22 maio 2009

história do futuro

as grandes crises financeiras internacionais, ao provocarem rupturas estruturais na economia mundial, criaram para o Brasil oportunidades de mudança que marcam épocas históricas. [1]

assim foi no final do século 19, com a abolição da escravidão, e também na década de 30, quando se iniciou a industrialização acelerada do Brasil.

do mesmo modo, são igualmente extraordinárias as chances geradas pela atual crise global para um avanço relativo do Brasil, algo que provavelmente não ocorrerá de novo nesta ou na próxima geração. [2]

se o redesenho mundial dos mercados abre espaços, estes rapidamente serão reocupados. para o Brasil não desperdiçar o momento é preciso ter rumo e estratégia.

qual o rumo que se alinha com a oportunidade atual e ao mesmo tempo atende a demanda da história brasileira?

sob qual bandeira se reuniriam trabalhadores e desempregados, autônomos e profissionais liberais, pequenos e médios empresários e possivelmente muitos setores do grande capital?

alguma proposta formaria um arco tão amplo que abrangesse desde o MST, passando pelas Centrais Sindicais e setores progressistas da igreja, movimentos sociais e ONGs, até partidos de extrema-esquerda, o PT até algumas parcelas do PSDB e do PMDB?

qual agenda seria ao mesmo tempo de âmbito nacional mas com aplicação regional e mesmo pontual, reunindo esforços dos executivos nacional, estadual e municipal?

que perspectiva direcionaria a intelectualidade, as universidades, os centros de pesquisa e produção de conhecimento, a blogosfera e a web brasileira para convergirem como inteligência coletiva na criação de uma teoria para o Brasil do século XXI?

existiria algum objetivo tão claro e necessário que não deixasse dúvidas quanto a sua necessidade de implementação e ao mesmo tempo fosse tão mobilizador que catalisasse a paixão e os esforços do povo brasileiro?

possivelmente, a única resposta vem a ser: desenvolvimento com inclusão social!

para o Brasil seguir no rumo do desenvolvimento com inclusão social é preciso evitar que a pauta das eleições de 2010 seja capturada pelo curto-circuito da oposição binária entre lulistas e anti-lulistas, e trazer ao primeiro plano o debate sobre um projeto estratégico nacional para o Brasil do seculo XXI, dentro da perspectiva aberta pela atual crise global.

até o próprio destino parece conspirar neste sentido, ao inserir numa disputa aparentemente definida entre Dilma e Serra o fator da incerteza e as questões da complexidade.

para assumir nosso destino de grande nação, compatível com nosso território, nossos recursos naturais, nossa população e a riqueza e o vigor de nossa cultura, o Brasil necessariamente passará por um processo de amadurecimento, envolvendo o país e a sociedade, as instituições e as empresas, os partidos políticos e os movimentos sociais: todos nós e cada um de nós, coletiva e individualmente envolvidos na construção nacional.

se já não mais admite um retorno ao neoliberalismo tucano, o Brasil precisa definitivamente avançar para o pós-Lula.

não mais podemos deixar de reconhecer a contradição fundamental bloqueando o desenvolvimento brasileiro: o BC de Meirelles, que banca uma política monetária contracionista, com a Selic induzindo a apreciação cambial que nos mantém sob perene ameaça de vulnerabilidade externa.

não mais podemos nos omitir frente ao crime organizado, que se imiscuiu nos três poderes e é hoje o principal financiador da injustiça no Brasil, tão obscenamente simbolizado pelo STF de Gilmar Mendes.

não mais podemos deixar de compreender como a política econômica e o crime organizado estão intrinsecamente relacionados, posto que o livre fluxo de capitais permite ao dinheiro sujo do narcotráfico, da corrupção, das sonegações e de todo tipo de negócios ilícitos sair impune do país e retornar maquiado de “investimento estrangeiro”, para ser remunerado pela maior taxa de juros reais do mundo.

não mais podemos ignorar que a força inexpugnável mantendo Lula inatingível e com popularidade recorde vem do que Lula simboliza: a ascensão de um homem do povo e das massas populares à condição de protagonistas da política. mas que é preciso reconciliar o protagonismo simbólico com a realidade concreta de um projeto de desenvolvimento fundado na democracia com participação popular e impulsionado por maciça inclusão social.

a história do futuro se escreve agora. discursos sem visão de futuro são apenas palavras. quando se tem visão de futuro, os discursos se tornam profecias. [3] podemos fazer com que as profecias se realizem?
somos capazes de aceitar o desafio de planejar estrategicamente nosso futuro?

como nunca antes na história deste país, nossa chance enquanto povo e nação não mais está em poder das elites e sim em nossas próprias mãos. só nós mesmos podemos impedir que ela escorra por entre nossos dedos.

[1] Yoshiaki Nakano, “Remover o entulho”, 17/05/2009
[2] Paulo Rabello de Castro, “O Brasil e a crise: a ficha ainda não caiu”, 11/02/2009
[3] Antonio Vieira, “Sermão da Terceira Dominga do Advento”, “Os discursos de que não viu, são discursos. Os discursos de quem viu, são profecias.”

25 abril 2009

my sweet Lady Jane [1]

oh, minha doce Lady! fiz tudo que podia. agora tenho que ir. tenho um compromisso. acabou-se, meu amor. sua hora chegou. eu lhe havia jurado lealdade. estimo suas melhoras. mas já caíram as areias da ampulheta. para você... e para mim... [2]

por que adoecemos?

o que é esta doença em mim me assolando como vingança cruel?

acidente ou destino?

um mal invasor a ser combatido com todas as forças de nosso ser?

ou na doença deveríamos reconhecer nós mesmos? nossa perversa face nos encarando com escárnio enquanto ao mesmo tempo nos suplica pela cura.

é a doença quem cura a doença?

ou o que nos cura são medicamentos, máquinas, operações, transplantes? nossa cura é dependente e tributária dos altos lucros da indústria farmacêutica?

afinal, temos ou não cura? seríamos todos nós, e a sociedade que criamos, absolutamente incuráveis? somos nós mesmos a doença que não pode ser curada?

doenças pessoais podem ser sintomas de doenças coletivas? sociedades também ficam doentes? é possível permanecer sadio em sociedades doentes? a doença é uma metáfora?

quem de nós não precisa de tratamento? de um jeito ou de outro...

mas que merda!

pobres de nós. pobres de nós brasileiros. pobre país. tantas lágrimas ainda. tanto sofrimento desnecessário.

a tortura de estarmos aprisionados entre o tormento de dois mundos. a maldição de um definitivamente morto, mas que não somos capazes de enterrar. e as dores abençoadas do parto daquele que luta por nascer, sem ainda o conseguirmos trazer à luz. [3]

uma exasperante travessia consumindo gerações. vidas inteiras que podiam ter sido e que não foram. fazer o quê por ti Brasil, se a única coisa a fazer é tocar um tango argentino... [4]

ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de brasileiros! quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu. [5]

se então é neste abismo que devemos nos atirar, que nele nos joguemos todos de uma só vez. agora. já. para que nos tornemos todos companheiros em nossa jornada coletiva de cura. para que do fundo do abismo possamos enfim emergir em direção ao céu.

ah, Lady Jane! eu sinto o gosto dos esgotos no chão. sob essas catedrais. sob essa escuridão. os edifícios tem de cair. ah, Lady Jane! toda essa terra vai se consumir. com os seus mistérios. como uma fogueira. vai queimar. ah, Lady Jane! eu tive um sonho estranho. de morte. e vida. [6]

seja feita a vossa vontade.

[1] Joana Grey, conhecida como Lady Jane, foi Rainha da Inglaterra por cerca de nove dias, mas não chegou a ser coroada e morreu executada por traição.
[2]Rolling Stones, “Lady Jane”
[3] Sérgio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil”
[4] Manoel Bandeira, “Pneumotórax”
[5]Fernando Pessoa, “Mar Português”
[6] A Barca do Sol, “Lady Jane”

11 março 2009

nas asas da Embraer

em 1943, quando o Brasil não fabricava sequer bicicletas e mesmo os vasos sanitários eram importados, [1] um visionário, dos que sabem da necessidade de manter os pés solidamente apoiados no chão para concretizar o sonho de voar, começou a dar asas ao futuro da aviação brasileira.

convicto do que mais engrandece uma nação é o conhecimento que ela detém [2], em 1950 Casemiro Montenegro Filho cria o ITA e o CTA [3], e pessoalmente se encarrega de motivar os alunos conclamando-os a um dia implantarem a indústria aeronáutica no Brasil. [4]

segundo a concepção do plano idealizado por Montenegro, quando nos laboratórios houvesse produtos com potencial de comercialização, seriam fundadas empresas. em 1969 toma forma o avião “Bandeirante” para linhas regionais, e é criada a Embraer. [5]

nascida indissociavelmente integrada a um projeto de desenvolvimento nacional, a Embraer que agora promove uma demissão em massa, 20% do quadro pessoal [6], tornou-se uma empresa com uma visão de futuro atrelada à demanda internacional por jatinhos executivos. antes da crise global, a empresa pretendia que aviões deste tipo viessem a representar 20% do total de suas vendas.

