15 abril 2007

entreato

a inabalável popularidade de Lula e de seu governo, confirmada pelas últimas pesquisas de opinião pública, tornou-se o pior dos pesadelos para as oposições conservadoras.


pode acontecer qualquer coisa que não vai dar em nada, porque o país já não se assusta com mais nada. o governo está protegido, blindado. [1]

se hoje Lula parece inexpugnável, uma das origens de sua atual blindagem se deve a diversos erros estratégicos das oposições.

num passado não tão remoto, em dezembro de 2005, Lula descera aos infernos. teve a mais baixa taxa de aprovação a seu governo (28%), com a mais alta reprovação (29%). enquanto a cúpula do PT desmoronava, deputados do partido choravam no plenário e ministros sugeriam a Lula renunciar, PFL e PSDB optaram por fazer o Presidente sangrar até as eleições. [2]


em janeiro de 2006, Serra tinha o dobro das intenções de votos de Alckmin. apesar disto, o tucanato, sempre tão cheio de pavões, começou a exibir papagaios aos montes, galinhas-d’angola, pardais, periquitos, uma vasta algaravia ornitológica. então, com raro senso de ousadia, o PSDB decidiu abrir mão de quem tem o dobro para escolher quem tem a metade. convenha-se: é preciso bastante “coragem” para fazer tal opção. o que mais impressiona é que o PT não precisou mover uma palha para que o PSDB entrasse em transe. ele fez isso absolutamente sozinho. a política brasileira é mesmo um chuchuzinho. [3]

no início do primeiro governo Lula, a Esquerda se dedicou a formular explicações para a contradição do PT dar continuidade ao modelo econômico de FHC. em algum momento, conjeturava-se, Lula colocaria em prática um suposto “Plano B”, coerente com seu histórico na oposição e capaz, enfim, de implementar as promessas de campanha. o tempo se encarregou de provar que se o tal “Plano B” estava tão bem escondido é porque nunca chegou sequer a existir. [4]

mesmo com o fraco desempenho nacional nas eleições de 2006, menos de 7%, Heloísa Helena teve no estado do Rio de Janeiro 17% dos votos, alcançando 20% na capital. numa eleição polarizada, HH e Cristovam dividiram 25% do eleitorado do RJ. sem qualquer prejuízo para Lula, que obteve mais de 49%. infelizmente, a frente de apoio a HH, formada pelo P-SOL, PSTU e PCB, mostrou-se coerente com o insuperável talento da esquerda em sucumbir aos seus próprios conflitos internos. e nem mesmo um programa de governo foram capazes de produzir. [5]

após o fracasso em duas eleições sucessivas, PSDB e PFL-DEM decididamente não demonstram a menor vocação para o incômodo papel de oposição a que se viram alijados. com sua política sem povo e cúmplices do governo no apoio ao modelo econômico, só lhes resta como arena de batalha o circo da grande mídia.

o patriarcado da política brasileira ainda acredita que, para virar o jogo a seu favor, basta xingar Lula de “ladrão”. no fundo, o que não aceita é a quebra do monopólio da corrupção, algo que deteve pelos últimos 500 anos. o eleitorado pobre se identifica com Lula e ao olhar para os oligarcas vê a cara do patrão e do desemprego. o raciocínio é simples: ladrão por ladrão, é melhor que seja um da nossa turma que conseguiu chegar lá. [6]

entretanto, seria um grave erro concluir que a força de Lula vem da fraqueza das oposições, conservadoras ou não. é preciso compreender Lula não pelo que lhe falta e sim pelo que o tornou possível.

nossa história tem sido uma sucessão de modernizações conservadoras e transições tuteladas, sem jamais incluir no "pacto democrático" as classes trabalhadoras, [7] o que nos mantém aprisionados entre dois mundos: um definitivamente morto e outro que luta por vir à luz. [8]

a cada vez que o processo histórico desemboca numa crise, impondo a necessidade de mudanças, se restabelece no Brasil um acordo de cúpula, pactuado pelas elites, e a mudança se reduz a um rearranjo que tudo muda para que nada fique diferente. [9]

em 1980, o PT surge como um partido eminentemente não parlamentar, nascido do movimento social, firmemente apoiado nas bases, com um sólido conceito de democracia interna e voltado para a criação de um socialismo libertário. então, a roda da História se pôs a girar mais decidida do que nunca no Brasil. pela primeira vez neste país, os trabalhadores reivindicavam a condição de protagonistas. [10] começava a se romper nossa exasperante tradição de mudanças lentas, seguras e graduais.

a eleição de Lula em 2002 marca uma escolha inédita: a opção pela mudança e a rejeição ao continuísmo. [11] Lula foi eleito como um símbolo vivo de oposição a um modelo sócio-econômico. suas características pessoais e sua trajetória política fizeram dele o homem certo para receber as expectativas de 53 milhões de Brasileiros. [12]

conduzido nos ombros da plebe ao palácio com a missão de mudar o Brasil, o presidente filho do povo operou o maior estelionato eleitoral da história do país. de tanto fingir o que é, o homem acabou por se tornar aquilo que fingia, mas que de fato era. a mais completa impostura na sincera mentira de representar a verdade. [13]

porém, a primeira eleição de Lula não foi um parêntesis histórico. com a reeleição, a população brasileira reafirma modo inequívoco a sua escolha. a vontade de mudança, reprimida por décadas, séculos, expressou-se mais uma vez pacificamente, democraticamente. [14]

mais do que no carisma ou na identificação com as camadas mais pobres da população, a força de Lula deve ser buscada em poderosos movimentos históricos, para os quais um simples homem não passa de humilde instrumento, expressão de um projeto coletivo. [15]

o Lula Presidente se esmera no extenuar do auge de seu poder em postergações, hesitações, meias-medidas, apaziguamentos, conciliações, recuos e capitulações voluntárias.

como uma metáfora encarnada do processo histórico brasileiro, no qual, muito embora imposta como necessária pelo próprio desenvolvimento da sociedade, a mudança é sempre adiada ao máximo, e, ao se tornar inevitável, é antecipada, para que, no transigir, se possa limitá-la.

para o desespero das oposições conservadoras, a força de Lula advém de que não há mais retrocesso para o Brasil. as massas populares serão o protagonista de qualquer novo projeto nacional que se pretenda legítimo. a inclusão social passa a ser o ponto central da política. [16]

o simples fato de Lula ser eleito fez com que tudo mudasse, mesmo que seu Governo não mudasse nada! a política no Brasil jamais será a mesma. [17] a nação não mais será a mesma após o Governo Lula. apesar dele, tudo mudou. tudo mudará. [18]

após Collor e FHC, Lula marca o fim de um ciclo. a definitiva falência não apenas de um modelo sócio-econômico, como de uma estrutura política que se demonstraram incapazes de desenvolver o Brasil e proporcionar qualidade de vida aos seus habitantes. [19]

eleito por duas vezes em nome da mudança, Lula se tornou o último bastião do continuísmo. desafiado a fazer História, prefere envelhecer calmamente, orgulhoso e impenitente. ao querer ousar, para fazer mover o destino de um povo e de uma nação, apenas aguarda, em espera paciente, a instauração de um consenso abrangente e duradouro. [20] entretanto, a cada vez que os homens se pretendem mais espertos que a História, acabam logrados como tolos.

com o Brasil imobilizado na travessia, sem que possa retornar e interditado seu avanço, a desolação do cenário político provoca indignação e desalento. mesmo que nada se ouça, além do silêncio, ainda assim é possível sentir um grito infinito atravessando a paisagem. [21]

embora possua asas, na maior parte das vezes o Dragão apenas se arrasta pelo fundo lamacento das águas. enquanto ondula seu corpo ao rastejar, fazendo com que a terra afunde sob seu peso, o Dragão supõe que está alçando vôo. volta e meia um vago sentimento lhe aturde. então, como se fosse um sonho, o Dragão entrevê num lapso que acima da lama e da água pairam o ar e o céu. [22]


