04/06/2026
Comentário ao artigo: "O futuro fugiu. 2"
João Bernardo pergunta:
《 Será possível que o Estado obtenha os resultados da liberdade dos trabalhadores, sem a liberdade dos trabalhadores?》
A resposta passa pela aplicação de um inovador conceito cunhado pelo próprio João Bernardo: a classe dos Gestores.
No prosseguimento do artigo fica exposta a dinâmica dos Gestores como classe dominante no Capitalismo "com características chinesas", a partir do exemplo do Grupo Hodo.
Os altos executivos do grupo econômico também ocupam os cargos de direção no Partido, fazendo ambas hierarquias espelhar uma a outra.
João Bernardo pergunta:
《[...] a burocracia dominante poderá prescindir do totalitarismo político porque se confundirá com a oligarquia económica ou, pelo contrário, que pretenderá confirmar-se como oligarquia económica mediante a manipulação do totalitarismo político?》
A resposta passa pela compreensão de como na China a ilusória dicotomia entre os planos econômico e político jaz desmascarada. Porque os dois nada mais se constituem além de formas tributárias da Democracia Liberal Representativa Burguesa.
Na China os Gestores dominam simultaneamente as organizações empresariais e as instituições políticas. Os proprietários dos meios de produção já não são os burgueses. Mesmo quando o são formalmente, sempre pesa sobre eles o veredito final do politiburo tecno-burocrático.
E disto é emblemático o exemplo de como os Gestores lidaram com a bolha imobiliária chinesa. Encaminhei os dados em meu comentário anterior.
João Bernardo encerra o artigo com uma indagação:
Poderiam os Gestores fugir de um futuro no qual geram um outro modo de produção?
Uma indicação de resposta pode ser encontrada na sequência de expurgos recentes levada a cabo na China.
A classe dos Gestores na China se prepara para um conflito global, através do qual pretende se assumir como Hegemon. Estaria a Burguesia com sede nos EUA em vias de extinção? Ou sobreviverá como peça viva de museu, como as aristocracias européias?
Seja como for, o neoliberalismo parece ser a última etapa do Capitalismo. O nazi-fascismo foi um anúncio desse esgotamento.
Sendo o atual modelo chinês parte do desenvolvimento de um novo modo de produção, cujo ensaio inicial foi a URSS stalinista.
O novo regime unirá em si o aspecto mais desumano do Capitalismo neoliberal com o mais atroz do Capitalismo de Estado, combinando a extrema alienação das relações entre os homens com um controle social sem precedentes.
Será o fascismo do século XXI. Estamos condenados a esse futuro?
Patrícia Quintino também pergunta: Qual a chave para emancipar o futuro?
João Bernardo enseja uma resposta na parte 3 da série: 《 A nossa matéria-prima é o presente.》
Eu acrescento: a chave para o futuro é o presente. Ou, em outras palavras: como estar presente no presente? Ou ainda: como no presente ser um operador da chave para o futuro?
Afinal, do que se trata a presença? Talvez seja a habilidade e a sabedoria de compartilhar a fragilidade frente a contradição entre a absurda beleza da vida e o horror de horrores do mundo.
Só estamos genuinamente presentes no presente ao sermos capazes de nos engajarmos na co-criação de um outro futuro.
Nas palavras de João Bernardo: Libertar o presente do jogo de espelhos entre « uma longa memória do passado» e uma《longa antecipação do futuro».
Ou, nas palavras de Patrícia Quintino:
《 [A chave] Será forjada na prática – no corpo a corpo com quem ainda insiste em querer um amanhã que não seja o apocalipse ou o supermercado.》
E a IA?
João Bernardo assinala: 《 [...] a Inteligência Artificial é cada vez mais usada para impor um controle político.》
Seria a IA tão somente a versão atual da máquina a vapor dos primórdios do Capitalismo e da revolução industrial? Ou há alguma inovação histórica?
Sobre a IA, o podcast "A IA como plataforma de relação"

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