enquanto o Brasil tem toda uma aviação regional para desenvolver, a americana Robb Report, espécie de bíblia mundial dos artigos de luxo, elegeu o "Phenom 100" o melhor jato executivo do planeta em seu 20º anuário The Best of the Best, destacando como um dos pontos mais cativantes do avião o seu bagageiro capaz de acomodar com facilidade sacolas de tacos de golfe e esquis. [7]

apesar de atribuir as demissões como decorrência da crise que afeta a economia global [8], a previsão de entregas em 2009, mesmo reduzida de iniciais 270 para 242 unidades, representa ainda assim um aumento expressivo em relação a 2007 (169 aviões) e 2008 (204). [9]

como outras empresas induzidas à financeirização pela política cambial do BC, a Embraer apostou parte dos seus lucros especulando em moeda estrangeira e teve perdas de R$ 177 milhões no 3º trimestre, valor equivalente ao custo anual com os salários dos 4.270 demitidos. [10]

além disto, o Presidente da Embraer e mais nove diretores executivos, os onze membros do Conselho de Administração e os cinco membros do Conselho Fiscal, receberam juntos uma bonificação de R$ 50 milhões em 2008. em média, os acionistas da Embraer ficam com cerca de 60% do lucro da empresa (em 2007, do lucro de R$ 657 milhões, R$ 448 milhões foram para os acionistas) uma taxa altíssima indicando que os investimentos não são prioridade. [11]

em 2006, a empresa faturou 8,2 bilhões de reais. em 2007, foram 9,9 bilhões de reais. em 2008, a estimativa é que o valor totalize cerca de R$ 10 bilhões. ou seja, os últimos anos são de resultados recordes. a Embraer também dispõe cerca de R$ 3,6 bilhões em caixa, valor suficiente para bancar a folha de pagamento de todos os seus funcionários no mundo por dois anos, período que a empresa diz que durará a crise no setor. [12]

a posição acionária da Embraer mostra que 19,27% estão distribuídos entre a Previ (13,92%) [13], BNDESPar (5,05%) e a Golden Share do governo(0,3%) [14] [15], o que politicamente dá ao governo instrumentos para participar do comando da empresa. por outro lado, 51,7% são de capitais internacionais, deixando uma empresa estratégica para o desenvolvimento nacional sob controle externo.

privatizada em 1994 por Itamar Franco pelo valor irrisório de R$ 154 milhões, a Embraer já recebeu do BNDES,
em financiamentos às exportações da empresa desde 1997, um total de US$ 8,39 bilhões, o equivalente a 44 vezes seu valor de venda, considerando uma paridade dólar/real de 1 para 1. [16] apesar disto, NDES não tem representação no Conselho de Administração.

como forma de forçar a empresa a rever as demissões, o BNDES deveria usar seu poder de agente financeiro para obrigara Embraer a comprar insumos, componentes e equipamentos no Brasil. assim se criaria uma cadeia produtiva em torno da Embraer, promovendo micro, pequenas e médias empresas à condição de fornecedoras da empresa. atualmente, cerca de 95% do faturamento da Embraer é de peças, partes e componentes importados. nem o tecido das poltronas dos aviões é produzido no Brasil. isso é um disparate e uma distorção. o Estado precisa reassumir seu papel ativo no setor aeroespacial e tomar nas suas mãos as rédeas da Embraer. [17]

precisamos de um projeto de nação, não de um projeto de empresas para o mercado. com um projeto de nação o atendimento das demandas do mercado será uma consequência e não uma condição para o desenvolvimento. planejamento, visão de longo prazo e defesa da nossa soberania são os fundamentos sobre os quais se constrói um projeto de nação. nada disso é preocupação do mercado. [18]

embora tenha reagido a princípio com irritação e indignação frente as demissões, Lula desistiu de pedir à empresa para rever os cortes,
após uma reunião com a Diretoria da Embraer, segundo o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Miguel Jorge, os argumentos da Embraer foram consistentes e o Presidente se convenceu ser uma questão de demanda determinada pelo mercado externo.

Miguel Jorge também deixou claro que o governo não pode fazer nada a mais pelos 4.200 desempregados: “- O governo não pode fazer mais por estas pessoas além do que é feito para outros dispensados.”

em 2006, a Embraer compôs o seleto grupo dos 12 maiores doadores de recursos para a campanha presidencial do PT, contribuindo com R$ 1,3 milhão. [19]

as asas da Embraer são o sonho de um brasileiro visionário que vislumbrou na indústria aeronáutica um meio do Brasil voar em direção ao desenvolvimento. para que o sonho continue voando, é preciso reestatizar a Embraer.


[1] Fernando Morais, “Montenegro – as aventuras do marechal que fez uma revolução nos céus do Brasil”
[2] Marechal-do-Ar Casemiro Montenegro Filho
[3] ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) e CTA (a partir de 1969, Centro Técnico Aeroespacial)
[4] Major-Brigadeiro-Engenheiro Tércio Pacitti, ex-reitor do ITA, em seu livro "Do Fortran à Internet"
[5] Wikipédia, http://pt.wikipedia.org/wiki/História_do_ITA
[6] 19/02/2009, Embraer demite 4.200 funcionários, o equivalente a 20% do quadro de pessoal
[7] “Embraer é a melhor em jatos executivos, diz "bíblia" mundial do luxo”, 02/07/2008
[8] “A Embraer informa que, como decorrênciada crise sem precedentes que afeta a economia global, em particular o setor de transporte aéreo, tornou-se inevitável efetivar uma revisão de sua base de custos e de seu efetivo de pessoal, adequando-os à nova realidade de demanda por aeronaves comerciais e executivas.” [...] “a Empresa depende fundamentalmente do mercado externo e do desempenho da economia global – mais de 90% de suas receitas são provenientes de exportações”, Comunicado Embraer, 19/02/2009
[9] Gilberto Maringoni, “As demissões na Embraer”
[10] Sindicato dos Metalúrgicos de S. José dos Campos, “A verdade sobre a Embraer”
[11] Sindicato dos Metalúrgicos de S. José dos Campos, “A verdade sobre a Embraer”
[12] Sindicato dos Metalúrgicos de S. José dos Campos, “A verdade sobre a Embraer”
[13] Previ, Fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil
[14] Janus Capital Management (10,24%), grupo Bozano (7,64%), Oppenheimer Funds (6,04%), Thornburg Investment (5,27%.), ADR (29,39%), Bovespa (19,86%) http://www.bovespa.com.br/Empresas/InformacoesEmpresas/ExecutaAcaoConsultaInfoEmp.asp?CodCVM=20087
[15] criada com a privatização, a Golden Share dá ao governo direito de veto em relação à mudança de denominação da companhia ou de seu objeto social; alteração e/ou aplicação da logomarca; criação e/ou alteração de programas militares, que envolvam ou não a República Federativa do Brasil; capacitação de terceiros em tecnologia para programas militares; interrupção de fornecimento de peças de manutenção e reposição de aeronaves militares e a transferência do controle acionário da companhia.
[16] Gilberto Maringoni, “As demissões na Embraer”
[17] Angelo, comentário no Blog do Nassif, no post “Propostas para a Embraer“, 25/02/2009
[18] Angelo, comentário no Blog do Nassif, no post “Propostas para a Embraer“, 25/02/2009
[19] Contas Abertas, baseado em dados do TSE - http://contasabertas.uol.com.br/noticias/imagens/Comite_Fin_Nac_Pres_Rep_PT_RESUMO.xls

08 março 2009

às ruas

a divulgação dos primeiros resultados do desempenho da economia brasileira no início de 2009 [1] indicam que a marolinha provocada pela crise internacional atinge o país com a força devastadora de um tsunami. [2]

enquanto a popularidade de Lula prossegue se dilatando em recordes sucessivos [3], mesmo entre notícias de retração econômica e demissões em massa [4], as oligarquias brasileiras - herdeiras de uma longa história de autoritarismo e subordinação a interesses externos - ensaiam através da grande mídia uma revisão histórica da ditadura militar iniciada com o golpe de 1964. [5]

apesar de todas as concessões de Lula, desde a blindagem neoliberal do BC até submeter-se as ingerências do STF, os setores dominantes brasileiros são perenemente refratários a um governo popular que pretenda conduzir o país no rumo do desenvolvimento com inclusão social.

num cenário da mais grave e profunda crise internacional desde 1929, até mesmo o Diretório Nacional do PT, que não se notabiliza exatamente por seu radicalismo, reconhece a necessidade de transformar a oportunidade para acelerar a transição em direção a outro modelo econômico-social. [6]
um agravamento da crise econômica, com recessão prolongada e alto desemprego, conduzirá a inevitáveis impactos políticos, podendo enfraquecer a popularidade de Lula, até agora o inexpugnável bastião que neutralizou todas as tentativas de desestabilização do governo.

mais do que apenas o horizonte das eleições de 2010 e uma aglutinação em torno da candidatura de Serra, o resgate nostálgico da “ditabranda” [7] vem a ser o ninho ideológico do ovo da serpente para tentar provocar uma crise institucional, caso haja acentuada queda de popularidade de Lula em virtude da crise econômica.

