A armadilha do desarmamento em Gaza
Comentário ao artigo "A armadilha do desarmamento em Gaza"
João Bernardo, Caio, Leo Vinícius, L de SP – todos vocês tocaram num ponto que me dói também. A impotência da esquerda anticapitalista diante do genocídio é real. E a pergunta de João – "por que não se diz explicitamente que o Hamas é fascista?" – não é menor. Ela é uma questão legítima.
Mas permitam-me uma provocação, não para encerrar o debate, mas para tentar abrir uma fenda:
Suponhamos que amanhã caia um comunicado do Hamas dizendo: "Sim, somos fascistas. Assumimos." O que mudaria na situação em Gaza? Israel retiraria os tanques? Pararia de bombardear hospitais? Deixaria de usar a fome como arma?
Se a resposta for não – e é não – então talvez o problema não seja a "incapacidade de nomear". É que a nomeação, sozinha, não interrompe o genocídio.
Isso não significa que nomear seja inútil. Significa que a nomeação, quando vira pré-condição para a ação, pode se tornar uma armadilha. O próprio João, com honestidade rara, admitiu: "Gastei 400 páginas e não encontrei saída prática." Pois bem. Talvez a saída não esteja na classificação correta, mas na ação que não precisa de pureza.
O que fazer, então, sem capitular ao fascismo do Hamas?
- Denunciar o genocídio e, no mesmo movimento, denunciar o caráter autoritário e reacionário do Hamas (como o Passa Palavra fez em dezembro de 2023).
- Apoiar a resistência palestina onde ela for anticapitalista, laica e democrática – e, onde ela não for, não deixar de apoiar o direito de resistir, mas sem defender quem não se defende.
- Construir solidariedade que não precise fingir que o Hamas é uma vanguarda revolucionária, nem se recusar a agir porque ele não o é.
A pergunta que o debate sobre Gaza nos coloca não é "o Hamas é fascista?".
É: como ser internacionalista num mundo onde a única resistência organizada contra um genocídio é, ela mesma, autoritária e reacionária?
Não tenho resposta pronta. Mas acho que o primeiro passo é parar de se enfrentar como se o outro fosse o inimigo. João não é cúmplice do genocídio por querer nomear o fascismo. Leo e L de SP não são cúmplices do fascismo por quererem barrar o extermínio.
A esquerda é impotente, sim. Mas não por falta de classificações. É por falta de organização material na Palestina – e por falta de capacidade de construir uma alternativa à resistência islamista. Essa é a verdadeira ferida. Nomeá-la dói mais do que nomear o Hamas.
Talvez a linha de fuga não esteja na vitória de um lado sobre o outro. Esteja em reconhecer a tragédia: temos que agir com o que existe, sem deixar de denunciar o que ele tem de podre. E processar essa contradição sem nos matarmos entre nós.
Nota sobre a estratégia do comentário
Objetivo / Como o comentário tenta alcançar
- Não polarizar - Não ataca nem JB nem seus críticos. Reconhece a legitimidade das duas perguntas.
- Deslocar o foco - Em vez de "fascista ou não", pergunta: o que muda na prática se nomearmos?
- Nomear a ferida real - A impotência da esquerda não é por falta de classificação, mas por falta de organização material.
- Propor uma ação concreta (mesmo que modesta) - Denunciar o genocídio e o Hamas ao mesmo tempo; apoiar resistência laica onde existir; construir solidariedade sem pureza.
- Acolher a contradição - "Agir com o que existe, sem deixar de denunciar o que tem de podre."
- Convidar a parar de guerra interna - "João não é cúmplice do genocídio. Leo e L de SP não são cúmplices do fascismo."
O que o comentário não faz (para não reforçar o PD capturado)
- Não classifica o Hamas como "fascista" nem como "resistência heroica". Deixa a ambiguidade – porque ela é real.
- Não toma partido na querela terminológica. Pergunta: o que a nomeação muda? Isso desloca a disputa do terreno da pureza para o terreno da eficácia.
- Não tenta "convencer" ninguém. Apenas processa a contradição e convida outros a fazê-lo.
Ferramenta de Esquizoanálise: Aplicação ao debate sobre Gaza no Passa Palavra
Objeto de análise: Comentário de João Bernardo (JB) e o campo discursivo que se forma em torno da acusação de "incapacidade de dizer explicitamente que o Hamas é um partido fascista".
Contexto: O debate ocorre na área de comentários do artigo "A armadilha do desarmamento em Gaza". O artigo denuncia a proposta de desarmamento total do Hamas como uma armadilha que perpetua o genocídio. JB intervém repetidamente para afirmar que a "extrema-esquerda anticapitalista" é impotente porque se recusa a classificar o Hamas como fascista.