1 Marco Antonio Villa, 04/04/2007
2 arkx, "por bem , ou por mal", 05/11/2006
3 Reinaldo Azevedo, em 40 textos defendendo a candidatura de Serra à Presidência, 2006
4 arkx, "o lado B", 24/08/20065
5 arkx, "à esquerda", 07/10/2006
6 arkx, "giro no vazio", 28/10/2006
7 Maria da Conceição Tavares, "Política e economia na formação do Brasil contemporâneo"
8 Sérgio Buarque de Holanda, "Raízes do Brasil"
9 Raymundo Faoro, "Existe um pensamento político brasileiro?"
10 arkx, "a sola dos sapatos de FHC e a roda da História", 13/12/2002
11 arkx, "a hora da verdade", 14/12/2002
12 arkx, "tenham uma boa amnésia...", 16/12/2002
13 arkx, "tudo mudará", 05/09/2005
14 Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007
15 Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007
16 Luis Nassif, "Os cabeças de planilhas"
17 arkx, "a mudança de todos nós", 12/01/2003
18 arkx, "tudo mudará", 05/09/2005
19 arkx, "bando selvagem", 30/09/2006
20 Roberto Mangabeira Unger, "Crescer sem dogma", Folha de São Paulo, 13/03/2007
21 Edvard Munch, sobre "O Grito"
22 arkx, "o Tigre e o Dragão", 12/12//2002

11 abril 2007

o grito

nas últimas eleições, Lula enfrentou um poderoso arco de forças, ao qual impôs uma derrota arrasadora. sua reeleição o trouxe a uma situação absolutamente singular. lastreado na própria imagem e popularidade, Lula não se descolou somente do PT, move-se através da estrutura partidária e acima do sistema político com a desenvoltura de um mito.
[1]

Lula converteu-se num mito, e o mito é antipolítico por excelência, acima das classes, dos conflitos.
[2]

muito embora a dinâmica do segundo turno das eleições de 2006 tenha obrigado Lula a carimbar seu novo mandato como "desenvolvimentista"
[3], o perfil do governo surgido da reforma ministerial é, mais uma vez, afinado com os interesses derrotados nas urnas.

sem luz própria, a feição do novo ministério é a de um ajuntamento para o desfrute da máquina estatal, posta a serviço do continuísmo do modelo econômico dominante. um ministério apagado e de perfil baixo, que não manda, não pode e não vale nada, é de grande valia para os negócios que estão dominando a política.
[4]

com a área econômica blindada pelo “sucesso”
[5], a política econômica se reduz a mero processo de acomodamento de pressões. [6]

lançado com a pretensão de acelerar a retomada do desenvolvimento, o PAC prossegue empacado. tudo indica que se tornará o “Fome Zero” do segundo mandato: puro marketing de início de governo.

pela política monetária prevista no PAC, somente em 2010 será alcançada uma taxa de juros de 10% ao ano, o que é incompatível com o objetivo do crescimento. os ativos financeiros permanecem mais atraentes que o investimento produtivo. e não se reduz de forma significativa a despesa do governo Federal com pagamento de juros, inviabilizando os investimentos públicos.
[7]

até mesmo parcelas da Direita mais conservadora parecem já ter desvendado o enigma brasileiro.

por um lado: os ricos gritam "Enxuguem o Estado!", mas querem continuar nadando na piscina das verbas oficiais. prosternam-se ante a autoridade governamental e depois reclamam que ela os oprime com sobrecarga de impostos e de exigências burocráticas.
[8]

e do outro: a maior fonte de recursos do BNDES é o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), um fundo gerido pela classe trabalhadora. ou seja, o FAT é o maior financiador de capital de longo prazo no país. entretanto, os trabalhadores que ascendem à função de gestão desses recursos estão focados exclusivamente na rentabilidade do capital. embora sob gestão dos trabalhadores, os recursos do FAT passam, então, a financiar uma reestruturação econômica que só produz desemprego.
[9]

trabalhadores transformados em operadores de fundos públicos se entrelaçam com as tradicionais e novas oligarquias brasileiras, sempre dependuradas nos subsídios governamentais, nas desonerações tributárias, nas renúncias fiscais, na rentabilidade farta e segura dos títulos públicos da dívida interna.

a identidade dos dois casos reside no controle do acesso aos recursos públicos, no conhecimento do “mapa da mina”.

a desolação do cenário político brasileiro provoca indignação e desalento. mesmo que nada se ouça, além do silêncio, ainda assim é possível sentir um grito infinito atravessando a paisagem.
[10]

conforme pesquisa da CNT/Sensus [11], o governo tem avaliação positiva de 49% dos entrevistados e o desempenho pessoal de Lula atinge 63% de aprovação. ainda que no auge de seu poder, Lula não tem como eternizar a duração desse momento. a festa da reeleição fica para trás. começa a longa e desgastante travessia do segundo mandato.

parte majoritária da Esquerda se manteve paralisada no primeiro governo de Lula, tido então como supostamente em disputa. apesar de ter um mundo a ganhar, coube a Esquerda colocar tudo a perder. mesmo que fosse contra as políticas do Governo Lula, ainda assim se manteve a favor dele. mais do que esquizofrenia política, tal postura é um grave problema de ética. não importa que o “nosso” governo tenha uma prática contrária aos “nossos” interesses, ainda assim é o “nosso” governo e cabe a “nós” defendê-lo a todo custo até o último instante. [12]

para romper o silêncio gritante no qual se imobilizou, a Esquerda não terá opção a não ser criticar constantemente a si própria, interromper continuamente seu curso, voltar ao que parecia resolvido para recomeçá-lo outra vez, escarnecer com impiedosa consciência as deficiências, fraquezas e misérias de seus primeiros esforços, parece derrubar seu adversário apenas para que este possa retirar da terra novas forças e erguer-se novamente, agigantado, diante dela, recuar constantemente ante a magnitude infinita de seus próprios objetivos até que se cria uma situação que toma impossível qualquer retrocesso e na qual as próprias condições gritam:

aqui está o Brasil, salta aqui! [13]





[1]
arkx, "Lula II: o Homem-Presidência", 26/10/2006
[2]
Francisco de Oliveira, entrevista ao O Globo, 04/02/2007
[3]
arkx, "a terceira via", 18/10/2006
[4]
Léo Lince, "Modo lulista de governar", 05/04/2007
[5]
Lula, 04/03/2007
[6]
Luis Nassif, "Um país sem sorte", 05/04/2007
[7]
João Sicsú , "Depois de quatro anos: governo tenta mudar o rumo"
[8] Olavo de Carvalho, citado no blog do Reinaldo Azevedo, 09/04/2007
[9] Francisco de Oliveira, "O ornitorrinco"
[10] Edvard Munch sobre "O Grito"
[11] 11/04/2007
[12] arkx, "o nosso governo", 05/10/2003
[13] Karl Marx, "O 18 Brumário"

08 abril 2007

tragédia e farsa

mesmo após o fim da escravidão e da proclamação da República, o uso da chibata como medida disciplinar continuou sendo aplicado na Marinha brasileira.

como nos tempos do pelourinho, os marinheiros, em esmagadora maioria negros, eram açoitados, por determinação da oficialidade branca, ao som de tambores e diante dos companheiros perfilados.

durante a Revolta da Chibata, deflagrada em 22/11/1910, os marujos negros, liderados por João Cândido, se amotinam pelo fim da chibata, criando um impasse institucional.

os comandantes da Marinha queriam uma rigorosa punição dos sublevados. governo e políticos avaliavam que, naquele momento, os marinheiros estavam militarmente mais fortes, pois controlavam os principais navios da armada, mantendo os canhões apontados para a capital da República.

o governo foi pego de surpresa. grande parte da população da cidade se entrega ao pânico. somente em um dia partem 12 trens especiais para Petrópolis, levando 3.000 pessoas.

o povo comum está feliz. a gente de cor, os escravos de ontem, sorriem com orgulho mostrando a brancura de seus dentes, porque vem nascer para eles uma nova era de liberdades não sonhadas. [1]

em 1850, na província do Rio de Janeiro, o número de escravos (294.000) ultrapassava o número de livres e libertos (264.000). na cidade do Rio, viviam na mesma data, 266.000 habitantes dos quais 110.000 (41%) eram escravos, formando a maior concentração urbana de cativos das Américas e da época moderna. ricos, remediados e pobres; padres, padeiros e militares; fazendeiros e escreventes; muita gente possuía escravos. [2]

Rui Barbosa apóia os marinheiros e condena os “abusos com os quais, na gloriosa época do abolicionismo, levantamos a indignação dos nossos compatriotas”.

a revolta dura cinco dias e acaba vitoriosa. os amotinados são anistiados com a aprovação de um projeto, em cujo artigo 1° constava:

"Será concedida anistia aos insurretos da Armada Nacional, se estes, dentro do prazo que lhes fora marcado, pelo Governo, se submeterem às autoridades constituídas".

porém, logo vem a traição. a anistia fora uma farsa para desarmar os amotinados.

os marinheiros procuram Rui Barbosa, mas sequer são recebidos. civis e militares se unem para restaurar honra e brios da Marinha.

