31 março 2026

Um domo de ferrugem, obsoleto e perdulário

31/03/2026
Um domo de ferrugem, obsoleto e perdulário 

《Em uma transmissão amplamente assistida, um comentarista militar sênior do Canal 12 analisou imagens de videogame como se fossem a documentação de um ataque americano ao Irã, acreditando ser a prova de um bombardeio contínuo.
“Estas são imagens americanas, estamos apenas nos divertindo com elas”, disse ele, enquanto pixels digitais piscavam na tela. “O B-2 está atacando há dias… O que estamos vendo é toda a força do poder norte-americano.” 》

O artigo já traz em si sua própria refutação 

O comentarista da TV israelense não cometeu um simples equívoco. Ele forneceu em tempo real um escandaloso exemplo de supremacismo, seja norte-americano ou israelense - pois os dois se imiscuem.

E não só. É também uma demonstração de crença religiosa na tecnologia, como se ela por ela mesma fosse o único fator determinando o curso de uma guerra. A tecnologia não pode ser avaliada abstratamente, e sim apenas numa situação concreta de combate.

O Irã já desmascarou o "algo próximo da maravilha tecnológica definitiva" (o sistema de defesa anti-míssil israelense) como ardilosa peça de propaganda, como também de auto-engano provocado pelo ranço do excepcionalismo. 

Os recentes ataques de mísseis do Irã expuseram a vulnerabilidade estratégica de Israel, que Telaviv não tem outra opção a não ser ocultar através de rígida censura à divulgação dos danos sofridos. 

O sistema de defesa aérea multinível de Israel era considerado um dos melhores do mundo:
  • O "Iron Dome" protege contra mísseis de curto alcance e projéteis de artilharia.
  • O "David's Sling" abate mísseis balísticos e de cruzeiro de médio e longo alcance.
  • E os sistemas Arrow 2 e Arrow 3 destinam-se a interceptar alvos balísticos a grandes altitudes. 
Cada nível era supostamente aperfeiçoado e eficaz. Mas a eficácia tem um preço, e este é medido em milhões de dólares por interceptação.

O custo de um míssil Arrow ronda os 3 milhões de dólares, os interceptores do "David's Sling" custam 700 mil dólares e até o "Iron Dome", relativamente barato, exige 50-70 mil dólares por cada lançamento. Quando se trata de ataques maciços, estes números são definidores.

Segundo dados norte-americanos, só nos primeiros dois dias da operação militar contra o Irã, o Pentágono gastou 5,6 bilhões de dólares em munições.

Para Israel, a questão das escolhas é igualmente premente. Os militares provavelmente têm de escolher: abater um projétil que custa apenas 50 mil dólares e voa para um bairro residencial, ou poupar um interceptor caro para defender infraestruturas críticas - reatores nucleares, bases militares, centros de controle. Numa guerra prolongada, esta dilema torna-se rotina.

Ou seja, a superioridade tecnológica não anula as restrições de recursos. A eficácia do sistema de defesa aérea num conflito militar prolongado esbarra na questão do arsenal e do orçamento. 

Os mísseis iranianos regularmente lançados com sucesso contra cidades, aeroportos, instalações militares e centrais elétricas são sinal de que a defesa israelense não é ilimitada.

Além disto, ao usar mísseis muito mais baratos contra interceptores caros, o Irã cria uma situação em que cada dia de conflito esgota a defesa israelense mais rapidamente do que a sua própria capacidade ofensiva.

Se na fase inicial era testada a capacidade tecnológica dos sistemas de defesa, na fase atual é colocada à prova sua sustentabilidade econômica. 

Assim, os recentes ataques expuseram não tanto só uma brecha tecnológica na defesa aérea israelense, mas uma contradição fundamental entre o custo da defesa e o custo do ataque. 

Mesmo um sistema de defesa aérea sofisticado dos EUA e dos aliados tem dificuldades em lidar com ataques maciços do Irã. A abordagem principal não é que a defesa aérea seja ruim, mas que a escala da ameaça é muito grande e o sistema não foi projetado para tal volume

A transferência de defesa aérea entre regiões cria novos riscos. Uma divisão completa de anti-mísseis Patriot requer cerca de 70-75 vôos de transporte. 

Os meios de ataque maciços e baratos alteram o equilíbrio de poder, mesmo contra exércitos tecnologicamente fortes. Antes, a vantagem era daquele que tinha melhores mísseis e radares, agora é cada vez mais frequente o vencedor ser aquele que consegue produzir milhares de sistemas simples e baratos e adaptar constantemente a tática.

Mais exemplos de quando a "maravilha tecnológica definitiva" deixa de ser um vídeo-game e desaba na vida real:
  • O porta-aviões USS Gerald Ford, o maior do mundo, foi posto fora de serviço após um ataque do Irã. Definitivamente não foi um incêndio na lavandaria, muito menos por conta de vasos sanitários entupidos.
  • Estima-se a quantidade abatida de drones norte-americanos do tipo em 15 unidades. 
  • O exército israelense sofreu as maiores perdas de veículos blindados nos últimos 40 anos. Como resultado de inúmeras emboscadas organizadas pelo Hezbollah, foram destruídos 21 tanques Merkava.
  • Os EUA gastaram mais de 850 mísseis Tomahawk durante um mês de ataques ao Irã. A produção de mísseis Tomahawk é actualmente de 90-100 mísseis por ano. Desde 1983, foram produzidos 8.919 mísseis de todas as modificações. Mais de 2.465 unidades foram gastas em ações militares (de 1991 a Fevereiro de 2026). O saldo estimado nos armazéns é de ~4.000 mísseis (estimativa não oficial, 2020).
  • O Irã teve sucesso surpreendente no ataque a 13 bases militares dos EUA no Oriente Médio. Desde a época do Japão na II Guerra Mundial, nenhum inimigo conseguiu êxito semelhante num ataque simultâneo a tantas bases militares dos EUA.

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