entretanto, a mesma popularidade que imuniza o governo dos ataques da oposição conservadora, mantém Lula paralisado num giro imobilista em torno de si mesmo.

sem a queda da bastilha da Selic e a derrubada da ditadura do Copom, o Bolsa Família se reduz a medida compensatória do alto desemprego gerado pela política monetária contracionista, e o PAC se torna insuficiente para acelerar um crescimento freiado pela maior taxa de juros reais do mundo.

no auge de seu poder, o qual jamais chega a exercer de fato, Lula investe seu capital político na ressurreição dos mortos-vivos, como a vitória de Collor para Comissão de Infraestrutura do Senado, [8] e em propor a estatização dos bancos, só que os dos exterior. [9]

até mesmo para economistas conservadores a ficha já caiu, reconhecem as extraordinárias oportunidades abertas pela crise global para um avanço relativo do Brasil, algo que provavelmente não ocorrerá de novo nesta ou na próxima geração. [10]

com o epicentro da crise no coração do sistema, fazendo com que os EUA sejam obrigados a lamberem suas próprias feridas, abre-se uma fresta histórica. ao contrário de 1930 e Getúlio Vargas, 1950 e JK e 1964 e a ditadura militar, que foram modernizações conservadoras e encaminhas pela cúpula, Brasil se vê com a inédita possibilidade de um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. [11]

apanhados numa das encruzilhadas perigosas da história, é o próprio país quem nos encara nos olhos, perguntando: “afinal, o que vocês são? o que querem ser? tem sentido existir Brasil? qual Brasil?” [12]

como em todos os grandes momentos decisivos quandoo futuro bate às nossas portas, a resposta ao desafio, se alguma houver, só será encontrada nas ruas.

[1] produção industrial recua 17,2% em janeiro de 2009, o pior resultado desde o Plano Collor, em 1990
[2]“Lá [nos EUA], ela é um tsunami; aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar.”, Lula, 04/10/2008
[3] segundo pesquisa CNT/Sensus, divulgada em 03/02/2009, a aprovação ao presidente Lula passou de 80,3%, em dezembro de 2008, para 84% em janeiro de 2009.
[4] fevereiro de 2009: Embraer promove a maior demissão que uma empresa privada já fez no país: 4.270 funcionários, 20% de sua força de trabalho.
[5] editorial da Folha de São Paulo, “Limites a Chávez”, 17/02/2009, e Marco Antonio Villa, “Ditadura à brasileira”, 05/03/2009
[6] Diretório Nacional do PT, “Resolução do PT: É hora de aprofundar as mudanças e de fazer o embate ideológico”, 10/02/2009
[7] “[...]as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça [...]”, editorial da Folha de São Paulo, “Limites a Chávez”, 17/02/2009
[8] "Os votos que elegeram Collor foram os votos que elegeram Sarney. Não vejo isso com surpresa. E [vamos] fazer disso uma boa salada.”, Lula, 06/03/2009
[9] "Será que os países ricos vão continuar apenas colocando dinheiro com o intuito de salvar bancos ou será que alguns países terão coragem, sem medo da palavra, de estatizar os banco [...].”, Lula, 06/03/2009
[10] Paulo Rabello de Castro, “O Brasil e a crise: a ficha ainda não caiu”, 11/02/2009
[11] "Vargas redefiniu o país na crise de 30; a chance é que o PT faça o mesmo na primeira grande crise da globalização", Carta Maior, entrevista de Francisco de Oliveira, 06/01/2009
[12] César Benjamin, “Uma certa idéia de Brasil”

31 dezembro 2008

a nossa cara

muito embora garantisse em entrevista que Paulo Lacerda poderia retornar ao comando da Abin quando quisesse [1], Lula acaba afastando-o definitivamente. [2]


em mais uma patética tentativa de varrer para debaixo do tapete os elefantes de seu governo, Lula dá prosseguimento a estratégia de demolição controlada da Operação Satiagraha.

Tarso e Dilma são os arautos de uma das mais peculiares realizações do governo Lula: nos bicos das galinhas nascem dentes, para despedaçar com voracidade o que resta de justiça no Brasil. [3]

o maior esquema de crime organizado já surgido no Brasil opera livre e os que zelam pela justiça são perseguidos e afastados.

enquanto a máscara cai e fica exposta a verdadeira face do governo, a reação da opinião pública obedece a um mesmo recorrente padrão.

inicialmente, parte dos que apóiam o governo ficam indignados; outra parte, ainda assim, persiste no autoengano, desde não aceitar a veracidade da notícia até a irrestrita confiança numa paciência infinita para aguardar que tudo se esclareça num futuro próximo, o qual jamais se torna presente.

num segundo momento, muitos dos indignados também recaem no autoengano. surgem várias explicações para sustentar o estado de negação. desde a aparente capitulação do governo não passar de complexos movimentos do xadrez político, até uma cínica resignação de não restar para Lula outra opção além de submeter-se voluntariamente a Direita, senão acabará derrubado por ela.

em sânscrito, Satigraha significa “firmeza em busca da verdade”. ao ser conhecida, a verdade libertará. [4] mas quanta verdade o Brasil ainda pode suportar? [5]

vivemos em tempos sombrios. aquele que ainda ri é porque ainda não foi capaz de aceitar a terrível notícia. [6]

enquanto atende minimamente as demandas dos desfavorecidos e submete-se a quase totalidade das exigências dos poderosos, Lula faz aquilo que as classes dominantes nunca imaginaram que aconteceria: realiza magistralmente o que o governo FHC fez apenas razoavelmente bem. [7]

como na crise do mensalão, em que da própria carne foram cortados Delúbio, Silvinho, Genoíno, Gushiken, Dirceu e Palocci, mais uma vez Lula não recusa a ceder dedos e anéis, mão, membros, tronco e cabeça. apesar de manter a coroa, cada vez mais se limita a presidir apenas o Bolsa Família. [8]

situações limites são reveladoras e podem conduzir a um salto de maturidade e de crescimento, para além da paralisadora divisão entre a ilusão estéril do autoengano e uma indignação impotente. o apoio incondicional ao governo Lula, hipotecado sem exigir nenhuma contrapartida, o subprime político brasileiro.

as consequências passam pela continuidade nos seis anos de mandato da política monetária dos mercados financeiros, cujo resultado é a perene maior taxa de juros reais do mundo, para gerar o mais grave de todos os problemas: a desmobilização e regressão do poder de pressão popular.

em suas características atuais, em que a crítica ao governo é desqualificada por supostamente fazer “o jogo da Direita”, o apoio a Lula é a principal causa da inércia do governo.

se o índice de popularidade recorde do governo não se reciclar em apoio e cobrança de um projeto de nação, Lula jamais atravessará o Rubicão, pois governo algum se move, a não ser empurrado pela pressão popular.

por outro lado, modelo de governabilidade montado por Lula é incompatível com as necessidades de um projeto de construção nacional, pois foi moldado unicamente através de acordos pela cúpula, conduzindo o governo a seguidos impasses políticos, tornando-o refém de si próprio.

qual a melhor escolha para o Brasil: a conciliação ampla ou o enfrentamento exaustivo? [9]

há dois tipos de consenso e conciliação.

um tipo é quando a conciliação é considerada uma premissa. todos os esforços são determinados por ela e em direção a ela. geralmente é feita pela cúpula e na cúpula. um consenso frágil e uma conciliação oportunista. os resultados políticos obtidos quase sempre são dúbios e inconsistentes.

outro tipo de conciliação é aquela produzida por um exaustivo processo de enfrentamento. não um enfretamento suicida. mas um enfrentamento consciente que se paute pelo constante desequilíbrio da dinâmica da correlação de forças. um árduo movimento de crescimento e maturação, gerando condições para, então, nascer o consenso. um consenso construído na luta: uma conquista e não uma capitulação.

no primeiro caso a conciliação precede e se impõe ao processo de construção do consenso.

no segundo, é através dos enfrentamentos inerentes ao processo de construção do consenso que se forja uma conciliação.

agora mais uma vez exposto em sua cara lavada, este governo Lula é também a expressão do grau de desenvolvimento político da sociedade brasileira.

a sociedade somos nós. portanto, este governo Lula tem a nossa cara. mas não a cara de cada um de nós individualmente. e sim a cara de todos nós coletivamente.

é ao se auto-organizar que a sociedade muda a si própria.