não podiam admitir que João Cândido, o "Almirante Negro", se tornasse a alma da Marinha brasileira. e que sua sombra fosse o ídolo dos marinheiros de amanhã. e tivesse suas façanhas cantadas pela massa popular, que imortaliza mais que os bronzes oficiais. [3]

os líderes do movimento são expulsos. cerca de 100 marinheiros são presos e mandados, nos porões do navio "Satélite", para serem abandonados na Floresta Amazônica. alguns são fuzilados e atirados no mar.

na noite de Natal de 1910, João Cândido é preso e enviado para uma masmorra na Ilha das Cobras, com mais 17 companheiros. são jogados em uma cela recém-lavada com água e cal. na manhã seguinte, sobreviviam apenas dois presos. um deles, João Cândido. o médico da Marinha, no entanto, diagnosticou a causa das mortes como sendo "insolação".

seria impossível explicar os modestos avanços e os contínuos recuos do processo democrático no Brasil sem incluir aí a colaboração ativa da burguesia brasileira. [4]

a cada vez que desafiados pelos trabalhadores, os setores dominantes brasileiros nunca hesitaram em reagir com violência brutal. forte com os fracos e submissa aos poderosos, a burguesia brasileira jamais teve o menor prurido em se manter de joelhos frente ao capital internacional.

fatos e personagens de grande importância na história ocorrem, por assim dizer, duas vezes. a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. [5]

em acordo firmado com os controladores de vôo, para por fim ao movimento grevista [6], o governo Lula se comprometera a rever transferências e afastamentos e assegurava que não seriam praticadas punições em decorrência da greve. também abria um canal permanente de negociação com representantes da categoria, inclusive dos controladores militares, para o aprimoramento do tráfego aéreo brasileiro, tendo como referência a implantação gradual de uma solução civil.

os grandes meios de comunicação se unem na exigência de punição aos grevistas, condenam a posição conciliatória do governo e incitam uma rebelião militar.

um presidente incompetente e leniente [7] cedera à extorsão dos amotinados, desautorizando o comando da Aeronáutica, enquanto deveria ter erradicado a insubordinação e punido os infratores [8], que se valeram até da sublevação e da chantagem para emancipar-se das Forças Armadas. [9]

após oficiais da Aeronáutica, encarregados da chefia do tráfego aéreo, abandonarem seu posto [10], falta tão grave quanto à dos controladores, e a coação sofrida em reunião convocada unilateralmente pelos comandantes militares [11], algo inadmissível numa democracia consolidada, na qual a sociedade civil tem controle sobre os militares, Lula volta atrás e rasga o acordo assinado com os controladores. [12]

as raízes da atual crise aérea são contemporâneas ao início do sucateamento dos serviços públicos brasileiros, remontando aos governos Collor e FHC.

matéria publicada no Jornal da Tarde, em 13/12/2000, com o título "Controle de vôo: profissão perigo", já relatava que o tráfego aéreo estava à beira de um colapso, com a tecnologia cheia de falhas, as normas internacionais de segurança desrespeitadas diariamente e as condições de trabalho prejudicando a saúde dos controladores de vôo, aumentando ainda mais os riscos de acidentes. [13]

em 12/12/2006 relatório do TCU (Tribunal de Contas da União) apontou o contingenciamento de recursos como a principal causa para o "apagão" aéreo. desde 2004, foram cortados R$ 522 milhões do setor. [14]

apesar de todas as suas postergações, hesitações, meias-medidas, apaziguamentos e conciliações, o governo Lula sempre sabe como atender com presteza imediata a voz do dono.

o rendimento da poupança estava incomodando os banqueiros e foi alterado sem delongas. os resseguros privatizados precisavam de regulação para abrigar os interesses das grandes corporações e ela veio com a rapidez de um relâmpago. [15]

decisão tomada no âmbito da CVM e BC, que são órgãos reguladores, sem poder decisório, permite a fundos multimercados investir no exterior, sancionando, num país que tanto necessita de capitais de investimento, a exportação de capitais. [16]

ao fazerem sua própria história, os homens não a fazem como querem, sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. [17]

todo um povo que pensava ter comunicado a si próprio um forte impulso para diante, se encontra de repente trasladado a uma época morta, e para que não possa haver sombra de dúvida quanto ao retrocesso, surgem novamente as velhas datas, o velho calendário, os velhos nomes, os velhos éditos e os velhos esbirros da lei que há muito pareciam desfeitos na poeira dos tempos. [18]



[1] Joaquim Edwards Bello, "Tres Meses en Rio de Janeiro"
[2] Luiz Felipe de Alencastro, "II - O escravismo no Brasil, em Cuba e nos EUA"
[3] Joaquim Edwards Bello, "Tres Meses en Rio de Janeiro"
[4] Octávio Ianni, "A revolução brasileira"
[5] Karl Marx, "O 18 Brumário"
[6] 31/03/2007
[7] Eliane Catanhêde, "Incompetência e leniência", 03/04/2007
[8] Editorial da Folha de São Paulo, 01/04/2007
[9] Editorial da Folha de São Paulo, 03/04/2007
[10] 01/04/2007
[11] 02/04/2007
[12] arkx, "a lição da chibata", 04/04/2007
[13] Fernando Silva, "A crise do tráfego aéreo e o movimento dos controladores"
[14] Juliano Basile, Valor Econômico, 13/12/2006
[15] Léo Lince, "Modo lulista de governar", 05/04/2007
[16] Luis Nassif, "Exportando capitais", 02/04/2007
[17] Karl Marx, "O 18 Brumário"
[18] Karl Marx, "O 18 Brumário"

04 abril 2007

a lição da chibata

os indômitos comandantes militares brasileiros, tão corajosos no ressurgir da chibata nas costas dos controladores de vôo, têm em comum o fato de que nunca estiveram em missão de combate.

é no calor da luta no campo de batalha que enfim se compreende a distinção entre hierarquia e liderança.

em arriscadas operações de assalto ou na defesa encarniçada de posições nas trincheiras, são os líderes que conduzem a tropa à vitória.

um bom líder não abre mão da disciplina e respeita a hierarquia, mas sabe que a força de sua liderança não advém nem da disciplina e muito menos da hierarquia.

o bom líder conquista o respeito de seus comandados por nunca os abandonar a própria sorte. um bom líder está sempre à frente de seus homens. um bom líder não emite ordens irracionais e não submete seus soldados a baixas desnecessárias.

um bom líder é reverenciado pelos subordinados. sua voz de comando eleva o moral da tropa, que se orgulha de morrer sob suas ordens.

um bom líder se mantém na linha de frente, ombro a ombro com os soldados, e vê a cada um deles como um irmão, por quem se mata e se morre.

um bom líder jamais é esquecido pela História, mesmo se a ele caiba por monumento apenas pedras pisadas no cais. [1]

guerra e política se entrelaçam, sendo uma a continuação da outra, ainda que sob formas distintas.

desde a queda do Boeing da Gol, em novembro de 2006, até a greve dos controladores em 30/03/2007, nenhum dos bravos brigadeiros, agora tão categóricos em restaurar a cadeia de comando, tomou qualquer iniciativa para resolver a degradação do sistema de controle aéreo.

preserve-se a qualquer custo a hierarquia. não interessa se os Boeings continuem caindo...

metam a chibata nos controladores. punam. retaliem. transfiram. expulsem. enterrem os mestres-salas dos ares nos subterrâneos das masmorras.

mas o que os controladores querem? quais eram a reivindicações dos marujos na Revolta da Chibata?

como nos tempos do pelourinho, os marinheiros, em esmagadora maioria negros, eram açoitados, por determinação da oficialidade branca, ao som de tambores e diante dos companheiros perfilados.

muito embora pela legislação da Marinha fossem 25 as chibatadas regulamentares, para a preservação da hierarquia militar ainda não eram em quantidade suficiente.

em 22 de novembro de 1910, pela ponta da chibata, rubras cascatas jorraram das costas do marinheiro negro Marcelino Rodrigues Menezes. recebeu 250 chibatadas. desmaiou, mas os açoites continuaram.

decididos a colocar um basta à chibata e não serem mais escravos dos oficiais, os marinheiros se rebelam e tomam os principais navios da frota. os sublevados hasteiam bandeiras vermelhas e um pavilhão: "Ordem e Liberdade".

liderados por um filho de escravos, João Cândido Felisberto, os marinheiros emitem um ultimato:

"O governo tem que acabar com os castigos corporais, melhorar nossa comida e dar anistia a todos os revoltosos. Senão, a gente bombardeia a cidade, dentro de 12 horas." [2]

e o que os controladores querem?

abrir um canal de negociação sobre remuneração [3] e uma permanente negociação com seus representantes, inclusive dos controladores militares, para o aprimoramento do tráfego aéreo brasileiro. [4]

os controladores de vôo estão brigando para trabalhar. lutam por melhores condições de trabalho, cujo maior beneficiado será o usuário dos serviços.

o caos nos aeroportos e a deterioração do controle aéreo são o resultado de mais um serviço público brasileiro sucateado, como a saúde, a educação, a infraestrutura terrestre, portuária, energética...

a falta de investimentos é correspondente ao superávit primário e ao pagamento de juros da dívida interna destinados aos bancos e grandes investidores, na mais brutal concentração de renda e riqueza do planeta.

