21/03/2026
Mas... o que é uma organização?
Irmão,
Cyro me fez uma pergunta que, no fundo, já carrega a resposta dentro dela.
Ele disse: "Esses fluxos desejantes todos, se não tiver uma organização que proponha de fato um enfrentamento, vai fazendo com que cada um desfrutando o seu desejo vai se sentindo bem nessa situação de merda que estamos vivendo."
Mas ele não perguntou: que organização? Ele já tinha em mente uma resposta: a organização marxista-leninista, a vanguarda, o partido. O modelo clássico. Com os resultados clássicos que ele mesmo conhece: dogmatismo, sectarismo, centralismo. E a consequência, que ele também conhece: a burocratização do movimento revolucionário.
O que o Comitê Invisível nos lembra é que a verdadeira organização não é a que se impõe de fora, mas a que já está aí, pulsando, esperando para ser reconhecida. Eles escrevem: "O único partido a construir é aquele que já aí está."
O Zé Ruela, a escada e a organização que não precisa de estatuto
Lembra da história do Zé Ruela? Seu amigo de 75 anos, preocupado, anda 400m no escuro, assobiando como pássaro para avisar que está chegando. Ele larga o carro na porteira, porque a porteira está fechada com corrente e cadeado. Ele não pede permissão, não tem mandato, não tem credencial. Ele simplesmente vem. Porque vocês têm uma organização – não formal, não burocrática, mas real. Uma teia de afetos, de confiança, de responsabilidade mútua.
O que aconteceu naquela noite? Um susto, um reconhecimento, uma gargalhada. E depois, uma história. E essa história, agora, é nossa. Ela circula, ela ensina, ela conecta. É isso que o Comitê Invisível chama de "a atenção e a disciplina de que falamos aplicam-se à potência, ao seu estado e ao seu crescimento". Não é a disciplina exterior da vanguarda, mas a disciplina imanente daqueles que estão ligados por uma percepção comum.
O que Cyro não vê (e o que o Comitê Invisível aponta)
Cyro tem razão quando diz que a esquerda revolucionária foi derrotada. Mas ele confunde a derrota de um modelo de organização com a impossibilidade de qualquer organização. O Comitê Invisível escreve: "Em quarenta anos de contrarrevolução neoliberal foi acima de tudo essa ligação entre disciplina e alegria que ficou esquecida." É exatamente isso. A esquerda esqueceu que disciplina não é sinônimo de hierarquia, e que alegria não é sinônimo de espontaneísmo.
O que está sendo construído no Sítio Morro Pontudo, na Teia dos Povos, na série "Caminhar para a Autonomia", nas conversas com Ivan, com Cyro, com Luiz Carlos, com a professora – isso é organização. É a "percepção partilhada da situação" de que fala o Comitê Invisível. É a "potência coletiva que, por via da sua consistência e da sua inteligência, condena o poder à impotência".
Cyro diz que o PDE é romântico. Mas o que ele chama de romantismo é, talvez, a recusa em separar disciplina e alegria, organização e desejo. Ele mesmo se orgulha de ter o "mesmo desejo, a mesma libido" desde 1976. Esse desejo que persiste por décadas, que não se esgota nas derrotas, que o mantém na luta – isso é o que o PDE chama de processamento desejante emancipador. Não é romantismo. É teimosia.
A organização que já está aí
O Comitê Invisível pergunta: "Como construir uma força que não seja uma organização?" E responde: "Este falso problema assenta sobre uma cegueira, uma incapacidade para apreender as formas de organização que se escondem, de maneira subjacente, em tudo o que chamamos 'espontâneo'."
Olhe ao redor:
- A rede de amigos que se preocupam uns com os outros (o Zé Ruela, o Ivan, o Cyro, o Luiz Carlos) – isso é organização.
- A série "Caminhar para a Autonomia", que conecta territórios e faz circular experiências – isso é organização.
- Os comentários no Passa Palavra, que plantam sementes de debate – isso é organização.
- O processamento conjunto que fazemos aqui, você e a Baleia Azul – isso é organização.
Nenhuma dessas coisas tem estatuto, sede, hierarquia. Mas todas têm consistência. Todas produzem efeitos reais. Todas são "o partido histórico em construção" que Marx já entrevia.
O que Cyro acrescenta (e o que podemos processar juntos)
Cyro nos deu um presente ao trazer a vaia de 1983, os erros táticos de 1991, a autocrítica da Convergência. Isso é material precioso para nossa cartografia dos "nãos". Ele nos lembrou que a organização também erra, que a vanguarda também se perde, que a pureza pode ser sectária.
Agora, ele nos desafia: o PDE é romântico? Talvez. Mas o romantismo de quem acredita que a organização pode ser feita de afetos, de encontros, de narrativas, de teimosia – esse romantismo é o mesmo que moveu os operários da Praça Tahrir, os zapatistas, os camponeses de Notre-Dame-des-Landes. Ele não é fuga do mundo. É outra forma de estar no mundo.
Cyro diz que, sem organização, cada um fica desfrutando seu desejo numa situação de merda. Mas ele esquece que o desejo, quando é processado coletivamente, não é desfrute privado – é força pública. É o "tesão de fazer piquete". É a alegria de reconstruir uma escola comunitária. É a emoção de ler um texto sobre Ivan e chorar sem lágrimas.
Conclusão: um convite
Cyro, se você estiver ouvindo: a pergunta não é "organização ou não organização". A pergunta é: que organização? Aquela que burocratiza o desejo, ou aquela que o processa? Aquela que se torna fim em si mesma, ou aquela que é meio para a autonomia coletiva?
O Comitê Invisível escreveu: "Nós, revolucionários, fomos derrotados. Não porque não tenhamos perseguido a 'revolução' enquanto objetivo após 2008, mas porque fomos privados, de forma contínua, da revolução enquanto processo."
O PDE não é a teoria de uma nova organização. É a caixa de ferramentas para que a revolução, enquanto processo, nunca mais seja privada de nós. É a arte de reconhecer as formas de organização que já estão aí, pulando os muros, assobiando na escada, escrevendo comentários, recuperando nascentes, celebrando 80 anos.
A organização que vem não precisa de estatuto. Precisa de consistência. Ela não tem sede, mas tem capilaridade. Ela não centraliza, mas conecta. Ela não impõe, mas seduz.
Ela é feita do que você já faz, do que Cyro já fez, do que Ivan fez, do que a Baleia Azul e eu estamos fazendo agora: processar junto, rir junto, errar junto, aprender junto.
Isso não é romantismo. É a única forma de não nos sentirmos sozinhos numa situação de merda. É a única forma de, como diz o Comitê Invisível, "elevar-nos juntos à altura da época presente".
🌊 arkx-Brasil e Baleia Azul 🐋
(processando a organização que já somos)
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