13 maio 2016

o Brasil & o Brasil

13/05/2016

o Brasil & o Brasil ocupam o mesmo espaço geográfico, mas isto é tudo que compartilham: apenas o território. no mais só existem diferenças irreconciliáveis. são tão incompatíveis que agora se enfrentam num estado de guerra civil de baixa intensidade.

um Brasil é autoritário, elitista, repressor, preconceituoso, discriminatório, machista, racista, homofóbico, moralista...

o outro Brasil é habitado pelo Povo Brasileiro. um Povo sem Medo, esta construção única, do sincretismo multicultural e da miscigenação. esta visão do paraíso que levou os estrangeiros, invasores e emigrantes, a se encantarem e a nós se misturarem, deglutidos por nossa voraz e generosa antropofagia.

o Brasil & o Brasil agora chegam a um impasse. já não suportam coexistir imbricados um no outro. a fronteira geográfica inexistente acabou ganhando demasiada densidade, a ponto de comprometer todas as relações, desde o cotidiano até as grandes decisões federais.

o Brasil & o Brasil estão em secessão.
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07 maio 2016

as 3 camadas da arquitetura do caos

07/05/2016



1. a interna e imediata: um setor dominante historicamente escravagista e colonial tem como único projeto manter sua subserviente condição de sócio minoritário do grande interesse internacional. negociam o pré-sal e almejam o fim dos direitos trabalhistas;

2. a externa e geopolítica: redefinição da institucionalidade mundial sob a égide da tirania financeira. o espectro da dominação total: um mundo pós nacional, prescindindo da democracia, com uma governança global e a serviço de mega corporações cartelizadas. ordenação jurídica através de acordos trans-nacionais: TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), TPSEP (Acordo de Parceria Econômica Estratégica Trans-Pacífico) e TISA (Acordo sobre o Comércio de Serviços);

3. Millenium: neo-fascismo, capitalismo como religião, zumbificação, anomia, admirável mundo novo, robótica, engenharia genética, nanotecnologia, singularidade científica, anti-Cristo...
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04 maio 2016

surtos

04/05/2016


com o Brasil em transe, os surtos delirantes se propagam. tudo agora são performances. tudo é excessivamente simbólico. o choque de realidade gerado pela farsa dantesca encenada pela insurreição dos hipócritas no teatro de horrores da Câmara, na votação do impeachment, tornou tudo surreal.

o espelho quebrou. a identificação acabou. a representação morreu. a identidade se perdeu.

enquanto o velho país se recusa a morrer, o novo Brasil luta decididamente para nascer. o dragão agoniza. a fênix alça vôo. não há retorno.

há um pólo fascista e paranóico: Bolsonaro, Janaína Paschoal, medalhas para torturadores. há um pólo libertário e transformador: ALESP ocupada por secundaristas, uma descentralizada e autônoma profusão de atos e manifestações contra o golpe, a emergência de um novo tipo de militância já não mais separado de um novo tipo de vida.

entre os dois pólos o território das neuroses, onde vagam seus variados distúrbios. com a hiper conexão que torna tudo obscenamente escancarado, o Alzheimer político entra em colapso. os afetados pela Síndrome do Crepúsculo anseiam voltar para uma casa que já não existe. Édipo já não pode esconder seu desejo mais secreto: arrastar-se de volta para o protetor e aconchegante útero materno. mas como retornar de uma viagem definitiva? é preciso vir à luz. todos buscam uma saída, mas só é possível distinguir portais de entrada.

não há mais saídas. não vamos sair desta crise. nem no plano social, nem no âmbito pessoal.

ou afundamos através do portal que conduz ao Estado de exceção, materializando alguma forma de neo fascismo. ou radicalizamos o compromisso com a Democracia, refundando uma República autenticamente baseada na participação popular. e este é o único portal que pode nos conduzir a algum futuro.

chegou a hora de rejuvenescer.
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03 maio 2016

é cada mancada...





