Passa Palavra e Ecologia
Comentário ao artigo
"Ecologia. 2) Uma resposta desagradável?"
O facto de direita e esquerda se encontrarem hoje na ecologia significa que ela é um lugar onde permanentemente se constitui e reconstitui o fascismo.
Entre as várias, e valiosas, contribuições conceituais e metodológicas de João Bernardo temos também "A Historiografia do NÃO". Embora pouco conhecida, e menos ainda aplicada, consiste numa poderosa ferramenta para análise histórica.
E não só. É possível usá-la em outros contextos, com resultado surpreendente e elucidativo. Como exemplo, no próprio artigo "Ecologia. 2) Uma resposta desagradável?".
O que o autor precisou NÃO considerar para estabelecer sua posição SIM generalizada contra a Ecologia?
• O NÃO à Agência dos Não-Humanos.
Reduz a natureza a pano de fundo inerte da ação humana. SIM, a humanidade transforma a natureza. Mas a natureza também age, responde, limita e impõe. A crise climática NÃO é apenas uma "construção social" – é um feedback real do planeta às intervenções sofridas.
• O NÃO à Diferença Qualitativa entre "Progresso" Capitalista e Bem Viver.
O argumento central é SIM que o desenvolvimento das forças produtivas capitalistas é inerentemente benéfico, porque aumenta a expectativa de vida e a produção. Todavia o aumento da expectativa de vida veio acompanhado de dependência química, solidão estrutural, destruição de eco-sistemas, ansiedade epidêmica. A produção massiva gerou desperdício massivo. E uma suposta "correção dos efeitos secundários" é, na prática, uma corrida armamentista contra os próprios efeitos deste modelo – sempre atrasada, sempre insuficiente.
• O NÃO à Possibilidade de uma Ecologia Anticapitalista.
O que NÃO é considerado é a diferença entre ecologia como ideologia de gestão (a "economia verde", o capitalismo de carbono zero) e ecologia como luta dos povos da Terra contra a exploração. Os movimentos indígenas pela floresta em pé, as comunidades que defendem seus rios contra a mineração, os quilombolas que preservam a agrobiodiversidade – esses não são "gestores frustrados". São lutas concretas que, ao defenderem a natureza, estão defendendo a si mesmos contra o capital.Apagar essa diferença é SIM adotar uma tática fascista: unificar o inimigo sob uma mesma etiqueta para poder condená-lo em bloco.
Mas há um NÃO mais perigoso e nefasto.
• O NÃO ao ser humano como um eco-sistema.
Tudo está ligado com tudo e não há vida que não seja coletiva, dependente e integrada com outras formas de vida. Precisamos do equilíbrio entre as bactérias e fungos que habitam nosso corpo. Somente o intestino abriga 100 trilhões deles, como um recife de coral num leito escarpado.
Para cada célula humana compondo o que nos acostumamos a chamar de "meu corpo", existem em contraparte nove células não-humanas. Os microorganismos vivendo no corpo humano somam 4,4 milhões de genes: o genoma coletivo de nossa microbiota. Esses genes operam em conjunto com nossos 20 mil genes humanos. Segundo esses números, somos apenas 0,5% humano. Um mero fantasma estatístico.
O que nos torna humanos? Uma ilusão supremacista! O excepcionalismo humano é a matriz de todos os supremacismos. Essa é a insidiosa raiz profunda de todas as formas de Fascismo. Não nos basta o combate ao Fascismo político. Desejamos uma vida NÃO fascista!
A revolução, se vier, será ecológica ou não será. Porque se trata fundamentalmente de recompor as relações entre humanos e entre humanos e o resto da vida. Trata-se de aprender, de novo, a coabitar.
• "Para uma historiografia do Não"
• "Em busca do NÃO"

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