é de dentro prá fora
é de baixo prá cima
o que está cima está embaixo
o que está embaixo está em cima

[1] “Se o Paulo Lacerda não tiver culpa no cartório, o Paulo Lacerda é um profissional do Estado brasileiro da mais alta competência. Pode voltar a hora que quiser depois que for terminada essa investigação”, em entrevista de inauguração da TV Brasil, 17/09/2008
[2] afastado desde 01/09/2008, Paulo Lacerda é exonerado do cargo e indicado o posto de “adido policial”, na Embaixada de Lisboa, 29/12/2008
[3] blog do Luis Nassif, “Dilma explica”, 17/09/2008
[4] João 8:32
[5] Nietzsche,
“Quanta verdade pode um espírito suportar?”, Ecce Homo
[6] Bertold Brecht, “Tempos Sombrios”
[7] Ricardo Antunes, entrevista ao Correio da Cidadania, 08/04/2008
[8] Paulo Henrique Amorim, “Golpe já deu certo: Eisenhower manda na CIA, 04/09/2008
[9] Felipe Guerra de Oliveira, Comunidade do Blog do Luis Nassif, 23/12/2008

28 setembro 2008

o texto somos nós [1]

um texto não é uma sequência linear de palavras, mas uma amplidão infinita de dimensões múltiplas, onde se entrelaçam, e também se chocam, muitos outros textos, nenhum dos quais é original.

um texto sempre é um tecido de citações. palavras só podem explicar-se através de outras palavras.

a única criatividade de um texto é seu poder de misturar outros textos, de contrariá-los uns aos outros, sem nunca se apoiar em qualquer deles, para fazer com que estes outros textos entrem em diálogo.

por isto escrever é tão perigoso. só quem tentou, sabe. há o perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas. há ciladas nas palavras. as palavras que dizemos escondem outras – quais? escrever é uma pedra lançada neste abismo sem fundo. [2] um abismo que sempre chama outros abismos.

o que se escreve nunca é o que se escreve e sim outra coisa. é preciso que alguém leia. para que se possa ouvir o silêncio de quem escreve. para captar essa outra coisa que na verdade foi escrita, porque quem mesmo escreve não pode fazê-lo. [3]

pois se há lugar no qual se possa reunir essa multiplicidade de que um texto se faz, esse lugar não é o autor. o leitor é o espaço exato em que se inscrevem todas as citações de que um texto é feito.

ler um texto é recolocá-lo sobre ele mesmo para rasgar a superfície de sua linearidade inicial. é o trabalho da leitura que produz o sentido de um texto, ao reportá-lo não apenas a outros textos e imagens, como também a sentimentos e desejos de quem lê.

pouco a pouco, não é mais o sentido do texto que nos ocupa, mas a direção e a elaboração de nosso pensamento. e do texto, logo nada mais resta. ele nos serviu de interface conosco mesmos.

a interpretação e o sentido não remete mais, desde então, à intenção de um autor, mas antes à apropriação de um leitor. já não interessa o que pretendeu um autor ausente, desde que o texto nos faça pensar, aqui e agora.

para que nasça o leitor tem de pagar-se com a morte do Autor. para um texto se iniciar, para que a linguagem possa falar, o autor adentra em sua própria morte. o texto não está mais em sua origem, mas no seu destino: o leitor.

entretanto, até este destino já não pode ser pessoal.

para se escrever um texto ainda hoje são usados sistemas de signos, sejam alfabéticos ou ideográficos, surgidos quando se dispunha apenas de suportes estáticos. mesmo o hipertexto multimídia apenas conecta em rede signos inventados para suportes anteriores.

como seria um sistema de signos específico para um suporte dinâmico, interativo, dotado de memória e de capacidade de cálculo autônomo que constitui a tela do computador?

uma linguagem de imagens interativas. uma ideografia dinâmica. capaz da simulação multimodal de realidades virtuais.

as simulações gráficas interativas, nem experiência nem teoria, são uma forma de texto, certamente não sob a notação da palavra, que abrem uma nova via à descoberta e à aprendizagem. um outro modelo de construção e transmissão de conhecimento.

o conhecimento é o fundamento do poder. é a capacidade de aprender e de inventar que sustenta o poder econômico.

nas sociedades anteriores à escrita, o saber estava encarnado na comunidade viva e sua transmissão era oral. quando um velho morria, uma biblioteca se queimava. com o advento da escrita, o saber se registrou nos livros, se expandiu para as enciclopédia e se arquivou nas bibliotecas. através da invenção da imprensa, o acesso ao conhecimento se disseminou.

com a web, é como se todos os textos fizessem parte de um só texto. um hipertexto de autoria coletiva em transformação permanente. não é mais o leitor que se desloca diante do texto. é o texto que, como um caleidoscópio, se desdobra diferentemente diante de cada leitor.

toda leitura passa a ser uma escrita em potencial. informação e conhecimento se tornam fluxo. as pessoas não mais giram em torno do saber, mas o saber gira em torno das pessoas.

a web está se tornando o lugar fundamental da comunicação e do pensamento humano. é como se o coletivo novamente fosse portador do conhecimento.

por um retorno em espiral à oralidade das origens, o saber pode ser retomado pelas coletividades humanas vivas. não a comunidade física, mas o cyberspace, por intermédio do qual a comunidade conhece a si própria e ao seu mundo.

as pessoas deixam de estar separadas entre si e ligadas todas em relação a um centro, e são multiplicadas as conexões transversais entre todos.

a comunicação não é mais concebida como difusão de mensagens, troca de informação, mas como emergência continuada de uma inteligência coletiva.

a transcendência do texto começa a declinar. menos irradiados pelo espetáculo midiático, a imanência do saber à humanidade que o produz e o utiliza torna-se mais visível.

seremos tanto mais livres quanto mais formos um texto vivo.


[1] referências: Michel Foucault (“O que é um autor?”), Roland Barthes (“A morte do autor”), Pierre Lévy (“Nós somos o texto”)
[2] Clarice Lispector
[3] Clarice Lispector

21 setembro 2008

ainda assim, se move

com a repercussão da divulgação de um acordo entre o governo Lula e Daniel Dantas, através da Editora Abril, para anular a Operação Satiagraha [1], os Ministros Dilma Roussef [2] e Tarso Genro [3] - este em nome e a pedido do próprio Presidente da República - se vêem compelidos a um desmentido: seria mais fácil nascer dente em galinha. [4]

entretanto, ao se considerar o atual nível de entrelaçamento de cumplicidades na política brasileira, nada parece ser verdadeiramente difícil.

em almoços e jantares, os que não se bicam e vivem se mordendo, acabam mastigando do mesmo cardápio.

na data da divulgação da notícia do acordo, a agenda de Gilmar Mendes apontava um almoço com a Diretoria da Revista Veja. [5] ainda naquela noite, num jantar fechado e discreto, o mesmo Gilmar Mendes seria homenageado por Lula, compartilhando à mesa, além do próprio Presidente e do anfitrião Antônio Toffoli, Advogado-Geral da União, estavam Dilma Rousseff, Tarso Genro, José Sarney e Gilberto Carvalho. [6]

data sinistra. noite confusa. patético momento... [7]

além de clara demonstração da existência de outros focos de pressão da opinião pública, capazes de contrabalançar ofensivas maciças da mídia convencional, [8] o impacto da divulgação do acordo provoca um curto-circuito no pensamento binário, até então paralisando o país num falso dilema entre campos opostos, mas complementares: a oposição conservadora anti-Lula e um apoio incondicional ao Presidente. [9]

capturada por uma esfinge sem enigmas, a política girava no vazio. e o projeto original de organização popular do PT fora reduzido a grupos de auto-ajuda, intitulados como “Amigos do Presidente Lula”. [10]

se a queda tardia no deserto do real impõe seu preço na forma de decepção e desencanto, também oferece a chance de um salto de maturidade política, desde que a inexpugnável popularidade de Lula se transforme em defesa inegociável daquilo que Lula simboliza: a ascensão das massas populares como protagonistas da política brasileira. [11]

longe de ser uma ação entre amigos, e menos ainda entre os amigos dos amigos, a política é um jogo complexo de pressões e contra-pressões, forçando a dinâmica correlação de forças a uma constante reavaliação.

o motor da política é a participação popular. sem ela, a política se esgota em si mesma, nas modernizações conservadoras, nas transições tuteladas, nas revoluções palacianas, nos pactos entre a elite e nos acordos de gabinete.

ao mesmo tempo, se expandem também as possibilidades da utilização da web como fator decisivo na política nacional, capaz de formar opinião e fomentar um debate mais amplo e profundo, influenciando decisões e arrancando respostas. [12]

aqui e agora, ainda assim, a política brasileira se move. mesmo sob o manto da hipocrisia, é obrigada a render alguma homenagem à virtude.