Lula afirma ter sido "apunhalado pelas costas" e "traído" por um grupo de "irresponsáveis". [5] entretanto, ao assumir o cargo, Lula jogou no lixo tudo o que ele e seu partido haviam dito e escrito durante seus primeiros 23 anos de história. se isso não é traição, rasguem-se os dicionários. [6]

Lula, de fato, parece ter uma definição muito particular do que seja traição.

após oficialidade da Aeronáutica, encarregada da chefia do tráfego aéreo, abandonar seu posto, falta tão grave quanto a dos controladores, e a coação sofrida em reunião convocada unilateralmente pelos comandantes militares, algo inadmissível numa democracia consolidada, na qual a sociedade civil tem controle sobre os militares, Lula volta atrás e rasga o acordo assinado com os controladores.

Lula, o senhor dos consensos, desde que erguidos sob o primado dos poderosos, ex-metalúrgico e líder grevista, prefere compor com quem manda. e a ordem do dia é inequívoca: são sempre os trabalhadores que estão errados.

em sua ânsia de ser aceito pelas elites, Lula se recusa a aceitar a mais básica das lições, que a cada crise de seu governo lhe é cuspida na face.

pouco importa seus ternos exclusivos, sua renovada arcada dental, seus charutos e seus vinhos, seu botox e seu aero-Lula, seus 53 milhões de votos e sua reeleição consagradora.

para as elites, pouca importa Lula ser o Presidente da República, porque sempre será aquilo que nunca deixou de ser: um "baiano", um "paraíba". apedeuta. incompetente. analfabeto. leniente. inapetente. ignorante. vagabundo. um trabalhador brasileiro.

décadas após a Revolta da Chibata, em plena ditadura militar, os compositores João Bosco e Aldir Blanc tiveram problemas com a censura, por causa de música em homenagem João Cândido, o "Almirante Negro", líder dos marinheiros amotinados. apesar das diversas mudanças feitas, o Departamento de Censura não liberava a letra. até que um censor lhes esclareceu melhor: "Vocês estão trocando as palavras como revolta, sangue... E não é aí que a coisa tá pegando... O problema é essa história de negro, negro, negro..."

um bom líder jamais abandona seus homens, porque sabe que, acima de qualquer disciplina e hierarquia, é só por eles que vale a pena lutar e morrer.

glória a todas as lutas inglórias, que através da nossa história não serão esquecidas jamais.




[1] João Bosco e Aldir Blanc, "O mestre sala dos mares"
[2] João Cândido Felisberto
[3] item 3 do acordo firmado por escrito entre governo e controladores de vôo, 31/03/2007
[4] item 2 do acordo firmado por escrito entre governo e controladores de vôo, 31/03/2007
[5] Lula, 03/04/2007
[6] Clóvis Rossi, "Trair e coçar é só começar", 04/04/2007

31 março 2007

a segunda descida aos infernos de Lula da Silva

nunca um Presidente se elegeu com tanta autonomia para montar sua equipe de governo. [1]

houve poucos momentos na história do Brasil em que isto ocorreu. sem pressa e sem cobranças, Lula teve toda a tranqüilidade para fazer a reforma ministerial. [2]

e qual o resultado?

a coalizão arquitetada para o segundo mandato leva o caciquismo ao centro do palco e consagra a fisiologia no exercício do poder. [3]

no auge de seu capital político, Lula II abdicou de formar um ministério técnico, cedendo mais uma vez a uma composição voltada para garantir a governabilidade e aprovação de projetos do Executivo. [4]

Lula afirma ser "preciso uma cirurgia para curar os males do País" [5], entretanto o BC continua intocável, mesmo após o Copom derrubar o PAC, apenas dois dias após seu lançamento, ao reduzir em somente 0,25% a taxa básica de juros, mantendo-a como a mais alta do mundo, em índice real. [6]

no momento, Lula se empenha em viabilizar a parceria entre Brasil e EUA na produção de biocombustível. não mede esforços para retomar nossa primeira vocação de colônia e reinaugurar nas terras férteis brasileiras um novo ciclo da cana-de-açúcar.

para não prejudicar a negociação em curso com o atual companheiro Bush, Lula fez questão de contestar, em artigo publicado no "Washington Post", a tese do ex-companheiro Fidel Castro que a produção de álcool combustível em larga escala aumentaria a fome no mundo: "A cana-de-açúcar não ameaça a produção de comida. " [7]

contradizendo a declaração de Lula, o Brasil do agronegócio tem que importar arroz, feijão, milho, trigo e leite (alimentos básicos dos trabalhadores brasileiros). e também soja em grãos, farelo e óleo de soja, algodão em pluma, matérias-primas industriais de larga possibilidade de produção no próprio país. [8]

a grande lavoura açucareira carrega uma tradição de escravismo, de trabalho compulsório, de exploração de assalariados e de ruína do meio ambiente. foi esta atividade que deu lugar às oligarquias mais atrasadas de nosso país. durante séculos, senhores de engenho e usineiros viveram pendurados em subvenções governamentais. [9]

a expansão do capitalismo no Brasil se dá introduzindo relações modernas no arcaico e reproduzindo relações arcaicas no moderno. [10]

o “moderno” agronegócio dos usineiros do álcool, os novos heróis de Lula [11], mantém os “trabalhadores em um regime de escravidão disfarçada” e realiza colheitas mediante queimadas. [12]

eleito com o voto das massas trabalhadoras, Lula prefere governar com as elites. o próprio Lula já admitiu, envaidecido, que banqueiros e grandes empresários jamais ganharam tanto dinheiro quanto no governo do PT. [13] contudo, os investimentos e afagos de Lula não foram retribuídos com a rentabilidade eleitoral esperada. as elites se uniram solidamente em torno do candidato adversário. [14]

a burguesia brasileira sempre preferiu se acomodar na condição de sócio-menor do capitalismo internacional, voltando as costas à aliança com as classes subordinadas e ao compromisso com o desenvolvimento nacional. [15]

apesar da consagradora reeleição, Lula só completou seu primeiro mandato em virtude de um erro estratégico da oposição conservadora. no auge da crise do "Mensalão", Lula desceu aos infernos. em dezembro de 2005, teve a mais baixa taxa de aprovação a seu governo (28%), com a mais alta reprovação (29%). enquanto a cúpula do PT desmoronava, deputados do partido choravam no plenário e ministros sugeriam a Lula renunciar, PFL e PSDB optaram por fazer o Presidente sangrar até as eleições. [16]

Lula continua piamente ouvindo as ladainhas dos que querem a estabilidade a qualquer preço e profetizam desastres se os mercados não forem saciados em sua voracidade ilimitada. o desastre já aconteceu. o país e a nação se atolam na barbárie. e Lula leva a sério a satisfação arrogante e autista dos que aconselham cautela. [17]

no auge de seu poder, Lula se embriagou com a vã ilusão de ser possível perenizar um momento. desfrutou de chance inédita para sozinho montar seu governo. sem cobranças e sem pressa.

e qual o resultado?

Lula desperdiçou sua nova chance. [18] foi incapaz de um grande não, para poder dizer um grande sim. não tomou a trajetória que exige autotransformação, a via do engrandecimento, pavimentada com as dores da reconstrução de nós mesmos. [19] apenas preparou o caminho para iniciar sua segunda descida aos infernos. talvez lá enfim se reencontre com o trabalhador brasileiro...