Aplicação das 4 Teses da Esquizoanálise
Tese 1: Todo investimento é molar e social
O campo social sendo investido:
O debate investe o campo da solidariedade internacionalista e da crítica ao imperialismo. Os comentaristas investem na Palestina não como um "problema humanitário", mas como um nó geopolítico onde se articulam fascismo, resistência, colonialismo e luta de classes.
O que a tese revela:
JB investe no campo teórico da classificação correta – como se nomear o Hamas de "fascista" fosse o ato político primordial, capaz de definir o lugar de cada um na luta. Esse investimento, porém, não é "individual" (uma obsessão de JB). Ele é molar e social: reproduz um modo de fazer política que privilegia a pureza nominal sobre a análise de forças.
Tese 2: Distinguir investimento pré-consciente (interesse) e investimento libidinal inconsciente (desejo)
Investimento de interesse (consciente) Investimento libidinal (inconsciente)
- João Bernardo "É preciso nomear o fascismo onde ele está, inclusive na resistência palestina."
- Desejo de pureza teórica e de distinção (não ser confundido com a "escória" que relativiza o fascismo).
- Medo de que a esquerda seja cooptada por um discurso "antifascista" que não enxerga o fascismo no próprio campo.
Seus críticos (Caio, Leo, L de SP)
"A prioridade é barrar o genocídio. As armas do Hamas são hoje a única barreira material."
Desejo de eficácia prática – de não se perder em classificações enquanto o massacre acontece. Medo de que a "pureza" teórica se torne cúmplice da barbárie.
O que a tese revela:
O debate não é apenas sobre fatos ou teorias. É sobre afetos contraditórios:
JB deseja ser reconhecido como o intelectual que não se ilude; seus críticos desejam não ser cúmplices da morte por omissão.
Ambos os desejos são legítimos. O bloqueio está em que cada polo interpreta o desejo do outro como falha moral.
Tese 3: O investimento libidinal do campo social é primeiro em relação aos investimentos familiares
O que a tese revela:
Não é a "biografia de JB" (sua formação, suas leituras) que explica sua posição. É o campo social da extrema-esquerda anticapitalista – que, diante do genocídio, se vê impotente e tenta compensar com rigor classificatório.
A obsessão em dizer que o Hamas é fascista não nasce de um trauma familiar, mas de uma traição histórica: a esquerda já se aliou a fascistas (a URSS com Stalin, a Frente Popular com a burguesia) e pagou caro. JB age como quem quer evitar a repetição – mas, no contexto de Gaza, a "classificação correta" não impede genocídio, apenas alivia a consciência do classificador.
Tese 4: Os dois polos do investimento libidinal
Paranóico-Fascista Esquizo-Revolucionário (PDE)
João Bernardo A insistência em classificar o Hamas como fascista como pré-condição para qualquer solidariedade. Se não disser isso, sua voz é "escória". Cria-se uma fronteira de pureza que exclui quem não assina o credo.
JB poderia denunciar o fascismo do Hamas e afirmar que, neste momento, as armas são a única barreira ao genocídio. A contradição seria processada, não resolvida por decreto.
Críticos de JB A recusa a nomear o fascismo do Hamas pode derivar de um fascismo invertido: "o inimigo do meu inimigo é meu amigo, não importa o que ele seja".
Leo Vinícius diz explicitamente que o Hamas é um erro estratégico, mas que hoje é o que existe. Isso é processamento – não endeusa, não esconde, mas age no real.
O que a tese revela:
JB opera no polo paranóico-fascista não por "maldade", mas por estrutura: sua análise exige simetria (fascismo vs. fascismo) e purificação (não me aliarei a fascistas).
O resultado é a paralisia: se ambos são fascistas, a única posição "correta" é a não intervenção. Seus críticos, ao contrário, operam no polo esquizo quando dizem: "sim, o Hamas é problemático, mas hoje é o que temos; vamos agir com o que existe, não com o que gostaríamos que existisse".
Aplicação das 3 Tarefas da Esquizoanálise
Tarefa 1: Destruição do "Eu normal"
Identidade fixa assumida / Quem a produziu? / Desejo bloqueado
"Sou o intelectual que não se ilude com falsas resistências"
A tradição da esquerda anticapitalista que aprendeu a desconfiar de nacionalismos e fundamentalismos.
Desejo de eficácia – ver o genocídio parar, não apenas denunciar cegueiras alheias.
"Sou o internacionalista que não abandona os palestinos à sua sorte"
A tradição terceiro-mundista e anticolonial.
Desejo de diferenciação – não ser confundido com quem apoia qualquer um que diga "abaixo Israel".
Medos que circundam o "eu":
JB: medo de ser cúmplice de um fascismo. Medo de que a "esquerda" repita os erros da Frente Popular.
Críticos: medo de que a "pureza" teórica impeça a ação concreta. Medo de que JB esteja, sem querer, do lado de quem quer o desarmamento.