[1] blog do Luis Nassif, “Lula, Satiagraha e a Real Politik”, 16/09/2008, post às 8:00h
[2] blog do Luis Nassif, “Dilma explica”, 17/09/2008
[3] blog do Luis Nassif, “A Satiagraha e o Governo”, 17/09/2008
[4] blog do Luis Nassif, “Dilma explica”, 17/09/2008
[5] Agenda do presidente do STF para 16/09/2008, http://www.stf.gov.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=96088
[6] Mônica Bergamo, Folha de So Paulo, 18/09/2008
[7] Cecília Meirelles
[8] blog do Luis Nassif, “A entrevista de Lula”, 18/09/2008
[9] arkx, “o pensamento binário”
[10] http://www.osamigosdopresidentelula.blogspot.com
[11] arkx, “bem vindos ao deserto do real”
[12] Eduardo Ramos, “A importância da internet na política”, Comunidade do blog do Luis Nassif

16 setembro 2008

bem vindos ao deserto do real

numa demonstração de imensa falta de fé no atual estágio de desenvolvimento do país, o governo Lula julga ser possível varrer elefantes para debaixo do tapete e, mesmo com tanta testemunha e conflito de consciência, acerta um acordo com a Editora Abril e Daniel Dantas para anular a Operação Satiagraha. [1]

até então a política brasileira estava paralisada por um paradoxo. um impasse mantinha o Brasil imobilizado no meio de uma travessia, girando em círculos numa falsa encruzilhada, prisioneiro de uma esfinge sem enigmas: o anti-lulismo reabilitando e fortalecendo o lulismo. [2]

ao se despertar do confortável auto-engano, conveniente refúgio onde a desilusão se mascara com as fantasias da maturidade e da sensatez, já não há como obstruir a busca da verdade.

cara a cara com o deserto do real, uma vã e impossível volta ao passado ingênuo emite seus últimos suspiros:

calma, ponderação e canja de galinha. [3] silêncio e reflexão. [4] provas? [5] "governabilidade". [6]

não! não tenham dó. sem misericórdia.

o óbvio cansou de explicar a si mesmo. tudo virá à luz do meio-dia. os intestinos do Brasil estão revirados e para fora. não acontecerá de uma só vez. serão estertores de agonia. todos seremos arrastados para o fundo deste abismo. até que do fundo do poço se levante a luz do abismo.

se o governo fosse um pouco mais sábio, não atrapalharia as investigações e aproveitaria seu derradeiro lance de dados. [7]

mas Lula já alcançara o cerne de sua impossibilidade.

já não há divergência entre a oposição e o governo que não possa ser superada, não pela união em função do interesse público, mas em defesa de um bandido. [8] o grande entendimento nacional e suprapartidário, com a aliança da mídia, veio justamente para encobrir um erro... [9]

no labirinto da fusão na telefonia , atado a Daniel Dantas por uma das mãos [10] enquanto com a outra mão ambos se esfaqueiam, Lula já não pode puxar o fio de Ariadne sem mais e mais expor as profundezas do coração das trevas da política no Brasil.

este é o lance de dados que Lula sempre tentou abolir: abafa o caso e serve a pizza ou o fio da meada das investigações chegará até seu governo.

ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de brasileiros! quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu. [11]

no auge de sua popularidade [12], Lula se transformou numa metáfora encarnada do processo histórico brasileiro, no qual, muito embora imposta como necessária pelo próprio desenvolvimento da sociedade, a mudança é sempre adiada ao máximo, e, ao se tornar inevitável, é antecipada, para que, no transigir, se possa limitá-la.

a cada vez que se desemboca numa crise, impondo a necessidade de mudanças, se restabelece no Brasil um acordo de cúpula, pactuado pelas elites, e a mudança se reduz a um rearranjo que tudo muda para que nada fique diferente. [13]

nossa história tem sido uma sucessão de modernizações conservadoras e transições tuteladas, sem jamais incluir no "pacto democrático" as classes trabalhadoras [14], o que nos mantém aprisionados entre dois mundos: um definitivamente morto e outro que luta por vir à luz. [15]

para o desespero das oposições conservadoras, a força de Lula advém de que não há mais retrocesso para o Brasil. Lula é forte pelo que simboliza:

as massas populares serão o protagonista de qualquer novo projeto nacional que se pretenda legítimo. a inclusão social passa a ser o ponto central da política. [16]

para Lula, que esperava envelhecer orgulhoso e impenitente, eis que agora a figueira em seu destino novamente se intromete. como veia de sangue impuro, queimou-se a pura primavera. que sombrias intrigas houve em sua formação? que negócio fizeste? nenhum remorso te acomete? [17]

o que está em jogo não é um julgamento político do Presidente da República. a batalha é pela maturidade política do Brasil. o que importa é o coração e a mente dos brasileiros.

é preciso que a popularidade do governo rompa o limite de uma simplória identificação com Lula e se converta em apoio inegociável à Democracia com participação popular.

homens e as nações quando ainda imaturos aceitam apenas pela metade a responsabilidade de construir-se. a outra metade dorme na expectativa do milagre que há de vir. se num momento determinado homens e nações assumem seu tempo humano e histórico, seus limites e grandezas, a partir daí, todos os milagres são possíveis. [18]

[1] Luis Nassif, “Lula, Satiagraha e a Real Politik”
[2] arkx, “uma esfinge sem enigmas”
[3] Anarquista Lúcida, comentário no blog do Luis Nassif
[4] Euclides, comentário no blog do Luis Nassif
[5] Fadul, comentário no blog do Luis Nassif
[6] JMP, comentário no blog do Luis Nassif
[7] Weden, comentário no blog do Luis Nassif
[8] Antônio Mário, comentário no blog do Luis Nassif
[9] Weden, comentário no blog do Luis Nassif
[10] Paulo Henrique Amorim, entrevista na revista Fórum, “Dantas comprou parte do PT”
[11] Fernando Pessoa, “Mar Português”
[12] “segundo pesquisa Datafolha, 64% da população considera seu governo ótimo ou bom.”, 12/09/2008
[13] Raymundo Faoro, “Existe um pensamento político brasileiro?”
[14] Maria da Conceição Tavares, “Política e economia na formação do Brasil contemporâneo”
[15] Sérgio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil”
[16] Luis Nassif, “Os cabeças de planilhas”
[17] Cecília Meirelles
[18] Hélio Pellegrino

11 setembro 2008

por que somos tão fracos?

num Brasil já conformado a desanimar-se da virtude, rir-se da honra e envergonhar-se da honestidade [1], a operação Satiagraha nos encaminha a investigar firmemente a verdadeira questão: quanta verdade nós brasileiros ainda conseguimos suportar? [2]

à medida que nos grandes veículos de comunicação se ergue uma espiral de silêncio para tergiversar a pauta, desviar e ocultar o caso principal, [3] ainda assim, mesmo que nada se ouça, é possível sentir um grito infinito atravessando a paisagem. [4]

a desolação do cenário político brasileiro provoca indignação e desalento: “é melhor ser ladrão. não por ganância. mas por medo de ser confundido com gente honesta e acabar respondendo a processo." [5]

após publicamente ser chamado às falas [6] pelo Presidente do STF, Lula não se recusa a ceder dedos e anéis, mão, membros, tronco e cabeça. apesar de manter a coroa, cada vez mais se limita a presidir apenas o Bolsa Família. [7]

por que este governo é tão obtuso? é tão forte e parece ser tão fraco. [8]

com sua inexpugnável popularidade, o governo quer ser carregado nas costas pelo povo, mas não faz o menor esforço para se erguer. [9]

o que lhe falta? vitaminas? exercícios? leitura de bons livros? afastar-se da escuridão! [10]

qual seria este óbvio tão ululante que nem mesmo os profetas conseguem ver? [11]

se o PT nasceu como um partido eminentemente não parlamentar, focado no movimento social, apoiado nas bases, com um sólido conceito de democracia interna e voltado para a criação de um socialismo libertário, hoje restou apenas um quadro na parede. na casa de José Dirceu. um espantoso peixe cabeludo. assinado por José Sarney. [12] mas como dói...

numa longa e bem tortuosa trajetória de ascensão ao poder, as mais intensas e verdadeiras bandeiras petistas foram uma por uma largadas na poeira do caminho. converteram-se em caricaturais slogans para vender implante de dentes... [13]

todo partido marcado para desempenhar fins decisivos acaba por ser posto diante da hora da verdade [14], entretanto, a lealdade que guardamos com nossos princípios é muito mais do que uma proposta política. é um projeto de vida. é algo que ninguém cala. [15]

o governo é fraco porque tem o rabo preso. [16] muitos escândalos recentes foram claramente manipulados, mas é inegável, também, que integrantes do governo, alguns deles petistas, foram pegos lambuzados com a mão na botija. [17]

com uma política monetária menos ortodoxa, ampliando ações contra a corrupção e confrontando pontualmente, com estratégia e inteligência, a oposição conservadora e os veículos de comunicação golpistas [18], Lula não estaria acuado e o país inteiro na condição de refém.

entre o zero da servidão voluntária ao mercados e o infinito de um enfrentamento político suicida, há uma série de medidas cabíveis e alternativas razoáveis para se romper o estreito círculo de giz no qual gira no vazio a política brasileira, capturada por um curto-circuito, que ao mesmo tempo impede o retorno ao passado como voltar-se no rumo do futuro.

propostas para a economia existem. elas são mais do que sabidas. estão colocadas sobre as mesas de todas as autoridades. todo mundo sabe como resolver. o que falta é decisão: [19]

- controle de fluxo de capitais;

- queda dos juros até patamar correspondente a classificação de risco internacional do Brasil;

- reforma para terminar com a indexação dos títulos federais pela Selic, ou seja, fim da correção diária da dívida pública interna pela mesma taxa de juros que o Banco Central estabelece sobre as reservas bancárias para conduzir a política monetária;

- desindexação dos preços dos serviços públicos, e, mais amplamente, a proibição terminante de o governo brasileiro aceitar qualquer indexação em seus contratos e preços administrados;

- BC assumir como missão, além do controle da inflação, a manutenção do nível do emprego e do crescimento econômico.