1 arkx, “Lula II: o Homem-Presidência”, 26/10/2006
2 Lula, 13/03/2007
3 Fernando de Barros e Silva, “Aquarela do Brasil”, 20/03/2007
4 Lula, 20/03/2007
5 Lula, 20/03/2007
6 arkx, “0,25%”, 25/01/2007
7 Lula, 30/03/2007
8 Ariovaldo Umbelino de Oliveira, "Os mitos sobre o agronegócio no Brasil "
9 Luiz Felipe de Alencastro, "Yes, we have sugarcane !!! "
10 Francisco de Oliveira, “Crítica à razão dualista”
11 Lula, 30/03/2007
12 José Serra, "O etanol e o futuro"
13 Lula, 28/07/2006
14 arkx, “a era Palocci”, 30/10/2006
15 FHC, "Empresariado industrial e desenvolvimento econômico"
16 arkx, “por bem , ou por mal”, 05/11/2006
17 Francisco de Oliveira, “Carta aberta ao Presidente da República”, 30/06/2004
18 arkx, “uma nova chance”, 30/10/2006
19 Roberto Mangabeira Unger, “Qual futuro?”, 27/03/2007

26 março 2007

ciclos

Lula está no auge do poder político, mas o que Lula faz do auge do seu poder? [1]

é bem verdade que há um certo regozijo por parte da elite com a possibilidade de o Brasil inaugurar um novo ciclo da cana-de-açúcar. [2]

proclamados como heróis por Lula, usineiros do álcool não se esquivam em reconhecer a especial atenção que lhes dedica o Presidente: “Ele é muito amigo nosso. Somos muito gratos a ele. Ele nos defende...” [3]

até o mega-herói internacional George Soros não restringe os elogios: "Lula foi muito precavido ao tornar-se um fiador do mercado financeiro". [4]

porém, mesmo com o Brasil se transformando num imenso canavial, nenhum país que concentrou na cana-de-açúcar sua fonte de riqueza foi capaz de prosperar. [5]

Pedro Ramos, pesquisador da Unicamp, afirma que muitos dos cortadores de cana “são trabalhadores em um regime de escravidão disfarçada”. nos anos 80, um trabalhador cortava quatro toneladas e ganhava o equivalente a R$ 9,09 por dia. hoje, corta na média 15 toneladas e ganha cerca de R$ 6,88 por dia. [6]

o esgotamento dos trabalhadores deve-se ao constante aumento das metas de produção, a novas técnicas de cultivo que buscam mais produtividade e a variedades de cana com mais sacarose, embora menos pesada. se antes 100 metros (quadrados) de cana somavam 10 toneladas, hoje são necessários 300 metros.

nunca um Presidente se elegeu com tanta autonomia para ditar os rumos de seu governo. o quebra-cabeça político do segundo mandato foi montado por inteiro, e com exclusividade, na mente de Lula. [7]

mas o que Lula fez no auge do seu poder?

Lula formou uma ampla coalizão política "pensando nos próximos 20 anos” [8] e reunindo quem nas últimas décadas sempre esteve no poder. contundente exemplo, seu novo Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, também serviu ao regime militar e aos governos Collor e FHC. [9]

enquanto desfruta de seu poder para a instauração de um hipotético consenso abrangente e duradouro [10], Lula mantém blindada a política econômica, com juros e câmbio aprofundando o desemprego e a desindustrialização.

de 2002 a 2006 a produção industrial ostentou índices de crescimento ínfimos , o crescimento do emprego patinou, oscilando pouco acima e pouco abaixo de zero e as importações aumentaram 27,4% em 2004, 17,6% em 2005 e 23.4% em 2006. [11]

a exuberância dos sucessivos ciclos da história econômica do Brasil nunca foi suficiente para desenvolver o país, sempre caracterizado por desigualdades profundas, relacionadas com a superexploração da mão-de-obra e a transferência de riquezas para o exterior.

nosso desenvolvimento truncado, além de desigual, é combinado. o “moderno” (a industrialização/urbanização) e o “atrasado” (a estrutura agrária/rural) na economia brasileira não somente se integram, como são condição necessária para o elevado elevado nível
da taxa de acumulação e da exploração da força de trabalho. [12]

as últimas eleições presidenciais também foram marcadas por ciclos. tudo indicava uma tranqüila e insossa reeleição de Lula ainda no primeiro turno. o tiro no pé do dossiegate provoca o adiamento de uma vitória anunciada. [13] quando parecia que a política se tornara definitivamente irrelevante e os Mercados já festejavam pacificados, pouco importando quem vencesse, o segundo turno politiza a campanha e a pauta das eleições se altera. [14]

a própria personalidade do Presidente parece sujeita a ciclos, oscilando conforme a conjuntura política lhe favorece, ou não.

no auge de seu poder, Lula se esforça na vã tentativa de perenizar um momento. não tem pressa. [15] está no auge de seu poder. porém, ciclos se esgotam e outros se aproximam. o prazo de validade da lua-de-mel de Lula com a opinião pública está perto de vencer...



[1] Vinicius Torres Freire, "Lula na inércia da história do Brasil", 25/03/2007
[2] Marcio Pochmann, "O silêncio dos cemitérios"
[3] Rubens Ometto, dono do grupo Cosan e de uma fortuna de US$ 2 bilhões, oitavo brasileiro mais rico e 488º do mundo, "o primeiro bilionário mundial do álcool", segundo a "Forbes", 26/03/2007
[4] George Soros (dono da Adeco e investidor de US$ 900 milhões na construção de usinas de cana-de-açúcar no Mato Grosso do Sul e Minas Gerais), em 23/03/2007
[5] Geraldo Majella, presidente da CNBB, 22/03/2007
[6] Luiz Felipe de Alencastro, sequenciasparisienses.blogspot.com
[7] arkx, “Lula II: o Homem-Presidência”
[8] Lula, 23/03/2007
[9] Clóvis Rossi, “20 anos não é nada”, 24/03/2007
[10] Roberto Mangabeira Unger, “Crescer sem dogma”, Folha de São Paulo, 13/03/2007
[11] Luis Nassif, “A desindustrialização em marcha”, 23/03/2007, luisnassif.blig.ig.com.br
[12] Francisco de Oliveira, “Crítica à razão dualista”

[13] arkx, “o adiamento de um vitória anunciada”, 14/09/2006
[14] arkx, “a terceira via”, 18/10/2006
[15] Lula, 13/03/2007

21 março 2007

heroísmos

"Os usineiros, que até seis anos atrás eram tidos como se fossem os bandidos do agronegócio neste país, estão virando heróis nacionais e mundiais porque todo mundo está de olho no álcool."

Lula

20/03/2007


durante inauguração de uma fábrica da Perdigão, indústria de criação e abate de aves, Lula não se conteve e explicou porque se ufana dos usineiros do álcool. os empresários do setor seriam verdadeiros heróis nacionais, e até mundiais. graças a eles o biocombustível, produzido da cana-de-açúcar, desponta como modelo de alternativa energética global. [1]

naquele mesmo dia, fiscais do Ministério Público do Trabalho encontraram numa fazenda no interior de São Paulo ao menos 90 trabalhadores rurais atuando no plantio da cana em condições consideradas "degradantes". os trabalhadores não dispunham de equipamentos de proteção e primeiros socorros, banheiro ou mesmo água potável. além disto, eram obrigados a pagar R$ 38 pela botina e mais R$ 13 pelo facão, equipamento que deve ser fornecido pelo empregador, conforme a legislação. a diária na fazenda é de R$ 14 por dia de trabalho. segundo o Ministério Público do Trabalho, essa condição precária é comum no interior de São Paulo. [2]

talvez Lula não tenha exagerado, já que o empresariado brasileiro demonstra um inesgotável heroísmo no que tange a erguer um patrimônio privado financiado por recursos públicos.


no caso da Perdigão, de um total de R$ 510 milhões em investimentos, apenas R$ 70 milhões são de recursos próprios. a maior parte é dinheiro público, sendo R$ 170 milhões financiados pelo BNDES e R$ 270 milhões vindos do FCO (Fundo Constitucional do Centro-Oeste) e do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador. [3]

ao longo de nossa história não faltam exemplos do heroísmo da elite brasileira:

fez a independência, mas manteve a escravidão; depois aboliu a escravidão, mas sem reforma agrária, sem escola pública, sem direitos trabalhistas, sem que os ex-escravos sequer tivessem direito à propriedade da terra; proclamou uma República que manteve as oligarquias no comando e o povo sob controle, sujeitado ao clientelismo, transformando o que deveria ser direito em favor; sempre procurou eliminar qualquer contra-elite e, quando alguma teve sucesso, foi capaz de levar ao suicídio o presidente Getúlio Vargas; apoiou, entusiasticamente, o regime autoritário enquanto este lhe serviu, para então passar a ser democrática, por conveniência; sob o rótulo autoritário ou democrata, ou defendendo o slogan do Estado-mínimo, sempre se apropriou dos recursos públicos de forma desbragada e despudorada; aspira a desfrutar de padrão de vida internacional e ter mão-de-obra doméstica ultrabarata; tem como meta continuar a ganhar o máximo possível no Brasil, transferindo para o exterior uma boa parte da riqueza aqui auferida, para manter sempre aberta a possibilidade de se converter em seres internacionais, sem nenhuma responsabilidade pelo que acontece no Brasil. [4]

entre seus heroísmos recentes está a criação do mito da "âncora verde" do agronegócio, que seria responsável pela maior parte das divisas internacionais do Brasil, com uma participação significativa no PIB nacional. tal feito heróico é resultado da manipulação de se inserir no denominado PIB do agronegócio a parte correspondente à indústria e também os supermercados, inflando os dados. [5]

o crescente direcionamento da produção para a exportação ou para a agricultura energética corresponde ao desinteresse na produção de alimentos para abastecer o mercado interno. o volume da produção de arroz, feijão e mandioca, os três principais alimentos da população pobre desse país, não teve nenhum crescimento desde 1992.
[6]


o tradicional atraso da elite brasileira em produzir sempre esteve acoplado com a sua modernidade no consumir. [7]