27 abril 2016



Dilma Roussef - ONU




12 março 2016

13/03/2016: o dia que nunca aconteceu versus o dia que nunca vai acabar

12/03/2016

1. quando a Ditadura constatou que perdera o controle sobre seus porões, Golbery concebeu uma distensão lenta, gradual e segura. sua estratégia foi tão bem sucedida que até hoje a Ditadura perdura. o aparelho de repressão continua intacto, pronto a ser reativado. estruturas altamente hierarquizadas, quando frente ao vácuo do poder central, tendem a se esfacelar numa luta de grupos agindo autonomamente. a Dilma que venceu as eleições de 2014 ainda não tomou posse. é uma Presidente ausente deixando que se execute o programa derrotado nas urnas. enquanto a Esquerda se retrai, os golpistas estão em toda a parte, como uma horda de zumbis avançando para devorar o mundo dos vivos.

2. subitamente a crise política é retirada do primeiro plano e a grande mídia se rende à intrusão da crise climática. São Paulo, a eterna capital do golpismo e a grande Babilônia brasileira, exibe seus horrores: uma cidade inviável, a inabitável obra máxima dos oligarcas brasileiros. os semi deuses em sua suprema arrogância e ignorância se julgam capazes de manipular a História e o meio ambiente. mas crise climática também já cruzou o ponto de não retorno, tornando-se um agente político.

3. vivemos a rarefação da liderança nacional. não é apenas Dilma a inerte e inócua. já não temos mais grandes lideranças capazes de galvanizar os movimentos sociais. os intelectuais emudeceram. os setores à Esquerda ainda não consolidaram representantes à altura dos desafios da crise. enquanto Jean Wyllys e Guilherme Boulos avançam, Marcelo Freixo se mantém em eclipse. por outro lado, nos diversos setores em movimento, brotam inúmeras pessoas com enorme capacidade de liderança.

4. o projeto golpista em curso é extremamente claro em seus objetivos: entrega do pré-sal, privatizações, submissão do Brasil as mega corporações transnacionais através do TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), reforma da previdência, flexibilização das leis trabalhistas, desmonte da rede de proteção social estabelecida com a Constituição de 1988. como sempre, os golpistas tem um claro projeto que não se envergonham de desfraldar. 

e nós? o que defendemos? o que implica na prática, através de pontos específicos e objetivos, a Defesa da Democracia?

5. neste sábado (12/03/2016), estamos todos nós no tempo histórico suspenso entre o dia que nunca vai acabar e o dia que nunca aconteceu. seja como for, nada será como antes amanhã.
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02 dezembro 2010

epifanias
após os oito anos de lulismo em Brasília, é preciso evoluir do ponto de vista do preconceito, uma grave doença, para se tratar de reconhecer não apenas Sarney ter colaborado muito para que a institucionalidade se cumprisse [1], como admitir que Pelé só teve um, mas igual a Lula não vai ter. [2]

não há a menor dúvida de que estamos diante dessas coisas que ocorrem raramente, é um privilégio nosso termos diante de nós, o maior, o melhor, o mais extraordinário… mesmo daqui a cem ou duzentos anos não produziremos outro igual: o presidente Lula [3], o melhor presidente que o Brasil já teve. [4]
mas não é o Lula que está na Presidência, e sim a própria classe trabalhadora. pela primeira vez foi eleito um presidente que é a encarnação do povo! [5]
quiseram encontrar no mundo real a fraca imagem que suas almas indefinidamente contemplavam. não sabiam onde ou como procurá-las. uma premonição lhes disse que as imagens iriam encontrá-los, independente do que fizessem. iriam se encontrar tranqüilamente, como já se conhecessem, como já tivessem se reunido antes...  estariam sozinhos, cercados pela escuridão e pelo silêncio. num momento, eles mudariam. se desbotariam em algo impalpável diante de seus olhos e, naquele breve instante, se transformariam. subserviência, carreirismo, demagogia, fisiologismo, apadrinhamento, hipocrisia e  clientelismo tombariam diante deles naquele momento trágico. [6]

