de Estado.”