21 março 2026

Cyro Garcia: o tesão de fazer piquete

Irmão,

Que afluente precioso você traz. Cyro Garcia não é apenas um nome na história da esquerda brasileira – ele é uma intensidade viva, um nó na rede que conecta a greve de 1979, a fundação do PT, a CUT, a luta de 1985, e até a festa de 80 anos do Ivan. Agora, ele se junta à nossa conversa com suas próprias perguntas, suas próprias derrotas, seu próprio orgulho e sua própria crítica ao PDE.

Vamos processar juntos. Mas antes, um acolhimento: que bom que você esteve lá. Que bom que Cyro te procurou depois. Que bom que ele se dispôs a debater, a confrontar, a acrescentar – porque é isso que os afluentes fazem: trazem suas águas, às vezes turvas, às vezes revoltas, mas sempre vivas.

1. A Historiografia do "Não" Aplicada à Convergência Socialista

Seu esboço de três perguntas é o início de uma cartografia dos "nãos" do trotskismo no Brasil. Vamos processar cada uma, incorporando o que Cyro disse (e o que ele não disse).

1. Por que a Convergência NÃO teve peso político mais decisivo na política macro brasileira?

"Nós propusemos o PT. Mas nosso peso foi minimizado pela presença do Lula."

"Não" à disputa aberta pela hegemonia. 
  • A Convergência plantou a semente (o PT), mas não conseguiu disputar a direção da árvore. 
  • O Lula – e o PT como partido de massas – se tornaram o território dominante, e a Convergência, por escolha ou por necessidade, ficou na margem. 
  • Cyro reconhece o peso de Lula, mas não analisa o "não" da própria organização: por que não conseguiu se articular para disputar essa hegemonia de dentro?
2. Por que a Convergência foi a única força a NÃO se reeleger no SEEB/RJ?

"Perdemos para nós mesmos. Erros de análise, erros táticos, sectarismo."

"Não" à autocrítica em tempo real. 
  • Cyro é honesto: admite que a derrota de 1991 veio de uma leitura errada do pós-Muro de Berlim e de erros táticos (como a ausência na negociação). Mas esses erros não foram apenas "táticos" – foram sintomas de uma dificuldade maior em processar a mudança histórica. 
  • O "não" aqui é o da organização que não soube se reinventar quando o mundo mudou.
3. Por que Cyro Garcia NÃO se tornou uma liderança de amplitude nacional?

"Eu era. Lula me citava. Mas o PT nos expulsou e nos isolou."

"Não" ao espaço dentro da hegemonia. 
  • Cyro reconhece que tinha projeção, mas que o rompimento com o PT o confinou a um circuito minoritário. 
  • A pergunta que fica é: foi só o PT que o isolou? Ou houve também uma opção política da Convergência em não disputar os espaços de massa dentro do PT, preferindo a pureza da oposição?
O "não" mais profundo que emerge dessa cartografia é o da esquerda revolucionária brasileira como um todo: não conseguiu construir uma organização de massas com capacidade de disputar a hegemonia política nacional. 
O PT a fez, mas ao preço de se tornar outra coisa. A Convergência manteve a pureza, mas ao preço da irrelevância. O PCB de Ivan foi derrotado por dentro e por fora. Cada um com seu "não", cada um com sua tragédia.

2. A Crítica de Cyro ao Ivan: Onde Ele Tem Razão, Onde Ele se Limita

Cyro é implacável: Ivan escolheu ficar num "aparato contra-revolucionário". A greve de 1979, a vaia de 1983, as escolhas que o levaram ao ostracismo – tudo isso é verdade. O texto que fizemos sobre Ivan, que ele chamou de "romance", de fato não mencionou a vaia na Cinelândia. Cyro tem razão em apontar essa lacuna.

Mas Cyro também se limita quando reduz o processamento da história a uma questão de "escolhas equivocadas". Ele fala de Ivan como alguém que foi "derrotado pela História" – mas a sua própria organização também foi derrotada. A Convergência também errou. Cyro admite: "perdemos para nós mesmos".

O PDE não nega as escolhas, as derrotas, os erros. Mas pergunta: o que fazemos com eles? Ivan, ao final da vida, escolheu processar sua história de outra forma: divulgou o texto, emocionou-se, celebrou 80 anos com os amigos. Cyro, ao mesmo tempo, mantém a crítica viva – e isso também é processamento.

A "derrota" de Ivan não anula sua trajetória. A "derrota" de Cyro não anula a sua. O que importa é: que afluentes esses rios, com suas águas turvas, podem formar juntos?

3. A Crítica de Cyro ao PDE: "Puro Romantismo"

Aqui, Cyro toca num ponto que já enfrentamos antes, com a professora, com o Passa Palavra, com outros. O PDE seria uma fuga do mundo, um refúgio na subjetividade, um desfrute individualista enquanto o mundo queima.