São Paulo produz quase dois terços do álcool e do açúcar do país. a cana ocupa mais da metade das lavouras do Estado. além do risco da monocultura, em pelo menos 2,5 milhões de hectares (10% do território paulista) as colheitas são realizadas mediante queimadas. é uma aberração ecológica e um atentado à saúde das pessoas. [8]

enquanto Lula exalta seus novos heróis, verdadeiro heroísmo é conseguir sobreviver nas condições de trabalho dos canaviais.

transportado ao campo em ônibus sem freio, retrovisor e autorização para trafegar, o diarista Ezequiel Antônio de Araújo foi obrigado a prosseguir trabalhando sob o sol após ter cortado a mão com o facão. "Disseram que não iriam gastar combustível para me levar ao hospital", afirmou ele. desde 2004, 17 bóias-frias morreram no interior do estado de São Paulo. a suspeita é que as mortes ocorreram por excesso de esforço no corte da cana. [9]

poderosos movimentos históricos podem forjar heróis. homens nascidos na pobreza são capazes de derrotar o risco crônico da morte prematura na infância; vencer a humilhação e a desesperança na idade adulta; cumprir a longa jornada de um retirante nordestino desde a imigração num pau-de-arara até subir a rampa do Planalto. homens comuns são levados a condição de heróis. ainda assim, entretanto, são apenas um humilde instrumento, expressão de um projeto coletivo. [10]

entregar-se abertamente a este destino inexorável é o único heroísmo que importa. é o que converte governantes em estadistas. é o que permite um simples homem mover a história de um povo e de uma nação.



[1] Rubens Valente, Folha de São Paulo, 21/03/2007
[2] Maurício Simionato, Folha de São Paulo, 21/03/2007
[3] Rubens Valente, Folha de São Paulo, 21/03/2007
[4] Carlos Lessa, discurso após ser demitido do BNDES por Lula, 19/11/2004
[5] Ariovaldo Umbelino, entrevista ao Correio da Cidadania
[6] Ariovaldo Umbelino, entrevista ao Correio da Cidadania
[7] Carlos Lessa, "A inferioridade brasileira, uma conveniente convicção da elite"
[8] José Serra, "O etanol e o futuro"
[9] Maurício Simionato, Folha de São Paulo, 21/03/2007
[10] Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007

17 março 2007

velhos odres

o indicado para assumir o Ministério da Agricultura no segundo governo de Lula, deputado Odílio Balbinotti (PMDB-PR), maior produtor de sementes de soja do Brasil, responde a inquérito sigiloso, no Supremo Tribunal Federal, por crime contra a fé pública e falsidade ideológica. além disto, a Procuradoria da Fazenda Nacional iniciou cobrança judicial contra ele e abriu processo para inscrevê-lo na Dívida Ativa da União. também foi multado pela Receita Federal por causa de impostos atrasados e o INSS move contra ele três ações de execução fiscal. [1]

Balbinotti, que chegou à Câmara em 1995, emprega em seu gabinete um cunhado e uma cunhada. em 12 anos de legislatura, apresentou apenas dois projetos, nenhum deles aprovado. entre as eleições de 2002 e 2006, seu patrimônio registrou um salto de 2.151%. é dono da segunda maior fortuna declarada da Câmara – R$ 123,8 milhões. e tem um dos mais altos índices de faltas as sessões de votação. [2]

quando Tomé de Sousa aportou no Brasil em 1549, para assumir o cargo de
governador-geral, trouxe um Código Regimental de Governo e vieram em sua comitiva o Ouvidor-Mor, o Provedor-Mor, membros do clero e tropas armadas. entretanto, não desembarcaram das caravelas os colonos para povoar nossas imensas terras férteis e verdejantes.


das populações indígenas, tornadas estrangeiras em sua própria terra, não era possível pilhar riquezas acumuladas, tampouco extorquir tributos, nem com elas estabelecer um comércio desigual.


o Brasil se formou pelo avesso. teve Coroa antes de ter Povo. teve Estado antes de ser Nação. fomos obra de inversão.
[3]


não fomos constituídos como nação, nem mesmo como sociedade. surgimos como uma empresa territorial voltada para fora e controlada de fora.
[4] a implantação portuguesa na América teve como base a empresa agrícola-comercial. o Brasil é o único país das Américas criado, desde o início, pelo capitalismo comercial sob a forma de empresa agrícola. [5]

organizou-se uma holding multinacional, com administração portuguesa, capitais holandeses e venezianos, mão-de-obra indígena e africana, tecnologia desenvolvida em Chipre e matéria-prima dos Açores e da ilha da Madeira – a cana. em torno do excelente negócio do açúcar, a primeira mercadoria de consumo de massas em escala planetária, se formou o moderno mercado mundial. [6]

a organização da empresa agrária voltada para exportação, buscando o lucro fácil e imediato, resultado do modelo de colonização implantado, fez com que a atividade agrícola se efetuasse de modo quase extrativo, com total desleixo pela terra, buscando exclusivamente a total exploração, sem qualquer planejamento de longo prazo. [7]

em perspectiva histórica, a organização da agricultura brasileira é marcada por um elemento invariante, que se mantém até os dias de hoje: o sistema de privilégios concedidos à empresa agro-mercantil, instrumento de ocupação econômica da América Portuguesa. [8]


constituiu-se no Brasil um Estado caracterizado pela apropriação do público para interesses privados, em que um grupo social impera, rege e governa, em nome próprio, num círculo impermeável de comando. [9]


assim tem sido os nossos eldorados. a procissão dos milagres há de continuar assim através de todo o período colonial, e não a interromperá a Independência, sequer, ou a República. [10]


nascida
no berço esplêndido das velhas classes dominantes, a burguesa brasileira surge das entranhas do complexo cafeeiro, sem nunca escapar da sina de ser caudatária e agregada ao latifúndio. essa origem servil marcará o desenvolvimento capitalista no Brasil. os respectivos interesses, da burguesia e do latifúndio, se entrelaçam e se completam no decorrer de nossa história. [11]

com a modernização do latifúndio, sob a forma do agronegócio, os antigos latifundiários se transformam numa das frações da burguesia, enquanto os demais setores burgueses se tornam sócios do latifúndio, convertido em sesmarias capitalistas, através do uso de modernos meios de produção. a selvagem industrialização do campo expropria moradores, agregados, rendeiros, foreiros, parceiros, arrendantes e meeiros, criando-se um vasto exército industrial de reserva, miserável e favelado. [12]

o modelo agrícola do agronegócio é orientado para gerar dólares através de produtos que atendem ao mercado externo, por isso não produz comida, empregos e justiça social. em virtude da concentração da propriedade da terra, apenas 14% da área cultivável brasileira é utilizada. o agronegócio ocupa 75% da área cultivada, as melhores terras, para produzir soja, algodão, cacau, laranja, café, cana-de-açúcar e eucalipto. [13]

o Brasil do agronegócio tem que importar arroz, feijão, milho, trigo e leite (alimentos básicos dos trabalhadores brasileiros). e também soja em grãos, farelo e óleo de soja, algodão em pluma, matérias-primas industriais de larga possibilidade de produção no próprio país. [14]

a civilização brasileira chama-se Veleidade, sombra coada entre sombras. é uma "monstruosidade social", engendrada por instituições anacrônicas as quais haurem sua longevidade do veneno, que as alimenta e corrompe o vinho novo, incapaz assim de fermentar. as velhas caldeiras, a fim de que se expanda a pressão, hão de romper-se e fragmentar-se em mil peças disformes. a explosão há de ser total e profunda e os velhos odres devem ser abandonados. [15]


por causa das denúncias, Lula pediu 48 horas para decidir sobre a confirmação de Balbinotti como Ministro da Agricultura. Balbinotti, por sua vez, declarou estar "triste, chateado e magoado". as entidades, associações e demais empresários ligados ao agronegócio ainda não se manifestaram.