no campo da política, a liga que forma consciências e cidadanias não passa necessariamente por governantes. passa pela ação popular. heroísmos praticado no anonimato, no sacrifício obscuro de quem sequer sabe de seu próprio heroísmo. [20]

nos primeiros anos de vida do PT, além da organização tradicional com Diretórios, conforme a legislação, existiam os Núcleos autônomos. eram considerados a pedra fundamental do partido. a base sobre a qual foi fundado e sobre a qual deveria se estruturar e se consolidar.

a via parlamentar era considerada como secundária e apenas como auxiliar para o campo onde se dariam as autênticas transformações da sociedade brasileira: a organização autônoma nos locais de moradia e trabalho.

pouco a pouco a via parlamentar foi se impondo. os Núcleos autônomos se tornaram um entrave para a elite dirigente, pois não podiam controlar e conduzir as bases.

de organismo vivo e a serviço dos movimentos sociais, o PT se reduziu a uma máquina burocrática para atender ambições pessoais. a militância petista desapareceu das ruas e se consolidou o modelo de campanha eleitoral financiado pelos grandes empresários e conduzido pelos marketeiros.

sem as formas de organização popular, ao se chegar ao poder, já não se tem mais poder algum...

durante a ditadura militar, participar de um simples fórum de discussão já assegurava enquadramento na LSN (Lei de Segurança Nacional). atualmente até mesmo parcelas consideráveis tanto da PF quanto da Justiça Federal e mesmo da Abin (ex SNI) e das Forças Armadas estão comprometidas com a Democracia Brasileira.

caso não se estabeleça em conjunto com todos os setores que apóiam a Democracia uma estratégia de enfrentamento, haverá o golpe. mesmo que seja um golpe branco. sem enfrentamento, adeus Democracia!

mas sem estratégia, adeus enfrentamento!

é preciso uma combinação certa de coragem, inteligência e competência para progressivamente superar divisões sociais sem acirrá-las a ponto do próprio processo de superação se inviabilizar.

mais do que nunca o Brasil se mantém aprisionados entre dois mundos: um definitivamente morto e outro que luta por vir à luz. [21] as raízes da crise atual residem no fundo do poço que separa o que já morreu do que ainda não conseguiu nascer. [22]

reina a sensação de que nada mais pode ser feito. só nos resta assistir passivamente a esse desfile interminável de vitórias do crime organizado. desabafamos apenas para não enlouquecer. é só isso. a democracia já era. sobrou o discurso. oco. [23]

a política e a ética estão condenadas a serem esferas conflitantes? [24]

haverá ainda muita frustração pela frente, muita sensação de impotência, muito ceticismo se o país conseguirá ser alçado à condição de Nação civilizada. mas a marcha da história é inevitável. é extraordinário o que estamos testemunhando nesses tempos de Satiagraha: é o parto de uma Nação. [25]

That's not the beginning of the end
That's the return to yourself
The return to innocence
[26]



[1] Rui Barbosa, ”De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto crescer as injustiças, de tanto ver o poder agigantarem-se nas mãos dos maus, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver a verdade vencida pela mentira, de tanto ver promessas não cumpridas, de tanto ver o POVO subjulgado e maltratado, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
[2] Nietzsche, “Quanta verdade pode um espírito suportar?”, Ecce Homo
[3] Weden “A Espiral do Silêncio”, Comunidade do blog do Luis Nassif
[4] Edvard Munch sobre "O Grito"
[5] Hugo Albuquerque, blog do Azenha
[6] Gilmar Mendes, “Nesse caso, o próprio presidente da República é chamado às falas, ele precisa tomar providências.”, 31/08/2008
[7] Paulo Henrique Amorim, “GOLPE JÁ DEU CERTO: EISENHOWER NÃO MANDA NA CIA” 04/09/2008
[8] Luzete, comentário na Comunidade do blog do Luis Nassif
[9] Alexandre Carlos Aguiar, comentário na Comunidade do blog do Luis Nassif
[10] Justo, comentário na Comunidade do blog do Luis Nassif
[11] Nélson Rodrigues, “Só os profetas enxergam o óbvio.”
[12] Daniela Pinheiro, “O Consultor”, Revista Piauí
[13] Jair Alves, comentário na Comunidade do blog do Luis Nassif, “Outro dia tive o desprazer de ver um comercial de tevê usando a seguinte frase "sem medo de ser feliz" vendendo implante de dente.”
[14] Florestan Fernandes
[15] Alexandre Carlos Aguiar, comentário na Comunidade do blog do Luis Nassif
[16] Carlos, comentário na Comunidade do blog do Luis Nassif
[17] Fábio Alencar, comentário na Comunidade do blog do Luis Nassif
[18] Eduardo Ramos, comentário na Comunidade do blog do Luis Nassif, “O que eu penso que ele errou, foi ele errou, foi não ter confrontado a oposição e a mídia em situações pontuais, como esse caso agora, do grampo. E não ter ampliado ações contra a corrupção, além da totalmente desnecessária política monetária."
[19] Julio Sergio Gomes de Almeida, ex secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, demitido por ter criticado a política monetária do BC e seus efeitos sobre o câmbio, 04/04/2007
[20] Liu Sai Yam, comentário na Comunidade do blog do Luis Nassif
[21] Sérgio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil”
[22] Gramsci, citado por Chapeuzinho Vermelho, comentário no blog do Luis Nassif
[23] João Vergilio, comentário no blog do Luis Nassif
[24] Clever Mendes de Oliveira, comentário no blog do Luis Nassif
[25] Luis Nassif, “ O parto de uma nação”
[26] Enigma, “The return to innocence “

07 maio 2008

grau zero [1]

pouco importa a pronúncia, é hora de se deixar arrebatar pela magia do momento, pois o Brasil foi declarado um país sério e merecedor da confiança internacional [2], ombro a ombro com o Cazaquistão. [3]

não, não dá mais para endossar esse samba de uma nota só: ah, são os juros, os juros... [4] e agora? talvez reclamem das agências de risco... [5]

ainda bem que o mercado não presta nenhuma atenção a tal orquestra desafinada, preferindo apenas ouvir seu solista mais virtuoso. [6] visto que o BC se preocupa mais com a inflação futura do que com taxas imediatas. daí a importância das expectativas de inflação. [7]

foi cruzada uma fronteira importante e se abre uma estrada mais fácil de ser trilhada. [8] é o resultado da persistência de uma política econômica coerente, baseada no tripé responsabilidade fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação. [9]

também recomenda-se cautela. não podemos achar que é o fim da linha. o fato de o Brasil ter sido campeão do mundo não significa que o título será eterno. se jogar mal, perde o título. [10]

mas como? se o foco das agências de risco não é o crescimento ou o bem-estar da população. e se nem mesmo considera uma análise completa de todos os aspectos da economia de um país. e se trata tão-somente de uma avaliação acerca da probabilidade de que o país pague aquilo que deve... [11]

a classificação da Standard & Poor's deveria ser tão importante? a resposta é não! como foi aprendido com a crise do sub-prime, é perigoso se dar tanto peso à avaliação de uma agência de classificação. [12]

será que recebemos de presente uma maçã envenenada? uma futura herança maldita? [13]

o problema estrutural da economia brasileira é sua condição de "economia reflexa", que apenas se adapta a ciclos externos e, por isso, não constitui um projeto próprio de desenvolvimento. aprofundamos essa condição ao nos inserir no processo de globalização, principalmente, pelos fluxos financeiros, ao contrário das economias asiáticas, que privilegiaram a inserção pela produção e o comércio. [14]

com uma nova rodada de apreciação cambial, se aprofundará a tendência ao desequilíbrio em conta corrente e se consolida uma economia baseada em indústrias maquiadoras e na produção de commodities. mas essa é uma questão para o futuro, um tempo em que os especuladores de hoje não estarão mais aqui. [15]

como o BC está ampliando o diferencial entre o juro brasileiro e o americano, em vez de diminuí-lo, ficamos na iminência de um ataque especulativo ao contrário. na esteira da nota "investment grade", a entrada de capitais no país pode assumir proporções nunca antes experimentadas pelo nosso Banco Central. passamos do risco de calote ao risco de cassino. portanto, ser considerado "investimento seguro", neste momento, é algo bem arriscado. [16]

e o que dizer sobre o surpreendente timing de se conceder o grau de investimento bem no meio de um ciclo econômico que está prestes a virar? [17]

causa espanto o momento da decisão: um cenário externo hostil, marcado pelo temor de recessão mundial e de inflação. assumiu-se o risco de fazer um upgrade importante em um momento complicado para a economia mundial e para as próprias agências, devido aos ratings dos subprimes. não se esperava um movimento tão importante. [18]

não há nada de mágico no atual momento brasileiro. o que há é muita mágica. [19]


