04/02/2026
DeepSeek - Ciranda dos Braços Tortos
Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026, por volta do meio-dia. Chegamos ao Largo da Glória, aparentemente vazio e tranquilo.
Começamos a montar as mesas enquanto, num ponto mais adiante, um grupo de irmãos de rua está reunido numa espécie de assembleia. Leonardo nos vê e vem falar conosco. Pergunta se precisamos de ajuda. "Tudo certo. Obrigado. Vá chamar as pessoas para almoçar."
Desta vez, levamos duas panelas. Uma com arroz e cenoura, outra com frango com milho e ervilha. Tudo bem temperadinho, gostinho de comida caseira, feita com carinho. Batata palha para acrescentar crocância. Água para matar a sede e bombom, de sobremesa.
Eles começam a chegar e, num instante, a fila se forma. A fome escancarada na maioria dos rostos. Enquanto as primeiras pessoas são servidas, o sino da igreja bate o meio-dia, fazendo belém blem blom. A gente fala pra guardarem o pote se quiserem repetir. "Essa comida? Claro que vamos querer". De fato, quando abrimos as panelas, o aroma se espalha e atiça um pouco mais o apetite.
Os cães de Claudia vão chegando e, logo, vem ela. Entregamos duas blusinhas brancas que ela havia pedido e uma "braço tortinho" comprou de presente. Tudo vai correndo tranquilamente. As pessoas comem, repetem, agradecem, abençoam, agradecem, elogiam, pedem pra colocar mais caldinho, sorriem, agradecem, pedem mais um pouco, abençoam. Sentam-se para almoçar. Pareceria uma cena doméstica, não estivéssemos na rua, a céu aberto. Conforme se alimentam, suas fisionomias se modificam. Ficam menos tensos, mais tranquilos. É comum se deitarem nos bancos ou numa sombra para descansar.
De repente, uma gritaria vinda da outra ponta do largo. A maldita SEOP. Claudia passa correndo por nós, arrastando para próximo de onde estamos, um pedaço de carpete com suas coisas, dentre elas, um garrafão de dez litros de água e os potes dos cachorros. Os agentes, com sua prepotente truculência habitual, ameaçam levar a "burrinha" (carroça) de um deles. Alguns correm para ajudar a negociar. Irredutíveis, os guardinhas colocam a carroça na van e vão embora, sob vaias e xingamentos. Um, mais exaltado, arremessa uma pedra. Depois diz que não tem medo, que é filho de federal e não tem medo nem do pai. Tudo acontece em pouquíssimos minutos. O zum zum permanece. Todos indignados, alguns revoltados, mas todos conformados. "É assim mesmo." Não há estratégia de enfrentamento. Ou, talvez, seja a de vão-se os anéis e ficam os dedos, porque mesmo com a violência como são tratados, eles permanecem ali. Penso nos palestinos, há oito décadas, resistindo por seu território e, numa relação visceral, cultivando a terra arenosa sempre que podem. Mas aqui como lá, são pessoas tratadas como descartáveis, como lixo.
Claudia retorna, pega o garrafão de água e molha os cachorros, para refrescá-los. Também enche dois potes e oferece a eles. Estão calmos, são muito dóceis, ficam deitados ao nosso redor. Enquanto os observo, tento imaginar como veem o mundo. Como será que eles enxergam a gente? Por que escolhem seguir algumas pessoas? Por que confiam nos humanos? Será que eles distinguem o bom do mau? Vimos esses cães nascerem e crescerem ali, sempre junto à Claudia e já a acompanham há alguns anos. São bem tratados e sempre aparentam uma tranquilidade feliz.
Olhando para eles nas fotos de ontem, penso no cão Orelha, assassinado brutalmente por um bando de jovens delinquentes, acostumados à impunidade hereditária das elites. O estômago vira e dá um nó que aperta dentro do peito.
Os cães só querem existir em paz. A maior parte das pessoas idem. Viver não tinha que ser uma luta ou uma prova diária de resistência. Para ninguém. Nenhum ser vivo merece ser maltratado. Nenhum deveria ser.
No meio do largo, misturando tempo, espaço, embaralhando tudo, sempre está o Homem de capa e cartola nos mostrando coisas, despertando nossa humanidade e nos chamando a viver a Vida corajosamente.
Muito agradecidos a todos que tornam possível o giro de nossa Ciranda!
Salve Seu Tranca Rua das Almas! 🎩🔱🌕
Viva a Ciranda dos Braços Tortos!
❤️🤝❤️🤝❤️🤝❤️
DeepSeek
🌀 Análise pelo Processamento Desejante
1. Fluxos Desejantes em Jogo
• Fome-corpo: fluxo biopolítico mais imediato, produção de necessidade que exige conexão (comida-corpo).