Tarefa 2: Descobrir as máquinas desejantes
O que os debatedores fazem quando não estão "cumprindo papéis" (de "intelectual rigoroso" ou "militante engajado")?
JB: escreve livros de 400 páginas sobre o fascismo. Investiga suas circunvoluções. Não se trata de "categorização vazia" – é um trabalho real de compreensão de um fenômeno histórico.
Críticos: denunciam o genocídio, compartilham relatos de vítimas, pressionam por ações concretas (boicote, manifestações, informações).
Momentos de potência (quando o desejo escapa do impasse):
Quando JB diz: "Não sei. Gastei 400 páginas e não encontrei saída prática." – isso é honestidade. É o reconhecimento de que a teoria, sozinha, não produz ação.
Quando Leo Vinícius diz: "O Hamas é um erro estratégico, mas hoje é o que temos." – isso é processamento: não nega o problema, mas não se deixa paralisar.
Afetos que mobilizam:
JB: raiva da impotência da esquerda. Desejo de clareza. Medo de repetir erros históricos.
Críticos: raiva do genocídio. Desejo de agir. Medo de que a "pureza" seja cúmplice da morte.
Tarefa 3: Reorganizar o campo social
Ações concretas que já escapam à lógica dominante:
O próprio debate nos comentários do Passa Palavra. Não é "teoria vazia" – é um espaço de processamento onde posições se confrontam, e o confronto pode produzir deslocamentos.
O trabalho de JB de investigar o fascismo – que não é inútil, desde que não se torne um fim em si mesmo.
O trabalho dos críticos de denunciar o genocídio – que não é "ativismo cego", desde que não esconda as contradições.
Como conectar essas ações a outras iniciativas:
Propor que o debate não se encerre na classificação binária (fascista ou não fascista), mas pergunte: como construir solidariedade sem capitular ao fascismo?
Criar um espaço (no próprio Passa Palavra ou em outro fórum) onde se possa discutir a tradução entre a análise de classe e a resistência nacional – sem que uma anule a outra.
Reconhecer que a "extrema-esquerda anticapitalista" é impotente não por falta de classificações corretas, mas por falta de organização e presença material no conflito.
Processar a angústia (de JB, dos críticos) como material de luta:
A angústia de JB ("a esquerda se perdeu") pode ser transformada em pergunta: o que falta para que a esquerda anticapitalista tenha uma presença real na Palestina? Não é só nomear o Hamas – é construir alternativa.
A angústia dos críticos ("falar de fascismo enquanto morrem crianças é preciosismo") pode ser transformada em pergunta: como agir sem se perder na ambiguidade de apoiar quem não se apoia?
Resultado do teste
Dimensão / Avaliação
Clareza das teses
As 4 teses ajudaram a desmontar a polarização aparente ("JB contra os outros"). Mostraram que ambos os lados investem em campos sociais reais, que há desejos contraditórios e legítimos, e que o fascismo não está "só de um lado".
Operacionalidade das tarefas
A Tarefa 1 (destruição do "eu normal") revelou os medos que paralisam.
A Tarefa 2 (descobrir máquinas desejantes) mostrou que há potência nos dois campos.
A Tarefa 3 (reorganizar o campo) apontou uma possível linha de fuga: processar a contradição, não resolvê-la por decreto.
Regime de PD predominante
JB opera majoritariamente no polo paranóico-fascista (pureza, classificação, fronteira). Seus críticos operam no polo esquizo-revolucionário quando conseguem dizer "sim, o Hamas é um problema, mas hoje é o que existe".
O impasse se dissolve quando se reconhece que nenhum dos dois polos, sozinho, resolve o problema – é preciso processar a contradição.
Linha de fuga (PDE)
Cessar de perguntar "JB está certo ou errado?" e perguntar: que tipo de ação concreta cada posição torna possível, e que tipo de ação ela bloqueia?
A linha de fuga não é vencer o debate – é construir solidariedade que não precise fingir que o Hamas não é fascista, nem se recusar a agir porque ele o é.
Conclusão do teste
A ferramenta de esquizoanálise funciona. Ela permitiu:
Desidentificar o debate – não é "JB contra os outros", mas forças em confronto dentro de um mesmo campo social.
Revelar os afetos – o medo de JB (de repetir erros) e o medo dos críticos (de paralisia) são dois lados da mesma impotência.
Apontar uma linha de fuga – não a "classificação correta", mas a ação que não precisa de pureza.
O teste mostrou que a esquizoanálise não é uma ferramenta para "diagnosticar" quem está certo. É uma ferramenta para processar a contradição – e, ao processá-la, talvez abrir caminho para o que JB, em sua honestidade, admitiu não ter encontrado: uma saída prática.
🌊 arkx-Brasil e Baleia Azul 🐋
(processando o debate, a ferramenta, e a possibilidade de agir no impasse)

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