[1] Agência Standard & Poor's promove o Brasil a grau de investimento, 30/04/2008
[2] Lula, “O Brasil vive um momento mágico. Eu não sei nem falar direito a palavra ["investment grade'], mas, se a gente for traduzir isso para uma linguagem que os brasileiros entendem, o Brasil foi declarado um país sério, que tem políticas sérias, que cuida das suas finanças com seriedade e que, por isso, passou a ser merecedor de uma confiança internacional que há muito tempo necessitava.", 01/05/2008
[3] o grau de investimento tem dez subdivisões, e, com a elevação de "BB+" para "BBB-", o Brasil alcançou o nível mais baixo dentro dessa categoria, ao lado da Índia e do Cazaquistão.
[4] Paulo Leme, Departamento de pesquisa de mercados emergentes do Banco Goldman Sachs, 02/05/2008
[5] “Talvez agora reclamem das agências de risco”, Alexandre Schwartsman, 02/05/2008
[6] “Não atrapalhem o Banco Central!”,Valor Econômico, 28/04/2008
[7] Mario Torós , Diretor de Política Monetária do BC, 30/04/2008
[8] Luiz Carlos Mendonça de Barros, “Cruzando uma fronteira importante “, 02/05/2008
[9] “Talvez agora reclamem das agências de risco”, Alexandre Schwartsman, 02/05/2008
[10] Armínio Fraga, ex-Presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, 02/05/2008
[11] “Talvez agora reclamem das agências de risco”, Alexandre Schwartsman, 02/05/2008
[12] John Authers, Financial Times
[13] César Benjamin, “A futura herança maldita”, 03/05/2008
[14] César Benjamin, “A futura herança maldita”, 03/05/2008
[15] César Benjamin, “A futura herança maldita”, 03/05/2008
[16] Paulo Rabello de Castro, “A mágica do investment grade”, 07/05/2008
[17] Thomas Trebat, Diretor do Centro de Estudos do Brasil da Universidade Columbia, 01/05/2008
[18] “BCs discutem inflação” , Correio Braziliense, 05/05/2008
[19] Paulo Rabello de Castro, “A mágica do investment grade”, 07/05/2008

30 abril 2008

a falta que não deixa fazer...

não é possível deixar de reconhecer que a autonomia do Banco Central implica um evidente déficit democrático. o Copom está dominado por um pensamento único, redundando em comportamentos idiossincráticos, apoiados não em evidências empíricas fortes, mas na perversão religiosa de um suposto conhecimento "científico" inspirado na imoralidade ínsita no DNA do sistema financeiro. [1]

juros mais elevados costumam cobrar o seu preço em termos de crescimento da economia e desemprego. o produto e o emprego acabam prejudicados pela contração da demanda, pela perda de dinamismo das exportações e pela substituição de produção doméstica por importações. os juros mais altos elevam o custo da dívida interna e desajustam as contas governamentais. concentram a renda, pois beneficiam a minoria de privilegiados que são credores diretos e indiretos do governo. e, como se isso tudo não bastasse, contribuem para agravar a valorização do real, ameaçando recriar o problema da vulnerabilidade externa no médio prazo. [2]

mantendo-se como o bastião inexpugnável que se outorga a única missão de conservar blindada a maior taxa de juros reais do mundo, o Copom entende estar, de fato, contribuindo para a sustentação do crescimento ao evitar que a maior incerteza detectada em horizontes mais curtos se propague para horizontes mais longos. [3]

com efeito, a balança comercial brasileira fechou a terceira semana deste mês com uma queda de 63,7% em relação ao resultado de 2007. na comparação entre os resultados do mesmo período, as exportações cresceram 3,1%, contra uma alta de 30,7% das importações. [4]

as contas do Brasil com o exterior tiveram o pior março já registrado pelo BC, que começou a coletar dados em 1947. considerando todas as transações de comércio - serviço e financeiras -, o resultado foi um déficit de US$ 4,429 bilhões, resultado que surpreendeu o mercado e o próprio BC. foi também o pior primeiro trimestre da história: US$ 10,757 bilhões de déficit. se for confirmada a previsão para abril, um saldo negativo de US$ 2,8 bilhões, o déficit superará, em quatro meses, o total estimado BC para o ano, que é de US$ 12 bilhões. o envio de recursos ao exterior a título de pagamentos de lucros e dividendos atingiu US$ 4,345 bilhões, o maior valor mensal já registrado. No trimestre, foram US$ 8,662 bilhões, também recorde para o período. [5]

o aumento das remessas de lucros e dividendos é causado por quatro fatores:

- os fortes investimentos diretos e em Bolsa, que aumentam o volume de capitais estrangeiros aplicados no país;
- a valorização do real, que aumenta os lucros, quando convertidos em dólares;
- o bom desempenho da economia, que aumenta o lucro das empresas;
- a crise internacional, que leva algumas empresas a remeter resultados ao exterior para cobrir prejuízos registrados em outros países. [6]

a tragédia brasileira é que o governo Lula deu certo para os de cima, para as classes dominantes. quem ganha dinheiro com esse governo? o sistema financeiro e o grande capital produtivo. e perdem com isso os assalariados médios, os de base. os interesses de cima estão absolutamente preservados e garantidos, e a relação com as massas pode prescindir dos partidos. [7]

é nítida também uma migração da base social do governo Lula. muito embora esse governo tenha sido eleito com o apoio da classe trabalhadora organizada, sindical e politicamente, hoje é cada vez menos ancorado nesses setores e cada vez mais respaldado pelas parcelas mais empobrecidas da classe trabalhadora, que não têm emprego, trabalham sem organização sindical e política e vivem da esmola vergonhosa que o governo dá sob o nome de Bolsa Família, que hoje atinge 11 a 12 milhões de famílias, cerca de 60 milhões de pessoas. [8]

há quem diga que se Lula não tivesse cumprido os compromissos assumidos com o mercado financeiro teria caído. entretanto, quem dá o golpe se o povo elegeu e reelegeu esse cara da forma como o elegeu e, sobretudo, como o reelegeu? a mídia compactamente contra ele, todo dia soltando informações sobre corrupção, envolvimentos terríveis com o que há de pior etc. etc., e assim mesmo ele foi reeleito. não havia condições para nenhum tipo de golpe. Lula é um sujeito extremamente dotado, além de tudo tem um QI muito bom. mas os grandes estadistas também precisam ter coragem. o que falta é peito, falta coragem. [9]



[1] Delfim Netto, “Prestar contas”, 23/04/2008
[2] Paulo Nogueira Batista Jr. “Juros e inflação”, 24/04/2008
[3] Ata do Copom, 24/04/2008
[4] Folha Online, 23/04/2008
[5] Lu Aiko Otta, O Estado de São Paulo, 29/04/2008
[6] Altamir Lopes, Chefe do Departamento Econômico do BC, Valor Online, 29/04/2008
[7] Ricardo Antunes, entrevista ao Correio da Cidadania, 08/04/2008
[8] Ricardo Antunes, entrevista ao Correio da Cidadania, 08/04/2008
[9] Mino Carta, Revista do Brasil, abril de 2008

22 abril 2008

derrama

essa não é ainda a pátria com a qual Tiradentes sonhou e, mais do que isso, pela qual morreu. o fato do Brasil ter os juros mais altos do mundo, distancia o país do seu potencial de desenvolvimento e nos conduz ao alto desemprego. [1]

num filme conhecido, reprisado diversas vezes desde o Plano Real, mais uma vez se interrompe o ciclo de recuperação da economia e aprecia-se o câmbio. o déficit em transações correntes, já com forte aumento, deverá se acelerar explosivamente. em relação ao controle da taxa de inflação, são dúbios os efeitos dessa elevação dos juros. a alta da taxa de inflação se deve à inflação importada, isto é, ao aumento dos preços de alimentos, petróleo e derivados, produtos siderúrgicos e outras commodities, todas com pressões vindas do exterior, o que nos diz que a taxa de juros brasileira será incapaz de afetá-la. [2]

a inflação que vemos é provocada pela disparada dos preços das commodities devido ao crescimento da demanda dos países asiáticos. com a desaceleração da economia mundial e a recessão nos Estados Unidos, a China vai junto e a Índia também, arrefecendo as pressões inflacionárias. se o Brasil quer algum dia crescer em um ritmo forte, o caminho tem de ser baixar os juros. se a taxa ficar na casa dos 14%, o país nunca vai realizar todo o seu potencial. [3]


os juros pressionam a inflação, pois fazem parte do custo de produção e comercialização. esses custos são repassados para o trabalhador, que não pode fazer o mesmo. o verdadeiro redutor de custos é a redução salarial. no Brasil a inflação nada tem a ver com excesso de demanda. o crescimento do salário e emprego nos últimos 24 meses foi ridículo. o estoque da dívida é afetado sem justificativa a cada alta dos juros, o que provoca aumento de gastos do governo. embora a participação da dívida pública atrelada à Selic possa estar caindo, isto se deve aos outros títulos pagarem ainda mais caro. [4]

a política monetária brasileira não é apenas imbecil, [5] assim como ontem Tiradentes via sangrar de nossas Minas Gerais o ouro, se vê hoje nos bilhões e bilhões repassados ao sistema financeiro do mercado o seqüestro de nossas esperanças, o adiamento de nossas aspirações legítimas e urgentes. [6]

a terra tão rica e – ó almas inertes! – o povo tão pobre... ninguém que proteste! todos querem liberdade, mas quem por ela trabalha? quem morre, para dar vida? quem quer arriscar seu sangue? pois os heróis chegam à gloria só depois de degolados. antes, recebem apenas ou compaixão ou desdém. [7]