[1] Leonardo Souza, Folha de São Paulo, 17/03/2007
[2] Ranier Bragon e Fábio Zanini, Folha de São Paulo, 16/03/2007
[3] Alceu Amoroso Lima, "À margem da História do Brasil – Inquérito por escritores da geração nascida com a República"
[4]
Caio Prado Jr, "A formação do Brasil contemporâneo"
[5]
Celso Furtado, "Análise do Modelo Brasileiro"
[6] César Benjamin, "Uma certa idéia de Brasil"
[7] Sérgio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil
[8] Celso Furtado, "Análise do Modelo Brasileiro"
[9] Raymundo Faoro, "Os donos do poder"
[10] Sérgio Buarque de Holanda, "Visão do Paraíso"
[11] Wladimir Pomar, "Um mundo a ganhar"
[12] Wladimir Pomar, "A nova estirpe burguesa"
[13] João Pedro Stedile, "Brasil: A quem interessa o modelo agrícola do agronegócio"
[14] Ariovaldo Umbelino de Oliveira, "Os mitos sobre o agronegócio no Brasil "
[15] Raymundo Faoro, "O estamento burocrático no Brasil: consequências e esperanças"

14 março 2007

o que precisamos

uma criança de apenas um ano e meio foi estuprada, estrangulada e abandonada dentro da pia batismal de uma igreja. na reconstituição do crime, uma agente de trânsito teve uma crise nervosa e, chorando desesperadamente, arrancou a arma de um policial e disparou contra o próprio peito.

quatro homens desceram de um carro na frente de uma escola e atiraram em direção a um grupo de alunos, matando um deles e ferindo outros oito, sendo três em estado grave. nenhuma das vítimas tem registro de passagem pela polícia.

após 25 anos de medíocre crescimento econômico, o tecido social do país se deteriora a ponto de se multiplicarem, de forma descontrolada, os casos de violência gratuita.

os crimes bárbaros têm sua contraparte: o brutal desemprego. são irmãos siameses, nascidos de uma política econômica responsável por interromper a construção do desenvolvimento nacional.

dos empregos criados a partir de 2000, 64% pagam até um salário mínimo; 85% até um salário mínimo e meio; e nenhum emprego foi gerado a partir de três salários mínimos. [1]

somos hoje um país de faxineiras, motoboys, vigilantes, balconistas...

se para classes dominantes brasileiras a explosão da miséria se resolve com a redução da taxa de natalidade dos miseráveis [2], nada mais natural que virar pelo avesso a questão social, tratando-a como caso de polícia, a ser combatida com suplícios e presídios, a fim de “restabelecer no país inteiro o império da lei”. [3]

desvinculadas dos compromissos com o país e a sociedade [4] e dependentes da rentabilidade dos juros da dívida interna para manterem sua posição de classe [5], as elites só concebem como deboche ser “nos campos da pobreza que os canteiros da violência vicejam com especial intensidade, adubados pela falta de dinheiro, de comida, de trabalho regular, de estudos, de esperança”. [6]

nossos ricos desfrutam de um padrão de vida equivalente aos ricos dos países mais ricos, mesmo que para isto nossos pobres estejam relegados ao padrão dos pobres dos países mais pobres. [7]

a cada vez que o processo histórico desemboca numa crise, impondo a necessidade de mudanças, se restabelece no Brasil um acordo de cúpula, pactuado pelas elites, e a mudança se reduz a um rearranjo que tudo muda para que nada fique diferente. [8]

nossa história tem sido uma sucessão de modernizações conservadoras e transições tuteladas, sem jamais incluir no "pacto democrático" as classes trabalhadoras [9], o que nos mantém aprisionados entre dois mundos: um definitivamente morto e outro que luta por vir à luz. [10]

então, qual a enorme vantagem em se postergar ajustes nos juros e no câmbio, paralisados pelo pânico de uma reação desestabilizadora por parte das forças e interesses dos mercados, e aguardar, em espera paciente, a instauração de um consenso abrangente e duradouro? [11]

enganam-se os que julgaram ser a primeira eleição de Lula um parêntesis histórico. a população brasileira reafirmou modo inequívoco que não precisa nem admite tutela de nenhuma espécie para fazer a sua escolha. a vontade de mudança - que esteve reprimida por décadas, séculos - expressou-se mais uma vez pacificamente, democraticamente. [12]

quanto mais se postergar o inevitável, quanto mais se adiar o já exasperante parto daquilo que luta por nascer, então o verbo mudar será conjugado em toda sua ênfase [13] e desencadeará consequências imprevisíveis.

talvez Deus seja mesmo brasileiro. por isto tem sido tão generoso conosco. mais do que merecemos. mesmo se Dele não recebemos nada do que pedimos, ainda assim nos enviou tudo que precisamos. [14]

e o que precisamos é reabrir as portas do futuro que merecemos. [15]



[1] Sonia Rocha
[2] Olavo Setúbal, 13/08/2006
[3] Augusto Nunes, “O avesso do avesso”, Jornal do Brasil, 13/03/2007
[4] Marcio Pochmann, “A secessão dos ricos”.
[5] Marcelo O. Dantas, “O projeto da recessão perpétua”, Folha de São Paulo, 14/03/2007
[6] Augusto Nunes, “O avesso do avesso”, Jornal do Brasil, 13/03/2007
[7] Sérgio Buarque de Holanda
[8] Raymundo Faoro, “Existe um pensamento político brasileiro?”
[9] Maria da Conceição Tavares, “Política e economia na formação do Brasil contemporâneo”
[10] Sérgio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil”
[11] Roberto Mangabeira Unger, “Crescer sem dogma”, Folha de São Paulo, 13/03/2007
[12] Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007
[13] Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007
[14] Lula, Discurso de posse na Câmara, 2007
[15] arkx, “o que merecemos“

05 março 2007

o que merecemos

(a partir de entrevista com
Fabio Giambiagi, publicada em 03/03/2007, na Folha de São Paulo)


talvez o Brasil não cresça porque não mereça.

talvez sejamos mesmo um povo de índole corrompida, sem caráter, padecendo no calor dos trópicos de triste sina, irremediavelmente inscrita pela mestiçagem em nossos genes, sem que jamais sejamos capazes de superar nossa preguiça e atraso ancestrais.

talvez as correntes aprisionando nossa economia sejam mesmo as despesas com a previdência e os gastos sociais, e por causa da Constituição de 1988 nos tornamos cidadãos de mentalidade indolente, espírito acomodado e satisfeitos em depender do Estado.

talvez... talvez...


se assim for, como então conseguimos ser, até 1980, a economia mais dinâmica do mundo, dobrando o PIB cinco vezes seguidas em cinqüenta anos ?

o descontrole do endividamento do Estado veio após o Plano Real (1994), com a dívida interna disparando de 7% do PIB em 1993, para 13% em 1994, até chegar aos 50% em 2006. apesar de sucessivos superávits primários, desde 1994, a taxa de juros reais se manteve a mais alta do mundo.

somos mesmo merecedores de rastejar pela terceira década perdida ? será que não passamos de mero acidente geográfico e nunca seremos uma nação ?

nosso maior problema é aceitar os chavões feitos para nos apequenar, nos induzindo a crer que somos inferiores, para que aceitemos docilmente a subordinação, fazendo com que nunca tenha sido tão grande a distância entre o que nos tornamos e o que deveríamos ser.

já houve época, no inicio do século XX, em que não podíamos crescer por causa do determinismo geográfico e racial. diziam que o desenvolvimento só era possível nos climas frios e por obra de grupos étnicos superiores.

então, ousamos inaugurar, de forma inédita, o que nunca se fizera nessas latitudes. antecipando-nos a uma teoria econômica que naquele tempo ainda não se formulara, aplicamos inovadoras políticas anticíclicas para superar a crise de 1929. a fortuna acumulada com a monocultura cafeeira é reciclada, redirecionando a poupança para financiar o desenvolvimento industrial. deixamos de ser uma colônia agrária para chegarmos a condição de oitava economia do mundo.

foi quando descobrimos o vigor de nossa cultura sincrética, que mulatos, cafuzos e mamelucos geraram nas fissuras entre a casa grande e a senzala; foi quando as massas urbanas entraram em cena para fazer com que o homem cordial começasse a se transformar em cidadão; foi quando já não bastava a parceria coadjuvante na empresa colonial e aspiramos a desenvolver um projeto de nação.

foi quando o país abriu as portas do futuro que merecemos.

durante o período agrário-exportador (até 1930) e a industrialização (1930/80), as classes dominantes mantinham alguma forma de interação local com os trabalhadores, mesmo se na condição de escravos. após 1980, com a hegemonia do capital financeiro globalizado, nossas elites se desvincularam por completo dos compromissos com o país e a população.

no circuito integrado e volátil das operações instantâneas em mercados apátridas, nação, trabalho e trabalhador estão obsoletos. o lucro prescinde da produção e do consumo, graças à rentabilidade diária e sem risco de investimentos garantidos pelo Estado. a sociedade inteira foi aprisionada num processo autofágico, uma espécie de buraco negro, em que tudo e todos estão submetidos à voracidade ilimitada do capital financeiro.

foi quando deixamos de ser um país para nos reduzirmos a mercado emergente... foi quando voltou a ser motivo de orgulho nos envergonharmos de nós mesmos... foi quanto uma cultura ornamental, estéril, vulgar e plagiaria em todos os sentidos passou a nos impor a idéia de que merecemos a humilhação e a miséria...

foi quando abdicamos de nossa grandeza...

nós não merecemos isto...