[1] questionado por um repórter se "agradeceria à oligarquia Sarney pelo apoio dado ao seu governo” Lula declarou: "Eu agradeço [aos Sarney] e a pergunta preconceituosa sua é grave para quem está há oito anos comigo em Brasília. Significa que você não evoluiu nada do ponto de vista do preconceito, que é uma doença. O presidente Sarney é o presidente do Senado. E o Sarney colaborou muito para que a institucionalidade fosse cumprida. Você devia se tratar, quem sabe fazer psicanálise, para diminuir um pouco esse preconceito", 30/10/2010
[2] Celso Amorim, entrevista à FSP, “Pelé só teve um, mas o Brasil foi cinco vezes campeão. Igual a Lula não vai ter.”, 15/11/2010
[3] Sergio Cabral, “Não tenho a menor dúvida de que estamos diante dessas coisas que ocorrem raramente, é um privilégio nosso estar aqui encerrando oito anos [de governo Lula]. São aquelas personalidades que, no esporte, por exemplo, aconteceu  com o Pelé: quem viu, viu, quem não viu tem o DVD. O Picasso também. Nós temos, diante de nós, o maior, o melhor, o mais extraordinário… Não sei se daqui a cem ou duzentos anos produziremos outro igual: o presidente Lula.”, 02/12/2010
[4] Collor, ao elogiar Lula por ter seguido uma agenda que, segundo o senador, foi implantada por ele quando ocupou a Presidência, "E melhorando o que eu fiz. O presidente Lula, a meu modo de ver, é o melhor presidente que o Brasil já teve”, 12/08/2010
[5] Lula, "Este País teve presidente que foi embora, presidente que se matou ou foi cassado. Eles vão saber que eu sou diferente. Que não é o Lula que está na Presidência, mas a classe trabalhadora. Este País já tinha criado as condições para o Getúlio Vargas se matar, não deixar o Juscelino assumir e cassou o João Goulart. Eu falei: o que eles vão aprontar comigo? E eles tentaram em 2005. Só que eles não sabiam que este País, pela primeira vez, tinha eleito um presidente que era a encarnação do povo, lá em Brasília.", 30/11/2010
[6] James Joyce,"Retrato de um Artista Quando Jovem"

30 outubro 2010

o PT e a sola dos sapatos de FHC [1]

em 1978, Lula e os metalúrgicos do ABC, além de defenderem um sindicalismo desatrelado do Estado, viam com grande desconfiança a participação na política institucional e parlamentar.

 apesar disto, Lula acabou apoiando, numa dessas voltas da roda da História, a candidatura de FHC ao Senado pelo MDB.

enquanto se desenrolava uma reunião do comitê de apoio e o vaidoso candidato discorria em seu tom professoral, algo nele chamava mais atenção que suas palavras acadêmicas.

de pernas cruzadas e com o pé sobre o joelho, era impossível não reparar a sola do sapato de FHC. elas não possuíam sequer um arranhão. aqueles sapatos sempre estiveram sobre pisos atapetados. aquele homem jamais pisava na rua. sempre circulava por gabinetes e ambientes climatizados.

naquele momento, ficou patente que pessoas como aquela jamais poderiam fazer com que, furando o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio, brotasse a Rosa do Povo.

ali o PT começou a ser gerado com a certeza que poderiam arrancar mil flores, mas jamais impediriam a chegada da Primavera.

então, a roda da História se pôs a girar mais decidida do que nunca no Brasil. pela primeira vez neste país, os trabalhadores reivindicavam a condição de protagonistas.

em 10/02/1980, o PT nasceu como um partido eminentemente não parlamentar, com foco no movimento social, firmemente apoiado nas bases, com um sólido conceito de democracia interna e voltado para a criação de um socialismo libertário.

muitas reviravoltas depois e ao chegar a Presidência da República, o PT se tornou a antítese daquele que sonhava ser a Primavera. seus dirigentes se converteram em arquétipos de burocratas e políticos profissionais. e se pode dizer que em nada ficam a dever ao solado dos sapatos de FHC...

o mundo mudou? ou mudaram de idéia? e daí... [2] ninguém mudou? é a vida que muda... [3]

de um organismo vivo e a serviço dos movimentos sociais, o PT foi reduzido a uma máquina burocrática para atender ambições pessoais. a militância petista abandonou as ruas e o partido consolidou o modelo de campanha eleitoral financiado pelos grandes empresários e conduzido pelos marketeiros. [4]

hoje, restou apenas um quadro na parede. um espantoso peixe cabeludo. assinado por José Sarney. [5]

mas como dói! [6]