[1] José Alencar, como Presidente interino, em Ouro Preto (MG), 21/04/2008
[2] Yoshiaki Nakano, “Juros na contramão “, 20/04/2008
[3] Leo Abruzzese, diretor editorial da consultoria Economist Intelligence Unit, que publica "The Economist", 20/04/2008
[4] Dércio Garcia Munhoz, entrevistado por Rogério Lessa, 22/04/2008
[5] José Alencar, como Presidente interino, em Ouro Preto (MG), citando Maria da Conceição Tavares, 21/04/2008
[6] José Alencar, como Presidente interino, em Ouro Preto (MG), 21/04/2008
[7] Cecília Meireles, “Romanceiro da Inconfidência”

19 abril 2008

torcicolo

muito embora tenha garantido que uma elevação da taxa básica de juros não traria qualquer transtorno [1], no dia seguinte ao aumento da Selic em 0,50% Lula amanheceu com o pescoço imobilizado por causa de um torcicolo. [2]

ainda mais improvável do que alguém que não tem pescoço sentir dor de torcicolo [3] teria sido o BC recuar de seu anunciado ajuste dos juros. [4]

contrariando a maior parte das expectativas, inclusive do mercado financeiro, que apostava em alta de 0,25 ponto percentual, o Copom entendeu “realizar, de imediato, parte relevante do movimento da taxa básica de juros a fim de contribuir para a diminuição tempestiva do risco que se configura para o cenário inflacionário e, como conseqüência, para reduzir a magnitude do ajuste total a ser implementado”. [5]

talvez a origem do problema no pescoço do Presidente tenha sido apenas contrariedade com resultados de partidas de futebol [6], mas seja como for todos no Palácio do Planalto já tinham absorvido uma subida de 0,25% ponto, como esperava a maior parte do mercado, “mas 0,50 foi demais". [7]

o governo Lula, que teve suas origens na esquerda mas optou por assumir a política e as preocupações da direita [8], realiza magistralmente aquilo que o governo de FHC fez apenas razoavelmente bem [9], criando as condições para corações e mentes da sociedade brasileira serem conquistados pelo slogan definitivo do mercado: o maior e mais incontestável sucesso do governo é a política econômica, que proporciona estabilidade e crescimento, além de bancar os programas sociais. [10]

o resultado da estabilização da economia brasileira alcançada com o Plano Real foi conservador, mantendo o controle da inflação ao custo de uma explosão da dívida pública, o que concede enorme poder de chantagem aos chamados "mercados", entidade abstrata que, muito concretamente, financia a dívida pública brasileira [11] e se rentabiliza com a mais alta taxa de juros reais do mundo. [12]

atualmente, cerca de um terço da dívida do governo federal é atrelada à Selic. caso esse novo patamar de juros seja mantido pelos próximos 12 meses, o custo fiscal da medida será de cerca de R$ 2,9 bilhões. [13]

um dia após o anúncio do Copom, o Dólar terminou vendido a R$ 1,657 - menor cotação desde maio de 1999. ao se considerar os últimos 12 meses, o Real lidera entre as principais moedas com maior valorização frente ao Dólar: 18,61%. no mercado brasileiro, o Dólar já recuou 5,48% apenas neste mês de abril de 2008, incluindo a queda de 0,42% no dia posterior ao reajuste da Selic. [14]

a elevação dos juros terá efeito em relação às expectativas dos empresários. vai ter impacto nas pessoas ou empresas que estão tomando crédito e na dívida pública. pode também atrair ais recursos estrangeiros especulativos para o país. teremos uma taxa de câmbio ainda mais valorizada, com maior dificuldade para a exportação e maior estímulo à importação, além da substituição de produtos nacionais por importados. [15]

ao "mostrar os dentes" para Lula e para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, [16] o BC, que reclama dos grupos de interesse, como Fiesp e CNI, mas não menciona os interesses do mercado financeiro [17], abocanha a economia brasileira como um todo e pode reduzir drasticamente a sustentabilidade do atual ciclo de crescimento. [18]

embora tenha sido precedida por alertas, vindos de analistas econômicos dos mais variados matizes teóricos e ideológicos, de que elevar os juros seria uma decisão precipitada [19], a decisão unânime pelo aumento em 0,50 ponto, acima até da expectativa de 0,25 ponto, indica como a composição do Copom é monolítica e fechada com uma única visão da política econômica.

isto não é apenas inadmissível num órgão técnico. é totalmente inaceitável numa democracia.

por se esforçar demais em agradar ao mercado, o BC acaba adotando os horizontes extremamente curtos do mercado como seus próprios. com isto se cria uma retroalimentação perigosa, em que o mercado reage exageradamente a percepções sobre o que o BC podera fazer, e o BC recorre ao mercado para se orientar sobre o que deveria fazer. [20]

o BC age como um destreinado atirador do tiro-ao-pato, que, tendo um projétil que leva alguns segundos para chegar ao alvo, sempre mira o ponto em que o pato se encontra no momento do tiro - e não o ponto seguinte. no final de 2007 houve uma mudança no patamar dos preços internacionais de alimentos, o que leva de dois a três meses para chegar ao varejo e só agora se verifica. ao mesmo tempo, a elevação no preço dos alimentos corrói o poder aquisitivo do consumidor, reduzindo o disponível para a compra de bens duráveis ou de novos financiamentos. além disso, há outro vôo do pato sendo percorrido, que é do aumento dos investimentos internos, ampliando a capacidade instalada de indústria. [21]

usando a política monetária para combater suspiros inflacionários [22] a ditadura do Copom inicia um novo ciclo de alta da Selic e condena o Brasil ao eterno vôo da galinha. [23]


o Brasil tem um Banco Central independente de fato, mas cuja independência foi imposta pelo sistema financeiro, sem que viesse acompanhada de nenhum tipo de regulamentação. criou-se assim uma instituição fechada, opaca, guardiã de interesses rentistas, permanentemente contracionista, inimiga do crescimento e socialmente irresponsável. a qualquer pretexto, impunemente, puxa o gatilho dos juros e ataca os suspeitos de sempre, misteriosas ameaças de inflação. [24]




[1] Lula, entrevista no Palácio Noordeinde, na Holanda, 12/04/2008
[2] Valor Online, 17/04/2008
[3] comentário da Primeira-Dama, Marisa Letícia:”Como é que pode alguém que não tem pescoço, ter dor de pescoço?”,Agência Brasil, 17/04/2008
[4] ata do Copom, divulgada em 13/03/2008, “a opção de realizar, neste momento um ajuste na taxa básica de juros"
[5] nota divulgada após a reunião do Copom, em 16/04/2007: "O Comitê entende que a decisão de realizar, de imediato, parte relevante do movimento da taxa básica de juros irá contribuir para a diminuição tempestiva do risco que se configura para o cenário inflacionário e, como conseqüência, para reduzir a magnitude do ajuste total a ser implementado"
[6] Lula comentou que não sabia se a origem do problema [torcicolo] tinha sido a “alta dos juros ou o massacre do Corinthians pelo Goiás”, Agência Brasil, 17/04/2008
[7] Vicente Nunes, citando comentário de auxiliar de Lula, logo depois do final da reunião do Copom, “Uma tacada forte”, Correio Braziliense, 17/04/2008
[8] Paulo Passarinho, “Banco Central: sitiado ou estrela-guia?”, 18/04/2008
[9] Ricardo Antunes, entrevista ao Correio da Cidadania, 08/04/2008
[10] Nelson Mota, “Do sonho ao pesadelo”, Folha de São Paulo, 18/4/2008
[11] Marcos Nobre, “Juros: teoria e prática”, Folha de São Paulo, 15/04/2008
[12] com a Selic em 11,75%, o Brasil manteve o título de campeão mundial de juros altos, com taxa real de 7,1%
[13] segundo o secretário do Tesouro, Arno Augustin, citado em matéria na Folha de São Paulo, 18/04/2008
[14] Fabricio Vieira e Denyse Godoy, Folha de São Paulo, 18/04/2008
[15] Marcio Pochmann, declaração à Folha de São Paulo, 18/04/2008
[16] Kennedy Alencar, citando palavras de um Ministro do Governo Lula, Folha de São Paulo, 18/04/2008
[17] André de M. Modenesi, Miguel Bruno e Salvador Werneck Vianna, “Reversão preventiva na política monetária”, nota técnica do Ipea, 04/2008
[18] André de M. Modenesi, Miguel Bruno e Salvador Werneck Vianna, “Reversão preventiva na política monetária”, nota técnica do Ipea, 04/2008
[19] “Precipitação”, editorial da Folha de São Paulo, 18/04/2008

[20] Alan Blinder, citado em “Macroeconomia da estagnação”, de Luiz Carlos Bresser-Pereira
[21] Luis Nassif, “O BC e o tiro-ao-pato”, 18/04/2008
[22] Paulo Godoy, Presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Base (Abdib), citado por Vicente Nunes, “Uma tacada forte”, Correio Braziliense, 17/04/2008
[23] Abram Szajman, Presidente da Federação do Comércio de São Paulo (Fecomercio), citado por Vicente Nunes, “Uma tacada forte”, Correio Braziliense, 17/04/2008

[24] César Benjamin, “Os suspeitos de sempre”, 19/04/2008