02 março 2007

honra ao mérito

apesar da projeção do BC ter sido 4%, a economia brasileira cresceu apenas 2,9% em 2006.

mesmo com a inflação (3,14%) muito abaixo meta (4,5%), o Copom vem mantendo os juros (13%) na maior taxa real do mundo.

no primeiro mandato de Lula, a expansão média do PIB foi de 2,6% ao ano, se igualando a mediocridade dos quatro primeiros anos de FHC.

cerca de 40% dos trabalhadores Brasileiros estão sem emprego ou subempregados. 27% da população entre os 15 e 25 anos não trabalha nem estuda.

poderia haver crime mais hediondo ?

enquanto Henrique Meirelles prossegue defendendo "parcimônia" na queda dos juros, Lula não se furta a declarar: "a área econômica está blindada pelo sucesso".

o que eles merecem ?

dias antes da divulgação do PIB de 2006, um assassinato brutal provoca comoção e deixa o país revoltado.

João Hélio Fernandes, 6 anos, foi morto após ser arrastado por 7 quilômetros, preso ao cinto de segurança, do lado de fora do carro que os criminosos roubaram de sua mãe. mesmo sendo avisados por motociclistas, os assaltantes prosseguiram dirigindo em ziguezague, tentando se livrar do garoto. a criança quicava no asfalto e teve sua cabeça arrancada.

a grande mídia dedicou total cobertura ao caso, chegando a ponto de literalmente incitar a vingança, na primeira página e em horário nobre. jamais houve tamanho fervor e determinação nos meios de comunicação para se combater a política econômica.

os grandes empresários deveriam ser os primeiros a se opor, de forma enérgica e constante, a cada dia, numa luta incessante contra as atuais taxas de juros e de câmbio, que asfixiam a produção, derrubam o faturamento e acabam com a competitividade externa. entretanto, se escondem num silêncio servil de cínica cumplicidade.

o que eles merecem ?

01 março 2007

pela paz

as grandes cidades Brasileiras não estão só dominadas pela violência, o subjacente é o tráfico: a droga.


seja em qual de suas formas, a droga já penetrou em todos os poros e camadas do tecido social, invadiu todos os lares, desestabilizou todos os relacionamentos, violou todos os corpos. contaminou a tudo. e ninguém está imune.


somos uma população drogada, refém do vício. em cada esquina, um grupo se reúne em torno de algumas garrafas de cerveja. um gole. uma dose. um tapa. um teco. just in time.


prozac, viagra, calmantes, remédios prá dormir, emagrecer...

narcóticos. narcotráfico. drogas legais. farmácias. muitas farmácias...


assim como todos são contra a criminalidade e pela paz, é também incessante o movimento nas bocas-de-fumo.


dependentes químicos anseiam por comprar saúde, enquanto apenas financiam morbidamente a indústria farmacêutica transnacional.


o desejo, tal como deseja a vida, também deseja a morte.


os homens se rendem tão intensa e voluntariamente à servidão, que não lhes basta a querer apenas para si, precisam também a impor para os outros.


como fazer para se ter paz ?


quantas vinganças implacáveis ? quantos olhos e quantos dentes arrancados com as próprias mãos ? quantas punições exemplares ? as mais demoradas, as mais sofridas. quantos linchamentos ? quantas execuções ? quantos cadáveres ?


o que é preciso para se ter paz ?


quantos policiais ? quantos presídios de segurança máxima ? quantas câmeras de vigilância ? quanta escuta telefônica ? quanta perda de privacidade ?


como se reencontrar com a paz ? em qual refúgio ? atrás de que grades ? de qual muro ? com que blindagem se protegeu a paz ? quais códigos e leis a regulamentam ? quanto custa a paz ? onde se vende ? como se compra ?


e já tivemos, por acaso, algum dia a paz ?


e haverá paz algum dia nesta terra de tanta injustiça ?

há paz sem justiça ?

25 fevereiro 2007

demasiado humano

(sobre “Razão e Sensibilidade”, de Roberto Janine Ribeiro, publicado na Folha de São Paulo, em 18/02/2007)

por vezes, o puro horror cotidiano dos que vivem nas periferias e nas favelas conflagradas atinge o circo da mídia e alimenta a sede de sangue do público.

casos emblemáticos levam os bem pensantes a questionarem duas ou três coisas em suas más consciências.

é o momento em que a hipócrita pretensão de virtude se dissolve em rancor e vingança. paladinos da justiça resgatam os mais infames suplícios medievais, a fim de que a morte seja pouco e a paga demorada e sofrida.

a barbaridade merecedora de incontida indignação e revolta deveria ser o dia a dia do Brasileiro pobre e humilde, entregue a si próprio.


certos economistas e filósofos precisam conversar com as balconistas, os trabalhadores rurais, as faxineiras, os vendedores ambulantes, a multidão que vaga pelas ruas em busca de trabalho, nem mais de emprego. aqueles que padecem a vida como se fosse uma pena, “uma paga de modo demorado e sofrido”.

o que nos falta é colocar os pés no solo de nossa pátria. abandonar os gabinetes. ficar ombro a ombro com nossa gente. sair para as ruas. mas esse pessoal tem asco do cheiro do povo...

não que o “cheiro do povo” seja agradável. nem um pouco... como não é também nada agradável a vida além dos corredores palacianos.

talvez nosso maior problema esteja, enquanto país e população, em não sabermos o que é de fato “violência”. alguns tiros nas ruas, criminalidade descontrolada e insegurança pública viram “guerra”.

somos um povo que não teve sua têmpera forjada pela bestialidade sem propósito da guerra.

não temos, tampouco nossos pais, ou avós, assim como bisavós, qualquer convivência com o fedor nauseante de carne queimada e das poças de sangue. nunca tivemos que empilhar centenas, e milhares, de corpos nas ruas. atear fogo nos cadáveres de nossas mães, de nossos filhos, da mulher que amamos.

apesar de nosso sofrimento na humilhação do cotidiano, da brutal criminalidade, não passamos ainda, enquanto nação, por uma experiência coletiva de violência real. sofremos sozinhos, cada qual em seu canto com sua dor, mas não em conjunto.

não tivemos guerras, tampouco catástrofes naturais, para conferir a real dimensão do que é ser “vítima” de violência. por isto somos tão imaturos e levianos e desconhecemos também o sentido pleno do que seja “solidariedade”.

a imensa parte dos defensores da tortura, da pena de morte e de uma "paga sofrida e demorada" seria capaz de, com as próprias mãos, executar o que propõe ?

costumam ser daqueles que tem nojo de trocar as fraldas dos filhos; não pisam no barro do chão para não “sujarem” os pés; passam mal ao doar sangue; no parto das crianças; sequer imaginar limpar uma latrina provoca ânsias de vômito; jamais mataram uma galinha, um coelho...

como reagiriam ao encarar a vítima nos olhos e, sem misericórdia, desfechar o golpe fatal ? ou lentamente arrancarem unhas, esmagarem testículos, vazarem olhos ?

bem verdade que da primeira vez é tudo muito mais difícil. depois se pega o jeito. e os monstros que habitam nos subterrâneos da alma de cada um de nós estão livres para saciarem sua fúria.

muito conveniente é concluir que “os nazistas foram culpados do que fizeram” e que “optaram pelo mal”. incomoda, porém, admitir que as massas não foram enganadas. as massas desejaram o fascismo.

afinal, o que poderia ser mais humano, demasiadamente humano, do que nossa longa história de bípedes implumes, predadores compulsivos, espalhando gratuitamente o terror pela face da Terra, destruindo a natureza, escravizando os animais e nos dilacerando uns aos outros...