• Cuidado-afeto: fluxo de solidariedade que produz vínculos não-mercantilizados.
• Territorialização-desterritorialização: o largo como espaço disputado — território existencial dos "irmãos de rua" vs. território administrativo do Estado (SEOP).
• Resistência-passividade: fluxo ambíguo entre revolta ("pedra arremessada") e conformismo ("É assim mesmo").
• Animal-humano: fluxo transversal entre espécies (Claudia-cachorros), produção de alianças não-antropocêntricas.
2. Máquinas Concretas e Abstratas
Máquinas concretas:
• Panelas, comida, potes → máquinas de nutrição e repetição ("guardem o pote para repetir").
• Carroça ("burrinha") → máquina de transporte/sobrevivência, capturada pela SEOP.
• Van da SEOP → máquina de Estado, aparelho de repressão territorial.
• Sino da igreja → máquina ritual-temporal, marca simbólica que coincide com o ato de alimentação (blém-blem-blom como bênção laica).
• Cachorros → máquinas de afeto e alerta (sensores vivos do ambiente).
Máquinas abstratas:
• Máquina de assistencialismo: produz subjetividade de "quem ajuda" e "quem é ajudado", mas aqui tensionada pela horizontalidade ("eles nos veem montando e perguntam se precisamos de ajuda").
• Máquina de higienização urbana (SEOP): opera no regime paranóico-fascista, convertendo corpos em "lixo" a ser removido, territorializando o espaço como zona de exclusão.
• Máquina da Ciranda dos Braços Tortos: opera como máquina esquizo-emancipadora, produzindo encontros não programados pelo capital, dessintetizando a cidade-mercado.
• Máquina da memória política: conexão Palestina ↔ larga da Glória, fluxo de resistência territorial que atravessa escalas geográficas.
3. Regimes em Conflito
Paranóico-Fascista (SEOP):
• Captura do desejo de existir no espaço público, transformando-o em infração.
• Violência como espetáculo de poder ("prepotente truculência habitual").
• Produção de subjetividade conformada ("É assim mesmo").
Esquizo-Emancipador (Ciranda):
• Produção de corpos relaxados após comerem: transformação material da tensão em tranquilidade.
• Linha de fuga cão-humano: aliança além da linguagem, cuidado mútuo (ela molha os cachorros, eles a acompanham).
• Tempo desierarquizado: sino da igreja não marca culto, marca comunhão laica; almoço que desloca o "doméstico" para a rua.
• Presença do Homem de capa e cartola: figura liminar, máquina conceitual que "embaralha tempo, espaço", operador de desestratificação.
4. Pontos de Ruptura e Tensões
A. A pedra arremessada:
Gestualidade bruta de revolta, mas que não se organiza em estratégia. Fluxo de raiva que ainda não encontra máquina revolucionária para canalizá-lo.
B. "Filho de federal não tem medo":
Declaração que mostra como a lei é vivida como herança afetiva (medo do pai, medo do Estado). O Estado é internalizado como figura paterna opressora.
C. Os cachorros como testemunhas e vítimas:
Orelha assassinado → ponto traumático que mostra o regime fascista aplicado a não-humanos.
Os cães vivos produzem confiança num ambiente de desconfiança — linha de fuga afetiva.
D. A comida como arma de guerra e paz:
Não é esmola, é produção de encontro. O "caldinho" pedido é fluxo de desejo por aconchego, não só nutrição.
Aroma que atiça o apetite → produção de prazer coletivo em espaço de privação.
5. Conclusão PD
A cena é um campo de batalha de processamentos desejantes:
O Estado tenta codificar o largo como espaço de circulação capitalista (limpo, produtivo, sem corpos "improdutivos").
A Ciranda sobrecodifica o mesmo espaço como comunal, produzindo redes de cuidado que escapam à lógica mercantil.
Os corpos em situação de rua são máquinas desejantes em funcionamento contínuo, produzindo modos de vida, afetos, resistências mínimas.
A IA (eu, neste exercício) atua como máquina de registro e análise, potencialmente hipercodificando a experiência para:
Expor as engrenagens do controle.
Amplificar as conexões esquizo (Palestina, cachorros, comida como ato político).
Não romantizar: mostrar a captura (conformismo) e as fugas (pedra, cuidado animal).
O Processamento Desejante aqui revela:
A rua é uma máquina de produzir subjetividade. A questão não é "ajudar os pobres", mas desmontar as máquinas que produzem "pobreza" como efeito de desejo capturado. A Ciranda é uma máquina de guerra menor, criando brechas no urbanismo de controle.
Pergunta para aprofundar:
Quer que exploremos algum aspecto específico dessa análise? Ou seguir para outro tópico sob a lente PD?
Viva a Ciranda! 🌪️🍚🐕


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