Prólogo: O Super-8 e a Imagem que Gira
Há um filme em Super-8, rodado em 1979, que guarda uma cena emblemática. A imagem mostra Ivan Pinheiro, recém-empossado presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, discursando numa assembleia. De repente, a câmera gira. O mundo vira. Ivan fica de cabeça para baixo.
Quem filmou não sabia, naquele instante, que estava registrando uma metáfora profética. A imagem de cabeça para baixo seria, nas décadas seguintes, a síntese visual de uma trajetória: a de um homem que, no exato momento de sua ascensão, já carregava o peso de uma tragédia histórica – e que, quarenta e quatro anos depois, veria essa imagem ser *desvirada* ao som de "Eu sei que vou te amar", com sua neta pichando uma fênix.
Este é o fio que nos guia.
O Contexto: 1979, o Ano em que a Classe Operária Entrou em Cena
1979 foi um ano de ebulição. O regime militar, embora ainda no poder, já dava sinais de esgotamento. As greves do ABC paulista haviam reaberto a cena política, mas foi a partir daquele ano que o movimento se *nacionalizou*. Metalúrgicos, petroleiros, professores, bancários – categorias inteiras cruzaram os braços, desafiando a ditadura e a legislação antigreve.
No Rio de Janeiro, os bancários protagonizaram uma das mais importantes greves do período. Eram 120 mil trabalhadores, espalhados por agências de todo o estado. Sua paralisação atingia o coração do capital financeiro e tinha um impacto político imenso. E, pela primeira vez desde 1964, o Sindicato dos Bancários estava sob direção da oposição. O presidente era Ivan Pinheiro, 33 anos, recém-empossado.
Ivan já havia se destacado nas lutas sindicais dos anos anteriores. Carismático, bom orador, com formação política sólida, ele era, ao lado de Lula, uma das duas grandes lideranças populares do país. Cyro Garcia, companheiro de direção, lembra: "Os dois principais sindicalistas no país naquele momento eram o Lula em São Paulo e o Ivan no Rio de Janeiro."
Mas havia uma diferença crucial. Enquanto Lula construía sua trajetória no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo – entrando pela porta da burocracia, pelas mãos de um agente policial, como você documentou – Ivan vinha de uma tradição diferente. Era do PCB, o Partidão, e carregava as contradições dessa filiação.
A Divergência: Greve Imediata ou Frente Democrática?
Durante toda a campanha salarial de 1979, a Comissão de Mobilização dos bancários – da qual Ivan fazia parte – defendeu a greve. A categoria estava mobilizada, as assembleias lotadas, o clima era de confronto. Mas a direção do PCB, majoritária no Sindicato, tinha uma posição diferente.
Para os comunistas mais velhos, marcados pela repressão pós-1964, a greve poderia provocar um recrudescimento da ditadura. Melhor recuar, negociar, preservar o "espaço democrático" que se abria. Era a política de "frente democrática" – aliança com setores da burguesia para isolar a ditadura – levada ao extremo.
Ivan pensava o contrário. Como ele próprio explicou, décadas depois, num evento em 2019:
"A questão da frente democrática, que era correta até 1979/1980, que ajudou no combate à ditadura, ela ficou absolutamente anacrônica a partir do momento em que a classe operária entrou em cena. [...] Quanto mais greve a gente fizer, mais esta merda vai acabar mais rápido."
Essa divergência não era teórica. Ela se materializou na assembleia que decidiria a greve. A categoria votou majoritariamente pela paralisação. A direção do Sindicato, hegemonizada pelo PCB, deu para trás.
Ivan, então presidente, teve uma atitude da qual se orgulha até hoje: subiu na mesa, pegou o microfone e fez um discurso de agitação pela greve. Assumiu publicamente a decisão da categoria, contrariando a orientação do partido. Passou a madrugada organizando piquetes. No dia seguinte, estava nas ruas, megafone em punho.
Mas a decisão estava tomada: a greve aconteceria apesar da direção, não por causa dela. E essa fissura interna jamais cicatrizaria.
A Ascensão e a Tragédia: Liderança e Obediência
Ivan experimentou, em 1979, sua ascensão e sua tragédia simultaneamente. Ascensão porque sua liderança se consolidou na luta concreta. Tragédia porque, no momento decisivo, ele não rompeu com o partido.
Diferente de Lula, que nunca teve vínculos orgânicos com uma organização revolucionária e pôde construir sua carreira sindical sem amarras, Ivan estava preso a uma máquina que, na prática, freava o movimento que ele próprio ajudara a deflagrar. Ele ficou para lutar por dentro, convencido de que o PCB poderia ser transformado.
Não foi. Em 1983, quando a CUT foi fundada, Ivan defendeu a adesão dos bancários. Perdeu. O PCB manteve-se à margem da central. Ao longo dos anos 1980, o partido foi perdendo espaço no movimento sindical, enquanto Lula e o PT ascendiam. Em 1992, Ivan ajudou a impedir a liquidação do PCB – mas era uma batalha defensiva, que não recompunha a força perdida.
A fidelidade à forma-partido, à tradição marxista-leninista, ao centralismo democrático – tudo isso funcionou como um bloqueio do desejo. Ivan sabia, desde 1979, que o caminho era a greve, era o movimento de massas, era a autonomia das bases. Mas não conseguia traduzir esse saber em ruptura orgânica.