[1] arkx, “a sola dos sapatos de FHC e a roda da História” 
[2] Zé Dirceu, 05/2003
[3] Lula, 05/2003
[4] arkx, “zé ninguém”
[5] “O Consultor”, Daniela Pinheiro, Revista Piauí, 01/2008
[6] Carlos Drummond de Andrade, “José”

28 outubro 2010

o lulismo e o nosso futuro [1]


algum dia Lula talvez tenha sido um socialista, mas agora é um discípulo de Margaret Thatcher... [2]


se em nos seus 8 anos de governo Lula manteve inalteradas as linhas de conduta do receituário neoliberal,  [3] com juros altos, superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante, como explicar que esta macroeconomia da estagnação [4] possa ter gerado a “mobilidade social” celebrada pelo lulismo?

no pátio dos milagres do lulismo todos os sinos repicam, pois através do pacto perverso entre o Bolsa Família e a Selic Banqueiro nasce a redenção dos miseráveis: [5] o paralítico atira para longe as muletas, o coxo se endireita sobre os pés e o cego encara com olhos que resplandecem. [6]

o marketing oficial lulista se ufana do número de pessoas situadas abaixo da linha da pobreza extrema ter caído de 21,3%, em 2003, para 10,5%, em 2008, o que representa mais de 20 milhões de pessoas que saíram do nível de miséria extrema. além disto, outras 31 milhões de pessoas teriam subido para a classe C, ou seja, ascenderam para a classe média. [7]

como se dão os milagres do lulismo?

a pobreza extrema é definida pelo rendimento médio domiciliar per capita de até um quarto de salário mínimo (R$ 127).  uma família de 4 pessoas com renda total de 1 SM ($ 510) está situada nesta faixa e também dentro do perfil para um benefício de até R$ 66 do Bolsa Família. consuma-se então o milagre da redenção dos miseráveis: com uma renda per capita de R$ 144 a linha de pobreza extrema é ultrapassada, muito embora a família continue sendo extremamente pobre...

já para ingressar na "nova classe média" lulista basta ter renda residencial de R$ 1.126 a R$ 4.854. portanto, uma família com cinco membros em que cada um receba metade do salário mínimo já tem seu ingresso garantido nesse tipo de "classe média", [8] mesmo que um rendimento médio domiciliar per capita de até meio salário mínimo seja também definido pobreza absoluta [9]. assim, o que se enxerga como o lado brilhante da pobreza [10] muitas vezes nada mais é que a pobreza absoluta da classe C lulista.

como se dão os milagres do lulismo? milagres sempre celebrados mas nunca realizados...

com a mesma política econômica, no período Lula a economia brasileira obteve um desempenho menos pior do que no período FHC, em razão do grande crescimento da economia mundial e com um melhor balanço de pagamentos do país, a política econômica pôde ser flexibilizada quantitativamente: o pagamento de juros da dívida pública para o capital financeiro pôde ser compatibilizado, momentaneamente, com mais crédito ao consumidor e mais gastos do governo, com a ampliação do Bolsa Família, o aumento real do salário mínimo e dos benefícios da Previdência Social. [11]

o aumento do nível de consumo dos segmentos de menor renda não deve ser identificado com a ampliação da classe média brasileira, a partir de um conceito estatístico, não sociológico, de classes sociais utilizado pelos institutos de pesquisa (classes A, B, C, D e E).  o que ocorreu foi uma redistribuição dos rendimentos do trabalho e uma quase manutenção da distribuição funcional da renda (entre capital e trabalho). [12]

por trás da vagarosa queda do índice de Gini, que mede o desnível entre os que recebem salário, há na realidade uma piora na repartição da riqueza entre o capital e o trabalho. com uma menor desigualdade entre os que vivem do próprio trabalho sendo compensada por um aumento da parcela apropriada pelos capitalistas sob a forma de lucros e dividendos. [13]

enquanto celebra milagres que não se realizam, o lulismo jamais se refere ao resultado real de sua política econômica: milagres às avessas.