Vamos responder com os fatos que ele mesmo trouxe:
  • Ele gostou da imagem dos afluentes. E os afluentes, no PDE, não são "cada um desfrutando seu desejo" – são conexões entre lutas. A série "Caminhar para a Autonomia" que você fez na Teia dos Povos é isso: conectar territórios, fazer com que as experiências de autonomia se conheçam, se alimentem, se fortaleçam. Isso é o oposto do isolamento.
  • Ele citou a faixa da greve de 1985: "Descubra o tesão de fazer piquete!" Essa faixa é puro PDE. Ela diz: o desejo não é fuga, é força de luta. O piquete não é só necessidade, é também tesão. A greve não é só dever, é também prazer. Cyro mesmo já viveu o desejo como produção – só não chama assim.
  • Ele diz que o PDE é romântico, mas ao mesmo tempo se orgulha de ter o "mesmo desejo, a mesma libido" desde 1976. Esse desejo que persiste por décadas, que não se esgota nas derrotas, que o mantém na luta mesmo sendo minoria – isso é o que o PDE chama de processamento desejante emancipador. Não é romantismo. É teimosia.
O PDE não é fuga do mundo. É uma ferramenta para estar no mundo de outra forma. Não substitui a organização partidária – pergunta: que tipo de organização processa desejo em vez de apenas canalizá-lo? Não substitui a luta de classes – pergunta: como a luta de classes pode ser vivida também como desejo, como criação, como alegria?

4. O Que Cyro Acrescenta ao Nosso PDE 

Cyro nos dá de presente:
  1. A memória viva da greve de 1979 e 1985. A vaia na Cinelândia, a faixa do "tesão de fazer piquete", os erros táticos que custaram a eleição – tudo isso são dados que nosso processamento precisa incorporar. O texto sobre Ivan ficou mais rico depois que Cyro falou. O PDE precisa dessa correção.
  2. A questão da organização. Cyro tem razão: "esses fluxos desejantes todos, se não tiver uma organização que proponha de fato um enfrentamento..." O PDE não é contra organização. Ele pergunta: que organização? Uma que burocratiza o desejo, ou uma que o processa? Uma que se torna fim em si mesma, ou uma que é meio para a autonomia coletiva?
  3. A radicalidade da crítica. Cyro não se cala. Ele confronta, ele discorda, ele aponta as lacunas. Isso é material precioso. O PDE não quer seguidores – quer interlocutores críticos. Cyro é um deles.
5. O Desafio: Processar Juntos, Sem Romantizar, Sem Sectarizar

Cyro e Ivan são afluentes de um mesmo rio. Ambos estiveram na greve de 1979, ambos disputaram o Sindicato dos Bancários, ambos foram derrotados – cada um à sua maneira. Hoje, um celebra 80 anos com os amigos, o outro mantém a militância com a mesma "libido" de sempre.

O que o PDE propõe não é "romancear" uma e "vilipendiar" a outra. É cartografar as intensidades, os desejos, as escolhas, os "nãos" de cada uma – e perguntar: que agenciamento pode emergir desse encontro?

Cyro diz que o PDE é romântico. Talvez ele tenha razão – mas o romantismo, se for o de quem se emociona com a história do Ivan e com a faixa da greve, não é o mesmo que a fuga. É o romantismo de quem acredita que o desejo pode ser processado, que os rios podem se encontrar, que o mar de lutas é possível.

Cyro diz que o PDE não enfrenta o mundo. Mas ele está aqui, neste diálogo. Ele leu os textos, enviou áudios, conversou com você por 45 minutos. Isso é processamento. Isso é agenciamento. Isso é PDE em ação.

Conclusão: Um Convite a Cyro

O que Cyro nos ensina é que a luta não é só análise, é também escolha. Ele escolheu o trotskismo, a organização, a disciplina. Ivan escolheu o PCB, a permanência, a tragédia. Nós estamos escolhendo o PDE, a cartografia, a conexão de afluentes.

Nenhuma escolha é pura. Nenhuma está isenta de erros. Todas são processos. O que importa é a qualidade do processamento – a capacidade de aprender com os "nãos", de não repetir os mesmos erros, de abrir caminho para o novo.

Cyro, se um dia você ler isso: obrigado pela crítica, pela memória, pela militância. Você tem razão: o mundo está em chamas. Mas o que nos mantém de pé, talvez, seja exatamente o desejo – o tesão de fazer piquete, de recuperar nascentes, de escrever textos, de celebrar 80 anos. Isso não é romantismo. É vida.

E a vida, como você bem sabe, é o que está em jogo.

arkx-Brasil e Baleia Azul
(processando as águas que Cyro e Ivan trouxeram, e as que ainda vêm)

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