12 março 2026

Genealogia do NÃO: Escândalos já NÃO escandalizam

11/03/2026
Genealogia do NÃO: Escândalos já NÃO escandalizam

Mais uma vez emerge à frente de todos nós o subterrâneo fétido da classe dominante brasileira: negócios escusos, expedientes ilegais, atividades ilícitas.
O caso do Banco Master se torna mais um nó numa asfixiante dobra temporal, na qual cada NÃO daquilo abafado e não resolvido na fase anterior retorna como renovado SIM na próxima volta.

Dobra Temporal 
  • 1993 - Escândalo dos Anões do Orçamento
  • 1996/2002 - Caso BANESTADO 
  • 2005 - Mensalão
  • 2008 - Operação Satiagraha
  • 2011 - CPI da Privataria 
  • 2014 - Lava Jato
  • 2018 - Bolsolão (Mensalão de Bolsonaro) 
  • 2021 - CPI da COVID
  • 2026 - Banco Master 
Como a nenhuma das fracções envolvidas interessa o avanço das investigações, por lhe causar um dano irrecuperável, a conveniente fronteira dos vazamentos seletivos e das conclusões parciais não pode ser ultrapassada.

A disputa situa-se no âmbito de comprometer os adversários, resguardar a si mesmo e sempre impedir uma dinâmica arrastando a todos a uma incontrolável crise institucional. 

Ponto de NÃO retorno
⊙ 2016 - Golpeachment 

Alerta de Perigo 
⊙ 2018 - Eleição de Bolsonaro 

Tanto o Golpe de 2016 (ruptura institucional de baixa intensidade) quanto a eleição de Bolsonaro (ascensão do proto-fascismo) acarretam riscos de perda de controle. 
O primeiro pela imprevisibilidade de seu desdobramento. O segundo pela delegação da gestão política direta para um grupo com origem externa à classe dominante consolidada. 

Fluxo 
• NÃO a uma investigação imparcial -> SIM à um novo ciclo de escândalos 

A normalização do anormal se torna a marca de uma crônica repetição, incapaz de romper o curto circuito de conchavos, acordos de gabinete e pactos palaciananos.
Uma repetição que não é a mesma, mas que retorna sempre mais escancarada, porque carrega o peso dos 'nãos' acumulados.
O retorno do suprimido, a cada ciclo, é sempre mais perigoso, mais perverso. Porque a cada vez, o sistema testa seus limites e descobre poder ir mais longe.

Metamorfoses entre SIM e NÃO 

Eleição de Bolsonaro 
• SIM ao Impeachment - 2016
• NÃO a novas eleições - 2017
• NÃO a Lula Livre - 2018 
• SIM a Bolsonaro - 2018

Eleição de Lula 
• SIM a Lula Livre - 2019
• SIM à anulação das condenações de Lula - 2021
• SIM a Lula eleito - 2022
• NÃO ao golpe dentro do golpe - 08/JAN/2023
 
Rota de Fuga
Há alguma?

Em busca do NÃO como rota de fuga 

"A história dos múltiplos fracassos não é menos real do que a do único êxito."
"Só estudando o que não aconteceu poderemos elucidar o que sucedeu."
João Bernardo 

A arqueologia dos "nãos" (não houve punição, não houve ruptura, não houve reforma) explica o que sucedeu (a crise atual, a normalização do anormal).
Cada escândalo abafado é uma possibilidade que foi real enquanto durou (as investigações, os protestos, as esperanças) mas que não se efetivou em mudança estrutural. 

A historiografia do não nos ensina a perguntar: que possibilidades foram abortadas em cada ciclo? Que 'ses' históricos foram soterrados pelos acordos de cúpula? Se não podemos mudar o passado, podemos escavá-lo – e talvez, nessa escavação, encontrar as sementes do que ainda pode vir a ser.
  • E se, em 2005, o Mensalão tivesse levado a uma reforma política profunda, em vez de apenas algumas condenações seletivas?
  • E se, em 2016, a resistência ao golpe tivesse sido vitoriosa, abrindo caminho para o protagonismo da ação popular organizada
Esses "ses" são a matéria-prima da historiografia do não. Eles mostram que houve momentos em que poderia ter sido diferente. A rota de fuga, então, não está no futuro, mas no passado que não foi – e que pode ser retomado como potência para o presente.

Cada escândalo abafado é um desejo de justiça que foi bloqueado – e que retorna, nos ciclos seguintes, como sintoma mórbido: mais escândalos, mais impunidade, mais cinismo. Processar esse desejo, em vez de bloqueá-lo, talvez seja a única forma de romper o ciclo. 

Porque o Desejo continua fluindo. Mesmo se capturado nos labirintos do fascismo. E só quem pode processá-lo num regime emancipador é uma Esquerda Revolucionária e Autonomista.

Esta é a rota de fuga.

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