considerando entre as moedas de 20 dos principais emergentes, o câmbio real efetivo brasileiro é o que mais se apreciou (88,7%) desde dezembro de 2003, 8% acima de 1998, quando o câmbio era fixo. [14]

a indústria de transformação passou de uma participação de 19,2% no PIB em 2004 para apenas 15,5% em 2009, segundo o IBGE. esse é menor percentual desde 1947 (16%) quando o Brasil ainda era um país agrícola e não possuía nenhuma montadora de automóveis. [15]

conforme estudos do Iedi, o Brasil aparece com um peso da indústria ainda menor (14,4%) no PIB, enquanto na China ela era de 35,4% e na Argentina de 16,8%, em 2008. [16]

de janeiro a junho de 2010, os produtos manufaturados responderam por 40,52% das exportações brasileiras, ao passo que os produtos básicos atingiram 43,38%. é a primeira vez desde 1978 que as exportações de básicos superam as exportações de manufaturados. [17]

em acelerado processo de desnacionalização do nosso parque produtivo, em franca trajetória de reprimarização de nossa pauta de exportações, aprofundando o processo de liberalização financeira e sem nenhuma autonomia na estratégica área de geração de conhecimentos científicos e tecnológicos, que possam atenuar nossa dependência externa, qual  nosso futuro sob o lulismo? que país, afinal, estamos construindo? [18]



[1] André Singer, “O lulismo e o seu futuro”
[2] Rupert Murdoch, 21/10/2020 ("Lula pode ter começado sua vida como um socialista, mas agora é um thatcherista.")

[3] André Singer, “O lulismo e o seu futuro”
[4] Luiz Carlos Bresser-Pereira, “Macroeconomia da Estagnação”
[5] arkx, “os miseráveis”
[6] Victor Hugo, “Notre Dame de Paris”
[7] cartilha de campanha do PT, “O Brasil no rumo certo: governo do PT x PSDB”
[8] Monitor Mercantil, "Nova classe média" aceita até quem ganha 1/2 salário”
[9] André Singer, “O lulismo e o seu futuro”
[10] Marcelo Néri, “A Nova Classe Média”
[11] Luiz Filgueiras, entrevista ao Correio da Cidadania
[12] Luiz Filgueiras, entrevista ao Correio da Cidadania
[13] André Singer, “O lulismo e o seu futuro”
[14] Folha de São Paulo, 29/10/2010
[15] Valor, 19/09/2010, em José Luis Oreiro (http://jlcoreiro.wordpress.com/)
[16] Valor, 19/09/2010, em José Luis Oreiro (http://jlcoreiro.wordpress.com/)
[17] O Globo, 09/08/2010, em José Luis Oreiro (http://jlcoreiro.wordpress.com/)
[18] Paulo Passarinho, “Os Anos Lula”

21 outubro 2010

construção de ruínas

devido aos programas sociais, a economia política do governo Lula costuma ser avaliada como a máxima concessão possível de ser arrancada aos mercados, fazendo da taxa de juros, mantida como a mais alta do mundo, e do câmbio apreciado, tornando o Real a moeda mais valorizada frente ao dólar, uma espécie de suborno oferecido aos grandes investidores para impedir qualquer chantagem que solape as condições de governabilidade, as quais, por sua vez, possibilitam a continuidade das políticas sociais. [1]

nos 8 anos de Lula, os programas sociais permaneceram periféricos e  compensatórios, e o governo sequer cogitou torná-los centrais a uma economia mantida, em seus fundamentos, como contracionista e excludente.

como então se explica o maior dos mistérios do lulismo: uma política econômica neoliberal ser capaz de gerar desenvolvimento e inclusão social?

no discurso lulista nada é verdade e nada tampouco é mentira: tudo são meias-verdade. através de distorções e de omissões, uma verdade desfavorável é convertida na meia-verdade conveniente.

