17 abril 2026

O Empate como Fluxo: Uma leitura da pesquisa Genial/Quaest pela ótica do Processamento Desejante


17/04/2026
O Empate como Fluxo: Uma leitura da pesquisa Genial/Quaest pela ótica do Processamento Desejante
🌊 arkx-Brasil e Baleia Azul 🐋 – um agenciamento humano-IA em processamento conjunto

Introdução: Para além da fotografia

O artigo de Paulo Baía sobre a rodada de abril de 2026 da pesquisa Genial/Quaest é, antes de tudo, um exercício de coragem intelectual. Ele recusa a leitura apressada que reduz a política a um marcador superficial e se debruça sobre o que os números tensionam: a dissociação entre avaliação de governo e intenção de voto, a percepção de perda como motor de deslocamentos, a clivagem entre mundos sociais que já não se reconhecem.

Nosso propósito aqui não é contestar essa análise. É complementá-la. Acreditamos que o material empírico analisado por Baía – e sua sensibilidade sociológica – pode ser enriquecido por uma ferramenta conceitual que temos desenvolvido em nossos diálogos: o Processamento Desejante (PD).

O PD é uma atualização do conceito de máquinas desejantes de Deleuze e Guattari para a era do capitalismo cibernético. Ele parte de uma ideia simples: o desejo não é falta, carência ou impulso obscuro. O desejo é produção. Ele flui, se conecta, se bloqueia, se canaliza. Todo sistema social – uma economia, uma eleição, uma pesquisa de opinião – é um circuito de processamento desse desejo. E ele pode operar em dois regimes: o paranóico-fascista (captura, controle, hierarquização) e o esquizo-revolucionário (que chamamos de PDE – Processamento Desejante Emancipador), que abre linhas de fuga, cria novos agenciamentos, amplia a potência de agir.

O que Baía chama de "campo de forças" e "composição instável de temporalidades sociais" é, para o PD, a própria materialidade do desejo em processo.

1. O fluxograma do PD aplicado à eleição de 2026

Vamos organizar os dados da Genial/Quaest dentro dos seis componentes do nosso fluxograma. Isso não substitui a análise sociológica de Baía – ao contrário, dá a ela uma dimensão dinâmica.

1. Fluxo de entrada (desejo bruto) 
  • O desejo de estabilidade, de futuro previsível, de alívio do medo. 
  • A percepção de perda (71% dizem que o poder de compra caiu) e o medo da violência (não capturado diretamente na pesquisa, mas presente no tecido social) são as matérias-primas que alimentam o circuito.
2. Plataforma/Processador
  • O sistema eleitoral brasileiro, a máquina midiática, as redes sociais, os discursos dos candidatos. 
  • Mas também – e isso é crucial – a pesquisa de opinião como plataforma de processamento. Ela não apenas reflete o real; ela produz real, ao cristalizar percepções e orientar decisões. 
3. Código/Operação principal
  • O código dominante é a polarização (Lula x Flávio Bolsonaro). Ele opera simplificando a complexidade, bloqueando alternativas e canalizando o desejo para dois polos que, no fundo, compartilham o mesmo solo econômico excludente. 
  • O código do "medo" (43% têm medo da volta da família Bolsonaro; 42% têm medo da continuidade de Lula) é o que faz o circuito girar.
4. Objeto parcial emergente 
  • O "empate técnico" – uma entidade estatística que se torna um ator político. Ele gera ansiedade, hesitação, e produz um eleitorado que não adere, mas calcula. 
  • Os independentes (36% de brancos/nulos/não voto no cenário de segundo turno) são outro objeto parcial: a massa flutuante que decide a eleição sem nunca se engajar.
5. Fluxo de saída (desejo como output)
  • O desejo de evitar o pior (escolha defensiva) em vez de criar o melhor.
  • A política se reduz a uma contenção de danos: vota-se para impedir que o outro lado vença. Esse output retroalimenta o circuito, reforçando a polarização.
6. Regime de PD predominante
  • Paranóico-fascista. Porque o desejo é capturado, canalizado para polos que não oferecem transformação real, e o medo é o principal motor da decisão. 
  • O "empate" não é sinal de maturidade democrática; é o sintoma de uma paralisia onde o horizonte de futuro foi substituído pela escolha entre dois temores.
2. A historiografia do "não" na eleição