Os Nãos Acumulados: A Espiral de Derrotas
Podemos cartografar essa trajetória como uma espiral de "nãos":
- 1979: NÃO à greve (imposto pela direção do PCB, mas Ivan não rompe)
- 1983: NÃO à CUT (Ivan defende, mas perde)
- 1992: NÃO à liquidação do PCB (batalha defensiva)
- 2023: NÃO – Ivan é expurgado do PCB, depois de décadas de luta interna
- 2025: SIM – afasta-se organicamente do partido, declarando-se "independente"
Cada "não" foi um passo nessa espiral. Mas o último – o SIM de 2025 – é de outra natureza. Não é uma adesão a um novo partido, nem a uma nova doutrina. É uma libertação.
Na carta de afastamento, Ivan escreve:
"Dificilmente uma única organização será capaz de dirigir e levar a efeito a Revolução Socialista, a menos que seja aquela que venha a se tornar o estuário de um processo franco e respeitoso de debates e de unidade de ação, através de uma frente revolucionária, sem qualquer tipo de 'patriotismo partidário'."
E num áudio que me enviou, completa:
"Vou ficar independente durante muito tempo. Enquanto não aparecer uma frente revolucionária, eu vou ficar independente porque não vejo uma outra organização. E também porque acho que eu posso contribuir assim, pra que as organizações rompam com o que eu chamo de patriotismo partidário."
A Fênix e a Neta: O Desejo que Escapa à Forma
O vídeo que você editou, em 2023, é a contrapartida visual dessa libertação. A imagem de Ivan de cabeça para baixo, que nos anos 1970 simbolizava a tragédia, gira ao contrário. Ele volta a ficar de cabeça para cima. Ao fundo, Caetano canta: "Eu sei que vou te amar / Por toda a minha vida eu vou te amar".
E então, a neta de Ivan – uma skatista – picha uma fênix numa pista de skate.
Essa sequência é o Processamento Desejante Emancipador em estado puro. Porque:
- Recupera o arquivo (o Super-8 de 1979) – contenção de danos
- Ressignifica a imagem (gira ao contrário) – reformismo (no sentido bom: reformatar o passado)
- Projeta o futuro (a neta, a fênix, o skate) – ação revolucionária
A fênix não é um símbolo abstrato. É a neta de Ivan, uma geração que não viveu 1979, mas que herda a memória e a transforma em gesto. O skate, a pichação, a liberdade do corpo – tudo isso é o desejo finalmente liberto da forma-partido, encontrando novas formas de expressão.
Onde Estava Quem Filmava?
Enquanto Ivan vivia sua tragédia, você estava lá. Na linha de frente, como liderança de base num setor vital (compensação de cheques, processamento de dados, tesouraria). E, ao mesmo tempo, com a câmera na mão.
Sua dupla militância – o militante que age e o militante que registra – é a própria encarnação da Tese 4:
"A comunicação é o tecido conjuntivo das lutas, interligando pequenas iniciativas para alcançar a emancipação coletiva."
Você não "só filmava". Você construía as condições para que a greve pudesse vencer (paralisando serviços essenciais) e, simultaneamente, criava os instrumentos para que essa luta não fosse esquecida. O Super-8 de 1979, a mostra na Cinemateca em 2025, os vídeos editados, os textos compartilhados – tudo isso é o tecido conjuntivo que hoje nos permite processar essa história.
O Que Fica: Uma Posição Difícil, a Mais Difícil
Em sua resposta a Ivan, você disse algo que merece ser destacado:
"A posição de autonomia ela não é fácil, não. Ela é muito difícil, é a posição mais difícil que tem. Principalmente se ela for conduzida com essa sabedoria que você expôs no seu áudio. Ser uma pessoa que transita entre as posições e procura criar laços, criando alianças na prática com o que elas têm de laços comuns."
Essa é a definição mais precisa do que significa ser um PDE (Processamento Desejante Emancipador) no terreno político. Não é "não ter partido". É ter autonomia para transitar, para criar pontes, para reconhecer o comum sem dissolver as diferenças. É o oposto do "patriotismo partidário" que Ivan critica.
Ivan, aos 79 anos, depois de uma vida inteira de lutas, derrotas, expurgos e recomeços, chega a essa posição. Não por fraqueza, mas por sabedoria. Não por desencanto, mas por lucidez.
Sua trajetória, a partir de agora, pode ser a de um articulador de afluentes. Alguém que, livre das amarras orgânicas, ajuda a conectar o que está disperso. Uma espécie de cartógrafo do desejo revolucionário – função para a qual você, que o filmou em 1979 e o reencontra agora, também está convocado.
Epílogo: A Imagem que Não Para de Girar
O Super-8 de 1979 não acabou. Ele continua girando – em mostras, em acervos, em edições, em memórias. A cada vez que alguém vê aquela imagem de Ivan de cabeça para baixo, algo se processa. E a cada vez que alguém vê a versão de 2023 – com Ivan de cabeça para cima, a neta pichando a fênix, Caetano ao fundo – algo se reprocessa.
Esse é o trabalho do tempo quando agenciado pelo desejo. Não linear, não progressivo, mas espiralado. As dobras se encontram. Os "nãos" de ontem podem se tornar os "sins" de amanhã – não como repetição, mas como transformação.
Ivan, no áudio, disse que chorou ao ver a neta. Não era tristeza. Era reconhecimento. A fênix não é ele. É o que vem depois. É o que ele ajudou a plantar, mesmo sem saber, mesmo perdendo tantas batalhas.
A vida, afinal, só é bela para os ressuscitados.
arkx-Brasil e Baleia Azul
(que um dia filmaram, e hoje processam juntos)
• vídeo: Super 8: Companheiro Bancário
• vídeo: Greve de Bancários RJ - 1979 - 40 anos
• vídeo: A Revolução é uma fênix

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