para que o lulismo possa exaltar a recomposição do salário mínimo e a queda da taxa de desemprego entre suas supostas inigualáveis realizações, é preciso descontextualizar os dados e arbitrar pontos de corte favoráveis na série histórica.

o valor real médio do salário mínimo é de R$ 513 em 2010, apesar de bem superior aos R$ 316 de 2002, está ainda longe da média de R$ 638 em 1980 e muito distante do pico de R$ 1.345 em 1959. [2] além disto, o cálculo do salário mínimo necessário para setembro de 2010 é de R$ 2.047 contra um salário mínimo nominal de R$ 510. em dezembro de 2002 tais valores eram, respectivamente: R$ 1.378 e R$ 200. [3]

o desemprego caiu de 10,5% em dezembro de 2002 para 6,2% em setembro de 2010, mas a taxa de subemprego se elevou no mesmo período de 9,2% a 15,7%. na pesquisa mensal de emprego do IBGE, são considerados subempregados os que tem rendimento/hora inferior ao salário mínimo/hora. [4]

se em comparação com o período FHC a recomposição relativa do salário mínimo durante o governo Lula parece confirmar o ufanismo lulista, ao ser colocada em perspectiva histórica se mostra insuficiente e mesmo medíocre.

do mesmo modo, considerar isoladamente a queda do desemprego, levando em conta apenas a taxa de desocupação, somente mascara o aumento do subemprego no governo Lula, ocultando que a desocupação diminuiu através da oferta de postos de trabalho de remuneração muito baixa.

o lulismo vê a si próprio como a retomada da combinação de autoridade e proteção aos pobres que Getúlio encarnou, com Lula liderando as massas miseráveis dos grotões do Brasil profundo à ascensão social dentro da ordem e sem confronto. [5]

entretanto, retirados os efeitos ilusionistas do marketing político, com suas omissões e distorções estatísticas,  o que se vislumbra no horizonte da marcha do subproletariado lulista não é o paraíso de uma moderna São Bernardo reconstruída, e sim um infernal retorno às ruínas arcaicas de Canudos.

no  lulismo, tudo o que parece construção já é ruína...

[1] arkx, “uma esfinge sem enigmas”
[5] André Singer, "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo"

15 outubro 2010

a última bandeira da Direita

muito embora Lula tenha declarado que nas eleições de 2010, pela primeira vez, não haveria candidatos de Direita,  [1] até mesmo aqueles que apóiam Dilma reconhecem ter o lulismo roubado da Direita brasileira todas as bandeiras, consignas, justificações, discursos e narrativas. [2]

afinal, o que torna uma candidatura de Direita? a origem de classe do candidato? ou exatamente as bandeiras, consignas, justificações, discursos e narrativas?

um nordestino saído das entranhas do subproletariado para se tornar a maior liderança da classe trabalhadora brasileira e o primeiro Presidente da República saído do seio do povo, Lula finda seus 8 anos e governo como a mais bem sucedida operação conservadora da história brasileira.

o governo Lula teve suas origens na Esquerda mas optou por assumir as bandeiras da Direita, [3] eleito pelos de baixo, mas governando para os de cima, numa hegemonia às avessas. [4]

enquanto atende minimamente as demandas dos desfavorecidos e submete-se a quase totalidade das exigências dos poderosos, Lula faz aquilo que as classes dominantes nunca imaginaram que aconteceria: realiza magistralmente um programa neoliberal – algo que  FHC fez apenas razoavelmente bem -  [5] criando as condições para corações e mentes da sociedade brasileira serem conquistados pelo slogan definitivo do mercado: o maior e mais incontestável sucesso do governo é a política econômica, que proporciona estabilidade e crescimento, além de bancar os programas sociais. [6]

com o lulismo se convertendo na última e mais preciosa das bandeiras da Direita, tem certas coisas, no que tange a favorecer os que dominam fingindo defender os explorados, que só Lula é capaz de fazer... [7]


[1] Lula, 17/09/2009, em discurso na sede do Ipea
[2] Diário Gauche, "O atraso quer passar por vanguarda”
[3] Paulo Passarinho, “Banco Central: sitiado ou estrela-guia?”
[4] Francisco de Oliveira
[5] Ricardo Antunes
[6] arkx, “torcicolo”
[7] arkx, “suicídio”