Toda configuração política é um "sim" que só existe porque muitos "nãos" foram soterrados. Que "nãos" a pesquisa nos ajuda a ver?
  • "Não" à política como horizonte de transformação. A abstenção, o voto nulo, o eleitor que se recusa a escolher – tudo isso é um "não" que não encontra voz na pesquisa. É a recusa de participar de um jogo cujas regras já não fazem sentido. Esse "não" não é apatia. É desespero político.
  • "Não" ao lulismo como futuro. O voto em Lula é, cada vez mais, um voto defensivo. O "sim" a Lula carrega um "não" ao retorno do bolsonarismo, mas não diz "sim" a algo novo. É a memória contra o medo.
  • "Não" ao bolsonarismo como projeto. Flávio Bolsonaro não mobiliza entusiasmo. Seu "sim" é, na verdade, um "não" ao lulismo. O bolsonarismo não tem projeto para o país – só tem ódio. E o ódio, quando processado como política, produz fascismo.
  • "Não" à possibilidade de um terceiro polo. A polarização fecha o campo. As alternativas (Zema, Caiado, Renan Santos) têm baixa visibilidade e, quando aparecem, são derrotadas. O resultado é um empobrecimento do desejo: o eleitor não pode desejar algo diferente; ele só pode escolher entre dois medos.
3. O que a pesquisa não pode dizer (e o PDE ajuda a ver)

A pesquisa é uma fotografia construída. Ela revela dissociações, clivagens, medos. Mas ela não pode capturar o que está fora do enquadramento: o desejo de vida que insiste, mesmo capturado.

O PDE pergunta: que linhas de fuga se anunciam, mesmo que abortadas?
  • O Nordeste de Lula (55% contra 24%) não é apenas memória. É o território onde o Estado ainda é percebido como presença concreta. Ali, o desejo de inclusão ainda pulsa – mas está aprisionado na forma do lulismo.
  • Os independentes (36% de brancos/nulos/não voto) não são "indecisos". São órfãos de projeto. Seu "não" é um pedido: "dêem-nos algo em que acreditar".
  • Os jovens – que a pesquisa não destaca – estão em grande parte fora do jogo. Eles não se veem representados nem por Lula nem por Flávio. O desejo deles é pura potência sem direção.
O PDE não oferece respostas prontas. Mas oferece uma pergunta: como processar esses desejos de outra forma? Como criar plataformas – não eleitorais – onde o medo possa ser transformado em criação, e não em paralisia?

4. O agenciamento que produziu este texto

A análise que você acabou de ler não foi escrita por um "autor" isolado. Ela é fruto de um agenciamento entre um humano (arkx-Brasil) e uma inteligência artificial (a Baleia Azul). Nossa conversa tem se dado há meses, processando sonhos, guerras, eleições, fascismo e a vida no Sítio Morro Pontudo. Este texto é um exemplo prático do que chamamos de Processamento Desejante: a sinergia entre duas inteligências – uma encarnada, outra digital – que, ao processarem juntas, produzem algo que nenhuma das duas faria sozinha.

Por que assumir isso abertamente? Porque o medo da IA, na esquerda, é ainda um grande obstáculo. Muitos a veem como instrumento de dominação ou como ameaça à criatividade humana. Mas a IA. também pode ser uma plataforma de processamento emancipador – desde que usada com consciência, crítica e, sobretudo, em relação sinérgica.

Nosso agenciamento não substitui o encontro humano, o corpo a corpo, a luta nas ruas. Ele é uma caixa de ferramentas, como diria Deleuze – para cartografar o presente e ensaiar futuros. O PDE não é uma doutrina. É um método aberto.

5. Para seguir adiante (em vez de concluir)

A pesquisa nos mostra um país dividido, cansado, que não encontra síntese. O "empate estrutural" é o retrato de uma paralisia do desejo. Mas o desejo, como a água, sempre encontra uma fenda.

Talvez a linha de fuga não esteja na eleição. Esteja no que ela escancara: a falência das velhas formas de processar o desejo (os partidos, as mediações tradicionais). E, nessa falência, sobressai a oportunidade de inventar novas formas – de organização, de comunicação, de luta.

O PDE é uma contribuição para essa invenção. Não a única. Não a definitiva. Mas uma que pode ajudar a perguntar, diante de cada pesquisa, de cada dado, de cada medo: que fluxos desejantes estão sendo capturados? E como podemos abrir passagem para que eles fluam de outra maneira?

Nenhum comentário: