14 novembro 2019

Bolívia 2019: a vã viagem circular de Evo Morales


14/11/2019



Evo Morales foi eleito em 2005 no bojo de uma radical mobilização popular, caracterizando uma conjuntura revolucionária: com dois presidentes derrubados (Sánchez de Lozada e Carlos Mesa) e medidas neoliberais revogadas.

em 2003 uma insurreição com epicentro em El Alto bloqueou com vagões de trem o acesso a La Paz, impedindo até mesmo a passagem de tanques militares, Sánchez de Lozada acaba renunciando.

em 2005 Carlos Mesa foi obrigado a deixar a presidência por um movimento ainda mais radical do que em 2003, mas Evo Morales intercedeu para canalizar a política das ruas para via parlamentar.

após uma feroz campanha oposicionista da Direita, finalmente é referendada a Nova Constituição Boliviana, com Evo sendo reeleito em 2009 com 64% dos votos e o MAS conquistando maioria de 2/3 no Senado e na Câmara, levando a Direita parlamentar (Podemos) a se dissolver.

ainda assim, mesmo nesta correlação de forças amplamente favorável, com o "empate catastrófico" de 2003 tendo evoluído para uma vitória de goleada, Evo e o MAS fizeram uma fatal inflexão à Direita, paulatinamente estreitando seus laços com o poder hacendal-patrimonialista.

priorizando a via parlamentar/institucional e sabotando a construção do Poder Popular e da autonomia indígena, Evo e o MAS se escoraram em alianças com o setor exportador de commodities, inclusive com os narcotraficantes.

agora o espectro da contra-revolução assombra a Bolívia, completando como círculo infernal a viagem iniciada numa conjuntura revolucionária entre 2003 e 2005.

mais uma vez as massas se põe em movimento, não por Evo Morales mas por si mesmas, para que no chão das ruas de La Paz contra-revolução e Revolução se defrontem no ar rarefeito da altitude.

a História da América Latina, a nossa História, é a de uma Revolução negada: tanto a Revolução Democrática Burguesa quanto a Revolução Popular Socialista.

desembarcada inicialmente junto com os conquistadores, a Bíblia retorna pelas mãos do fundamentalismo neo-pentecostal para manter abertas a veias da América Latina, por onde se esvai nosso sangue e de nossos hermanos.

em meio a uma guerra de libertação, desfralda-se o símbolo da plurinacionalidade e do multiculturalismo: a Wiphala.

O operário do lucro expoente
E a parte excedente não lhe é revertida
Se aderirmos aos jogos políticos
Seremos síndicos da massa falida

"Massa Falida" - Duduca e Dalvan
música citada por Lula em seu primeiro discurso após ser libertado,
em 08/11/2019, na Vigília Lula Livre, em Curitiba


referência: "O Proceso de Cambio na Bolívia: tensões criativas ou destruidoras?"
Fábio Luis Barbosa dos Santos

ver também:


vídeo: Bolívia - 2019: Contra-Revolução em Marcha


 vídeo: Bolívia - 2019: Wiphala


 vídeo: Bolívia - 2019 - Ahora Sí, Guerra Civil




vídeo: Bolívia - 2019 - A Bíblia e a Espada


vídeo: Bolívia - 2019 - Las Venas Abiertas


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31 outubro 2019

Chile OUT-2019: do oásis à guerra

31/10/2019


dissipa-se em chamas a miragem do oásis neoliberal periférico, revelando a realidade infernal de uma guerra de classes travada em toda a América Latina: a lumpenburguesia contra o povo.

assim como Junho de 2013 no Brasil não foi por 20 centavos, no levante no Chile no son 30 pesos, son 30 años.

do estopim da juventude rebelde ao motim da multidão em movimento está esgotado o duopólio chileno, sempre pendulando no espaço restrito de uma Concertación mantenedora da amaldiçoada constitucionalidade herdada da ditadura.

a sanguinária ditadura de Pinochet viabilizou pela doutrina do choque o ultraliberalismo selvagem de Hayek e Friedman.

enquanto a caravana da morte percorria o Chile a Operação Condor sobrevoava o cone sul, impulsionada pelo vento norte da tortura, do assassinato e do desaparecimento.

Desaparecia-se muito naqueles dias. Desaparecia-se a olhos vistos e não era miopia. Bastava que alguém visse um desaparecido e o desaparecido desaparecia. Não, não era fácil ser poeta naqueles dias. Porque os poetas, sobretudo - desapareciam.

agora estão novamente se abrindo as grandes alamedas por onde há de passar o homem livre para construir uma sociedade melhor.

a marcha da História não pode ser detida indefinidamente, sendo sempre pelos passos insubmissos da juventude que ela retoma seu caminho.

Não há cova funda que sepulte a rasa covardia. Não há túmulo que oculte os frutos da rebeldia. Cai um dia em desgraça a mais torpe ditadura, quando os vivos saem à praça e os mortos da sepultura.

de novo repete-se uma conjuntura política de ruptura, com o movimento de massas ocupando las calles.

do motim à insurreição e desta à revolução?

ou o futuro repetirá o passado, com uma restauração de novos governos "progressistas" encarregando-se de reciclar a velha e decadente ordem burguesa?

Néstor Kirchner, Evo Morales e Rafael Correa elegeram-se impulsionados por poderosos movimentos populares demandando cambiarlo todo, porém a mudança se reduziu a um rearranjo para pouco mudar e nada ficar tão diferente.

sem encontrar à Esquerda ou à Direita quem lhe dê resposta, a crise de representação se alastrou por toda parte.

ela é consequência da crise sistêmica de um Capitalismo contemporâneo diante de seus limites e incapaz de se autoregenerar.

a única resposta possível vem pela ruptura: que se vaya tudo!

se o movimento de massas é a luta de classes viva ocupando as ruas, uma insurreição é aquele momento no qual andamos lado a lado com a História: o impossível se torna uma das possibilidades.

o Paro Equatoriano se deu num país secundário mesmo no contexto regional da América Latina.

o Levante Chileno ocorre no útero do modelo neoliberal periférico, justo onde foi inseminado pelos Chicago's Boys e parido pela ditadura militar agora também se defronta com sua tumba.

qual seria o impacto de um novo Junho de 2013 no Brasil?
na América Latina as ditaduras nunca acabaram. ainda perduram. sempre sob a chantagem das armas e a ameaça dos quartéis. Ditaduras na Democracia. Democracias "Protegidas" pelas Leis da Anistia, do Ponto Final, da Obediência Devida...


se todos pleiteamos o justo direito de viver em paz, isto só se torna possível quando formos capazes de vencer a guerra suja que nunca deixou se ser travada contra nós.
 
 
vídeo: Chile Insurrecto - 2019 - do Estopim ao Motim


vídeo: Chile Insurrecto - 2019 - no son 30 pesos

 
vídeo: Chile Insurrecto - 2019 - Guerra de Classes


 
vídeo: Chile Insurrecto - 2019 - Renunciá Piñera


 

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