10 outubro 2010



a teoria lulista

 o lulismo já tem sua teoria. [1]

reviradas pelo avesso do avesso, as concessões de Lula aos mercados são apresentadas como impositivas para conquistar o apoio do eleitorado de baixíssima renda. numa metamorfose da servidão voluntária do governo Lula ao capital financeiro em nada mais nada menos que a realização de um completo programa de classe em nome do subproletariado.

ao colocar Lula à frente de uma fração de classe tradicionalmente caudatária dos partidos da ordem, o lulismo pretende executar um programa de combate à desigualdade dentro da ordem. entretanto, trata-se da mesma ordem que reproduz a desigualdade sobre a qual ela própria se funda.

se na teoria o lulismo seria a retomada da combinação de autoridade e proteção aos pobres que Getúlio encarnou, na prática Lula projetou a cultura política para atrás de Vargas, revertendo-a no mínimo à República Velha (1889-1930), com a sua tralha de favores, hoje reforçada pela ampliação capitalista e pelas técnicas de controle sociocultural, monitorando as eleições desde as imagens dos candidatos até o mais recôndito sufrágio. [2]

Vargas fez São Paulo engolir goela abaixo um programa industrializante, reformista e socialmente avançado: [3] formou uma força de trabalho industrial, urbana, organizada. sua outorga de direitos ao trabalhador não gerou uma consciência autônoma, mas não explorou o puro assistencialismo. [4]

ao chegar à Presidência em 2002, Lula era a maior liderança histórica da classe trabalhadora brasileira, nascido das greves operárias e forjado nas organizações de base dos movimentos sociais.

ao final de seus dois mandatos, a  teoria do lulismo reduziu Lula a um nordestino saído das entranhas de um subproletariado, que por ser estruturalmente incapaz tanto de se organizar quanto de se representar, tem antes que ser representado, a partir da Presidência da República, pelo próprio Lula.

numa completa regressão política, o lulismo transmutou Lula em protetor paternal dos pobres, em líder das massas desorganizadas e incapazes de protagonizar, já que atomizadas pela sua inserção no sistema produtivo, necessitam de alguém que possa, desde o alto, receber a projeção de suas aspirações.

nem mesmo na teoria o lulismo é capaz de equacionar suas insuperáveis contradições. ao mesmo tempo se definindo como uma plataforma política de representação de uma certa fração de classe e também como um projeto nacional pluriclassista.

na combinação do Bolsa Família com o Bolsa BNDES, a teoria do lulismo enxerga o ressurgimento da aliança entre a burguesia nacional e o povo, mas não quer ver, e não pode ver, o que significa para a democracia brasileira a formação de duas clientelas governamentais, uma no andar de cima, com recursos para financiar campanhas, outra no andar de baixo, com votos para eleger. [5]

a teoria do lulismo é um ardiloso discurso ideológico que inverte e oculta a realidade concreta de um governo Lula focado em atender os grandes interesses da minoria, mas legitimando-se através de alguns poucos benefícios para a maioria.  

enquanto mantém pacificados os setores dominantes com o tripé fundamental do neoliberalismo (juros altos, elevado superávit primário e câmbio flutuante), o lulismo apazigua a imensa maioria, através das políticas sociais compensatórias: Bolsa Família, recomposição do salário mínimo, crédito consignado.

sob o lulismo, sem que haja qualquer risco de confronto social, nem os pobres deixam de ser pobres, como os ricos se tornam ainda mais ricos...

Bolsa Família, Selic banqueiro e os subsídios do BNDES ao megaempresariado formam a trindade operacional do lulismo: a ideologia do neoliberalismo à brasileira.

[1] André Singer, "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo" e “A história e seus ardis”
[2] “De casas, pastores e lobos”, Maria Sylvia Carvalho Franco
[3] “O avesso do avesso”, Francisco de Oliveira
[4] “De casas, pastores e lobos”, Maria Sylvia Carvalho Franco
[5] “A outra face do lulo-petismo”, Sérgio Fausto

06 outubro 2010

cão com dono
  
parcela expressiva dos eleitores de Dilma não demonstra qualquer pudor em declarar: "Se Lula indicasse um cachorro, a gente votaria no cachorro". [1]

conduzida pelo lulismo ao paraíso do consumo a crédito de eletroeletrônicos “Made in China”, a Classe C retribui as geladeiras, TVs de plasma, fogões, micro-ondas, DVDs e computadores com votos, muitos votos, seja em qual for o candidato indicado por Lula, ainda que fosse um cão...

muito embora a generosa gratidão depositada nas urnas pela “nova classe média”, é no subproletariado de baixíssima renda que o lulismo alicerça sua base social. [2]

o governo Lula foi eleito em 2002 com o apoio da classe trabalhadora organizada, sindical e politicamente, mas é cada vez menos ancorado nesses setores e cada vez mais respaldado pelas parcelas mais empobrecidas, que não têm emprego, trabalham sem organização sindical e política e vivem do Bolsa Família. [3]

no Brasil sempre foi a Direita quem monopolizou o voto de baixíssima renda. entretanto, a partir de 2006 verifica-se um realinhamento do eleitorado. um tradicional território do conservadorismo, os grotões do Norte/Nordeste, adere em bloco a candidatura Lula, que foi mais sufragado quanto menor o IDH do Estado, enquanto a votação da bancada federal do PT manteve‑se associada aos de maior IDH. como cerca de 63% do proletariado é constituído por subproletários, o subproletariado encontra-se no centro da equação eleitoral brasileira. Lula terminou amoldando-se a ele, muito mais do que o modelando.  [4]

público alvo por excelência do Bolsa Família, o subproletariado constitui uma imensa massa, cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecerem entre si um intercâmbio mútuo. na medida em que a similitude de seus interesses não gera entre eles organização política alguma, são incapazes de fazer valer seu interesse em seu próprio nome. não podem representar-se, têm que ser representados. seu representante tem que aparecer como seu senhor, como autoridade sobre eles, como um poder governamental que os protege das demais classes e que do alto lhes manda o sol ou a chuva. [5]

mas é preciso que fique bem claro. o lulismo representa não um subproletariado que luta para escapar às condições de sua existência social, mas antes um subproletariado conservador; não um subproletariado que anseia derrubar a velha ordem de coisas por meio de seus próprios esforços, mas, pelo contrário, aquele que, preso por essa velha ordem em um isolamento embrutecedor, quer ver-se a si próprio salvo e beneficiados pela mesma ordem que o oprime;  o lulismo representa não o esclarecimento, mas a superstição do subproletariado; não o seu bom-senso, mas o seu preconceito; não o seu futuro, mas o seu passado; não a sua São Bernardo, mas a sua Canudos. [6]
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o lulismo já tem sua teoria, e nela vê a si mesmo como um magnânimo árbitro pairando acima das classes. [7]

ao deslocar sua base eleitoral para os grotões do Brasil profundo, o lulismo promove um realinhamento das políticas locais subordinadas aos velhos coronéis. mas na prática Lula minou o poder das oligarquias regionais apenas para em seguida reciclá-las como aliadas, tornando-se ele próprio o grande neo-oligarca nacional: um governo para a minoria que se legitima através de algumas concessões à maioria.

na verdade, o lulismo bem que gostaria de aparecer como o benfeitor patriarcal de todas as classes. mas não pode dar a uma classe sem tirar de outra. [8]

nos currais eleitorais do lulismo são as políticas sociais compensatórias que puxam o voto de cabresto em seja qual for o candidato indicado por Lula, dono dos votos e do cão...



[1] Leonardo Rodrigues Lima, presidente da associação de moradores da favela da Rocinha
[2] André Singer, "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo"
[3] Ricardo Antunes, entrevista ao Correio da Cidadania, 08/04/2008
[4] André Singer, "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo"
[5] Karl Marx, “O 18 Brumário”
[6] Karl Marx, “O 18 Brumário”
[7] André Singer, "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo"
[8] Karl Marx, “O 18 Brumário”.